O Almirante


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(Gouveia e Melo, fotografado por Miguel Valle de Figueiredo)

O país estava exausto pelos efeitos do Covid-19, atrapalhado pelos normais constrangimentos e hesitações governamentais face àquele enorme desafio, tudo incrementado por alguns ziguezagues desnecessários. Após um ano de pressão pandémica o alívio da esperada vacinação começou embrulhado em confusão executiva e manchado por alguns casos de nepotismo, na apropriação de vacinas por membros da elite socialista, algo exasperante e incrementando dúvidas sobre a capacidade de uma competente vacinação universal. Neste caso não é necessário fazer o rescaldo das práticas então seguidas pelo Ministério da Saúde, e restante governo, pois nisso logo se dividem as opiniões devido a critérios advindos do viés partidário. Mas é pacífico constatar que após Gouveia e Melo ter sido colocado no topo da sua estrutura organizacional  – e de ter lhe reforçado a participação militar  – o processo nacional de vacinação foi um sucesso, até inesperado. Para tal contribuiu a credibilização dos serviços: explicitando a confiança nacional nos ditâmes dos agentes da Saúde (remetendo os “negacionistas” das vacinas a um minoria histriónica). Mas também na racionalidade e na rectidão dos processos, pois logo minguaram as atrapalhações executivas e, mais, desapareceram as notícias sobre autarcas e deputados a reservarem alguns lotes de vacinas para si, familiares, amigos e vizinhos. E contribuiu também, não o esquecer, a constante e ponderada disponibilidade comunicacional do coordenador-geral Gouveia e Melo, sossegando e mobilizando as hostes nacionais.

 

O homem tornou-se assim popular, até por alguma distinção face ao errático, e até vácuo, discurso de vários políticos e altos quadros da administração pública (e lembro “o caso das compotas”, exasperante minudência desqualificadora – e em momento tão pressionante – das hierarquias do funcionalismo). Ao fim de alguns meses, consabido o sucesso da vacinação (até em termos internacionais), começaram os dichotes críticos, advindos dos produtores de opinião (ditos “comentadores”) ligados ao partido do governo, na senda de protegerem a imagem da dita “Super-Marta” – então até dita futura “secretária-geral” e agora próxima “presidente da câmara” – e os méritos dos restantes dignitários socialistas.

Disse-se então, tal como agora se diz, que o homem tem ambições presidenciais. Forma óbvia de apoucar a sua contribuição naquele momento, como se reduzindo-a a um modo, até moralmente ilegítimo, de servir uma esconsa agenda pessoal. Tal ideia – fundamentada ou não – logo se disseminou. E decerto que muita gente a acolheu com agrado. Por escassez de vultos confiáveis no espectro político português. Pela influência de um imaginário que consagra uma mítica imagem de rectidão intrínseca ao oficialato (esquecendo que, tal como entre os civis, “há de tudo” entre os militares). Pela persistência de uma visão muito conservadora (reaccionária, mesmo), saudosa de uma “ordem e disciplina” na sociedade, passível de ser dinamizada pela tradicional disciplina hierarquizada militar – o que é um erro, a sociedade não é um quartel nem um navio… E acima de tudo por uma incompreensão sobre o sistema político português: pois o que consagrou o então vice-almirante foi a sua capacidade de planificação e execução de uma política nacional, e em difícil situação de emergência. Ora isso são as características que se deverão ambicionar para as funções de… primeiro-ministro, na liderança de um executivo. Ou seja, clamar por um qualquer “gouveia e melo” para a presidência da república é não perceber o nosso sistema semipresidencial. 

Dito isto lembro o óbvio. As Forças Armadas têm sido negligenciadas – nos orçamentos e na sua valorização social. Temos, felizmente, um oficialato civilista, que apesar dos tratos de polé que a instituição vem tendo se mantém isento de práticas pressionantes sobre o poder político. E este responde como tem respondido: lembro que o antepenúltimo ministro da Defesa abandonou o cargo sob processo judicial e em pleno tribunal se defendeu com o argumento que era intelectualmente incapaz de perceber a documentação que recebia, assim sendo absolvido. Chegámos a este ponto de destratamento das Forças Armadas por parte do regime…

De repente estala a guerra na Ucrânia e a NATO aplica-se a apoiar o país invadido. A Portugal calha alguma, muito minoritária, contribuição em material para essa ajuda. Ou seja, chama-se a atenção para o estado do “paiol” – compraram-se 37 tanques ditos “Rolls-Royce” e só 2 ou 3 (!) é que estão operacionais, e desprovidos de munições reais…! É necessário um navio para ladear um passante russo e este não está nas condições apropriadas tal como o seu substituto, que logo se avaria. Face a estas “barracadas”, e em surdina, vão-se ouvindo alertas de que isto corresponde ao estado-geral da “tropa”, fruto das continuadas punções orçamentais e de políticas de Defesa Nacional desenquadradas.

E o que acontece? Os tanques não andam, os navios não navegam, o resto suspeita-se encravado. Apela-se à “responsabilidade política” (a la Jorge Coelho) de quem tem conduzido a infraestrutura militar a este ponto? Nada disso. Ou seja, exige-se civilismo à hierarquia militar, e esta cumpre. E ainda bem. E o poder político, o tal “civilismo”? Manda actuar os “comentadores”…

Este “caso Gouveia e Melo” é bem notório disso. O navio “Mondego” estaria há muito tempo com falta das condições necessárias. Os marinheiros sabiam-no. Receberam instruções para acompanhar um navio russo, missão peculiar dada a guerra. E aproveitam o facto excêntrico, e passível de algum impacto internacional, para uma manifestação pública – uma “arruada” dir-se-ia em linguagem civil. De facto, é um acto político que procura as maiores repercussões possíveis – uma espécie de acção sindicalista partidarizada. Mas é também um apelo, até uma convocatória, aos militares dos três ramos que se movimentem, que pressionem o poder político e as hierarquias militares. Em resposta, o Chefe de Estado-Maior exige o respeito pela hierarquia civilista – e fá-lo publicamente, forma de comunicar não só com todos os elementos das forças armadas mas também com a sociedade (civilista), algo estupefacta com esta movimentação. Ou seja, Gouveia e Melo, fala com os “seus” homens e com a sociedade – sabendo que o fez antes, noutra situação, com efeitos bem positivos.

O que respondem os apoiantes deste poder – os socialistas, os avençados ou funcionários “comentadores”, os arautos geringôncicos? E alguma extrema-direita, temerosa de que uma figura de teor patriarcal esvazie o vácuo balão Ventura? Criticam-no a ele por falar em público, dizem-no “ambicioso sem princípios” (José Pacheco Pereira). Insisto, “responsabilidade política” por quem deixou chegar a manutenção da tropa a este ponto? Nada…

Dito isto, se por acaso Gouveia e Melo aspira mesmo a ser presidente da República e se se candidatar eu não votarei nele, menos por ele próprio do que por temer essa ideia difusa de que um militar “põe ordem na casa”… Excepto, entenda-se, se enfrentar o actual presidente da Assembleia da República, Santos Silva – consabido relevante colaboracionista socratista -, que utiliza o desempenho destas suas funções para acalentar uma futura candidatura, coisa que José Pacheco Pereira, o ideólogo da “geringonça considera errada… se for o caso de Gouveia e Melo.

Mas espero bem que não seja preciso, que outrem avance. Contra este socratismo sem Sócrates.

 

 

Os nossos generais comentando a guerra


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A semana passada ouvi, um pouco “en passant“, dois generais portugueses, Costa e Cunha, comentando na televisão a guerra ucraniana. Fiquei um bocado incomodado – em parte, mas não só, pelo vincado tom “compreensivo” da atitude russa e até credibilizador dos seus argumentos. É certo que sobre o que eles avançavam relativamente às movimentações militares nada posso dizer, pois desconheço-as e sou totalmente ignorante nesse ofício, que é o deles. Mas o que mais se me realçou foi o seu fundo cultural, a mundividência que neles transparecia, até mesmo sendo explicitada.  Enfim, monologuei um resmungo, e mudei para um dos canais que venho seguindo. E deixei-me pensar que se calhar a minha reacção se devia apenas ao meu (envelhecido) mau feitio.

Passados dias encontro na imprensa eco que o meu mal-estar não foi único, mais gente resmungando com estes contributos do nosso generalato. Há mesmo quem lhes atire tendências putinescas. Ora nem é isso que me convocou a atenção, foi muito mais a tal mundividência que patentearam, traduzível numa “cultura profissional”.

Explico-me, começando por uma ressalva (o tal “disclaimer” que os do “broken portuguese” agora usam), que julgo necessária para me fazer compreender: o militar português contemporâneo cuja memória mais respeito – e sem menosprezo por nenhum outro – é a do general Vassalo e Silva. Ao qual a democracia justamente reabilitou mas ao qual talvez não tenha honrado o suficiente, por razões se calhar incontornáveis. Ressalvo isto para não aparecer aqui como um patético e furioso castrense de sofá. Avante…

Sendo eu um civilista, e pouco lido em história militar e nas ciências desse ramo, tenho uma vaga ideia de que diante de uma invasão de um país por forças estrangeiras bastante mais poderosas haverá, grosso modo, quatro tipos de respostas: 1) rendição imediata, salvaguardando vidas humanas e, secundariamente, bens materiais; 2) uma breve resistência, durante a qual se procura organizar uma hipotética futura guerrilha; 3) resistência extremada, até sacrificial, assente na fanatização nacionalista e na demonização do invasor (como na II Guerra Mundial o foi a japonesa e a alemã na frente oriental); 4) mobilização geral dos recursos humanos com exaltação do patriotismo, possibilitando uma resistência algo prolongada, solicitando apoios externos, políticos-diplomáticos e mesmo militares. Tudo para procurar uma negociação final em termos o menos assimétricos possíveis, salvaguardando o que for possível para os desígnios nacionais.

Parece-me óbvio que é este último o objectivo ucraniano. Ora o que eu ouvi dos dois generais comentadores é uma acusação ao nacionalismo ucraniano (Costa inclusivamente igualizou o nacionalismo ucraniano e o russo, a ambos negativizando), e uma denúncia da atitude do seu governo em mobilizar a população para esta defesa – julgo, mas não afianço, que um deles até chamou a essa opção “criminosa” – dada a disparidade de forças.

Ora aquilo que me choca – para além das perspectivas e dos conhecimentos que estes generais possam patentear sobre as práticas militares em curso e as questões geoestratégicas envolvidas – é ter dois generais portugueses a criticarem desta forma radical uma opção patriótica de defesa de um país. Pois se é para isto que formamos generais, se é para ter generais que julgam errado defender um país para conseguir melhores termos de rendição, acautelando o futuro o melhor possível, se é para termos esta mentalidade de funcionário público do economato no topo das nossas Forças Armadas, então será melhor encerrá-las. E com as poupanças aumentar o contributo à NATO (ou similar) que nos trate da Defesa. Ou contratar umas empresas mercenárias. 

Pois com estes generais não iríamos lá.

 

A guerra na primeira pessoa


odiplomata,

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Quando estive há cerca de dois meses na Bósnia, conheci um jovem guia, que está a tirar o doutoramento numa universidade de Ancara e que tem estado envolvido no museu de Srebenica. Este projecto ocupa as antigas instalações do que foi o então quartel-general do tristemente célebre contingente holandês ao serviço da UNPROFOR, localizado em Potacari, a poucos quilómetros da vila de Srebrenica, que viu serem assassinados de forma sistemática mais de oito mil bósnios muçulmanos (bosniaks), entre 11 e 16 de Julho de 1995, sob os ordens militares do general sérvio Ratko Mladic. A meio de uma das conversas que tive com Jasko, fiquei impressionado com o conhecimento que detinha sobre a presença portuguesa nas missões da ONU e NATO. Apesar de ele não ter mais de 30 anos, tinha bem presente a boa prestação que o contingente português teve ao serviço da força de manutenção de paz da NATO (IFOR), em 1996, cujo objectivo era a “implementação” das linhas dos Acordos de Dayton (1995). Tratava-se da primeira projecção de forças militares nacionais em larga escala desde o fim da Guerra Colonial.

 

Já antes, em pleno conflito nos Balcãs, Portugal teve uma participação muito limitada, mas importante, na missão UNPROFOR (United Nations Protection Force), destacando para a Bósnia e Croácia, entre 1992 e 1995, um pequeno grupo de “observadores militares” não armados de capitães e majores do Exército e Força Aérea. Esta operação acabou por ser uma extensão da missão europeia de verificação do cessar-fogo entre a recém-proclamada independente Eslovénia e a (ainda) Federação da Jugoslávia. Quando a Missão de Monitorização da CEE/UE deu lugar à força da ONU, os primeiros capacetes azuis portugueses chegaram no primeiro trimestre de 1992. Nesse primeiro momento, foram apenas cinco “observadores” integrados na United Nations Military Observation (UNMO), um ramo da UNPROFOR.

 

Entre 1992 e 1995, tempo do mandato da UNPROFOR, Portugal foi mantendo “observadores” no terreno, que iam desempenhando missões diárias que, embora não sendo de perfil militar puro e duro, se revelaram de enorme importância na criação de um clima de confiança no seio das populações tocadas pelos soldados nacionais. Como se pode ler na introdução do recente livro “A Guerra na Antiga Jugoslávia Vivida na Primeira Pessoa” (Colibri, Maio de 2018), coordenado pelos militares Carlos Branco, Henrique Santos e Luís Eduardo Saraiva, os observadores “viveram com a população em locais recônditos com quem partilharam o infortúnio. Sentiram o pulsar das comunidades onde estavam inseridos, conheceram os seus dramas em primeira mão. Pisaram minas, foram atingidos com estilhaços de granadas, tiveram acidentes de viatura, estiveram nas miras dos snipers, em zonas de morte, foram vítimas de ataques e assaltos, supervisionaram a troca de cadáveres e de prisioneiros de guerra. Foram testemunhas em primeira mão de violação de acordos. Sofreram a prisão e interrogatórios agressivos. Viveram em condições precárias, por vezes, sem electricidade, sem água corrente, aquecimento ou vidros nas janelas, oq eu se tornou numa minudência para que estava diariamente debaixo de fogo de morteiros de artilharia.

 

Foram ainda apanhados entre fogos cruzados, controlaram o tráfego aéreo, lidaram diariamente com as facções, pediram evacuações médicas, e tiveram de tomar decisões eticamente difíceis, algumas delas com consequências dramáticas. Testemunharam em directo o sofrimento. Viveram as agruras da guerra na sua plenitude.

 

São estes testemunhos que agora podem ser lidos num livro que reúne textos (em português e inglês) de militares que fizeram parte da UNMO. Com prefácio do embaixador José Cutileiro, este livro é um contributo inestimável para o conhecimento de quem se interessa pelo conflito da antiga Jugoslávia, que tantas marcas geopolíticas deixou naquela região da Europa. Mas é também uma janela para se perceber de que forma a “experiência jugoslava” marcou um novo período na projecção internacional das Forças Armadas Portuguesas no âmbito de nova ordem sistémica… Mais cosmopolita, interdependente e difusa.

 

Texto publicado originalmente n’O Diplomata