Onde a poesia podia salvar


Patrícia Reis,

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Desde a adolescência que conhece esse poder da música, de algumas canções serem nossas sem sabermos como nasceram, de quem nasceram. Os códigos escondidos do amor também se fazem valer de suportes a que não podemos chamar nossos. Ela começou a publicar poemas. Todos os dias, pelo meio-dia, vai ao facebook e publica os poetas de que gosta, os que aprendeu a ler. Homens e mulheres que, num desvario qualquer, conseguem colocar nas palavras as emoções que Carmen acredita serem só dela. O sofrimento é só seu.

Onde as canções são recados dos outros


Patrícia Reis,

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O barulho da porta foi apenas o ponto final, mas teimava em repetir-se, sempre o mesmo, um som que era a sua derrota.

Estiveram meses sem se cruzarem. Ela não o contactou. Ele não quis saber. Nenhuma mensagem escrita no telemóvel a anunciar má consciência. Durante dois meses, ele não escreveu nada no facebook. Manteve no mural um vídeo sem história de uma banda desaparecida. America. Não tem a certeza, a versão era qualquer coisa como I’ve been in desert with a horse with no name. Carmen ouviu várias vezes a canção para perceber. Às vezes, certas canções são mensagens. Ela sempre o soube.

onde o silêncio se fez de gritos


Patrícia Reis,

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Carmen não gritou, nem chorou. Lembra-se de ter inclinado a cabeça para a esquerda, como alguém que quer ouvir o coração e ouviu-o, com clareza, um cristal que se encolheu. Por fim, fez um gesto com a mão, um movimento apenas, o suor escorria pelo cabelo já, passou a mão na testa e, por fim, fechou os olhos. Deixou-se ficar ali até que sentiu que ele tinha recuado até à porta, os passos dele, o corpo a mexer, a mão que pegava no saco, a porta a fechar. Ela deixou-se ir até ao fim do mundo no chão da cozinha e então gritou.

Onde o medo passou a enjoo


Patrícia Reis,

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Recuou. Ouviu em silêncio – ela que não sabe escutar, quantas vezes lho disse? – sem desviar o olhar, sentindo que o coração podia desfalecer a qualquer segundo, de tanto bater, sincopado contra a sua pele. Sentiu o cheiro do desgosto, o suor a descer junto ao peito, a crescer nas axilas. Teve um ligeiro enjoo, uma tontura. O cheiro que se apoderava do seu corpo era violento, era a morte que chegava. Carmen pensou nisso assim. Não teve a capacidade de dizer nada. Ouviu:

“Ninguém merece viver assim, sabes? Ninguém.”

Onde os defeitos dela são como um menu de um restaurante


Patrícia Reis,

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Ainda o vê, o corpo dele a baloiçar, hesitante, à espera do ruído da voz dela, da avalanche das lágrimas reveladoras da intensidade de tudo. Ele a acusá-la de ser, todos os dias, demasiado. Carmen, ela. Demasiado tudo, dramática, obsessiva, estranha, compulsiva, nervosa, frenética. E o corpo dele, na despedida, mostrava como a temia, o embate que sabia ser capaz, a guerra que só ela podia provocar. Foi aquele gesto do corpo dele, um baloiçar no pé esquerdo, as mãos a esfregarem as calças, nervosas, suadas, brancas, esguias, despidas das mãos delas, o olhar cansado e as palavras esgotadas. Tudo isso a travou. Carmen não seria capaz de se transformar num furação. O medo dele fez-lhe medo.

onde o dia 17 se repete


Patrícia Reis,

 

O mesmo que lhe disse que não lhe podia oferecer um futuro. Como se o futuro viesse numa caixa. Com laço e fita, embrulhado num papel de seda. Carmen ouviu-o com a maior tranquilidade. O coração numa guerra nunca vivida. E ela, calada, a olhá-lo, fixamente, sem esperar mais do que a dor de saber que o saco e a mala eram o abandono. Seis anos. Passaram-se seis anos. Di-lo para dentro, como uma lengalenga infantil que se permite a cada dia dezassete, o dia em que ele se foi embora.