Gostar e não gostar, eis a questão!


fiodeprumo,

Gostar e não gostar, eis a questão!

 

Apesar de ter feito análise vários anos e de considerar que ela me ajudou muito a perceber-me e a escutar os sinais que o corpo e a alma me dão para antecipar futuros efeitos funestos, a verdade é que existem algumas pequenas janelas que conseguiram escapar àquele processo.

Uma delas, e talvez a mais significativa, respeita o facto de eu ser perfeitamente capaz de gostar e não gostar, em simultâneo. Explico-me melhor com um exemplo.

Tive sempre com José Mourinho esta ambivalência. Aprecio as suas qualidades profissionais, mas o que mais gosto nele é também aquilo que menos aprecio. Se, por um lado, admiro a convicção, a segurança, a autoconfiança, a frontalidade que sempre manifesta, por outro, irrita-me sobremaneira a arrogância, o amor próprio, a sobranceria, o orgulho, que também tem e que são o reverso da medalha daquilo que ele realmente é.

Assim, como se deduzirá, o special one atrai-me e afasta-me, diria, com a mesma intensidade. Mas não seria verdadeira e aqui é que reside o nó górdio da questão. É que para se poder conviver com este dualismo, tem que se perceber que um dos lados possui algo mais do que o outro, mesmo que a diferença seja, diria, infinitesimal. No caso vertente esse infinitésimo pende a favor de José Mourinho, sabe-se lá porquê. Talvez, admito, porque também é um bonito homem!

A vaidade e a soberba


fiodeprumo,

Sou daquelas que se envaidecem quase tanto com os sucessos dos portugueses, como se seus fossem. Não são. Pertencem aos próprios e ao país que, esse sim, é nosso. Deles e meu.

Gosto de Cristiano Ronaldo e apesar dos tiques de novo riquismo  sou sensível à sua história de vida e ao amor que preside e persiste no clã Aveiro. 

Gosto de Mourinho e do estilo ácido de quem sabe o que vale e não se esconde em falsas modéstias.

Ambos têm alguma coisa em comum que os torna especiais a jogar e a treinar futebol. Mas incomoda-me a exploração quase diária, que uma certa comunicação social está a fazer da sua zanga, que em si é lamentável e só pode ser reflexo de alguma questão mal resolvida. A vaidade e a soberba ficaram mais á vista e sem qualquer vantagem!

A estes ícones nacionais – como aos políticos -, tem que se lhes pedir contenção. Porque não são só eles que estão em causa. Somos também nós portugueses e o nosso país que, assim, lavamos a roupa suja em público. E esta deve ser lavada em privado e, de preferência, na máquina. Nunca à mão…

“Em Espanha há gente que me odeia”


Rui Rocha,

A frase é de José Mourinho. E retoma uma linha de argumentação muito comum de gente do futebol que exerce a sua profissão em Espanha. Trata-se de afirmar que ali têm um preconceito contra jogadores e treinadores portugueses. Que é muito difícil ser português em Espanha. Ora ananases. Com o dinheiro e o poder que esta gente tem? O que é fodido é ser português em Portugal. Com desemprego, precariedade, salários miseráveis, pobreza para dois ou três milhões de habitantes, presente de angústia e futuro de miséria. 

As raízes do fracasso


Pedro Correia,

 

Verdes Anos, uma excelente reportagem exibida ontem pela RTP – com assinatura de Alexandre Santos, Tiago Passos e Pedro Pessoa – demonstra bem as raízes do fracasso no Sporting: Inácio, que acabara de conduzir a equipa ao título após 18 anos de jejum, foi corrido pela direcção leonina, sob pressão de meia-dúzia de energúmenos. A mesma direcção, insegura e timorata, que cedeu perante o berreiro de três ou quatro basbaques filmados em directo pelas televisões aos gritos “Mourinho nunca!” Segundo o mesmo documentário, aquele que muitos consideram o melhor treinador do mundo terá estado duas horas ao leme da equipa leonina – o que talvez mereça figurar num recorde do livro Guinness.

Despedido no mesmo dia em que foi recrutado para Alvalade, e rumando de imediato a outros destinos onde souberam reconhecer-lhe valor, também José Mourinho experimentou na pele o desgoverno errante da barca sportinguista. Não sei se escreva banca em vez de barca, mas o resultado é o mesmo: quase década e meia de pesadelo. Pela cupidez danosa de alguns, pela incompetente gestão de muitos e pela confrangedora mediocridade de quase todos quantos ascenderam ao poder no clube ao longo deste período negro. Mas também pela cegueira de tantos adeptos, pelo fanatismo inepto da chamada “voz da rua”, bem simbolizada naqueles gritos estridentes “Mourinho nunca!”

Quem berrava assim naquela conferência de imprensa tristemente memorável, espumando de ódio contra o mérito alheio perante o embaraço frustre de Luís Duque, dizia afinal pretender um Sporting para sempre arredado dos títulos e das glórias passadas, condenando à presente irrelevância competitiva e ao descalabro financeiro o clube português que ainda mais triunfa no campeonato do ecletismo e da formação de atletas.

Verdes Anos é um retrato fidedigno da realidade leonina – e, por extrapolação, da própria realidade nacional, onde impera uma espécie de alergia ao sucesso que Mourinho personifica. Um retrato que todos os sportinguistas devem ver e rever. Para evitarmos repetir hoje os graves erros de ontem, tão bem documentados neste filme que funciona como um murro no estômago de qualquer de nós.

 

Também aqui

A aula de Mourinho


André Couto,

A conferência de imprensa de José Mourinho no fim do Barcelona-Real Madrid desta noite foi uma aula, uma lição de como levar cinco olés na casa do maior rival, virar a situação e terminar como se fosse o grande vencedor da noite. Sem nunca se exaltar, sem nunca cair nas escorregadias perguntas dos jornalistas sedentos de sangue, ainda terminou a refrescar os rostos frustrados com o recente Barcelona-Inter de Milão.

Se dúvidas houvesse e mesmo na noite em que levou cinco em Barcelona, Mou mostrou porque é Mou, um dos grandes treinadores da história do futebol mundial. Quanto à La Liga não tenham ilusões, podiam ter sido 10, o Real Madrid está lá na corrida para dar e durar.

 

 

PS. Nota lamentável fica na posse de Nuno Luz (jornalista da SIC) que, quando teve o privilégio de fazer uma pergunta, pediu para Mourinho traduzir para português a resposta que tinha dado à primeira pergunta. Quem assistiu, ouviu Mourinho falar um “portunhol” básico e não resistiu a vilipendiar o jornalista. Não hão-de os espanhóis gozar avidamente connosco…

Mourinho


Pedro Correia,

 

No futebol, como na política, só os resultados contam:

 

“Se engrandeció también la leyenda de José Mourinho, odiado por unos e idolatrado por otros, capaz de devolver al Inter a lo más alto. Él y la voluntad de unos jugadores que volvieron a ofrecer un recital de sacrificio, solidaridad, disciplina táctica y pegada, mucha pegada.”

Marca

 

“A 30 anni la prima grande squadra e la prima finale: se questo è un debutto… E la sera di José Mourinho che festeggia piangendo la sua seconda Champions con due squadre diverse.”

Gazzetta dello Sport

 

“Comme face au Barça et à Chelsea, José Mourinho a montré qu’il était le meilleur tacticien d’Europe et peut-être du monde.”

L’ Équipe