Grandes contos (5): Raymond Carver


Pedro Correia,
O universo de Raymond Carver é povoado de quadros agrestes, de visões desencantadas de um quotidiano onde a esperança há muito deixou de morar. É um mundo citadino, contemporâneo, cheio de personagens que andam à margem do afecto – um mundo de vencidos da vida, confrontados com a erosão de toda a espécie de ideais. Um mundo onde, apesar de tudo, irrompem uns súbitos lampejos de ternura: é nesta complexa atmosfera que tem feito soçobrar por manifesta incapacidade tantos escritores de renome que o malogrado norte-americano se agiganta, como cronista perfeito da era de todas as imperfeições, sem rasto de heróis. O tédio das sociedades materialistas e o desgaste do amor são temas que lhe são caros.
Há um conto dele a que regresso muitas vezes – um dos textos de ficção mais memoráveis que já li. Intitula-se O Banho e está incluído numa espécie de livro-testamento do autor, com um título que só por si é uma obra de arte: De que Falamos Quando Falamos de Amor (1981). É a história pungente de uns pais em risco de perder um filho: não conseguimos imaginar um drama existencial maior.
Com este ponto de partida, qualquer outro autor facilmente se enredaria nas malhas de um sentimentalismo postiço. Mas Carver, artista maior, é incapaz de fazer o leitor cair nesta armadilha. O estilo é minimal, despojado de artifícios retóricos, não há tiradas grandiloquentes nem sequer uma palavra a mais: há emoção genuína, criada pelo poder da sugestão visual que emana da prosa sábia do autor, capaz de nos identificar com o sofrimento surdo dos pais, tão mais evidente quanto maior é o pudor em exprimi-lo. Ela teima em permanecer no hospital, junto da criança; ele prefere passar por casa para tomar um banho. Cada um a seu modo intui que existe um mundo em iminente derrocada.
O pai “tinha sido um homem feliz e com sorte, mas o medo fê-lo desejar tomar um banho” – ritual de purificação. A mãe, dirigindo-se a uma janela do hospital, “viu passar um carro e entrar nele uma mulher de casaco comprido, desejando estar no lugar dela, ser conduzida dali para outro lugar qualquer”. (Edição portuguesa da Teorema, tradução de Carlos Santos.)
De que falamos quando falamos de amor? De tudo isto: nenhum caminho é tão estreito como o que nos conduz à ilusão da felicidade. Carver, que teve uma vida dura e dolorosa, sabia bem do que falava. Falava de sentimentos em convulsão. Falava de cada um de nós, afinal – e dos frágeis fios que emprestam estabilidade emocional à vida.

Grandes contos (4): Borges


Pedro Correia,
Jorge Luis Borges fala-nos ao ouvido, com clareza e minúcia, como se nos narrasse histórias ocorridas nos confins do tempo. O mestre argentino manipula a ficção com artes de prestidigitador: nos seus contos, tudo nos soa à estrita realidade, por mais galopante que seja a imaginação deste homem que se dizia influenciado por Stevenson, Shaw e Chesterton.
Borges foi um dos raros autores que viu o seu nome coroar-se em adjectivo. Fala-se hoje do imaginário borgeano como se fala do kafkiano: nada mais natural, tratando-se de dois gigantes da literatura. O universo borgeano, povoado de encruzilhadas e labirintos, de equações matemáticas e delirantes divagações históricas, faz-nos viajar no espaço e na memória, em permanente atmosfera de sonho, criando uma contínua erosão das fronteiras entre a ficção e o ensaio, entre a prosa e a poesia.
Incluído no seu livro Ficções (1944), em que cada texto é uma obra-prima, destaca-se este notável Pierre Monard, Autor do Quixote. Plagiador incansável, Monard dedicou toda a vida a uma virtuosa empreitada: reescrever o Quixote. Mas o seu perfeccionismo levava-o a refazer permanentemente o trabalho, ao jeito da interminável manta de Penélope. No fundo, “não queria compor outro Quixote – o que é fácil -, mas ‘o’ Quixote. (…) A sua admirável ambição era produzir umas páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes.” (Edição portuguesa da Teorema/Círculo de Leitores, tradução de José Colaço Barreiros).
Este conto arquitectado num estilo que o despe de artifícios formais, quase utilizando a técnica de uma notícia de jornal, constitui a mais poderosa sátira à crítica literária que conheço, mostrando-nos um Borges no seu melhor: a erudição com rendilhados irónicos, entre pinceladas de absurdo sempre a traço fino.
“A elaboração, em Kafka, é menos admirável que a invenção”, anotou um dia Borges, insaciável leitor e divulgador de outros autores. Palavras que fazem ricochete: poder-se-ia dizer o mesmo deste prodigioso inventor de mundos e de mitos.

Grandes contos (3): Albert Camus


Pedro Correia,
Pode um conto ser deliberadamente político sem nunca parecer que o é? Pode. Albert Camus dá-nos um exemplo admirável numa das histórias incluídas na excelente colectânea de narrativas intitulada O Exílio e o Reino (1957). O conto a que me refiro, O Hóspede, é daqueles que nos perduram na memória graças à poderosa sugestão visual da escrita de Camus, na sua elegância sincopada. Uma espécie de “Hemingway revisitado por Kafka”, na definição algo irónica de Sartre, que nunca escondeu uma certa aversão pelo autor d’O Estrangeiro, um dos raros escritores franceses do século XX que jamais se deixaram seduzir por sistemas totalitários. É este, aliás, o cerne deste conto hipnótico, que nos fala da solidão, do silêncio, da violência surda, da incomunicabilidade – e também de política, oculta num admirável jogo de metáforas: afinal que papel resta aos intelectuais num mundo que volta a ser dominado por pulsões irracionais de toda a espécie?
O professor Daru – alter ego do autor – encarna este dilema, no quadro da cruel guerra da Argélia, nunca aqui nomeada expressamente mas subjacente do primeiro ao último parágrafo. Camus, francês nascido na Argélia, sabia bem o preço a pagar por aqueles que, como ele, não optaram por nenhum lugar em nenhuma trincheira do conflito.
Num momento em que a História caminha a passo cada vez mais acelerado, há uma estranha actualidade neste confronto de culturas simbolizado no professor francês com alma de apátrida que dá abrigo por uma noite, na sua escola abandonada, ao árabe suspeito de ter infringido a lei. Em pano de fundo, com toda a sua carga simbólica, a nua imensidão do planalto argelino, às portas do deserto, magistralmente descrita pelo autor: “Daru contemplou o céu, o planalto, e, para além, as terras quase invisíveis que se estendiam até ao mar. Nesse vasto país, que ele tanto amara, estava agora só, completamente só.” (Edição portuguesa dos Livros do Brasil, tradução de Cabral do Nascimento).
Não é na irreparável solidão desse deserto que vive o homem contemporâneo, entre as certezas que se desmoronam e um terror sem rosto incrustado no nosso inconsciente colectivo?

Grandes contos (1): Miguéis


Pedro Correia,

s320x240[1].jpg

 

Um dos mais belos contos de todos os tempos em língua portuguesa tem como cenário Baltimore, a cidade portuária norte-americana onde viveu e morreu Edgar Allan Poe, e decorre na noite de Natal. O autor, José Rodrigues Miguéis, sabia bem do que falava nesta extraordinária peça de ficção ambientada no Novo Mundo mas repassada da velha nostalgia lusitana: ele é um dos nossos autores da diáspora, que tão fértil tem sido às letras portuguesas. Como outros dos seus contemporâneos, designadamente Adolfo Casais Monteiro, Agostinho da Silva e Jorge de Sena, Miguéis viveu largos anos num desterro voluntário, longe do sufoco salazarista.

Mais até do que sucedeu com Sena, o autor de Páscoa Feliz deixou as marcas do exílio bem espelhadas nas páginas dos seus livros – designadamente nas short stories de Nova Iorque, a cidade onde permaneceu décadas sonhando com a Lisboa natal que só subsistia na sua transbordante imaginação de ficcionista, plasmada nos capítulos de romances como A Escola do Paraíso ou O Milagre Segundo Salomé.

 

O conto a que me refiro intitula-se  O Viajante Clandestino  e tem reminiscências de Conrad ou MacOrlan, aliás autores citados neste relato de um homem sem identidade que desemboca na América após vários dias de viagem no porão de um decrépito cargueiro em busca de dias melhores na terra de todos os sonhos.

Quis o destino que o velho barco atracasse na noite de Natal a Baltimore, «cidade algo sombria, pacata e ordeira», com os seus cais «soturnos, caóticos, confusos», semeados de hangares em ruínas e «barracões grisalhos».

Miguéis, hábil construtor de atmosferas, serve-nos de guia: «Há cidades que parecem viver na intimidade dos dramas e segredos do mar, onde este está sempre presente, em convívio com os homens. E nada fala tanto ao coração do errante solitário como este apelo eterno do mar, junto aos cais.»

s320x240[2].jpg

 

Véspera de Natal: o molhe estava quase despovoado. Os tripulantes do cargueiro desembarcaram rapidamente, sumindo-se nos dédalos citadinos. Só o clandestino permaneceu horas esquecidas no porão, aguardando o momento de saltar para terra.

«Tinha entrevisto na noite, ao chegar ali, os perfis dos barracões do porto, mais longe fábricas, prédios, o clarão mortiço da cidade. Estava na América, a dois passos do trabalho e do pão, a um salto do seu destino. E o coração batia-lhe de anseio.» 

 

Repetia-se um quadro experimentado durante séculos por marinheiros portugueses na eterna demanda de novos rumos. Mas este marujo improvisado, de quem apenas ficamos a saber que se chama Tomé, não visa dilatar a fé ou o império – só pretende conseguir emprego na costa leste dos Estados Unidos da América. Nada tem, excepto a sua força de trabalho.

Miguéis, por convicção ideológica e afinidade geracional, foi compagnon de route dos neo-realistas portugueses, embora com uma mundividência muito mais alargada do que a generalidade dos representantes desta escola. Era um escritor que se identificava profundamente com o destino amargo ou trágico das suas personagens, geralmente de condição humilde, várias delas também marcadas pelo desterro, como se verifica nas pequenas ficções incluídas em  Gente da Terceira Classe (1962), o livro do qual é extraído este conto.

s320x240[1].jpg

 

Tomé acaba por se escapulir do barco rumo à malha urbana. Mas esbarra com um agente da polícia, bem capaz de lhe cortar as asas ao sonho. Valeu-lhe o facto inesperado de ser noite de Natal: nesta quadra, até a autoridade mais empedernida afrouxa um pouco.

«Merry Christmas», atira-lhe o polícia, com bonomia, enquanto ele se afasta, fundindo-se na noite, «com a garganta apertada, a rir e a chorar».

À hora a que milhões de americanos consoavam, no conforto burguês das suas habitações calafetadas, este português apátrida renascia como cidadão do Novo Mundo no frio nocturno das inóspitas ruas de Baltimore.

Exilado e despojado, como o menino-deus nazareno: a eterna magia da noite de Natal.