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Certas luminárias contemporâneas que pretendem fazer ironia com as orthographias antigas da língua portuguesa — aludindo por vezes a autores que publicaram há pouco mais de cem anos — estão, no fundo, a produzir argumentos contra o “acordo ortográfico” e não a favor. Ao contrário do que supunham.
É incompreensível que um inglês leia Walter Scott, Charles Dickens ou Oscar Wilde na grafia original, o mesmo sucedendo a um francês em relação a Balzac, Flaubert ou Zola, um espanhol em relação a Pérez Galdós ou Valle-Inclán e um norte-americano em relação a Herman Meville ou Mark Twain, enquanto as obras de um Camilo ou um Eça de Queiroz já foram impressas em quatro diferentes grafias do nosso idioma.
As sucessivas reformas da ortografia portuguesa — somam-se quatro no último século — constituem um péssimo exemplo de intromissão do poder político numa área que devia ser reservada em exclusivo à comunidade científica. Isto se ambicionássemos reproduzir os modelos implantados em nações com um índice de alfabetização muito mais sedimentado do que o nosso.
Cada mudança de regime, desde a queda da Monarquia, produziu pelo menos uma “reforma ortográfica” em Portugal. Para efeitos que nada tinham a ver com o amor à língua portuguesa, muito pelo contrário.
Cada “reforma” foi-nos afastando da raiz original da palavra, ao contrário do que sucedeu com a esmagadora maioria das línguas europeias — como o inglês, o francês, o alemão e em certa medida o espanhol. A pior de todas essas reformas foi a mais recente, que separou famílias lexicais produzindo aberrações como “os egiptólogos que trabalham no Egito [sic] são quase todos egípcios” ou “a principal característica dos portugueses é terem um forte caráter [sic]”.
Esta ruptura com a etimologia ocorre, convém sublinhar, num momento em que nunca foi tão generalizada a aprendizagem de línguas estrangeiras entre nós, impulsionada pela globalização em curso. Assim, enquanto os políticos de turno pretendem impor a grafia “ator” [sic] à palavra actor, os portugueses continuarão a aprender “actor” em inglês, “acteur” em francês, “actor” em castelhano e “akteur” em alemão.
Não adianta deitar fora a etimologia pela porta: ela regressa sempre pela janela. Através de idiomas nunca sujeitos aos tratos de polé de “acordos ortográficos” como o que Cavaco Silva pôs em marcha como primeiro-ministro, em 1990, e que José Sócrates, também como chefe do Governo, mandou aplicar nas escolas e repartições públicas, dezoito anos mais tarde. Ambos exorbitando dos seus poderes, ambos sem imaginarem que estariam a produzir novas legiões de analfabetos funcionais.
Publicado originalmente no jornal Dia 15.

Aproveito para lançar uma ideia que me tem bailado na caixa dos pirolitos.
Os nomes de localidades não devem estar sujeitas a tradução para diferentes línguas, devendo manter em todo o lado a grafia genuína da origem.
Por exemplo, Lisboa, será sempre escrita Lisboa em qualquer parte do mundo e não Lissabon ou outra variação qualquer.
Se há coisa que considero inadmissível é precisamente isso. Ver o nome de Lisboa constantemente adulterado por nós, portugueses. Desde logo pelas chamadas “entidades oficiais”.
Coisa impensável no Brasil. Nunca ninguém viu versões adulteradas das cidades brasileiras.
Brasília é Brasília, São Paulo é São Paulo, Rio de Janeiro é Rio de Janeiro.
Isso não terá a ver com a idade da cidade?
Lisboa é muito mais antiga que o Português como língua, e o seu nome evoluiu nas outras línguas de forma diferente, como qualquer palavra. Brasília ainda não tem 100 anos.
Sim, também tem a ver.
O que eu contesto é que nós, portugueses, mudemos a maneira de escrever a nossa capital, adoptando a designação em inglês.
Isso é um total absurdo.
Infelizmente não faltam exemplos, por vezes com chancela oficial.
Ninguém imagina o Rio ou Buenos Aires, por exemplo, verem os nomes escritos “à inglesa” por brasileiros ou argentinos.
E, mesmo que não pareçam, já são cidades velhinhas.
Vê como se desvia um assunto, Pedro Correia?
O seu “post” fala da questão grave do acordo ortográfico e imediatamente é desviado para questões sem interesse.
Mas nós escrevemos London? Também traduzimos. Há documentos oficiais com Lisbon? Também há muitos documentos portugueses com palavras brasileiras…
Mais ridículo e provinciano é escrevemos “ateliê” e outras cavalidades quando no mundo inteiro (salvo no Brasil, esse gigante cultural) se escreve “atelier” – um palavra internacional.
Só para lembrar que os americanos e os ingleses escrevem Brazil e não Brasil.
Olá!…aqui muitas vezes se escreve BRAZIL e não Brasil, mas é só em postagens e documentos internacionais, dentro do País não é comum.
Muito bem dito e melhor escrito, Pedro. Mereterizámos a língua portuguesa vezes demais, a troco de nada. Para além dos constantes estupros gramaticais de sintaxe, a ortografia tornou-se num teratoma linguístico.
Não lhe consigo entender tanto fato e aspeto, caramba.
Estupro é a palavra certa, Maria Dulce. As chamadas entidades oficiais – analfabetas funcionais – usam a língua como meretriz. Quatro “reformas ortográficas” num século em nome de conveniências políticas. No caso da mais recente, ditada por algo tão irrelevante como duas viagens oficiais ao Brasil – foi quanto bastou, em 1990 e 2008, para levarem avante a geringonça ortográfica ainda em curso.
E mesmo assim a língua portuguesa – nosso património comum – tem conseguido sobreviver. Embora com graves danos, talvez irreversíveis, ao nível do vocabulário, da sintaxe e da ortografia – transformada em “heterografia”, na feliz expressão da ex-ministra da Cultura Isabel Pires de Lima.
Que esta “reforma” tenha sido parida à pressa, em 1989-1990 só porque Cavaco Silva, enquanto primeiro-ministro, queria levar na bagagem, numa viagem oficial programada ao Brasil, qualquer coisa ligada à “lusofonia” para agradar aos anfitriões, é algo que nunca me cansarei de contestar.
Não esquecer que Cavaco dá calinadas de arrepiar (cidadões, fazerão e outros mimos)) sendo de poucas letras ( nem sabia que Os Lusíadas tinha dez cantos…)… o Santana é o homem dos concertos de violino de Chopin.
A coisa é do Sarney… Internacional_da_L%C3%ADngua_Portuguesa
https://pt.wikipedia.org/wiki/Instituto_
“akteur” em alemão
Essa palavra é um galicismo. A palavra alemã mais utilizada para ator é Schauspieler.
(como se dirá lavoura em alemão?)
Landwirtschaft (lê-se ” lantvirrtchaft”)
Fale por si mas não gostava de não ler metade das letras que escrevo, como acontece com os franceses.
“Á” quem pense como você.
O que vos coloca na primeira linha de fogo contra o “orroroso” agá, que não se lê.
As Helenas passam a ser Elenas.
Os Henriques tornam-se Enriques.
As Hélias ficam Élias.
E os Hugos abreviam-se para Ugos.
No fim, toca-se o ino: “Eróis do Mar…”
Use estenografia.
Os franceses e os ingleses parece não se preocuparem muito com isso e em francês e inglês se escreveu a esmagadora maioria das grandes obras literárias e é em inglês que são redigidos os artigos os artigos científicos (science, you know?) sobre os mais complexos assuntos de todos os ramos da ciência.
Mas tem razão! É que o acto de escrever e o de ler têm mecanismos e necessidades diferentes, como as ciências cognitivas demonstraram e todos nós decalcam modo adivinhávamos quando tentávamos perceber notas que escrevemos com muitas abreviaturas.
Por isso é que em qualquer país culto a ortografia é deixada em paz – ou é ainda mais “complicada” como no alemão, em que duplas consoantes passaram s triplas…
Use estenografia.
Os franceses e os ingleses parece não se preocuparem muito com isso e em francês e inglês se escreveu a esmagadora maioria das grandes obras literárias e é em inglês que são redigidos os artigos os artigos científicos (science, you know?) sobre os mais complexos assuntos de todos os ramos da ciência.
Mas tem razão! É que o acto de escrever e o de ler têm mecanismos e necessidades diferentes, como as ciências cognitivas demonstraram e todos nós decalcam modo adivinhávamos quando tentávamos perceber notas que escrevemos com muitas abreviaturas.
Por isso é que em qualquer país culto a ortografia é deixada em paz – ou é ainda mais “complicada” como no alemão, em que duplas consoantes passaram s triplas…
Verdade se diga que não gosto de ver Lisboa escrita como Lisbon, Lissabon, mas não fazemos nós o mesmo? Nova Iorque em vez de New York, Londres em vez de London, Munique em vez de München, etc, etc –
E o que é que isso tem?
Você é novaiorquino ou londrino para assumir as dores deles?
Tem é de pôr a coisa ao contrário: alguma vez viu as entidades oficiais de Londres ou Nova Iorque adulterarem a escrita dessas cidades, adaptando-as a
grafias estrangeiras?
A propósito: sabe escrever Tóquio em japonês?
E Moscovo em cirílico?
E Amã em caracteres árabes?
Tem toda a razão – Efectivamente nunca vi as entidades oficiais de Londres ou Nova Iorque adulterarem a sua escrita e não sei escrever em Japonês, Cirílico ou noutras grafias (mesmo em português e como não sigo o “acordês” provavelmente também já não sei escrever…) – Continuação do bom trabalho
Obrigado. Um abraço.
Com todas as consoantes.
Não podemos antes bater-lhes? A macacada do brazuguês não vai lá com conversa.
Mais um excelente texto. Este sobre algo que terá alguma óbvia reversão, quer queiram, quer não.
PS- Há um “e os” algures aí a mais.
Excelente, Pedro Correia.
Argumentos racionais não faltam, para derrubar este inacreditável (des)acordo ortográfico.
Mas temo que a classe política não tenha capacidade intelectual para os compreender.
Enfim, não entendemos toda esta autofagia, uma vez mais. Este país empenha-se sempre em propiciar a atracção do abismo. Só nos resta remar contra a maré.
Cumprimentos.
Nota: permitam-me que sugira o escrito que junto a seguir, sobre a temática em apreço.
https://maranduvaline.blogspot.com/2018/0 1/verdade-correccao-e-sentido.html
Caro Pedro,
O livro das caras (vulgo Facebook) não deixa publicar este link. Censurou-me publicação do dia 24. Sabe porquê?
Rui Duarte
Não faço a menor ideia, caro Rui.
Eu e esse coiso não temos relação nem nunca tivemos.
É um facto. Não permitem. Publiquei dia 24 e hoje censuraram. E bloquearam nova tentativa de publicação… nem me deixam identificar-me aqui com os elementos do “face”
Porque é que isso acontecerá?
Eu sou absolutamente contra censuras. E o FB é useiro e vezeiro em censurar.
Ainda por cima os interlocutores estão bem longe, imunes a reclamações. Noutro continente.
Também por isto nunca tive conta lá.
Não sei mesmo.provavelmente sob denúncia e a ser assim, só poderia ter sido de algum adepto do “acordo”
Pedro
O anónimo sou eu.
Outros amigos notaram o mesmo. Isso foi certamente obra de um familiar da Santa inquisição adordista. Mas parece que a ligação ao seu blog via Facebook já foi reposta.
Esta publicação foi-me bloqueada por alguém que a denunciou como spam (“desrespeita os padrões da comunidade”), no grupo Professores Contra o AO (Facebook). Ao aprendiz de bufo que o fez , estamos na era da internet. Por cada publicação censurada, muitas outras se republicação. E agora, vá pela sombra, sim?