Excerto sem númeração


Patrícia Reis,

Excerto do livro, As casas de Mirandela, Dóris Graça Dias, 1991

“Ela, quando o vir caminhando pela longa varanda, na sua direcção, encostar-se-á à parede (que fica entre a porta da cozinha e um espaço aberto, onde dois tanques servem momentos de lavar roupa) com as mãos atrás das costas para sentir o frio da pedra e, quando ele estiver a distância suficiente para a ouvir, perguntar-lhe-á:
– Como te chamas?
Ele parará de imediato. Estenderá a mão direita para o suporte de ferro do estendal e abandonará o corpo num desenhar de ângulo agudo em relação ao chão. O braço esquerdo pendendo. Livre. Dir-lhe-á o nome. Ficará à espera, desatento, que ela lhe diga o seu. Ela não lho dirá, antes perguntará:
– Quantos anos tens?
Ele endireitar-se-á encostando o frágil corpo ao ferro no mesmo instante em que o envolverá com o braço direito. Estenderá a mão esquerda, mostrando-lhe quatro dedos abertos e dirá:
– Est… quatro!
Ela, precipitadamente, dirá:
– Sou mais velha que tu um ano…
Esclarecerá:
– Tenho cinco!
Ele olhá-la-á desinteressado.
Mais tarde, quando passarem horas na invenção de jogos, ele, repetidas vezes afirmará:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
E ela, repetidas vezes o contrariará nessa inversão do tempo. Dir-lhe-á a impossibilidade dessa ultrapassagem. Dessa mentira. Julgá-lo-á tonto, despropositado. Depois, reconsiderará. Esperará o ano que a ele falta, para entender, como ela entende, essa incapacidade temporal e então dir-lhe-á:
– Agora, eu tenho seis anos e tu cinco: continuo a ter…
Ele interromper-lhe-á a frase e, no mesmo tom dos quatro anos, dirá:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
Será nessa altura, nessa idade que ela conhecerá, pela primeira vez, desejo de bater.
Não o fará. Recorrerá ao quarto. À sua irmã.”

Excerto (4)


Patrícia Reis,

A FÁBULA

 

O antigo embaixador estava vestido de seda e, por estranho que pareça, o caminho que iria conduzir aos memoráveis teve início no copo de uísque escocês que andava nas suas mãos. Igual líquido circulava pelos copos daqueles que o acompanhavam, e talvez por isso mesmo as gargalhadas que soaram no amplo salão da casa tenham sido tão desabridas, quando o anfitrião disse para aquele que lhe estava mais próximo – «Afilhado, agora que uns quantos mercadores estão empenhados em demonstrar que a Terra é plana, não faltará quem venha dizer que a história é redonda. Estão a ver como se constrói uma bela impostura? A Terra lisa como um guardanapo, a história sem uma ponta por onde se lhe pegue como se fosse uma esfera. E agora, tu, Bob? Como é que vais desfazer um embuste tão bem montado?»

Os vários homens que o acompanhavam desmancharam‐se de riso. Depois é que chamaram a portuguesa para que se risse também. Ela abandonou o canto onde se encontrava e foi inte‐ grar o grupo que se divertia em torno do anfitrião, mas em breve, naquela divisão apenas iriam permanecer o homem vestido de seda, o afilhado Robert Peterson e ela, ou melhor, eu mesma. Então o silêncio ali dentro, em contraste com a alegria que se propagava pelas outras divisões da casa, criou um intervalo demasiado prolongado entre nós, até que o padrinho, com um aceno amigável, me chamou para junto da grande janela. Lá fora, uns fiapos brancos tinham começado a voar com umas horas de atraso em relação à previsão da meteorologia, e o antigo embai‐ xador achava interessante que eu assistisse à sua chegada. Ele disse – «Venha até aqui, Miss Machado, venha ver o que está a cair do céu sobre o nosso jardim.» Eu fui e ali ficámos os três junto do vidro, tocados de encantamento e melancolia.

Mas essa fina contemplação diante do prenúncio da neve não durou um instante. O padrinho logo se desprendeu daquele clima de fascínio e perguntou ao Bob, como se a neve não exis‐ tisse e eu ali não estivesse – «A propósito, afilhado, o que decidiu ela sobre o assunto que te propus?» E aí, ambos começaram a trocar impressões sobre o calendário das futuras deslocações aos países do deserto, lá onde, passados seis meses, a guerra conti‐ nuava sem pausa nem fim à vista. A partida estava marcada, a escala encerrada. Renitente, o padrinho insistiu – «Não te esque‐ ças que ela pode muito bem ser substituída nessa missão. Milha‐ res de jovens repórteres da sua idade estão neste momento a caminho dos desertos para falarem com as viúvas dos mártires. O que vai ela lá procurar que outras não o possam fazer em seu lugar?» Padrinho e afilhado falavam em inglês e de novo aquele she era eu. Até que o homem vestido de seda iniciou uma longa exposição sobre o vício de reportar batalhas.

Sentámo‐nos.

O anfitrião falava com o copo na mão, rodando‐o, como se fosse um adorno, e eu pensava que aquele líquido bem poderia não ser uísque mas água pintada. Falava lentamente, dirigindo‐se a Bob Peterson, uma longa exposição sobre o vício de cobrir con‐ flitos armados, vício que se pegara ao afilhado Bob, e provavel‐ mente a todos aqueles que lhe passavam pelas mãos, incluindo ela, a rapariga que ali estava. Muito desgostoso com o facto, o padrinho começou a expor a sua teoria a propósito desse triste vício, que sempre incluía calendários em sobressalto, urgên‐ cias inadiáveis e repórteres imprescindíveis. Estivéssemos nós, porém, bem descansados que assunto para cobrirmos nunca nos faltaria ao longo de toda a vida, e quanto a carnificinas e viúvas, onde quer que fosse, e quando quer que fosse, para infelicidade de todos, sempre as teríamos. Era, precisamente, para contra‐ balançar a permanente lei da recidiva que valia a pena escolher da sua espiral os momentos de intervalo que de onde em onde sempre iam surgindo. Dizia o diplomata, e no meio dessa fala, metodicamente monótona, como se escutá‐la por si só consti‐ tuísse uma prova, acabou por se me dirigir em português – «Miss Machado, já aqui disse ao meu afilhado que nem sempre a histó‐ ria é um pesadelo de que em vão tentamos acordar para regressar ao ponto de partida. Olhe que por vezes, embora escassas vezes, a história também é um sonho agradável, e tão apaziguante pode ele ser que vale a pena uma pessoa ao acordar tentar por todos os meios guardar‐lhe a imagem para que não se esvaia. Sejamos práticos. Quando acontece despertarmos a meio de um desses sonhos, o que devemos fazer é manter‐nos em estado de alerta, guardando o momento de excepção, prolongando‐o na memória de forma excepcional também. Tenho ou não tenho razão?»

E virando‐se para Bob, dirigiu‐se‐lhe em inglês – «Eu já te disse, afilhado, é preciso não baixar os braços. Para começar, sugiro‐te uma sequência de cinco ou seis episódios, como aquelas séries dos bons velhos tempos, quando tu eras um rapaz genial e o que produzias resultava ainda melhor do que planeavas. Alguma coisa que se chamasse A História em Vigília, ou uma outra designação semelhante. Um primeiro número, exemplar, e para esse início inaugural sugiro Miss Machado. A rapariga a abrir a série com o caso do seu país, aquele caso extraordinário que ocorreu na sua pátria, já lá vão vinte e cinco anos ou mais. O tempo sempre a pas‐ sar, cada vez mais rápido, cada vez mais rápido, o tempo sempre a abrir, não é mesmo assim, Bob? Aceita o conselho que te dou. Ela deveria ir lá, quanto antes, recolher o resto da metralha de flores que ainda existe entalada entre as pedras da calçada de Lisboa. Envia‐a para lá, afilhado, envia‐a antes que seja tarde. Sugiro que a série se designe por A História Acordada.» E o antigo embaixador elevou o copo à altura dos olhos e fez uma longa saúde, como se alguém no interior daquele salão fosse ter um filho.

 

Lídia Jorge, Os Memoráveis

Excertos (2)


Patrícia Reis,

1

  

A primeira vez que a vi, a Ginga olhava o mar. Vestia ricos panos, e estava ornada de belas jóias de ouro ao pescoço, e de  sonoras malungas de prata e de cobre nos braços e calcanhares. Era uma mulher pequena, escorrida de carnes, e no geral sem muita existência, não fosse pelo aparato com que trajava, e pela larga corte de mucamas e de homens de armas a abraçá-la. 

 

Foi isto no Reino do Sonho, ou Soyo, talvez na mesma praia que lá pelos finais do século XV viu entrar Diogo Cão e os doze frades franciscanos que com ele seguiam, ao encontro do Mani-Soyo – o Senhor do Sonho. A mesma praia em que o Mani-Soyo se lavou com a água do baptismo, sendo seguido por muitos outros fidalgos da sua corte. Assim, cumpriu nosso senhor Jesus Cristo a sua entrada nesta Etiópia ocidental, desenganando o pai das trevas. Ao menos, na época, eu assim o cria.

 

Na manhã em que pela primeira vez vi a Ginga, fazia um mar liso e leve e tão cheio de luz que parecia que dentro dele um outro sol se levantava. Dizem os marinheiros que um mar assim está sob o domínio de Galena, uma das nereidas, ou sereias, cujo nome, em grego, tem por significado calmaria luminosa, a calmaria do mar inundado de sol.

 

Aquela luz, crescendo das águas, permanece na minha lembrança, tão viva quanto as primeiras palavras que troquei com a Ginga.

 

Indagou-me a Ginga, após as exaustivas frases e gestos de cortesia em que o gentio desta região é pródigo, bem mais do que na mais caprichosa corte europeia, se eu achava haver no mundo portas capazes de trancar os caminhos do mar. Antes que eu encontrasse resposta a tão esquiva questão, ela própria contestou, dizendo que não, que não lhe parecia possível aferrolhar as praias.

 

Nos dias antigos, acrescentou, os africanos olhavam para o mar e o que viam era o fim. O mar era uma parede, não uma estrada. Agora os africanos olham para o mar e vêem um trilho aberto aos portugueses, mas interdito para eles.

 

José Eduardo Agualusa, A Rainha Ginga

Excertos (1)


Patrícia Reis,

“Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. Quantos são hoje? Nunca sei às que ando, confundo tudo, perco-me sempre, os dias, as horas, às vezes cumprimento pessoas que não conheço, há uma semana ou isso entrei num antiquário, sentei-me a uma mesa D. João V e quando a senhora da loja veio, de uns armários franceses ou lá o que era, pedi-lhe que me servisse um uísque. Uma senhora com mais pulseiras que tu e anéis caros, de maquilhagem a lutar com a idade e a perder. Ficou a olhar para mim de cara ao lado. Depois perguntou-me se eu estava bêbado e depois começou a medir a distância entre ela e a porta a fim de chamar por socorro. Numa das paredes paisagens emolduradas a talha, o retrato de uma viscondessa decotada, estampas de cavalos com legendas em francês. A viscondessa usava um anel no indicador rechonchudo e tinha cara de jantar bicos de rouxinol todos os dias, servindo-se dos talheres como se cada dedo fosse um mindinho, desses que a gente enrola para beber o café. A minha irmã, pelo menos, enrola. Eu sou mais para o género de o esticar, tipo antena. Educações. Tu não enrolas nem esticas, deixas a mão inerte na minha. Não te apetece apertar-me, não tens vontade de ser terna? Gostava que ma apertasses três vezes, depois eu apertava três vezes, depois tu apertavas quatro vezes, depois eu apertava-te quatro vezes e ficávamos que tempos assim, num morse de namorados. Fantasias. Desejos. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo. Segundo a minha irmã sou só parvo. A propósito de tudo e de nada”

 

(Migalhas de António Lobo Antunes)