Errar melhor


Tiago Mota Saraiva,

(publicado hoje no i)

A célebre expressão atribuída a Séneca “Errar é humano” está instalada no espaço público sem que valorizemos verdadeiramente a sua dimensão.

Tantas vezes o brilho do estrelato retira da narrativa a importância do erro. Cremos que a sua assunção prejudica. Valorizamos a aproximação ao comportamento de máquinas que inventamos, com as quais se procura diminuir a margem de erro e negligenciamos o fascínio de sermos humanos. Olhamos o erro com desdém.

Quando Cristiano Ronaldo marca dizemos ser uma “máquina de fazer golos”, quando falha não lhe toleramos o comportamento humano. Dizemos que está mais velho, essa condição humana para que todos caminhamos.

Esquecemos que uma história de sucesso pode ser construída a partir de erros. Mesmo no futebol. Não esqueçamos aquele minuto 70 da temporada passada, em que o Benfica perdia em casa com o Sporting por 0-3. Tudo parecia perdido até que a multidão irrompe a cantar “Eu amo o Benfica”, construindo-se a partir de um jogo falhado a caminhada para o título.

No espaço da decisão política, território de tantos falhanços, está instituído que o erro deve ser escondido de todas as formas. “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, sintetizou Cavaco. Independentemente da ridicularização a que a declaração se prestou, ainda hoje corresponde à moral reinante. Valoriza-se o político-máquina cheio de certezas que perante os erros não hesita em mentir ou desdizer-se na esperança de que a memória colectiva seja curta. Por mais idiota que isso possa parecer, isto tem funcionado. É uma boa receita para quem quer preservar o poder mas não para quem quer governar melhor e de uma forma mais transparente. A aceitação do erro e a sua exposição pública, além de permitir perceber melhor as decisões e as suas consequências, torna muito mais difícil a sua repetição.

A assunção do erro permite que se erre menos ou, pelo menos, melhor e na política permite-nos distinguir decisões erradas – resultado da muito nobre condição humana – de políticas produzidas para falhar.