Lisboa antiga (50)


Pedro Correia,

 

QUINTA DO CONTADOR-MOR, OLIVAIS

(‘A Toca’)

«– Isto é encantador! – repetia ela. – É um paraíso! Pois não lhe dizia eu? É necessário pôr um nome a esta casa… Como se há-de chamar? Vila Marie? Não, Château Rose… Também não, credo! Parece o nome de um vinho. O melhor é baptizá-la com o nome que nós lhe dávamos. Nós chamávamos-lhe a Toca.»

Eça de Queiroz, Os Maias

Foto: blogue Teresa Marques 2009’s Blog

Lisboa antiga (49)


Pedro Correia,

 

OLIVAIS

«Apenas o coupé partiu de novo, Ega rompeu nas costumadas admirações pelo Craft, encantado com aquele encontro que dava mais um retoque luminoso à sua alegria. O que o entusiasmava no Craft era aquele ar imperturbável de gentleman correcto, com que ele igualmente jogaria uma partida de bilhar, entraria numa batalha, arremeteria com uma mulher ou partiria para a Patagónia…

— E que casa que ele tem nos Olivais, que sublime bric-à-brac!»

Eça de Queiroz, Os Maias

Imagem: blogue Olivesaria

Lisboa antiga (45)


Pedro Correia,

 

RUA DO FERREGIAL DE CIMA

(actual Rua Vítor Cordon)

«E o Alencar, perante esta intimação do Cohen, o respeitado director do Banco Nacional, o marido da divina Raquel, o dono dessa hospitaleira casa da Rua do Ferregial onde se jantava tão bem, recalcou o despeito – admitiu que não deixava de haver talento e saber.»

Eça de Queiros, Os Maias

Foto: Blog em português de homenagem a J. Verne

Lisboa antiga (44)


Pedro Correia,

 

RUA DAS JANELAS VERDES

(O Ramalhete)

 «Um momento caminharam em silêncio. Depois, na Rua das Janelas Verdes, o Alencar “quis refrescar”. Entraram numa pequena venda, onde a mancha amarela de um candeeiro de petróleo destacava numa penumbra de subterrâneo, alumiando o zinco húmido do balcão, garrafas nas prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenço amarrado nos queixos.»

Eça de Queiroz Os Maias

Foto: blogue Os Maias

Lisboa antiga (41)


Pedro Correia,

 

TEATRO DA TRINDADE

«Era no Teatro da Trindade, representava-se o Barba Azul. Tinha começado o segundo acto e o Coro de Cortesãos saía, recuando em semícirculos, com os espinhaços vergados, quando, num camarote sobre o balcão, à esquerda, o ranger ferrugento de uma fechadura perra, uma cadeira arrastada, fizeram erguer aqui e além, alguns olhares distraidos.»

Eça de Queiroz, A Tragédia da Rua das Flores

Foto: blogue Balada do Mar Salgado

Lisboa antiga (40)


Pedro Correia,

 

LARGO DA ABEGOARIA

(actual Largo Rafael Bordalo Pinheiro)

«Já Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atrás, inquieto, temendo uma violência. Quando chegaram à porta, Eusébio metera para os lados do Carmo. E alcançaram-no no Largo da Abegoaria, àquela hora deserto, mudo, com dois bicos de gás mortiços.»

Eça de Queiroz, Os Maias

Foto: blogue Balada do Mar Salgado

Lisboa antiga (38)


Pedro Correia,

 

RUA DOS CONDES

«O marquês insistia, plantado diante dele, de taco ao ombro como uma vara de campino, dominando-o com a sua maciça, desempenada estatura. E ameaçava-o de destinos medonhos numa voz possante habituada a ressoar nas lezírias; queria-o arruinar ao bilhar, forçá-lo a empenhar aqueles belos anéis, levá-lo a ele, ministro da Finlândia e representante de uma raça de reis fortes, a vender senhas à porta da Rua dos Condes.»

Eça de Queiroz, Os Maias

Foto: blogue Ruas de Lisboa com alguma história

Lisboa antiga (37)


Pedro Correia,

 

 

CASTELO DE SÃO JORGE

«Mais alto ainda, recortando no radiante azul a miséria da sua muralha, era o castelo, sórdido e tarimbeiro, de onde outrora, ao som do hino tocado em fagotes, descia a tropa de calça branca a fazer a bernarda!»

Eça de Queiroz, Os Maias

Foto: blogue Prosimetron

Lisboa antiga (36)


Pedro Correia,

 

LARGO DO CALHARIZ

«Lentamente, voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia com o Gouvarinho sobre mulheres. Era a propósito da secretária da legação da Rússia, com quem ele encontrara nessa manhã o conde conversando ao Calhariz. O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho nervoso e ondeado, os seus grandes olhos garços…»

Eça de Queiroz, Os Maias

Foto: blogue Ruas de Lisboa com Alguma História

Lisboa antiga (33)


Pedro Correia,

 

S. VICENTE DE FORA

«No escuro bairro de S. Vicente e da Sé, os palacetes decrépitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brasões nas paredes rachadas, onde, entre a maledicência, a devoção e a bisca, arrasta os seus derradeiros dias, caquéctica e caturra, a velha Lisboa fidalga!»

Eça de Queiroz, Os Maias

Imagem: blogue Alvor-Silves

Lisboa antiga (32)


Pedro Correia,

 

ESTRADA DE BENFICA

«O break rodava na Estrada de Benfica: iam passando muros enramados de quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu maço de cigarros à porta dependurado de uma guita: e a menor árvore, qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de colina verde, encantavam Cruges. Há que tempos ele não via o campo!»

Eça de Queiroz, Os Maias

Foto: blogue Bic Laranja