Cem escritores que deviam ter ganho o Prémio Nobel (4)
Pedro Correia,
«O estado natural do adulto sensível é uma infelicidade esclarecida.»
Scott Fitzgerald (1896-1940)
14 comentários em “Cem escritores que deviam ter ganho o Prémio Nobel (4)”
O meu pai, que aprendeu português noutros tempos, mais rigorosos, dizia-me que com o verbo auxiliar “ter” se utiliza sempre a forma completa do particípio passado, a forma reduzida só se utiliza com os verbos auxiliares “ser” ou “estar”. Portanto, o título desta série deveria ser, em português do tempo do meu pai, “ter ganhado” (em compensação, dir-se-ia “o prémio Nobel já está ganho!”).
Mas, é claro, isto são preciosismos, que não se compatibilizam com este tempo em que as pessoas só pensam na defesa do português contra o acordo ortográfico.
Na transcrição de Manuel Alegre, “ganho” é um substantivo e não o particípio passado do verbo “ganhar”, logo não tem nada a ver com a questão em discussão. Na transcrição de Saramago há, como eu disse, um erro de português, pelo menos de acordo com o português que ensinaram ao meu pai. Tal como eu disse, isto é o português que ensinaram ao meu pai. Hoje em dia já pouca gente liga a estes pormenores, e mesmo no ciberdúvidas são capazes de tolerar tudo (da mesma forma que os dicionários modernos contêm estrangeirismos que nos dicionários mais antigos não aparecem). Mas enfim, para sua informação, e uma vez que tanto se preocupa com a defesa da língua, fica a saber como é que era o português ensinado há 80 anos. Se não o quiser seguir, não siga, e nisso terá companhias como a de Saramago (não sei se é a que mais aprecia, mas enfim).
O particípio passado umas vezes é regular, outras irregular. Se não houvesse formas irregulares, dir-se-ia que fulano “foi prendido” em vez de se dizer “foi preso”. Ou que o político X foi “elegido” em vez de ter sido eleito.
Lamento, mas sinto-me bem na companhia do único português que conquistou o Nobel da Literatura. Se outro tivesse ‘ganhado’, ou fosse ‘elegido’ pelos académicos de Estocolmo, talvez eu me sentisse ‘prendido’ pelo peso da tradição. Assim, fica só você ‘cobrido’ por esse mesmo peso.
Ora essa: de nada. Comprei este livro na Amazon.co.uk, por um belíssimo preço, precisamente por causa da frase que o Pedro transcreveu, e que descobri aqui: http://fitzgerald.narod.ru/critics-eng/morris-nostalgia.html. E devo confessar que não conheço a obra toda.
Fitzgerald é um autor a redescobrir sempre. Falo por mim: tenho ficado ligeiramente decepcionado com cada livro dele a uma primeira leitura, mas sinto-me sempre recompensado como leitor cada vez que revisito uma das suas obras, que ganham em ser redescobertas. Sob um enredo aparentemente superficial, desvendamos novos e sempre estimulantes significados em cada livro.
«Sob um enredo aparentemente superficial, desvendamos novos e sempre estimulantes significados em cada livro.»
Subscrevo, e sublinho o «aparentemente».
‘Terna é a Noite’ e sobretudo ‘O Grande Gatsby’ são dois excelentes romances sobre o mundo das aparências, ditadas pela sedução do dinheiro ou pelas convenções sociais, inversamente proporcionais aos mais profundos anseios da natureza humana. Espero ter oportunidade de desenvolver esta temática muito em breve aqui no DELITO.
O Carlos respondeu por mim, Teresa. Só agora reparei na tua pergunta. É curioso que menciones ‘Terna é a Noite’: ando há meses com vontade de escrever sobre este livro para a minha série Grandes Romances. Espero que seja (finalmente) este mês.
O meu pai, que aprendeu português noutros tempos, mais rigorosos, dizia-me que com o verbo auxiliar “ter” se utiliza sempre a forma completa do particípio passado, a forma reduzida só se utiliza com os verbos auxiliares “ser” ou “estar”. Portanto, o título desta série deveria ser, em português do tempo do meu pai, “ter ganhado” (em compensação, dir-se-ia “o prémio Nobel já está ganho!”).
Mas, é claro, isto são preciosismos, que não se compatibilizam com este tempo em que as pessoas só pensam na defesa do português contra o acordo ortográfico.
Ganhado/ganho
Prendido/preso
Elegido/eleito
Cobrido/coberto
http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=233 8
Alguns exemplos:
«(…) Se os meus camaradas tivessem ganho ele estaria pendurado num candeeiro da Avenida.»
José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Maio 1996
«Caminha-se de encontro ao desencontro / e mesmo quando há ganho vem a perda.»
Manuel Alegre, Sete Partidas
Na transcrição de Manuel Alegre, “ganho” é um substantivo e não o particípio passado do verbo “ganhar”, logo não tem nada a ver com a questão em discussão.
Na transcrição de Saramago há, como eu disse, um erro de português, pelo menos de acordo com o português que ensinaram ao meu pai.
Tal como eu disse, isto é o português que ensinaram ao meu pai. Hoje em dia já pouca gente liga a estes pormenores, e mesmo no ciberdúvidas são capazes de tolerar tudo (da mesma forma que os dicionários modernos contêm estrangeirismos que nos dicionários mais antigos não aparecem).
Mas enfim, para sua informação, e uma vez que tanto se preocupa com a defesa da língua, fica a saber como é que era o português ensinado há 80 anos. Se não o quiser seguir, não siga, e nisso terá companhias como a de Saramago (não sei se é a que mais aprecia, mas enfim).
O particípio passado umas vezes é regular, outras irregular.
Se não houvesse formas irregulares, dir-se-ia que fulano “foi prendido” em vez de se dizer “foi preso”. Ou que o político X foi “elegido” em vez de ter sido eleito.
Lamento, mas sinto-me bem na companhia do único português que conquistou o Nobel da Literatura. Se outro tivesse ‘ganhado’, ou fosse ‘elegido’ pelos académicos de Estocolmo, talvez eu me sentisse ‘prendido’ pelo peso da tradição. Assim, fica só você ‘cobrido’ por esse mesmo peso.
«O estado natural do adulto sensível é uma infelicidade esclarecida.»
Grande, grande verdade. Até o podemos — e devemos — esquecer ocasionalmente, mas é tal e qual.
Tal e qual, Carlos. É como diz: por vezes podemos esquecer-nos desta evidência. Mas não deixa de ser o que é.
Também tenho essa frase apontada algures mas não sei já de que romance a tirei. Será do Terna é a Noite?
A frase é do “The Crack-Up” («This is what I think now: that the natural state of the sentient adult is a qualified unhappiness.»).
Obrigado pela antecipação, Carlos. E parabéns pelo conhecimento que revela da obra deste grande escritor.
Ora essa: de nada. Comprei este livro na Amazon.co.uk, por um belíssimo preço, precisamente por causa da frase que o Pedro transcreveu, e que descobri aqui: http://fitzgerald.narod.ru/critics-eng/m orris-nostalgia.html. E devo confessar que não conheço a obra toda.
Fitzgerald é um autor a redescobrir sempre. Falo por mim: tenho ficado ligeiramente decepcionado com cada livro dele a uma primeira leitura, mas sinto-me sempre recompensado como leitor cada vez que revisito uma das suas obras, que ganham em ser redescobertas. Sob um enredo aparentemente superficial, desvendamos novos e sempre estimulantes significados em cada livro.
«Sob um enredo aparentemente superficial, desvendamos novos e sempre estimulantes significados em cada livro.»
Subscrevo, e sublinho o «aparentemente».
‘Terna é a Noite’ e sobretudo ‘O Grande Gatsby’ são dois excelentes romances sobre o mundo das aparências, ditadas pela sedução do dinheiro ou pelas convenções sociais, inversamente proporcionais aos mais profundos anseios da natureza humana. Espero ter oportunidade de desenvolver esta temática muito em breve aqui no DELITO.
O Carlos respondeu por mim, Teresa. Só agora reparei na tua pergunta. É curioso que menciones ‘Terna é a Noite’: ando há meses com vontade de escrever sobre este livro para a minha série Grandes Romances. Espero que seja (finalmente) este mês.