Num notável exercício de hipocrisia política, o Presidente da República decidiu promulgar a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Fê-lo logo após ter andado vários dias a correr o País ao lado do Papa e deixando claro que discorda da solução jurídica adoptada, apesar de o Tribunal Constitucional ter eliminado todas as dúvidas que o Palácio de Belém em devido tempo suscitou.
Por imperativos de consciência, ao que tudo indica, Cavaco Silva deveria ter vetado o diploma. Mas um imperativo de consciência, para o actual inquilino de Belém, soa a algo relativo: espantosamente, Cavaco invoca “os milhares de portugueses que não têm emprego, o agravamento das situações de pobreza, a situação que o País enfrenta devido ao elevado endividamento externo e outras dificuldades que temos de ultrapassar” como justificações para promulgar uma lei de que manifestamente discorda. Como se houvesse algum nexo causal entre uma coisa e outra.
Pior: o Presidente, que tem sido extremamente parco em palavras sobre a crise, serviu-se desta “comunicação ao País” a propósito da lei que autoriza os casamentos homossexuais para aludir, insidiosamente, à “dramática situação em que o País se encontra” e aos “problemas que afectam gravemente a vida das pessoas”. Temos, portanto, um Presidente aparentemente convertido ao marxismo: tal como Marx, também ele parece pensar que não é a consciência a determinar a vida mas as condições de vida a determinar os mecanismos da consciência.
Algo a ver com os casamentos entre pessoas do mesmo sexo? Absolutamente nada. Mas a campanha presidencial está quase à porta, o que leva o Presidente a pretender agradar a um maior número simultâneo de eleitores, como ficou transparente neste discurso justificativo que deu duas no cravo e três na ferradura. Um Cavaco surpreendente? Talvez não: o verdadeiro Cavaco, muito provavelmente, é mesmo este.


Já há uns tempos que não tinha o prazer de concordar com o Pedro Correia. Chegou a hora. Saudações cordiais.
É um prazer receber essas palavras de concordância da sua parte, caro Francisco. Quanto às nossas discordâncias, parecem-me naturais e salutares: nenhum de nós gosta de unanimismos. Em regra, aprendemos sempre alguma coisa com quem pensa de forma diferente.
Saudações retribuídas, com todo o gosto.
Cavaco ajudou-me a decidir o sentido de voto nas presidenciais. Se estiver um bonito dia de Inverno, ala até Santa Cruz, ao Alto da Vela, a encher os olhos e a alma de azul. Se chover, pois ficará a leitura em dia e Darjeeling com fartura. Quem votar que se divirta…
Caríssimo,
“Um Cavaco surpreendente? Talvez não: o verdadeiro Cavaco, muito provavelmente, é mesmo este.”
Exactamente. Conflitos ? Não é com o homem.
Demissões do PM “a la Sampaio/Santana Lopes” ? Jamais ocorrerão – antes ou depois de reeleito.
Mais certo será “Nuestro Primero” cair de podre pois ninguém – e muito menos ele agora que o vento mudou – ninguém é de ferro.
Forte abraço e veja lá o que se passa com a Miss Pearls,
Cavaco Silva poder-nos-ia ter poupado ao discurso, bastava uma nota de imprensa a invocar a constitucionalidade da Lei.
Mas isto tem a ver com este sistema republicano nacional, onde o único eleito nominalmente, em sufrágio directo universal e obrigatoriamente com mais de 50% dos votos, quase não tem poderes constitucionais para exercer política no País… resta-lhe o papel de monarca eleito e uns avisos à navegação para dizer que existe e tem ideias suas mas não as pode pôr em prática.
Totalmente de acordo, Pedro. Um péssimo discurso
Perfeitamente de acordo, Pedro Correia.
Saudações.
Mais um que está de acordo com o post, Pedro.
É quase unanimismo norte-coreano :))
Um abraço
Excelente análise como sempre (:
Também lhe roubei esta, eu não conseguia fazer melhor, e depois e tal, percebe, não é? Burrice e perguiça lol
Prontus roubei, porque o seu texto está um primor e agradeço-lhe que me dê coisas tão boas a ler.
Estou farta do Estranho Caso Da Professora do Pipi.
Não resisto, lol 9s
Penso que há sempre um pequeno pretexto para adicionar Monthy Python.
http://www.youtube.com/watch?v=vZ9myHhpS
Calculismo no seu melhor, Pedro.
Quantos votos rendeu a promulgação?
Muitos, por certo.
E quantos se perderam?
Muito poucos, porque o Snr. Presidente só promulgou a lei porque é um estadista, preocupado com a situação do País, para a qual ele não contribuiu minimamente.
Um cheirinho do que será o segundo mandato com o PS no governo.
Mais um contributo 10/05/nao-gosto-de-mariquices-mas-promul go.html
http://devaneiosaoriente.blogspot.com/20
Excelente. Estou completamente de acordo, Pedro. De Cavaco nada, mas mesmo nada me surpreende.
(P.S. sou a favor da promulgação da lei).
Mais uma oportunidade para o Presidente estar calado. Não sei se terá realmente ganho votos à esquerda (não vejo muita gente a deixar de votar em Alegre por causa desta decisão, especialmente assim tão contrariada) e é bem capaz de ter perdido uns quantos à direita para um qualquer candidato que se apresente vindo dessa área. Ainda estou para o ver saber ter intervenções lógicas e condizentes com a sua posição institucional.
Há um ponto nisto tudo que me vai fazendo impressão, que é o hábito de se achar que não é possível haver discussão sobre mais que um tema em simultâneo. Toda a gente é capaz de cumprir várias coisas ao mesmo tempo, pelo que um colectivo de pessoas como o Governo, a Oposição e o Parlamento ainda melhor o farão. Será mesmo necessário que todo o governo se concentre na questão económica? Será que enquanto os ministros do Trabalho, Economia e Finanças (por exemplo) tratam desse assunto, os ministros da Justiça, Educação, Ambiente e Agricultura têm que deixar as suas pastas paradas? Alguém acredita mesmo nisto?
Esta observação é válida para quem afirmava que não era o tempo para a discussão do casamento de pessoas do mesmo sexo por causa da crise e para o Presidente (depois do que disse ontem). Mais vale assumir as concordâncias ou discordâncias relativamente a um assunto do que tentar evitá-lo. Tratar as pessoas por estúpidas pode passar uma ou duas vezes, mas tentar fazê-lo demasiadas vezes costuma dar maus resultados.
Ou de como todos os meios são meios bons quando o fim é que importa.
Boa malha, Pedro, boa malha.
O tema é fracturante, diz o Presidente. Fracturante uma ova! Pelo menos aqui no “Ritz”, a velhada, mesmo a mais conservadora, os/as empregados/as, o rapaz que me traz o jornal, a senhora do pão, o jardineiro, estão-se todos nas tintas. Poucos sabiam o que quer dizer promulgar (a maioria estava mais inclinada a entender que queria dizer proibir), mas a todos é indiferente. Riem-se, galhofam, mas querem lá saber se os homensexuais ” se casam ou não.
Cavaco bem poderia ter feito uma comunicação ao País no dia 13 de Abril, quando <href="http://sol.sapo.pt/paginainicial/economia/interior.aspx?content_id=169180">promulgou</a> a concessão do troço Poceirão-Caia, invocando, aí sim, “os milhares de portugueses que não têm emprego, o agravamento das situações de pobreza, a situação que o País enfrenta devido ao elevado endividamento externo e outras dificuldades que temos de ultrapassar” como justificações para promulgar uma concessão com que manifestamente concorda!…
Após esse servicinho, veio então, qual professor de Moral, 17 dias depois, sugerir que se reponderassem (http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1557768) as grandes obras.
Retomo as suas palavras, Pedro:
Um Cavaco surpreendente? Talvez não: o verdadeiro Cavaco, muito provavelmente, é mesmo este.