Um dos livros do ano em Portugal


Pedro Correia,

É um dos acontecimentos editoriais do ano em Portugal. Vou mais longe: é um dos acontecimentos editoriais dos últimos anos. Refiro-me ao lançamento de uma grande biografia de António de Oliveira Salazar – algo que vem colmatar uma evidente lacuna na historiografia portuguesa. Salazar, de Filipe Ribeiro de Meneses – um livro que já comecei a ler, com a convicção antecipada de estar perante um título que servirá de referência a futuros investigadores desse tema inesgotável que é o salazarismo.

O mais curioso é o facto de não estarmos perante uma obra original: este Salazar foi editado originalmente em 2009, em versão inglesa, por uma casa editorial norte-americana, graças a uma bolsa concedida em Dublin ao autor português, que vive na Irlanda. Durante vários anos, Filipe Ribeiro de Meneses pôde fazer um levantamento exaustivo de documentação em arquivos e hemerotecas, beneficiando também do trabalho pioneiro de Alberto Franco Nogueira, que em 1977 lançou o primeiro volume da sua biografia dedicada a Salazar. Essa obra tinha, no entanto, um carácter apologético, como aliás seria de esperar: Franco Nogueira foi o último ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, entre 1961 e 1968, e nessa qualidade funcionou então como o seu mais próximo colaborador. O Salazar que Franco Nogueira nos deu a conhecer há 30 anos tinha ainda assim aspectos muito reveladores, designadamente em relação à infância, anos de formação académica e à etapa inicial de governante do político que mais marcou o século XX português, e também a aspectos da sua vida privada, designadamente as mulheres por quem se foi apaixonando, contrariando a ridícula propaganda de décadas, que o pretendia “casado com a pátria”.

Mas Franco Nogueira não foi – nem pretendeu ser – isento. A sua admiração por Salazar era notória. Os seis volumes que redigiu padeciam de um defeito simétrico ao das inúmeras obras surgidas nos anos imediatamente após o 25 de Abril destinadas a diabolizar o ditador sem proporcionar aos leitores dados suficientes que lhes permitissem tirar as suas próprias conclusões. É precisamente o que Ribeiro de Meneses se propõe nesta biografia de quase 800 páginas divididas em 13 capítulos agora lançada pela Dom Quixote. Tarefa facilitada, desde logo, por uma característica geracional: o autor nasceu em 1969, um ano antes da morte de Salazar, e por isso consegue estudá-lo com a mesma distância analítica com que qualquer de nós olharia (por exemplo) para o Marquês de Pombal ou Fontes Pereira de Melo.

Esta proclamada isenção, de clara inspiração académica com raiz anglo-saxónica, aumenta a minha expectativa em torno desta obra que, como o autor explica sem falsas modéstias no prefácio, “aspira a ser muito mais do que uma visita introdutória” a Salazar enquanto político. Felizmente a historiografia portuguesa foi-se libertando da escola dos Annales, que durante décadas menosprezou as biografias, que praticamente desapareceram do mercado, com a sua visão da História como um conjunto de grandes “estruturas” sociais e económicas, onde o indivíduo se diluía em vagas de estatísticas. Como se a História, para o bem e para o mal, não se devesse também – há quem diga sobretudo – a enormes rasgos individuais.

Um episódio do ‘salazarismo’


jmmcc,

Só há pouco li, na revista “Actual” do Expresso, um extenso artigo de Rui Ramos sobre Salazar e o Estado Novo, no qual esbarrei com este período: «Perseguiu e exilou o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, em 1958-1959.» É um simples detalhe retirado do todo, mas chamou a minha atenção. Como a História não se inventa e como já me tenho dedicado ao assunto, retirarei de um livro que publiquei há meia dúzia de anos um excerto em que narro o episódio.

 

«Em 1958, D. António Ferreira Gomes (1906–1989), bispo do Porto, depois de duas intervenções entendidas como críticas à situação, dirige uma carta a Salazar em que reclama a liberdade de os católicos defenderem os princípios sociais da Igreja. Considerado incómodo para o regime e aconselhado a afastar-se, o bispo desloca-se a Roma no ano seguinte e, na volta, é impedido de entrar no País, ficando em Tuy (na Galiza) e passando depois a viver entre Espanha, França (Lourdes) e o Vaticano. Em rigor, não tem o estatuto de exilado político e não chega a ser substituído como bispo do Porto. O Papa João XXIII — Ângelo Giuseppe Roncalli (1881–1963) — nomeia-o para uma das comissões que preparam o concílio Vaticano II e o seu regresso só vai ser possível dez anos mais tarde, em 1969, na sequência de um movimento em que sobressai o advogado portuense Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro (1934–1980), num envolvimento que o transporta à política, para se destacar depois como deputado da “ala liberal” nos finais do Estado Novo.»

 

Não deve dizer-se, portanto, que o bispo do Porto foi perseguido e exilado de facto e menos ainda que isso ocorreu em 1958/59. Na verdade, o plano foi mais bem urdido: esperaram que ele fosse ao estrangeiro e criaram uma teia artificial de dificuldades administrativas na fronteira para impedir a sua reentrada em Portugal. O afastamento do bispo durou uma década, mas foi em vão que o Estado Novo pressionou a Igreja para que o substituísse na diocese do Porto.

 

(V. Carta a Salazar, de 13 de Julho de 1958, uma “pró-memória” para uma entrevista com Salazar que nunca veio a acontecer.)

Imagem — Estátua de D. António Ferreira Gomes (Porto, Clérigos)

Legislativas (3)


Pedro Correia,

SALAZAR VISTO POR SÓCRATES

 

"Ainda bem que houve alguém que a decidiu fazer", declarou José Sócrates na recente entrevista à SIC, referindo-se à antiga Ponte Salazar, actual Ponte 25 de Abril. O elogio, bem explícito, visava o homem que então mandava no País: António de Oliveira Salazar. Imaginem só se esta frase tivesse sido proferida por um ‘político de direita’ – de Santana a Portas, de Marcelo a Jardim, de Cavaco a Ferreira Leite: é fácil imaginar a torrente de indignação que de imediato inundaria jornais e blogues, numa sucessão ininterrupta de críticas ao ‘fascista’ que ousara enaltecer a máxima obra de engenharia do regime deposto pela Revolução dos Cravos. Sócrates, pelo contrário, passou incólume nesta nada inocente piscadela de olho a uma certa direita que ainda não desistiu de se deixar fascinar por uma certa esquerda. O homem sabe-a toda. Quem o considerar derrotado de antemão comete um profundo erro de análise: daqui até às legislativas, ele actuará com a obstinação de um comandante experimentado em campo de batalha. Está em jogo um dos combates da sua vida.