Capital europeia da fartura


Rui Rocha,

Jorge Sampaio, o ex-Presidente da República que ajudou a desbravar o caminho que nos trouxe exactamente até aqui onde estamos, em Além do Défice, decidiu convocar para amanhã uma reunião extraordinária  do órgão máximo da entidade que gere a Capital Europeia da Cultura do próximo ano. Na reunião será analisada “a avaliação, e suas consequências, do desempenho dos membros do Conselho de Administração da Fundação”. Entretanto, o Presidente da Câmara de Guimarães retirou a confiança à Presidente do Conselho de Administração, Cristina Azevedo. Face a estas notícias, ocorrem-me algumas conclusões:

1) Estes são tempos de factos extraordinários: reuniões, impostos, Conselhos de Ministros e sabe-se lá mais o quê. Todavia, os resultados continuam medíocres.

2) Os teóricos da motivação estão certos. Não são os salários que motivam as pessoas. Se fossem, não seria necessário convocar uma reunião para avaliar o desempenho desta gente:

“(…) salário mensal de 14.300 euros para Cristina Azevedo, presidente do Conselho de Administração, que contempla ainda carro e telemóvel. Os dois administradores executivos, Carla Morais e João Serra, auferem 12.500 euros mensais. Além disso, todos os 15 componentes do Conselho Geral, presidido pelo ex-Presidente da República Jorge Sampaio recebem 300 euros por reunião, à excepção do próprio presidente que ganha 500.”

3) Em tempos de vacas magras, a racionalização de custos e a construção de edifícios apresentam muitas semelhanças. É sempre bom começar pelas fundações.

4) Pelas alminhas, não nos metam em mais certames, provas desportivas, capitais, exposições ou eventos de âmbito europeu ou mundial nos próximos 20 anos. E, depois disso, que o primeiro a realizar-se seja Portugal – Capital Galáctica do Bom Senso. Até lá, fiquemo-nos pela Feira do Oculto de Vilar de Perdizes. Que se saiba, o ocultismo que ali se pratica nunca fez desaparecer nada que nos fizesse falta. E as mezinhas do Padre Fontes não fazem mal a ninguém.

Os apocaliptólogos


Rui Rocha,

Em tempos não muito distantes, o papel de apocaliptólogo do regime foi exercido, em regime de quase exclusividade, por Henrique Medina Carreira. Diga-se, em abono da verdade, que desempenhou essa função com abnegada convicção, linguagem colorida e dois ou três gráficos de aspecto manhoso.  As suas aparições pontuais tinham na populaça ululante o mesmo efeito que a exibição da mulher barbuda provocava nos apreciadores de espectáculos de saltimbancos. A mensagem de Medina Carreira atraía as atenções sobretudo pela deformidade que representava face à perfeição do Portugal socrático e cor-de-rosa. O pagode ria-se, levava as coisas à conta de pantomina, abrigava-se dos perdigotos do Professor e, uns minutos depois de iniciada a  entrevista, cumpria o dever cívico de votar em José Sócrates. Nas últimas horas, todavia, o monopólio de Medina Carreira chegou ao fim. Os membros de um Executivo que já completou seis anos de uma governação sem erros e repleta de leais e eficientes serviços à Nação ameaçam-nos agora com as pragas do Egipto em versão piorada: dizem-nos que até os gafanhotos vão morrer. O Dr. Mário Soares proclama-se angustiado. E o Dr. Sampaio, que nos prometia as delícias de além do défice, despenteia-se para nos afirmar que não existe vida sem PEC. É curioso. Estes apocaliptólogos de recente conversão eram, em geral, inveterados optimistas há não muitas luas atrás. O entusiasmo é o mesmo. A diferença é que no lugar do oásis vêem agora um buraco. Pena é que uma parte destes novos profetas da desgraça tenha empurrado o país para um caminho em que o abismo ficou à distância de um PEC. E que a outra parte tenha andado entretida a cantar o solidó.

Bem-vindo a Além do Défice, Dr. Sampaio


Rui Rocha,

Jorge Sampaio foi seguramente o Presidente que proferiu os discursos menos inteligíveis da história da democracia. Todavia, foi muito claro quando afirmou que há vida para além do défice. E tinha razão. Devia era ter acrescentado que viver acima das possibilidades implica, a médio prazo, uma vida com determinadas características. Ontem, uns bons anos depois de ter proferido a célebre frase, sacudiu a modorra para nos explicar que tipo de vida é essa:

“A insustentável acumulação da dívida externa, privada e pública, o insuficiente desempenho da economia, o aumento do desemprego, a estagnação e mesmo diminuição do nível de vida dos portugueses, com cerca de 18% da população em risco de pobreza e grandes desigualdades de rendimento, fazem com que Portugal – permitam-me a expressão – esteja em apuros”,

É um excelente diagnóstico. Todavia, peca por tardio. Os portugueses já tinham percebido. Há uns meses largos que sabem exactamente o que é viver nessa terra prometida.  E têm já uma ideia muito nítida de como será o futuro próximo aqui em Além do Défice. Por isso, importa dizer ao Dr. Sampaio que o país prescinde de diagnósticos e soluções requentadas (“plataforma de entendimento sim, eleições não” é o novo slogan do Dr. Sampaio) propostas, com uma lágrima de comoção ao canto do olho, por quem patrocinou a jornada em direcção a Além do Défice.

A cada um a sua fundação


Sérgio de Almeida Correia,

Parece que, finalmente, o general Rocha Vieira se predispôs a contar a sua versão da história da criação da Fundação Jorge Álvares. E vai fazê-lo na Gradiva, como não podia deixar de ser, do seu ex-assessor Guilherme Valente.

Pode ser que depois, e uma vez que já passaram dez anos, Jorge Sampaio também venha revelar alguma coisa mais, já que agora é ele quem fica mal na fotografia.

Dez anos volvidos, os portugueses continuam sem saber o que afinal aconteceu, e como aconteceu, com uma fundação criada às escondidas, dias antes da transferência de Administração para a China, que tem albergado ex-governadores, organizado almoços, e servido para continuar a dar trabalho a ex-colaboradores, amigos e protegidos. Ou seja, os mesmos que em Macau já se acolhiam à sua sombra.