Cem escritores que deviam ter ganho o Prémio Nobel (31)
Pedro Correia,
«Talvez haja apenas um pecado capital: a impaciência. Por causa da impaciência fomos expulsos do paraíso, por causa da impaciência não podemos regressar.»
Franz Kafka (1883-1924)
10 comentários em “Cem escritores que deviam ter ganho o Prémio Nobel (31)”
Sem dúvida; ando a ler os “Contos”; escritor fabuloso!
Concordo contigo mas tenho alguma dificuldade em ler-lhe os diários sem sentir estar a intrometer-me em algo que não me era destinado. Apesar de conhecer as atenuantes (Max Brod ter-lhe-á dito que não ia destruir-lhe a obra e ele também não o fez antes de morrer), partilho um pouco a opinião de Kundera, que considera compreensível ter Brod publicado a ficção mas não os textos mais íntimos.
Esse é um problema eternamente irresolúvel, JAA: quais e quantos dos escritos póstumos de um autor devem ver a luz do dia? Problema que se pôs (e põe ainda, de alguma forma) com dois dos maiores escritores portugueses de todos os tempos: Eça e Pessoa. O primeiro viu parte significativa dos seus textos serem alterados pelo próprio filho, o segundo teve tantos ‘legatários’ a revolver-lhe a arca que tarde ou nunca se fixará a sua obra completa em termos irrefutáveis. E para não abandonar a língua portuguesa recordo a enorme polémica que rodeou a publicação, no Brasil, dos “poemas eróticos” de Carlos Drummond de Andrade cinco anos após a morte do poeta que escreveu «Oh! Sejamos pornográficos / (docemente pornográficos). / Por que seremos mais castos / Que o nosso avô português?» Repare-se, a propósito, no que sucedeu com Hemingway, que morreu há meio século: os seus herdeiros têm publicado tudo quanto encontram, incluindo obras parcelares, incompletas, que o Nobel de 1954, sempre tão perfeccionista, jamais quereria ver editadas. Ou como o mercado editorial norte-americano já se agita com a perspectiva de virem a ser lançados os 15 manuscritos que J. D. Salinger terá concluído durante as suas décadas de reclusão voluntária e guardado cuidadosamente num cofre. Publicar ou não publicar? Eis a questão. Kafka pediu a Max Brod que lhe queimasse os originais. Felizmente o amigo traiu a promessa: se o desejo de Kafka tivesse sido acolhido, o mundo ficaria privado de algumas obras-primas indiscutíveis da literatura universal. Só há mesmo um método infalível para um escritor evitar indesejáveis lançamentos ‘post mortem’: queimar ele mesmo os manuscritos. Caso contrário arrisca-se a que sejam editadas “até as suas contas de mercearia”, como costumava dizer Vergílio Ferreira com saborosa ironia.
Carlos: concordando que ele foi um dos maiores escritores do século XX (e da história da literatura), neste caso até aceito que o Comité Nobel não o tenha premiado porque em vida ele só publicou uns quantos contos que, ainda por cima, passaram mais ou menos despercebidos.
E este se viesse cá nos tempos que correm diria mesmo: qual “Processo”, qual carapuça!!!…
E já agora, a propósito dos filmes portugueses, se não conseguir cópia do “Costa de África” envie o endereço da “sede social” do Delito que mando-lho pelo correio. É oferta da casa.
Agradeço-lhe muito, Fátima. Basta clicar no meu nome, na área de perfil, onde está o meu e-mail. Terei todo o gosto em indicar-lhe o endereço da “sede social” por essa via.
Sem dúvida; ando a ler os “Contos”; escritor fabuloso!
Romance, contos, diário: fabuloso em vários géneros. Um dos maiores escritores do século XX. E de todos os séculos.
Concordo contigo mas tenho alguma dificuldade em ler-lhe os diários sem sentir estar a intrometer-me em algo que não me era destinado. Apesar de conhecer as atenuantes (Max Brod ter-lhe-á dito que não ia destruir-lhe a obra e ele também não o fez antes de morrer), partilho um pouco a opinião de Kundera, que considera compreensível ter Brod publicado a ficção mas não os textos mais íntimos.
Esse é um problema eternamente irresolúvel, JAA: quais e quantos dos escritos póstumos de um autor devem ver a luz do dia? Problema que se pôs (e põe ainda, de alguma forma) com dois dos maiores escritores portugueses de todos os tempos: Eça e Pessoa. O primeiro viu parte significativa dos seus textos serem alterados pelo próprio filho, o segundo teve tantos ‘legatários’ a revolver-lhe a arca que tarde ou nunca se fixará a sua obra completa em termos irrefutáveis.
E para não abandonar a língua portuguesa recordo a enorme polémica que rodeou a publicação, no Brasil, dos “poemas eróticos” de Carlos Drummond de Andrade cinco anos após a morte do poeta que escreveu «Oh! Sejamos pornográficos / (docemente pornográficos). / Por que seremos mais castos / Que o nosso avô português?»
Repare-se, a propósito, no que sucedeu com Hemingway, que morreu há meio século: os seus herdeiros têm publicado tudo quanto encontram, incluindo obras parcelares, incompletas, que o Nobel de 1954, sempre tão perfeccionista, jamais quereria ver editadas. Ou como o mercado editorial norte-americano já se agita com a perspectiva de virem a ser lançados os 15 manuscritos que J. D. Salinger terá concluído durante as suas décadas de reclusão voluntária e guardado cuidadosamente num cofre.
Publicar ou não publicar? Eis a questão.
Kafka pediu a Max Brod que lhe queimasse os originais. Felizmente o amigo traiu a promessa: se o desejo de Kafka tivesse sido acolhido, o mundo ficaria privado de algumas obras-primas indiscutíveis da literatura universal. Só há mesmo um método infalível para um escritor evitar indesejáveis lançamentos ‘post mortem’: queimar ele mesmo os manuscritos. Caso contrário arrisca-se a que sejam editadas “até as suas contas de mercearia”, como costumava dizer Vergílio Ferreira com saborosa ironia.
Cá está um escritor que conheço e pela sua originalidade, imaginação e escrita teria sido imensamente justo que o tivesse recebido em vida.
Não tenho a menor dúvida quanto a isso, Carlos.
Carlos: concordando que ele foi um dos maiores escritores do século XX (e da história da literatura), neste caso até aceito que o Comité Nobel não o tenha premiado porque em vida ele só publicou uns quantos contos que, ainda por cima, passaram mais ou menos despercebidos.
Certo. O caso de Kafka é similar ao de Pessoa: só depois de morrerem se verificou como era notável a obra de ambos, em quantidade e qualidade.
Sem dúvida, Pedro!
E este se viesse cá nos tempos que correm diria mesmo: qual “Processo”, qual carapuça!!!…
E já agora, a propósito dos filmes portugueses, se não conseguir cópia do “Costa de África” envie o endereço da “sede social” do Delito que mando-lho pelo correio.
É oferta da casa.
Agradeço-lhe muito, Fátima. Basta clicar no meu nome, na área de perfil, onde está o meu e-mail. Terei todo o gosto em indicar-lhe o endereço da “sede social” por essa via.