Instantes em sépia com capa de muitas cores (5)


Maria Dulce Fernandes,

Três Ratinhos

 

Noite tranquila desconheço o que é há bastante tempo. Presumo que seja o que  acontece quando uma pessoa se deita, dorme mais do que 4 horas e acorda leve e saltitante. Pode parecer mais estranha do que ficção, mas a verdade é que há muito, muito tempo, fui senhora de dormir 10 horas seguidas e chorar por mais. 

 

O despertar da casa começa por volta das cinco e meia e leva-me com ele a reboque. Consigo quase sempre ganhar ao despertador. Ainda ele está no primeiro sono e já eu bailo o fandango dos minutos e das horas até soar a alvorada, suave e calma com toda a beleza com que Grieg a pintou.  O guinchar do moinho do café torna-se uma bela melodia, o aroma espalha-se languidamente pelo ar e o sabor quente, amargo e forte é uma secreta fonte de prazer. 

 

Com a chávena fumegante na mão olho a rua pela janela.  É noite ainda, mas eles já lá vêm, a mãe com os três pequenos que uma carrinha branca amolgada cheia de gente deixa ao fundo da praceta. O veículo segue e eles sobem a ladeira íngreme que dá acesso ao prédio. São três, os pequenos. Parecem uma escadinha. Vejo-os muitas vezes no hall do prédio quando saio para trabalhar cedo, mas não sei se os vejo realmente. Limito-me a um “Bom Dia” ao qual a mãe responde sempre com um alvo e escancarado sorriso, os mais pequenos com um resmungo ensonado .

 

Hoje olhei com olhos de pensar. O mais pequeno já anda pelo próprio pé, mas ainda há bem pouco tempo carregava-o a mãe e as irmãs ajudavam com os sacos. A mãe entra no prédio às seis e meia da manhã e sai muitas vezes já se pôs o sol; o pai está para França, a trabalhar na construção porque lá pagam pelo trabalho que faz. Cá, já por mais do que uma vez que o dono da empreitada abandona o país levando com ele o pão das famílias dos que deram ali o seu suor. Moram naqueles bairros projectados, espécie de ghetos de marginalidade, onde mesmo que sejas bom, tens que ser um artista da sobrevivência. 

 

Oito e quinze e lá vão os três para a creche de mão dada, o bebé no meio. A mais velha não tem mais que sete anos mas é ela quem manda. Hoje não chove e vai a cantar, alegre. Lê-se-lhe no olhar infantil a determinação de quem foi incumbido da tarefa mais ingrata que existe : proteger os mais novos dos males do mundo, das agruras que se escondem no caminho, em cada esquina, em cada sombra. Tão pequena e já tão grande. 

Acenam à mãe que da janela os vê seguir ladeira abaixo, pequeninos e nervosos como três pequenos ratinhos. 

 

Volto-me de novo para a máquina de café e carrego no botão. O som do moinho, tão musical há alguns minutos atrás parece agora um horrível grasnar dum disco riscado, mas o café continua a saber pela vida e arranca-me aquele sorriso de satisfação que eu reconheço um tanto deslocado. Mentalmente desejo-lhes bem e vou à minha vida. 

Instantes em sépia, com capa de muitas cores (4)


Maria Dulce Fernandes,

Hoje a Lídia veio tomar café comigo. É uma espécie em extinção, esta das colegas da escola primária, especialmente quando somos pessoas algo antigas, não declaradamente clássicos artefactos de museu claro está, mas peças daquelas que ainda se conseguem encontrar se se procurar bem, em alguma loja de antiguidades na Rua de S. Bento. 

Falámos de coisas que tinham tanto pó e teias de aranha, que foi uma risota conseguir restaurar-lhes algum do antigo brilho.  

Falámos como crianças, de como crianças de 8 anos se divertiam com…nada! É uma verdade paradigmaticamente prodigiosa! 

 Veio logo à ideia a natação, as peripécias, os mergulhos, o espalhafato… A natação que, como diz a letra da música, era obrigatória na instrução primária nos externatos particulares. Uma piscina na altura era o expoente máximo da riqueza e do estatuto social de alguém.  

Os afortunados de Belém/Restelo que podiam pagar, tinham acesso a um lago, tina, qualquer coisa com água e peixes, que devido à sua densidade e cor, era carinhosamente apelidado de “Caldo Verde” e fazia parte dos lagos exóticos do antigo Jardim do Ultramar. 

 Foi lá que aprendi a nadar; primeiro a bater pés agarrada a um varão, depois com uma tábua, com um cinto…  

O professor de natação era um rapagão bem constituído que fazia as delícias das sopeiras e das amas e que dava pela alcunha de “Cochicho”. Tinha um ponteiro de bambu comprido com que nos batia nos braços, nas pernas e na cabeça, quando não conseguíamos sincronizar os movimentos com as respirações. 

 Pelos padrões de hoje o Cochicho seria um espectáculo de homem bem trabalhado. Pessoalmente, sempre o achei feínho, como qualquer menina até aos 10 anos, para quem os padrões de beleza masculina eram os ternurentos e bochechudos querubins de olhos azuis e cabelos louros que revestiam as pinturas religiosas espalhadas por todos os recantos de todas as igrejas modernas daquela altura. 

 Acontece que no antigamente a educação Moral e Religiosa fazia também parte do programa lectivo e todas as alunas da minha classe aos Domingos de manhã, em jejum e de cabeça coberta, frequentavam as aulas de catequese que culminavam com a confissão a um padre, que antecedia sempre a missa e a comunhão. 

 Num desses dias depois da aula de catequese, dirigi-me ao  genuflexório bafiento e gasto que tinha ficado livre, e depois do “Padre , perdoe-me porque pequei”, lá comecei a contar a minha semana ao indivíduo na sombra para lá das ripas de madeira. Acabada a confissão, soa uma voz aterradora, profunda e trovejante que me diz, ” E o Cochicho, menina, o que é que tem a dizer sobre o Cochicho ?” Morri. 

 O drama, o horror, a vergonha, o medo… não sei explicar. Só podia ser Deus, porque nunca vira um padre na natação !!! … e eu que até nem achava grande piada ao Cochicho ! 

 Aterrorizada, desatei num pranto, e foi necessária a intervenção da catequista para me tirar dali, levar para casa e entregar-me aos meus pais, informando-os da penitência em Padres Nossos, Ave Marias e Salve Rainhas, e que falassem comigo sobre os pecados mortais.  

 Assim que terminei os catecismos e as comunhões obrigatórias para completar a escolaridade imposta pelo regime, excepto em ocasiões de casamentos e baptizados, não voltei à igreja. Terminei com o jugo do medo, mas as cicatrizes morais, essas acho que nunca desapareceram. 

 A colega foi embora em abraços de saudade e eu quedei-me em pensamentos, a cogitar no Cochicho de quem nunca soube o verdadeiro nome, e na voz que tanto me atemorizou e que agora quem sabe não a reconhecerei como o tal de subconsciente, que também nunca conheci pessoalmente, mas que sei que tem tido muito que se me diga. 

Instantes em sépia, com capa de muitas cores (3)


Maria Dulce Fernandes,

Finalmente! Diazinho complicado, este! Mais duas ou três tarefas rotineiras, começar a preparar o fecho e pronto! Acaba por hoje. Amanhã é outro dia.
Outra vez a porta! Um dia destes esgano o raio das campainhas. – Sim? Diz lá. – Posso falar consigo? – Claro , entra ! Então o que se passa agora? – Não é nada de trabalho. – Tudo bem, não te preocupes.
– É o João Carlos. Ele não me respeita. Agarra-me em frente a toda a gente e diz coisas ordinárias de modo que todos oiçam, sejam conhecidos ou não. Já tentei falar com ele, mas nem me responde, vira a costas e vai embora. Assim não consigo trabalhar.
– Olha, pequena, eu posso falar com ele, tentar minimizar esses atritos no trabalho, mas não sei se vai resultar bem, ou pelo menos como gostarias que resultasse. Tu sabias que irias ter uma luta muito grande pela frente, pela aceitação, pela integração e pela igualdade, verdade? O João Carlos é teu amigo desde a primária, foi teu padrinho de casamento e é “tio” dos teus filhos. Se a tua decisão foi um choque para todos os teus amigos, imagina para o João Carlos. – Eu entendo isso tudo. O meu psicólogo já trouxe o assunto à baila diversas vezes . Eu sabia e sei que não vai ser um mar de rosas, mas principalmente vindo do João Carlos, porque temos uma grande cumplicidade desde miúdos, dói mais que tudo o resto. – Ora aí está! Tu sentes-te revoltada porque ele não te aceita nem te apoia e o João Carlos sente-se revoltado porque se sente traído. Afinal ainda há bem pouco tempo os dois eram unha com carne, nas noitadas, nos copos, com as mulheres, no futebol, nas patuscadas… – Mas isso não era eu! Era uma versão de mim que eu detestava! Agora sinto-me completa neste corpo que não percebia, que me incomodava como se de uma prótese se tratasse. – Longe de mim prensar que mereces menos do que a versão de ti que te faz feliz, mas tens que pensar que o Manuel foi a única versão da Emmanuelle que o João Carlos conheceu a vida inteira e de que não vai abrir mão com o estalar de dedos que foi a tua decisão. De qualquer modo, vou conversar com ele acerca do seu comportamento no trabalho, mas isto não quer dizer que lhe vou abrir a cabeça , trepanar e transplantar ideias. Tens que dar tempo ao tempo. E não chores, caramba ! – Vou tentar… obrigada por me ouvir. – Sempre que precisares, pequena, vai tranquila.
Parece que levei uma tareia, caramba. Gosto dela, como gostei dele. Não quero nem posso deixar transparecer a dificuldade que tive em compreender. Aceitar, aceito sempre tudo aquilo que contribua para o bem estar, a qualidade de vida e a felicidade das pessoas boas. Mas não posso fingir que a revelação brusca Manuel/Emmanuelle não foi um potente murro no estômago do qual não me recompus, eu e toda a gente que com ela priva. Talvez tenha sido melhor assim. Terapia de choque, PTSD, sei lá.

Instantes em sépia, com capa de muitas cores (2)


Maria Dulce Fernandes,

Agosto já não cheira a Agosto.

O odor que paira no ar traz uma mistura de pó, fumo de escape, lixo, plástico quente, beatas ressequidas, cozinhados gordurentos e transpiração.

Agosto começava em Nandufe com o perfume das estevas, das azedeiras e da hortelã. Cheirava a verde pelas veredas estreitinhas e húmidas que iam da casa até ao rio , passando pelo tanque das lavadeiras onde o cheiro a azul e branco acompanhava o caminho por meio das silvas até à grande balsa feita com madeiras velhas e quatro bidons vermelhos de ferrugem, a cuja passagem os alfaiates moviam apressadamente as patas para fugir de onde o espelho abria em par. O ar era morno e doce , os olhos brilhavam acima dos pomos rosados e o tempo tinha milhares de minutos alegres e preguiçosos.

Agosto acabava em Alvor, com o cheiro a mar, a sal e a sorvete de morango. Os robalos pulavam na lota, o carvão crepitava com fumo almiscarado . O sol quente doirava a pele lentamente , naquele compasso arrastado das tardes de calmaria que convidavam à leitura e à modorra. O mar estava invariavelmente frio com dias de caldo verde, em que a temperatura da água convidava ao demolhe prolongado. Inesquecível o perfume do óleo de coco misturado com azul transparente e límpido.
Já não consigo encontrar o Agosto, nem nos aromas, nem na cor ou no sabor .

Agosto envelheceu mal. Tornou-se obeso, salobro, desagradável até. Agosto sucumbiu aos vícios humanos e embruteceu.

Instantes em sépia, com capa de muitas cores


Maria Dulce Fernandes,

Não via a Maria João vai para 20 anos. Eramos as marronas da turma, companheiras de carteira e cúmplices, durante os dois últimos anos de liceu, naquele palacete dos Condes da Ribeira Grande, hoje em vias de se tornar Hotel Museu.
Curiosamente a Maria João está uma elegância. Ela que era referida carinhosamente como “a gordinha” conseguiu uma silhueta curvilínea e mantém uma forma impecável. Confesso que senti uma ponta de inveja e saudade de mim, de quando éramos as duas contra as revolucionárias de Santo Amaro, as que votavam nas greves para poderem ir para a praia.
Conversámos horas sobre tudo, sobretudo sobre as nossas peripécias de miúdas que em meses cresceram anos. As nossas campanhas no Liceu para as eleições presidenciais foram loucas. Apoiante incondicional da UEC e de Octávio Pato, a Maria João colava os seus cartazes por cima dos meus e pintava bigodinhos de Hitler nos “meus” Ramalho Eanes. No fim do dia arrumávamos as trouxas e seguíamos a rir que nem umas malucas das peripécias do dia. Foi sempre assim. Unia-nos uma forte amizade e uma loucura saudável que todas as colegas e professores aceitavam, apreciavam e até acarinhavam. Depois das escaramuças ideológicas, a política ficava sempre relegada para aquele plano em que não belisca a amizade.
A Maria João nunca teve filhos. Foi como cooperante de PCP para as ex-colónias e o que viu e viveu por lá marcou-a de tal modo, que a ideia de pôr filhos no mundo deixou de fazer sentido.
Senti-a calada e reticente durante grande parte do tempo em que tagarelámos interruptamente, mais eu e as minhas lembranças. A dado momento olhou-me fixamente, apenas para dizer que o “terceiro marido” era a Guilhermina Parada, que estavam juntas há quase 10 anos e que nunca se tinha sentido tão realizada.
Sorri-lhe. Depois de um amigo e colega se revelar transsexual e de o meu surfista dourado, a minha grande paixão de adolescente me apresentar o marido, ver a minha melhor amiga feliz com quem escolheu para companheira, só me pode encher de alegria.
A Maria João continua a dar aulas, contando os dias para a reforma dourada que ambiciona, repleta de projectos e planos para uma volta ao mundo a dois. Falava da itinerários, povos culturas, paisagens… ah a reforma, são apenas mais cinco anos.
Despedimo-nos com a promessa de não esperarmos outros 20 anos, até porque quem sabe, nem os temos para esperar.
Quem sabe nem cinco anos teremos e a utópica reforma nunca chegará. Penso nisso todos os dias.