
Veio direita a mim, num passo decidido, e disse, o indicador professoral espetado no ar: Ó senhor dono papá, já lhe disseram que é um fogueirinhas? Após o que girou nos calcanhares, retirando-se com dignidade.
Na tarde ensolarada, junto ao tanque, ardiam detritos que carreara para o sítio onde, então como agora, quase quarenta anos mais tarde, os queimava. E fiquei meditabundo: tenho uma filha com quatro anos que me dá aulas? E dono o que é? – ah, já sei, é o masculino de dona.
Papá, como era no tempo da Revolução? A mamã diz que tiveste uns problemas. Mas estavas no PS, não estavas? Conta.
Contei, não sem inquirir de onde vinha o súbito interesse. Andava a ler umas coisas, disse, e pasmei: com treze anos a miúda lia muito e à bicicleta encostada ligava pouco, mas ler jornais que despertavam a curiosidade de ir escabichar o passado era, para mim, motivo de alguma perplexidade. O meu pai, morto então já há trinta anos, tinha o hábito, quando se zangava, de fazer algumas referências pouco lisonjeiras à minha costela de leitor ávido (o qual para os afazeres domésticos contribuía com zero), mas estava-me a começar a parecer que os genes, na transferência de mim para ela, tinham levado um polimento.
Aos 17: A tua filha gostava de ir assistir a uma conferência em Lisboa, na segunda-feira. Parece que é com Paulo Portas. O quê, a Lisboa, Paulo Portas? Diz-lhe que a levo.
(Esta agora, aqui vou eu em direcção a um Forum Picoas que não sei onde fica, assistir a uma conferência. O homem tem interesse, mas francamente.)
Foi sempre a melhor aluna até à Faculdade mas uma vez, zás, aconteceu uma desgraça: tirou uma nota menos boa e o desgosto envolto em lágrimas afligiu sobremaneira Aníbal, o cão familiar, que a cobriu de lambidelas. Inteirado do sucesso, devo ter dito qualquer coisa pouco simpática: aluno medíocre, adepto de atitudes estóicas, sobranceiro em relação a professores metidos a besta (e até aos outros) e com tolerância a sensibilidades femininas em quantidade diminuta, o episódio pareceu-me anómalo.
Na Universidade, em Coimbra, fui sabendo que se enfarinhara no CDS e que, por ocasião de frequências e exames, ficava em estado de ansiedade, invariavelmente injustificada porque nunca chumbou. Sempre ministrei conselhos inabituais, que incluíam a recomendação de frequentar discotecas, ligar menos importância a classificações, eventualmente admitir um chumbo como forma de consolidar conhecimentos, e outros em matéria de comportamento adequado para uma jovem, que não vou explicar. Acho que as amigas de alguma coisa estariam ao corrente, porque pelo menos uma confessou que eu era o pai que lhe conviria, mas pode ser que esteja enganado. De toda a maneira, já então sabia de ciência certa que os únicos conselhos que aceitaria, de mim ou qualquer outra pessoa, seria os que passassem o crivo do seu próprio critério. De modo que era mais pai e filha a falarem.
Acabado o curso, o estágio e o exame da Ordem, sugeri em determinada altura que fizesse um MBA. Fez, provavelmente porque já tinha essa intenção, e gostou – de gestão, de contabilidade, de finanças, porque a parte do cérebro alocada às humanidades e à juridicidade não inibia a intuição para a matemática e a economia.
O mais foi a carreira em lugares políticos, uma vocação, um vício e uma obsessão. E fui progressivamente pasmando: de cultivo interesseiro de relações com jornalistas e angústias com a imagem nada, de estudo, preparação e discrição muito; de calculismos apenas os legítimos, e temperados com fidelidades e amizades sólidas; escolha de políticas fundada em reflexão e conhecimento; discurso sereno, sem ademanes histriónicos mas com oratória inspirada nas ocasiões em que isso se requer; e brilho discreto sempre, o natural de quem nasceu sobredotado.
Abandonou ontem a carreira, acossada por gente que lhe deveria segurar o andor. E eu abandono a discrição que sempre me impus, a benefício dela por não lhe acrescentar nada o saber-se ser filha de quem é, para fazer votos, como cidadão, de que possa regressar quando os miasmas, que empestam o ar, se dissiparem.
Como pai, é claro que, na política ou fora dela, o que desejo é que reencontre a serenidade que merece.

Nunca votei CDS, mas tenho um grande respeito pela minha concidadã e sua filha. Aqui do Chapéus tiro-lhe o Chapéu.
É certamente um homem feliz com tal filha.
Saúde, felicidades, para ela, para si e família.
Tenha um bom Domingo
António Cabral
É muito provável que a Cecília Meireles tenha sido a melhor deputada das últimas legislaturas – eloquente, muitíssimo bem preparada, com elevado sentido de serviço público. Vale muito mais sozinha do que os dois estarolas que disputam a liderança do destroço do CDS juntos.
Os políticos não são todos iguais; vão é ficando mais iguais quando aqueles que fazem verdadeiramente a diferença abandonam a política.
Gostei mesmo muito de ler esta crónica, caro José.
Tenho que sua filha somente fez uma pausa. E o facto de Cecília se ter retirado sem deixar a militância só revela que não andava por aí a promover-se.
Parabéns pela excelente filha que tem!! Uma excelente, dos melhores deputados parlamento português, excepto na lealdade ao líder do CDS… quando começou a conspirar contra a atual direção do CDS, ainda por cima no estado em que se encontrava o partido! O grupo parlamentar do CDS comportou se como se fosse dono do CDS não respeitando o líder… foi vergonhoso!! Contra tudo e todos, o CDS esteve um excelente resultado e o grupo parlamentar nem isso reconheceu… Foi feio demais, observar desde que o Francisco se tornou líder do CDS, o grupo parlamentar do CDS devia todos se demitir!! Quando um grupo parlamentar de um partido conspira contra um líder democraticamente eleito só tem é que se demitir, sejam bons ou maus parlamentares…
Só posso gargalhar de forma farta do que escreve.
Acho uma graça!!
Um cardume de carapaus se tiver um líder,inapto,que os leva direitinho para a boca dum tubarão,como se resolvem?Deixam-se morrer?Arranjam outro lider?Ou fazem-se de mortos?
Quem comenta e assina “anónimo”, não é fiável!!!
Parabéns pela escrita subtil, pelo conteúdo e pela Filha que tem. Ela saberá, mais uma vez, as decisões a tomar.
Ana Cristina
Não fazia a mínima ideia… Não acompanho a vida política nacional com a intensidade que o meu perorar blogal indiciará mas sempre ouvi e li encómios à sua filha, coisa até rara nos tempos que correm – mas isso não deve ser surpresa – e decerto que por isso os rumos que agora surgem. (Sorrio ainda, ao rever-me nesses conselhos paternais, coisa também “muito cá de casa”)
Que a sorte a favoreça!
Parabéns pela distinta filha. Vê-se à distância que é sobredotada – integra e competente. Não se percebe como não estava mais à frente …
Que texto lindo, José.


A AR ficou mais pobre, perdeu uma deputada de mão cheia. Acompanhei algumas audições da AR e Cecília Meireles impunha-se pela eloquência, e sobressaía entre os pares enobrecendo o debate.
Desejos de muito sucesso no futuro.
Maria
Entrada directa na futura antologia do DELITO DE OPINIÃO. Sentida e merecida homenagem à melhor deputada portuguesa por quem a conhece melhor do que qualquer de nós.
Aqui no bairro, Portugal, Lisboa, não hesitaria em assinalar com uma cruzinha o meu voto na sua filha se, como de direito, o nome dela constasse numa lista de candidatos a um qualquer lugar de responsabilidade política. (Num saco de gatos, não voto). Poderá tal acontecer um dia destes?.
Sou fã da Cecília Meireles, já o referi várias vezes aqui no DO e talvez até nos seus posts. Não sabia da relação de parentesco, mas melhor ainda: full circle.
Cecília Meireles mostrou ao País o que é a dignidade, o que é estar ao serviço de quem a elegeu não pactuando com mesquinhos jogos de bastidores,
Sou simpatizante do PS desde sempre, mas entre todos os parlamentares quem sempre me mereceu o mais profundo respeito foi esta senhora, inteligência brilhante nas suas intervenções, adversária temível pela sua capacidade, e facilidade, de argumentação, um exemplo de como se deve fazer política de cara lavada.
Se o CDS já tremia, com este abandono desabou.
Carlos Arnaut
Já por aqui escrevi sobre os protegidos dos deuses, dos antigos gregos ou dos que nasceram com o cu virado para lua, à portuguesinha. Dei então o exemplo de António Costa. Hoje, inesperadamente para mim, habitualmente pessimista, dei com um exemplo pela positiva. Quem escreve assim e tem tal filha é um homem de sorte, ou protegido dos deuses.
Gostei do “amor paternal” saído da reserva para pôr as coisas no seu devido lugar. Como pai, partilho e identifico-me com o seu “desabafo”. Eu – que não sou pai da Cecília – que nunca votei CDS (mas que votaria, apenas por ela) – ainda ontem comentei à mesa de família (3 pessoas!), “ora bolas, lá se vai uma excelente parlamentar; para dar lugar a um patarata igual a todos os demais que frequentam o sítio.”
Estálinisto, está!
Admiro imenso a Cecília Meireles. Sob a sua liderança ponderaria seriamente votar no CDS (um partido no qual nunca votei). As intervenções dela na assembleia da república estão entre as melhores das melhores. Parabéns pelo belíssimo texto.
Gostei
Devo confessar que, mesmo votante certo da esquerda à esquerda do PS, sempre ouvi a sua filha com o agrado de estar a prestar tento a alguém honesto que sabe pensar.
Que belo texto.
Obrigado pela partilha
Parabéns pelo Texto, que peca por defeito em Relação à deputada Cecília Meireles. Por sinal a melhor deputada do parlamento neste momento.
Tenho grande pena que ela não tenha avançado para a liderança do CDS, tinha evitado o penoso espetáculo que estamos a assistir.
Que maravilha de texto!
Das poucas deputadas dignas com assento no parlamento, elevado sentido de estado, de saber estar, intervinha com classe e distinção. “água pura não se mescla com a turva”. Parabéns pelas suas palavras, Grande Filha a sua.
É um orgulho ser pai desta senhora, cidadã e política, com provas de um trabalho de excelência, de integridade e honestidade que muito devemos. Obrigada #cecíliameireles
Uma senhora, sempre com coragem e confiança, mas também com verticalidade extrema. Alguns destes dons não são comuns. É uma pena! A nossa Democracia empobrece diariamente.
Em tempos cheguei a votar CDS, mais tarde mudei, depois cheguei a fazer parte da abstenção e há alguns anos para cá voltei a votar! Quanto á Cecília, dou os parabéns, gosto de ouvir as suas intervenções, sinceramente uma mais valia na Assembleia da República, Lamento o caminho que o partido está a seguir e se assim continuar, não vai Longe! Neste país quase sempre não dão valor a quem o tem! Quem sabe com outtos dirigentes Ela regressa! Assim espero!
Não te ouço há muito… Nunca te tinha lido, só podia apreciar. Por coincidência ontem vi a entrevista da Cecília: quem sai aos seus não é de “genebra”. Espero que estejam todos bem. Beijos e abraços. Jorge Osório
Não fazia a menor ideia desta ligação familiar do José Meireles Graça (falei deste post a um amigo do CDS que ficou estupefacto), mas é um texto muito tocante.
Lamento muito a decisão, mas compreendo-a perfeitamente. A paciência tem limites.
Excelente texto, de um pai, orgulhozo da filha que tem. Sou amiga da Cecilia Meireles,desde as minhas andanças pelo C.D.S, já lá vão muitos anos. Sempre a admirei, pela inteligência, poder de argumentação e simpatia. Foi sem duvida a melhor Deputada de sempre.O que for que decida, eu estarei Aqui. Parabéns à filha e ao pai. Beatriz Magalhães Ferreira.
Descreveu muito bem a sua filha: uma mulher vertical, com uma personalidade forte e recta e coerente no pensamento, na intenção e na acção. Nesta ‘efémera’ espuma dos tempos tem sido ‘jogada’ pela Comunicação Social para apoucar o partido de que faz parte e cobardemente aferroada pelo grupo apoiante da actual direcção, como se fosse pecado mortal apoiar outro candidato à liderança do partido. Mas a curto prazo, passadas as próximas eleições, ainda vai ser recordada com saudade pelo seu excelente papel no parlamento.
Cada vez que leio, gosto mais e mais José Meireles Graça. Obrigada
Eu é que agradeço.