Percebo que seja incómodo para um católico ver a sua Igreja nas bocas do mundo pelas piores razões. Mas daí até se mostrar indignado com a sua cobertura mediática e repercussão na opinião pública vai um passo sinuoso que me custa aceitar. Mais do que a execução repetida e impune de um dos mais horrorosos crimes por membros da hierarquia católica, o que tem chocado as pessoas é saber que os seus mais altos representantes sempre estiveram mais interessados em abafar estes casos do que em puni-los.
Ao reagir a estas notícias criticando a sua exacerbada discussão pública, estes fiéis não fazem mais do que se revelar coniventes com os inaceitáveis critérios dos seus chefes religiosos.
E sim, é razoável haver mais escândalo em torno de pedófilos de sotaina do que de criminosos “civis”. É preciso explicar porquê? Não me parece.


Nem me fale nisto Teresa, que me dá um asco impossível de descrever….
Eu acho, Ariel, que um verdadeiro católico só pode ficar mais incomodado do que a maioria das pessoas com isto. E sabe-se que há muitos a reagir assim. Só não entendo os outros.
http://lishbuna.blogspot.com/2010/03/qua ndo-e-altura-de-um-papa-se-demitir.html
Esse argumento, que o João transcreve no seu post de que “ninguém gosta de lavar a roupa suja em público” para mim até colhe. Mas não é esse o ponto. O problema foi a forma vergonhosa como actuaram para abafar os casos. Assobiando para o lado, mudando os pedófilos de paróquia sem nunca os impedir de continuar a praticar o seu modo peculiar de evangelização.
Essa manipulação mental que lhes permite terem a consciência tranquila apesar de tudo e de até criticarem os outros que lhes recordam o óbvio tem paralelos com o apoio que é dado à tortura de pessoas. Vale a pena procurar o Relatório chinês sobre os direitos humanos nos EUA 2009.
É um problema muito católico “ter a consciência tranquila apesar de tudo” 🙂
Parece-me uma evidência que tenha cobertura mediática e repercussão na opinião pública: é um crime ainda mais horroroso quando mete sotaina. Subscrevo o que dizes, Teresa.
Mais uma vez de acordo, então 🙂
Não concordo que o crime seja mais grave quando mete sotainas. No crime, o que mais conta é a vítima. E o sofrimento, moral ou físico da vítima, é igual seja ele praticado por quem fôr.
Não, José Sejeiro, quando julgamos um crime, a identidade do criminoso não é indiferente. De tal forma que há crimes que são identificados em função da identidade do agressor. É o caso do matricídio e do parricídio, por exemplo.
Mais uma vez, de acordo.
Os senhores padres que estão na fotografia são suspeitos de pedofilia ou aparecem aqui só para «enfeitar» ?
É mesmo só para “enfeitar”, cusco. Acontece muito com as notícias que se publicam acerca da Igreja católica: são acompanhadas das fotografias de uns senhores padres, escolhidas ao acaso, só para enfeitar.
então os que estão na fotografia não são pedófilos ?
Não se sabe. Esperemos que não, eles já são tantos e multiplicam-se as vítimas.
Só eles saberão, mas o cusco bem poderia fazer jus ao seu nome e investigar…
Fico arrepiada com tudo isto. Omitir estes casos é criminoso e imperdoável. E mesmo que houvesse uma punição interna severa (em alguns casos, a dita punição de padres confirmadamente pedófilos limitou-se a mudá-los para uma paróquia mais distante, onde a sua fama não tivesse chegado…), isso nunca bastaria. É um crime contra os mais básicos direitos humanos, em circunstâncias que o agravam como nenhum outro, e portanto tem de ser entregue à Justiça. As Igrejas não têm, que eu saiba, direito a uma espécie de “tribunal marcial” que substitua legalmente os tribunais comuns.
E repara, Ana: quando os mudam de paróquia sabem bem que vão rodar as vítimas também. Porque, obviamente, os crimes vão continuar. Isso, então, é tenebroso.
Exactamente. É por isso que fico ainda mais arrepiada com tudo isto. A omissão perpetua o crime, porque é sabido que um pedófilo (sobretudo quando não assistido em termos psicológicos) reincide sempre. Como cristã, isto incomoda-me profundamente.
Tem-se falado na pedofilia praticada por sacerdotes na América, em Inglaterra, no Canadá, isto é, nos países ricos. Estou à espera da denúncia dos mesmos crimes praticados em África, pelos Missionários Católicas e Protestantes. Eu tive conhecimento directo dessa prática. Porque não as denunciei? Porque era corrente e aceite pelas populações locais (colonizados e colonizadores) com um encolher de ombros. Porque não os denuncio agora? Porque já “prescreveram” há dezenas de anos.
Felizmente que essa cultura está a mudar, José Sejeiro Velho e que aos poucos esses casos são denunciados e condenados, quanto mais não seja pela opinião pública. A pedofilia é tão velha como o mundo.
Subscrevo inteiramente o teu post, Teresa.
Tudo isto é nojento, abjecto, inominável. E depois disto recolher-se-iam, cobertos de virtude e prontos para aconselhar os fracos pecadores, estes beatíficos seres regidos não sei exactamente por que leis. Depois do suícido do miúdo de doze anos esta notícia tem-me deixado revoltada e incomodada. E que lhes acontece? Rezam uns pai-nossos e umas avé-marias e volta tudo ao normal? E não acho que a discussão seja exarcebada.
Outra coisa que me irrita furiosamente é a desculpa do celibato e da abstinência sexual, como se a falta de sexo fosse desculpa para o abuso de crianças. Pedofilia é crime. Que se metam com alguém da idade deles e resolvam a falta de sexo sem inflingir um sofrimento inominável a crianças inocentes e indefesas.
Isso da falta de sexo servir para justificar a prática de crimes sexuais nem vale a pena comentar, Leonor. Além de que, como sabemos, o celibato nunca foi obstáculo à prática de sexo.
Detendo-me no que me parece ser a essência do texto, reforço o facto da indignação do Vaticano ser intolerável e inaceitável, Teresa. Pragmaticamente direi que com estes casos se perdem um número inalculável de (bons) fiéis. Porque se perdem boas oportunidades de ganhar outros tantos (bons) fiéis. Quantoao último parágrafo, estamos de acordo. Não precisa explicar.
Para o nosso lado do mundo, o cristão, estas fragilidades da Igreja Católica não são nada convenientes, nem oportunas, Mike.
O celibato como causa…
No meu tempo, só tocávamos nas namoradas nos bailes, a dançar. Por isso (boa desculpa) os rapazes recorriam às prostitutas. Pensava eu nessa altura, que se houvesse liberdade sexual, acabavam a prostituição, a violação de mulheres indefesas e a pedofilia.
Exultei com o Maio de 68. Agora acabava-se a moral apoiada no sexo e com ela todos os males associados.
Estava redondamente enganado.