A deplorável ausência de ideias mobilizadoras


Luís Naves,

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A frase

“Acredito que me queiram afastar de tudo”.

Carlos Alexandre, juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal responsável pela instrução do caso que envolve o antigo primeiro-ministro José Sócrates.

Expresso

17 de Setembro de 2016

 

Post

Este texto de Francisco José Viegas sobre a pobreza da linguagem deve ser lido em conjunto com este sobre o ensino.

 

A semana

Domingo, 11 de Setembro de 2016

Foi um fim-de-semana horrível para Hillary Clinton: num comentário infeliz, a candidata democrata classificou de “deploráveis” os eleitores do seu rival, Donald Trump; horas depois, domingo, quando estava nas cerimónias do 11 de Setembro, em Nova Iorque, a ex-secretária de Estado teve de abandonar o local com evidentes dificuldades de saúde. O comentário sobre os deploráveis foi a melhor demonstração do elitismo de que é acusada pelos detractores; o aparente desmaio foi causado por uma pneumonia, mas a campanha de Trump insinuou que se passa algo de mais complexo; afinal, nos dias anteriores, a candidata democrata dissera ter umas alergias e até brincara, dizendo que tinha alergia ao rival.

Elitismo e suspeitas de problemas de saúde são uma combinação tóxica na campanha, para mais estando Hillary Clinton a deslizar nas sondagens. A vantagem confortável que os democratas tinham há apenas um mês dissipou-se e a eleição será, no mínimo, difícil. Trump avança em todos os Estados que vão decidir a votação de Novembro. As eleições americanas são indirectas, por colégio eleitoral, e cada Estado atribui todos os delegados ao vencedor estadual, nem que seja por um voto: o candidato mais votado a nível nacional pode perder, pelo que as sondagens a nível nacional têm de ser vistas com cautela. Há Estados que votam sempre no mesmo partido, ganhos ou perdidos à partida e nenhum dos candidatos gastará neles muitas munições. A eleição decide-se num pequeno número de votações parciais, nos chamados swing states, cujos maiores são, neste momento, os seguintes: Ohio, Flórida, Carolina do Norte, Virgínia, Pensilvânia, Geórgia e Michigan. É sobretudo nestes campos de batalha que a situação está a mudar depressa a favor de Trump.

 

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2016

A entrevista do ministro das Finanças Mário Centeno à CNBC provocou forte reacção em Portugal, com críticas da oposição e textos de opinião contundentes, como este de António Ribeiro Ferreira. Evitar o segundo resgate é de facto a prioridade do governo de António Costa, como seria a prioridade de qualquer outro governo. Se conseguir evitar a derrapagem orçamental, o primeiro-ministro terá ganho a sua arriscada aposta política. Ao alcançar a meta de 2,5% no défice, Costa terá cumprido as promessas eleitorais e, ao mesmo tempo, os compromissos com os credores. O inverso implica a desconfiança das instituições europeias, o fim da notação favorável da dívida, sanções automáticas, subida dos juros. Três ou quatro décimas acima de 2,5% e todo o edifício entra em colapso. A questão estará em saber qual é a fronteira da tolerância.

 

Por tudo isto, a entrevista de Petteri Orpo, o novo ministro das Finanças finlandês, que pode ser lida aqui, é provavelmente mais reveladora e preocupante do que a de Mário Centeno: as sanções não podem evitar-se em caso de incumprimento das metas de défice, pois a própria credibilidade da moeda única estará em causa. Junte-se a tudo isto a perigosa conjuntura política europeia, com o avanço do descontentamento popular, a subida dos partidos de protesto e as várias ameaças existenciais, do Brexit à crise migratória. Mário Centeno limitou-se a reconhecer o óbvio: a sua preocupação é simplesmente a de evitar o segundo resgate, pois esse é o corolário inevitável do fracasso. O factor decisivo não está nas escolhas da agência de notação canadiana DBRS, nem sequer nos apoios da esquerda ao governo minoritário, mas na execução do orçamento de 2016.

 

Terça-feira, 13 de Setembro de 2016

Na campanha presidencial americana só se discute a expressão de Hillary Clinton ‘basket of deplorables’, o cesto dos deploráveis, que serviu para a candidata democrata arrumar metade dos eleitores de Donald Trump, como gente de duvidoso patriotismo e numerosos preconceitos, da xenofobia ao sexismo. A frase é de facto tóxica e a campanha democrata tentou justificá-la, repetindo que uma parte do eleitorado republicano é mesmo deplorável, só não se sabia exactamente que parte. A emenda foi pior do que o soneto e a frase vai colar-se à candidata. Os republicanos acusam Hillary de insultar milhões de trabalhadores americanos e vão usar a controvérsia para desviar a atenção dos eleitores de assuntos mais sérios. A candidata democrata era acusada de elitismo, agora provou essa inclinação.

O alheamento dos políticos não é um problema exclusivo dos americanos. Um pouco por todo o mundo ocidental, as elites tendem a desprezar o voto dos eleitores comuns, julgando que estes não escolhem correctamente e não percebem a bondade das suas decisões. Na Europa, os federalistas contestam a legitimidade de posições nacionais contrárias ao grande plano e defendem expulsões de países, como se um suposto interesse europeu fosse mais elevado do que a vontade soberana de um povo. Nesta hipocrisia, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, é um verdadeiro mestre.

 

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016

Nas sondagens, Hillary Clinton continua numa queda que se acentua diariamente. Está a perder no Ohio e na Flórida, dois Estados que garantiram as vitórias de Barack Obama. A Carolina do Norte, onde os democratas tinham vantagem, ficou cerradamente empatada. Se confirmar estes três e ganhar a Virgínia, Trump pode ser presidente. Enfim, faltam quase dois meses, haverá certamente novas gafes do candidato republicano e a disposição do eleitorado indeciso pode inclinar-se na direcção de Hillary. Uma coisa é certa: estas eleições ficam para a História. Nunca houve um par de candidatos presidenciais que inspirasse tal rejeição, uma por elitismo, o outro pela demagogia. Se vencer, Hillary será a primeira mulher à frente da maior super-potência mundial. Ganhe Donald Trump e teremos muitos nervos nos mercados, com tendência para o isolacionismo da América.

 

Quinta-feira, 15 de Setembro de 2016

Em Portugal, um dia cheio de notícias contraditórias, com o anúncio de eventuais impostos sobre o património em negociação entre PS e Bloco de Esquerda, a que se juntou um relatório sombrio do Conselho de Finanças Públicas, que aponta para anos de crescimento insuficiente e para o fracasso da estratégia do Governo António Costa de estimular o consumo interno. O facto é que as taxas de juro continuam a subir, apesar dos elevados montantes de dívida comprados em cada mês pelo Banco Central Europeu: parece que os investidores deixaram de comprar e estão a livrar-se da dívida que têm, o que pode significar graves dificuldades quando o BCE interromper o seu programa de compras. Na economia, não há investimento. Portugal deve crescer apenas 1% este ano, mas o Governo, aprovando um imposto da autoria do Bloco de Esquerda, ameaça afugentar os investidores que estimulavam o mercado imobiliário e o turismo. Parece que, como explica Paulo Ferreira, se pretende agora ‘perder por poucos’, ou ir passando entre as gotas da chuva. As reformas foram travadas, triunfou a preocupação de satisfazer clientelas e manter uma campanha permanente de venda de ilusões. A geringonça já falhou, mas pode manter-se ainda algum tempo ainda, alheia a um contexto europeu adverso. Os outros países estão a tentar libertar-se do lamaçal, nós estamos atascados até aos ossos.

 

Sexta-feira, 16 de Setembro de 2016

A Europa iniciou oficialmente a discussão sobre o seu futuro, numa cimeira em Bratislava onde eram mais do que evidentes as divisões entre grandes blocos de países. Esta reunião não contou com a participação do Reino Unido e, pelo menos na agenda, destinou-se a discutir os efeitos do Brexit. O ambiente de crise na Europa começa nas próprias lideranças, pois os dirigentes dos maiores países da UE encontram-se todos em situação complicada: a chanceler alemã está a ser contestada no seu próprio partido e pelos aliados democratas-cristãos bávaros (CSU) por causa da política de imigração; o Presidente francês tem perspectivas duvidosas de reeleição em 2017, surgindo nas sondagens sem grandes hipóteses de passar à segunda volta; os chefes de governo italiano e espanhol podem não estar em funções no Natal. Há uma crise política na Áustria, a Grécia tem de negociar o terceiro resgate, Portugal tem de evitar o segundo, a Holanda vota na Primavera e os populistas avançam, o estendal de problemas parece sem fim e não há memória de uma liderança tão frágil ter de tomar decisões que podem ter repercussões por décadas.

Este artigo no El Pais explica as divisões e a circunstância de não existir uma ideia mobilizadora, que possa servir de referência para a Europa futura, o tal ‘momento Kennedy’. Fartei-me de rir com o cínico que queria mandar um inglês para a Lua.

 

Sábado, 17 de Setembro de 2016

O castelo de Bratislava (na imagem) dominou a História de vários países, fica no coração da Europa, nas margens do Danúbio, esteve em ruínas, é hoje imponente, mas não suscitou grande inspiração. No final da cimeira foram ditas as habituais palavras de circunstância, naquela língua de pau que se tornou típica da eurocracia. A única ideia da cimeira foi a de reforçar a segurança e a defesa, pelo menos ideia transmitida em público, pois a transparência nunca foi o ponto forte destes encontros. A discussão sobre o futuro da Europa pós-Brexit ainda agora começou e certamente não será finalizada pelos mesmos protagonistas de ontem. Angela Merkel, por exemplo, deve sofrer nova derrota amanhã, domingo, nas eleições de Berlim, e esta pode ser humilhante, capaz de lançar uma insurreição dentro do seu próprio partido. A questão da migrações não tem solução: é um problema humanitário que a Europa não pode ignorar, mas tornou-se também claro que as quotas nacionais de refugiados não resolvem coisa alguma. Não é possível registar grandes quantidades de estrangeiros sem criar novos problemas sociais e a própria Alemanha não consegue integrar todos os que lhe bateram à porta. Para cúmulo, a Turquia ameaça, a todo o momento, abrir a torneira dos 3 milhões de refugiados sírios que tem no seu território.

A Europa confronta-se com o fracasso da sua gestão da crise das dívidas soberanas, que criou um fosso entre Norte e Sul, e com o falhanço clamoroso da sua gestão da crise das migrações, que causou uma divisão entre Leste e Ocidente. A isto junta-se um conflito antigo entre federalistas e soberanistas, além da mais recente subida dos partidos populistas, que ameaça o equilíbrio tradicional entre liberais, social-democratas e conservadores.

A União Europeia terá provavelmente de fazer um recuo temporário nas suas ambições e esperar o aparecimento de uma nova elite, de outra geração, com ideias frescas. Afinal, este é um mercado gigantesco, com 500 milhões de consumidores, ao qual o Reino Unido continuará a pertencer. A Europa de hoje é também uma aliança de países democráticos como nunca houve outra, com os seus problemas, é certo, sobretudo a poderosa consciência de declínio irreversível, que é infelizmente a única ideia mobilizadora que persiste. As elites fracassaram? É evidente, e a sua substituição será natural e vantajosa: é assim nas democracias.

Substituir as lideranças? Eis uma boa ideia mobilizadora. Outra: não ponham o carro à frente dos bois.

 

Supremacia do Ocidente (por enquanto e apesar de tudo)


Luís Naves,

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Uma frase:

8 de Setembro de 2016 “Sou o saloio de Mação, com créditos hipotecários, que tem de trabalhar para os pagar, que não tem dinheiro em nome de amigos, não tem contas bancárias em nome de amigos e, até desse ponto de vista, que não tem amigos”.

Carlos Alexandre, juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal responsável pelo caso que envolve José Sócrates

SIC

8 de Setembro de 2016

 

Um post:

A rentrée de Filipe Nunes Vicente, autor sempre atento, sempre lúcido.

 

A semana

Domingo, 4 de Setembro de 2016

A CDU, partido democrata-cristão da chanceler Angela Merkel, sofreu uma derrota estrondosa no pequeno estado de Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental, ficando em terceiro lugar na votação, atrás da Alternativa para a Alemanha, AfD, partido de protesto que está a conquistar largas fatias dos eleitores da direita. Esta formação é recente, começou por ser anti-euro, mas adoptou um discurso anti-imigração que, no último ano, fez triplicar as suas intenções de voto em todo o País. Em Outubro deverá entrar no Bundestag. As sondagens mostram que desde Setembro do ano passado a CDU sofre uma sangria de eleitores a favor da AfD. Isso já era motivo para críticas em voz baixa à actuação da chanceler, sobretudo em relação à imigração, mas as eleições de domingo desencadearam uma discussão mais acesa e há quem se interrogue sobre o futuro da líder alemã. As eleições federais serão em Outubro do próximo ano e Merkel ainda não anunciou se vai tentar um quarto mandato. Este é mais um dado da complexa situação das incertezas ocidentais.

 

Segunda-feira, 5 de Setembro de 2016

O calendário político do próximo ano será no mínimo alucinante, com a ascensão das diversas rebeliões populistas. Há incógnitas em relação às eleições americanas de Novembro e espera-se turbulência nos mercados, sobretudo se Donald Trump subir nas sondagens. A incerteza estende-se aos principais países europeus: a Itália está sob ameaça de uma crise financeira e o governo de Matteo Renzi pode não resistir a um referendo dentro de semanas; a Espanha terá provavelmente a terceira eleição consecutiva em Dezembro, com a possibilidade de novo impasse; em França, aproxima-se o período eleitoral e perfilam-se várias candidaturas populistas; na Holanda, a direita anti-imigração quer referendar a Europa se vencer as eleições de 2017. Os próximos meses terão muitas oportunidades para dúvidas existenciais, nomeadamente a negociação do terceiro resgate da Grécia e o lançamento das negociações do Brexit, algures no início do próximo ano. Estes são apenas riscos políticos, pois no meio de tudo isto há bancos em dificuldades, nervosismo nas bolsas, aumento dos preços de petróleo e os imponderáveis do costume, da Turquia a Vladimir Putin, passando pelos horrores terroristas do Estado Islâmico.

 

 

Terça-feira, 6 de Setembro de 2016

Nos últimos dez dias, a candidatura de Donald Trump recuperou algum do terreno que perdera para Hillary Clinton e a eleição de Novembro nos EUA pode não ser, para os democratas, um passeio tão fácil como parecia no final de Agosto. Não há explicação convincente para esta subida de Trump (ela pode não se manter), mas o facto é que Estados que pareciam ganhos para Clinton estão de novo empatados. As grandes batalhas serão travadas no Ohio, Flórida, Carolina do Norte e Virgínia, em zonas onde mais se notam as grandes divisões da sociedade americana, mas o empate parece estar a estender-se a outros Estados que pareciam seguros para Hillary, como Pensilvânia e Geórgia. Os dois candidatos geram reacções de rejeição de partes do eleitorado, mas Hillary não consegue impedir que o seu ponto mais forte, a experiência, se transforme em acusações de elitismo e de erros. Trump tem feito uma campanha baseada na demagogia e na mentira, mas a sua mensagem de declínio da América convenceu muitos eleitores que desconfiam do Governo. Dois Estados podem ser decisivos, Flórida e Ohio, onde a desvantagem de Trump desapareceu por completo em poucos dias. Vêm aí os debates, serão momentos cruciais.

 

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2016

As dificuldades financeiras de Portugal têm sido discutidas nas trincheiras ideológicas, o que talvez explique o impacto desproporcionado de artigos estrangeiros que tocam no assunto. Foi o caso de um texto do Financial Times, assinado pelo editor de política europeia do influente diário, Tone Barber, que traça um retrato preocupante e admite a possibilidade de caminharmos para o segundo resgate. O autor considera que “Portugal está no centro de uma tempestade perfeita de fraco crescimento económico, queda de investimento, baixa competitividade, défices orçamentais persistentes e um sector bancário sub-capitalizado que possui muita da dívida pública do país”.

O jornal britânico afirma em letra grossa o que já antes tinha sido dito em voz mais baixa por instituições financeiras internacionais. As reformas estruturais não foram concluídas, algumas foram revertidas, e as compras de dívida portuguesa pelo BCE dependem de uma agência de notação canadiana, a DBRS, que em Outubro pode remeter para o lixo a dívida portuguesa. Se essa alteração ocorresse, Portugal seria incapaz de se financiar. Com 14% da dívida pública portuguesa, os bancos nacionais (que já estão carregados de crédito malparado) estariam em situação dificílima.

No actual clima de instabilidade política e de nervosismo nos mercados, é pouco provável que a DBRS tome uma decisão que podia provocar uma crise financeira global, mas isso não melhora a situação portuguesa, apenas adia o choque com a realidade. É evidente que o actual Governo subestimou logo no início as dificuldades que enfrentava, tomando decisões que nos aproximaram da Grécia e nos afastaram da Irlanda. A tempestade perfeita ameaça fazer a sua devastação, maior ou menor, seja agora ou depois. As cinco fraquezas citadas no artigo estão ligadas entre si, e nenhuma se resolve em meses. Recomendo igualmente a leitura deste artigo de Rui Ramos.

 

Quinta-feira, 8 de Setembro de 2016

As presidenciais francesas estão a entrar na fase de primárias e, como sugere a sondagem publicada no Le Monde, a esquerda enfrenta um cenário sombrio. Analisadas as diversas combinações de candidatos na primeira volta, os partidos da esquerda francesa não conseguem colocar um candidato no segundo turno. François Holande chega a perder entre os simpatizantes do Partido Socialista e também parece não ter sorte se as primárias envolverem toda a esquerda. Seja Alain Juppé ou François Sarkozy, o candidato republicano deve passar à segunda volta, onde enfrentará Marine Le Pen, que na maioria dos cenários vence a primeira votação das presidenciais, sempre a rondar 30%. O único candidato da área socialista que se aproxima dos republicanos em alguns cenários analisados é Emmanuel Macron.

Ainda é cedo para perceber para onde vai a França (as eleições só na Primavera de 2017), mas começa a parecer provável que o presidente seja substituído e que o país vire à direita. Alain Juppé será provavelmente o candidato em melhor posição para chegar ao Eliseu, pois o bloco de centro-direita ronda 25% e absorve o eleitorado centrista, garantindo até apoios à esquerda, que, por sua vez, está fraccionada em três grandes tendências: socialistas moderados, PS oficial e puristas ideológicos órfãos de 68. Sem candidato único, estas várias esquerdas estarão fora da segunda volta. A sondagem não nos dá informação sobre o que se passará no segundo turno, mas é provável que o candidato republicano vença Marine Le Pen, sobretudo se esse candidato for Juppé, figura moderada e afável que teria muitos votos socialistas.

 

Sexta-feira, 9 de Setembro de 2016

A Coreia do Norte tem um regime totalitário mal conhecido, baseado numa dinastia comunista que dura desde o final da Segunda Guerra Mundial e que vai no terceiro déspota da mesma família. Pouco se sabe sobre este país, excepto algumas notícias que vão escapando e cuja veracidade é difícil de avaliar: Por vezes, sabe-se de purgas nos altos escalões do regime ou de dificuldades económicas na província, mas é tudo demasiado turvo. Estive na Coreia do Norte em 1989 e pude testemunhar o grau de isolamento e a forma como a população é mantida na total ignorância sobre o exterior e sobre a sua própria história. O regime de Pyongyang é parecido com o mundo de 1984, o romance de George Orwell, pelo menos na manipulação e alteração da verdade.

É difícil ter certezas sobre a natureza dos acontecimentos ou as intenções do seu jovem líder. Kim mantém domínio absoluto sobre um exército gigantesco e procurou, desde o início do seu poder, desenvolver tecnologias nucleares e de mísseis balísticos, com resultados que costumam alarmar os vizinhos, sobretudo a Coreia do Sul e o Japão, a ponto de Pyongyang conseguir extrair compensações que garantiram até hoje a longevidade do regime.

Na madrugada de sexta-feira foi ultrapassado um novo patamar: a Coreia do Norte detonou uma bomba nuclear com potência de dois terços da explosão de Hiroxima e o engenho pode ser colocado num míssil, aumentando a capacidade de chantagem para um nível muito perigoso. É improvável que Kim Jong-un pretenda usar as suas bombas (terá material para meia dúzia, talvez mais), mas esta nova capacidade militar introduz uma insuportável incerteza em qualquer cenário de colapso do regime comunista coreano. Isto é parecido com a clássica cena de filme (mil vezes imitada) onde uma personagem maléfica tem na mão uma granada à qual tirou o pino de segurança; se um dos bons disparar contra ele, a granada cai no chão, explode e mata toda a gente; o mau sabe disso, o público também; a cena prolonga-se, aumenta a tensão, nunca adivinhamos como se resolve o impasse.

 

Sábado, 10 de Setembro de 2016

O primeiro episódio de Star Trek foi emitido a 8 de Setembro de 1966, o que motivou esta semana uma vaga nostálgica de evocações dos 50 anos da mítica série de televisão. Esta semana foi também lembrada a revolução cultural chinesa, igualmente por motivos de calendário: Mao Zedong morreu a 9 de Setembro de 1976, dez anos depois de ter desencadeado uma das mais estranhas purgas políticas da História contemporânea.

A revolução cultural foi lançada em meados de Maio de 1966, mas ganhou força entre Junho e Agosto, quando Mao conseguiu lançar milhões de jovens numa orgia de destruição de símbolos do passado. O seu objectivo era recuperar a pureza ideológica do partido comunista e reforçar o poder sobre a hierarquia chinesa, mas a natureza caótica do movimento sacrificou uma geração inteira, a loucura matou mais de 1,5 milhões de pessoas, o fanatismo teve um efeito devastador na sociedade chinesa e a ignorância destruiu património impossível de substituir.

Star Trek é um fenómeno oposto. A série de televisão sobre as aventuras de uma nave espacial e da sua tripulação começou por não ter grande popularidade: os cenários eram rudimentares, as personagens algo esquemáticas, as histórias relativamente superficiais. E, no entanto, ao longo das décadas seguintes, Star Trek transformou-se num fenómeno da cultura popular, com imagens que qualquer pessoa minimamente informada reconhece de imediato, mesmo quem não goste de ficção científica ou de romances de aventura. A série deu origem a filmes e é hoje um produto da indústria cultural de Hollywood, com alcance em todo o mundo, incluindo na China.

É interessante verificar que Star Trek é contemporâneo da revolução cultural. O território da imaginação, num caso, a ideia da destruição do passado, no outro. Star Trek é sobre a liberdade, a Revolução Cultural mostra como a liberdade, mesmo a do pensamento, pode ser frágil; os guardas da revolução atacavam desvios de comportamento, tentavam sobretudo destruir quem procurasse o recolhimento. Pensar era um crime. Recomendo a leitura deste brutal texto de Ferreira Fernandes. Também vi o fantástico documentário que o autor refere e que inspirou a crónica. Em relação ao texto, é impressionante o relato na primeira pessoa: no exílio em Paris, onde militava nos meios da esquerda radical, o autor foi expulso de um partido por ter na sua estante livros trotskystas.

Talvez a revolução cultural tenha sido mais humana do que nos parece: o fanatismo ideológico está ao alcance da pessoa mais inteligente. Na nossa realidade, Star Trek pode ser frívolo, mas diverte e existe, é um produto cultural aparentemente inócuo, que não tenta convencer ninguém das suas ‘verdades’. Curiosamente, já não há lugar para as revoluções culturais dos anos 60, cheias de certezas, que tentaram apagar o próprio pensamento e onde se considerava que as pessoas são o que lêem. Estas ideias foram por enquanto derrotadas. Haverá melhor símbolo do triunfo esmagador do Ocidente?

 

Histórias de bloqueios e fracassos


Luís Naves,

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Uma frase

“Este é um momento difícil para a UE e nós, que somos a favor da União Europeia e não desistimos, não passamos uma certidão de óbito à UE, nós temos a responsabilidade de trabalhar no sentido de apontar caminhos, encontrar respostas e intervir para que a UE siga em frente”.

Jaime Gama, dirigente do PS, antigo presidente da Assembleia da República

Observador

30 de Agosto de 2016

 

Um post

Leio as crónicas de Pedro Rolo Duarte sempre com imenso prazer. O autor tem um blogue fantástico com o seu nome, mudou agora o grafismo e o resultado ficou ainda mais agradável. Este post explica tudo e inclui uma ‘carta de princípios’ que resume o espírito do bom jornalismo.

 

A Semana

Domingo, 28 de Agosto de 2016

O Partido Popular de Mariano Rajoy e o Ciudadanos de Albert Rivera chegaram a um acordo que visa acabar com o impasse na escolha do novo governo espanhol, mas as expectativas são baixas. Rajoy ficou a seis votos de garantir a maioria e dependerá (nas duas votações que se realizam esta semana) do apoio ou abstenção de outros partidos. Rivera arrisca-se a ser visto como a muleta do PP e pode ser penalizado por um futuro voto útil. As contas da investidura são complexas e apontam para o fracasso da solução de centro-direita, o que implicará dois meses de negociações e alta probabilidade de novas eleições. Contra o conselho de antigos líderes e a vontade do seu eleitorado, o PSOE manteve a oposição a um governo liderado por Rajoy, mas a estratégia do líder socialista, Pedro Sánchez, é de alto risco. Sendo remota a hipótese daquilo a que alguns chamam o Governo Frankenstein (geringonça idêntica à portuguesa, mais independentistas bascos e catalães), a Espanha pode ter uma terceira edição de legislativas em cerca de um ano, o que coloca graves problemas, nomeadamente atraso no orçamento e nas políticas económicas, falta de dinheiro em autonomias dominadas pelos próprios partidos da oposição. O jornal El País sintetizava o dilema dos dois maiores partidos espanhóis: um não tem votos suficientes, o outro não consegue criar uma alternativa. Veremos nos próximos dias, mas a Espanha pode ter entrado num pântano.

 

Segunda-feira, 29 de Agosto de 2016

É uma verdade de La Palisse, que parecia evidente desde que a geringonça foi criada: a Europa é o factor que limita a acção da aliança dos partidos à esquerda, como constatou agora José Manuel Pureza, nesta entrevista. Para o dirigente do Bloco, o cumprimento das regras de Bruxelas obrigará em breve a escolher entre desobediência externa ou ruptura interna. Ninguém com lucidez acredita na hipótese de cumprimento das regras europeias e obediência simultânea ao acordo tripartido. Esta contradição explica que os partidos à esquerda estejam a radicalizar o discurso de contestação à UE, algo que já entrou inclusivamente nas conversas de rua, com muitos cidadãos a acreditarem ingenuamente que a origem dos nossos problemas está numa Europa que se fragmenta. O governo minoritário do PS é pressionado pelos parceiros para desafiar as instituições europeias e seguir uma via distinta da que vigorou em Portugal desde a adesão às comunidade e que não passa, em grande medida, de uma criação do próprio PS. O novo eurocepticismo socialista é instrumental, retórico, pouco convicto, é um ‘não fazemos’ que procura manter o generoso acesso aos fundos comunitários, à livre circulação e mercado único. O caso dos partidos à esquerda do PS tem aspecto diferente: comunistas e bloquistas acreditam que só  fora da UE podem construir uma sociedade socialista.

 

 

Terça-feira, 30 de Agosto de 2016

Para um pequeno país, a ideia de hostilizar a União Europeia é uma fanfarronice, mas começa a ser aceite em Portugal, não apenas pelas elites mediáticas que ocupam jornais e redes sociais. Bastará pensar um pouco para perceber que a UE não obtém qualquer vantagem da pobreza nacional, no entanto a esquerda continua a repetir que as políticas impostas por Bruxelas visam o nosso empobrecimento propositado. Em resumo: está em vigor desde 2011 uma espécie de plano sem função aparente que pretende proletarizar os portugueses.

O que querem de facto os europeus? Querem um Portugal mais próspero e estável que não precise da sua ajuda financeira, que possa comprar os seus produtos e produzir algo em troca. Isso será possível quando o país fizer as reformas estruturais que lhe permitam ser mais competitivo e ter contas equilibradas a médio prazo. Sem um mínimo de reformas, teremos constante falta de dinheiro, desequilíbrio externo crónico e dívida galopante. Financiar o Estado social será impossível e, mais tarde ou mais cedo, o país ficará sem acesso aos mercados capitalistas e precisará de novo resgate.

Nas narrativas distorcidas que entraram na discussão pública, nada disto se verifica. Pelo contrário, os neo-liberais ascenderam ao poder na Europa e seguem uma cartilha de castigo cruel a todos os países e povos que se recusem a aceitar o empobrecimento. Estas ideias são marteladas continuamente, ignorando factos contraditórios, por exemplo: os socialistas estão no poder em França e Itália, partilham o poder em coligações na Alemanha, Áustria. Holanda, Finlândia, Suécia e Luxemburgo, entre outros. Reúnem os votos suficientes para travar qualquer política na zona euro que lhes desagrade, pelo que a ideia de que a Europa é dominada por neo-liberais é simplesmente falsa. No Parlamento Europeu, na Comissão e no Conselho Europeu (o órgão decisivo) domina o consenso centrista entre democratas-cristãos e social-democratas, um pouco à imagem do governo alemão, que é efectivamente um Bloco Central.

 

Quarta-feira, 31 de Agosto de 2016

O PS é um partido do consenso europeu, como sugere a intervenção de Jaime Gama, de dia 30, referida mais acima. Os recados do antigo presidente da Assembleia da República ao PCP e BE podem ser o sintoma da divisão da esquerda nacional entre dois grupos cada vez mais distanciados, a linha reformista e a linha revolucionária. Para os reformistas, é absurdo renunciar à UE e condenar o país ao isolamento, como no fundo pretendem os revolucionários, que um dia não vão aceitar mais cedências às políticas europeias. Nessa altura, acusarão o PS de traição ao acordo da esquerda, capitalizando o crescente cepticismo da população em relação à integração europeia.

Em cada dia, há um dirigente da esquerda a fazer um ataque à UE, mas a discussão sobre Europa não é um exclusivo português. Na campanha do Brexit, a esquerda britânica foi cilindrada, mantendo posições ambíguas que tentavam ocultar as suas profundas divisões sobre o tema. Os partidos europeus têm um dilema para resolver: mantêm-se no consenso da UE, como pretendem os sociais-democratas do norte da Europa, ou tentam criar uma alternativa anti-capitalista e anti-globalização? Este será provavelmente o debate nas primárias da esquerda francesa (a distância ideológica que vai de Emmanuel Macron a Arnoud de Montebourg); em Espanha, temos o PSOE cada vez mais colado a Podemos; o Labour britânico começa a dividir-se em dois grupos ferozmente antagónicos, o que pode resultar numa cisão entre social-democracia e radicalismo.

 

Quinta-feira, 1 de Setembro de 2016

O processo de destituição de Dilma Rousseff chegou finalmente ao fim, com um voto inequívoco do Senado brasileiro, que decidiu condenar e afastar a presidente, mas sem lhe retirar os direitos políticos. O processo seguiu todos os trâmites constitucionais e o chefe de Estado interino, Michel Temer, assume o resto do mandato, até 2018. A impopularidade de Temer rivaliza com a de Dilma, que hostilizou os aliados de quem dependia, cometendo erros crassos que comprometeram a sua base de apoio. O partido a que pertence, o PT, esteve no poder durante 13 anos, mas muitos dirigentes, incluindo o ex-presidente Lula da Silva, estão envolvidos em gigantescos escândalos de corrupção. A crise económica em que o Brasil mergulhou, a sensação de impunidade dos poderosos e a hipocrisia dos políticos geraram uma onda de descontentamento popular que não poupa nenhum partido, cargo ou instituição.

Temer pode nem chegar ao fim do mandato e o seu governo (sem estado de graça) terá de aplicar impopulares medidas de emergência. Neste contexto, o regresso de Dilma era impossível e teria causado uma paralisia institucional, ou pior. Assim, a destituição foi um virar de página e o Brasil entra num novo ciclo, na esperança de se obter o mínimo de estabilidade que permita chegar às próximas presidenciais. Dilma promete combater a destituição e acusa os adversários de terem concluído um golpe, mas será difícil justificar tantos anos de poder incompetente, incluindo promessas não cumpridas, ladroagem escandalosa e arrogância vazia. O PT poderá ter novo desastre nas próximas eleições municipais, como se vê nesta notícia da Folha de São Paulo, mas a teoria do golpe é uma boa desculpa e evita explicar a indignação do povo.

 

Sexta-feira, 2 de Setembro de 2016

Mariano Rajoy falhou a sua patética tentativa de formar governo, perdendo duas votações por 170 votos contra 180, humilhação que provocou a denúncia, por parte do Ciudadanos, do acordo celebrado dias antes com o PP. O partido centrista recusa-se a participar num novo teatro político de candidaturas sem hipóteses e pede aos populares que mudem de liderança, o que estes recusam. A bola passa agora para Pedro Sánchez, do PSOE, que tentará criar um governo “impossível” (a expressão é do editorial do El Mundo). O PSOE terá de criar uma aliança com o Podemos e, conseguido isso, precisa de garantir uma de duas soluções adicionais: um acordo com Ciudadanos, que não faz alianças a incluir o Podemos; ou um apoio negociado com os independentistas catalães e bascos, algo que a própria liderança do PSOE proibiu. A alternativa ao fracasso dos partidos é o pesadelo de novas eleições, as terceiras em pouco mais de um ano, onde a abstenção pode atingir níveis perigosos. A intransigência política parecia ser de natureza oratória, mas revela-se um bloqueio sistémico, como se os líderes acreditassem mesmo nas coisas que dizem sobre os adversários. Sem cedências ou eleições, não haverá governo em Espanha.

 

Sábado, 3 de Setembro de 2016

A Imprensa portuguesa foi céptica em relação ao processo de destituição de Dilma (a ideia de golpe dominou muitos textos), mas tem sido branda quando se refere à ditadura Venezuelana. Isso vai provavelmente mudar. Em Caracas, há gigantescas manifestações de contestação ao presidente Nicolás Maduro, protesto que visa a convocação de um referendo para remover o chefe de Estado. O regime tenta prender opositores e diz que está em curso um golpe, mas na realidade a crise económica causou escassez de alimentos e de produtos básicos, pelo que a situação pode facilmente degenerar em cenas de violência. Maduro está a ser contestado também nos círculos do próprio movimento chávista e parece cada vez mais isolado, disposto a uma fuga para a frente que inclui, entre outros delírios, a hostilização do antigo aliado brasileiro. Maduro já perdeu os bairros pobres onde o chávismo tem a sua tradicional base de apoio. A Venezuela possui por estes dias semelhanças com a Turquia: os respectivos regimes tomam conta de todas as instituições que ainda não controlavam, mas o deslize turco em direcção à autocracia é amplamente criticado nos nossos meios de comunicação (e muito justamente), enquanto a revolução bolivariana, pelo seu carácter anti-imperialista, merece certo desconto.

 

Leirura: Alguns Ensaios de George Orwell

Um bom amigo recomendou-me a leitura de um texto de George Orwell, The Prevention of Literature, que, infelizmente, só conheço em inglês (disponível aqui). O texto, escrito em 1946, desenvolve ideias que encontramos também em 1984, a obra-prima do autor britânico, que estaria a ser pensada ou escrita na altura. O ensaio inclui elementos do tema do romance, por exemplo, pode ler-se em certa passagem que “o totalitarismo exige a constante alteração do passado” e, a longo prazo, implica “a descrença numa verdade objectiva”.

Neste texto de 15 páginas, Orwell escreveu sobre o “nevoeiro de mentiras e desinformação” que encontrou no jornalismo político do seu tempo, capaz de ocultar os horrores do comunismo soviético. Na opinião de Orwell, a linguagem da omissão e a cobardia dos intelectuais conspirava para transformar os escritores em pequenos quadros de uma burocracia oficial, incapazes de sair da ortodoxia e sujeitos a uma espécie de censura dos seus pares. Há uma ideia que julgo crucial no texto: era dos próprios intelectuais que partia “o enfraquecimento do desejo pela liberdade”.

Ainda hoje é interessante discutir os limites impostos à livre expressão, por exemplo, pelos arrastões politicamente correctos ou pelas cenas de taberna nas redes sociais, mas há um problema mais sério a montante, quando os intelectuais hesitam em dizer o que pensam ou quando certos livros não são publicados por causa das polémicas que podem provocar. E há ainda os livros que, quando são publicados, têm grandoladas à espera, o arraso da crítica ou a indiferença dos outros intelectuais, que é a forma mais eficaz do silêncio: se ninguém falar sobre as obras, elas não existem.

Orwell teve choques com os inquisidores do seu tempo e ainda hoje é vítima de interpretações injustas dos novos talibãs das ortodoxias da esquerda (que, por ironia, era a área política do escritor). A obra de ensaios e textos de jornalismo contém pérolas inestimáveis e uma curiosa actualidade: não exactamente nos pormenores, mas as ideias mantêm-se vivas. Em Portugal, julgo que só está publicado um livro de textos curtos, (Por Que Escrevo e Outros Ensaios, tradução de Desidério Murcho, da Antígona), com uma selecção infelizmente pequena destes ensaios jornalísticos, mas que inclui o famoso A Política e a Língua Inglesa, notável reflexão sobre o lugar-comum na linguagem política. Entre os não traduzidos, há textos fantásticos, por exemplo o ensaio irónico sobre o declínio do homicídio inglês ou a duríssima memória sobre a morte dos pobres.

Orwell escreveu muito sobre literatura e o compromisso do autor com a verdade, sabendo à partida que não há livros neutros ou inocentes. Os seus textos jornalísticos mostram que o escritor interpretava os conflitos da sua época de forma invulgarmente lúcida. Termino com uma pequena jóia que encontrei por acidente. Em crónica publicada no jornal Tribune, na coluna As I Please, no final de 1944, Orwell contava uma história deliciosa que ouviu de uma testemunha credível: dois soldados do exército alemão, capturados por forças britânicas, não falavam nenhuma língua que se entendesse e alguém presumiu que podiam ser soviéticos; foi chamado um especialista em línguas eslavas, que não solucionou o enigma; então, um sargento que tinha estado na Índia percebeu que os dois soldados falavam uma qualquer língua tibetana. Chamou-se um tradutor e os prisioneiros lá explicaram a sua aventura. Tinham-se perdido numa viagem, no extremo da China, capturados por tropas soviéticas e levados para um batalhão de trabalho que caiu nas mãos dos nazis. Após muitas peripécias, os pobres tibetanos acabaram numa unidade de combate do exército alemão e foram finalmente capturados por forças aliadas. Tinham percorrido o Norte de África e a França. Sabiam poucas palavras ocidentais e contavam a sua história pela primeira vez. Puderam também fazer perguntas aos captores. Até aí, não tinham percebido nada do conflito em que participavam: perguntaram, sem demora, quem era quem e por que razão tanta gente combatia.

 

Estranhas Formas de vida


Luís Naves,

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Uma frase:

“No que se refere ao Orçamento de Estado para 2017, estamos disponíveis para examinar e propor as soluções que sejam necessárias para repor os direitos perdidos pelo povo português. Tudo aquilo que for negativo e nos empurrar para trás votaremos contra”.

Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, explicando que será uma “ilusão” o governo acreditar que é possível ter crescimento económico e respeitar as “imposições e ameaças” da UE.

Diário de Notícias 21 de Agosto de 2016

 

Um post:

Há demasiadas interrogações sobre o caso da reestruturação da Caixa Geral de Depósitos, como se pode ler neste post de Maria Teixeira Alves, em Corta-Fitas. 

 

A semana

Domingo, 21 de Agosto de 2016

Martin Jacques interroga-se neste artigo sobre as consequências da grande crise de 2008, a maior perturbação do capitalismo desde os anos 30 do século passado. O autor britânico escreve sobre o aparente paradoxo do falhanço das ideias neo-liberais não ter ainda produzido uma vaga de ideias contrárias entre as elites intelectuais, que desvalorizam como ‘populismo‘ a vaga de contestação já tão evidente nas democracias avançadas.

A revolução neo-liberal dos anos 70 e 80 do século passado aumentou as desigualdades, permitiu uma onda migratória sem precedentes, reduziu a regulação dos mercados e a dimensão dos aparelhos governamentais. O capital foi beneficiado em relação ao trabalho e o rendimento dos mais pobres estagnou ao longo dos últimos 30 anos. Os ricos ficaram extraordinariamente ricos e, além disso, as taxas de crescimento económico não foram nada de especial. Este período prejudicou os trabalhadores menos qualificados, que foram vítimas da deslocalização dos seus empregos para zonas mais baratas ou que enfrentaram a concorrência dos imigrantes, também pouco qualificados, que aceitavam salários baixos, criando uma pressão que empobreceu o proletariado.

Esta interpretação ajuda a compreender fenómenos populistas como o Brexit ou Donald Trump: o candidato republicano é campeão da classe trabalhadora e contesta acordos comerciais que, até há muito pouco tempo, eram peças fundamentais das crenças políticas da direita. O artigo explica que os movimentos ditos ‘populistas’ estão a atacar o neo-liberalismo, mas também a esquerda europeia, que deixou de defender os trabalhadores: veja-se, por exemplo, a política de imigração, que os partidos de esquerda geralmente apoiaram, embora esta seja prejudicial para os seus eleitores tradicionais. A ideologia da esquerda permanece nos anos 70 e a linguagem é cada vez mais politicamente correcta, ou seja, repleta de eufemismo, evitando as questões essenciais. A mensagem simples, anti-globalização, de movimentos populistas é acompanhada da exigência de controlo sobre as grandes empresas e banca, de limites à imigração.

 

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2016

Alemanha, França e Itália querem liderar a reconstrução do projecto europeu no período pós-Brexit e os líderes destes três países estiveram reunidos na ilha italiana de Ventotene, para preparar a cimeira de Bratislava do próximo mês, onde serão discutidos os problemas mais urgentes da UE: consequências do Brexit, conflito na Síria, crise migratória e relações com Turquia e Rússia. A cimeira entre Hollande, Merkel e Renzi não trouxe ideias novas ou decisões históricas, mas houve uma importante carga simbólica no encontro, pois foi nesta pequena ilha que Alfiero Spinelli escreveu em 1941, com Ernesto Rossi, o famoso Manifesto de Ventotene, documento político que defendia a necessidade de se criar uma Europa federal. Neste texto fundador das comunidades europeias, pretendia-se uma utopia socialista que pudesse responder ao nacionalismo que tinha dominado a década anterior.

A Europa enfrenta os mesmos dilemas do tempo de Spinelli: federalismo ou nacionalismo, capital ou trabalho, como acomodar os interesses dos pequenos países, que dose de social-democracia no consenso político. As lideranças parecem não ter ideias práticas: Jean-Claude Juncker afirmava recentemente em Viena que “as fronteiras [nacionais] são a pior invenção jamais feita pelos políticos”, frase incompreensível para a maioria dos europeus. O federalismo, nos termos em que Juncker o imagina, é uma ideia etérea sem sustentação na vontade do eleitorado. Os líderes das três maiores potências europeias da UE pós-Brexit enfrentam rebeliões populistas e pelo menos dois deles. Hollande e Renzi, correm sério risco de não estarem no poder dentro de poucos meses. Além disso, este trio está dividido em relação ao Tratado Orçamental: dois dos países querem flexibilização das regras, o outro resiste. Mesmo assim, estamos longe da ruptura da aliança europeia.

 

 

Terça-feira, 23 de Agosto de 2016

A Comissão Europeia aprovou um plano de recapitalização da Caixa Geral de Depósitos que poderá ascender a mais de 5,1 mil milhões de euros, mas tendo a contrapartida de obrigar aquele banco a uma reorganização por enquanto mal explicada. O Estado vai pagar 2,7 mil milhões à cabeça (que conta para a dívida pública), não recupera capital contingente no valor de 900 milhões e, entre outras parcelas menores, há ainda a possibilidade de “um instrumento de dívida com elevado grau de subordinação”, o que se parece demasiado com um início da privatização da Caixa. A reorganização é feita em condições de marcado, o que implica fecho de balcões e saída de trabalhadores, algo que a esquerda terá dificuldade em apoiar. Fosse este um governo de direita e haveria comoção geral no país, com manifestações na rua. Em vez disso, temos a estupefacção geral e um silêncio entre os comentadores que costumam indignar-se com estas coisas.

 

Quarta-feira, 24 de Agosto de 2016

Um sismo matou mais de 250 pessoas no centro de Itália, numa região onde muitas vítimas gozavam férias. A catástrofe destruiu várias povoações e ocorreu de madrugada. Nos dias seguintes, conheceram-se histórias de sobrevivência e morte, de famílias destruídas e vidas transformadas. Amatrice, uma pequena vila de dois mil habitantes, na altura repleta de turistas, perdeu mais de duzentas pessoas. É muito difícil de imaginar como pode uma comunidade sobreviver a uma tragédia assim. A nossa vida é, de facto, muito frágil, e pode ser destruída em poucos segundos.

 

Quinta-feira, 25 de Agosto de 2016

A Turquia lançou uma operação militar em território sírio contra o Estado Islâmico, mas com a missão de impedir que milícias curdas controlem o lado sírio da sua linha de fronteira. Temendo ficar sem apoio americano, os militantes curdos que combatem na guerra civil síria (nesta região, ao lado do governo e contra o Estado Islâmico) recuaram para a margem esquerda do Eufrates e decidiram não interferir com a operação militar turca. Este novo episódio de internacionalização da Guerra da Síria ocorreu menos de uma semana depois de um violento atentado em Gaziantep, do lado turco da fronteira, no qual morreram mais de meia centena de membros da comunidade curda, incluindo número muito elevado de crianças. Esse ataque foi atribuído ao Estado Islâmico e visou uma cerimónia de casamento. A situação na fronteira é fluida e um novo atentado do PKK contra polícias turcos, na sexta-feira, provocou também muitas vítimas. O conflito sírio torna-se cada vez mais complexo, como se explica aqui: os turcos têm apoio dos rebeldes sunitas sírios; Ancara combate o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) com o mesmo entusiasmo com que luta contra o Estado Islâmico e contra o Governo de Bachar al-Assad. No meio disto, trinta milhões de curdos sem Estado.

 

Sexta-feira, 26 de Agosto de 2016

A justiça francesa suspendeu a proibição do uso do burkini nas praias francesas, numa decisão que indignou a direita e que poderá ter consequências políticas na campanha presidencial que se aproxima. Os juízes cederam aos argumentos de que não havia perturbação da ordem pública, para grande satisfação dos activistas que consideravam estas proibições exemplos gritantes de ‘islamofobia’.

A história não fica aqui, evidentemente: a direita exige uma lei que proíba o uso do burkini, a Frente Nacional ganhou um novo argumento para a sua campanha populista (e Nicolas Sarkozy também), a esquerda não esconde o incómodo com o assunto e o discurso politicamente correcto ganhou outra importante causa: o burkini tinha sido proibido em 30 municípios, a partir de agora haverá mais mulheres muçulmanas vestidas daquela forma.

O debate é profundamente político e está contaminado pela demagogia. O burkini não é um símbolo da liberdade religiosa, mas do seu exacto contrário, de opressão religiosa, tratando-se neste caso de interditar às mulheres a exposição de um corpo que os fundamentalistas consideram ter natureza impura. O burkini resulta da interpretação salafista do Corão, corrente com a singularidade de excluir todas as outras mais tolerantes. Os salafistas odeiam o Ocidente e os seus valores, querem de facto mudar as sociedades ocidentais, restringindo as liberdades que a república laica julga estar a defender. O burkini é, infelizmente, um símbolo de totalitarismo e de intolerância. Não tem nada a ver com surf, como sustentam certas feministas. É, sim, um exemplo de opressão da mulher e devia ser tratado dessa forma. Não estamos perante uma situação de liberdade religiosa, mas de “banalização do totalitarismo islamita”, como explica Catherine Kintzler, que se interroga sobre “o que é eles vão inventar a seguir para apodrecer a nossa vida?”

 

Sábado, 27 de Agosto de 2016

Esta notícia de dia 24 é, sem dúvida, a mais sensacional da semana. Uma equipa internacional de cientistas anunciou a descoberta de um exoplaneta na zona habitável de Proxima Centauro, anã vermelha a quatro anos-luz do sistema solar, igualmente a estrela mais próxima do Sol (daí o seu nome), aliás uma das favoritas da literatura de ficção científica. Os esforços dos cientistas vão agora centrar-se na obtenção de provas sobre a composição atmosférica do planeta (se ele tiver atmosfera), em busca de vestígios de água ou metano, mas talvez seja necessário esperar pela construção deste colosso, da responsabilidade de uma organização em que Portugal participa. A confirmar-se a descoberta, a existir vida em Proxima b, será certamente alguma estranha forma de vida.

 

Um livro:

Estranha Forma de Vida, de Enrique Vila-Matas

Assírio e Alvim, 126 páginas, tradução de José Agostinho Baptista.

O narrador desta novela, um escritor a quem chamam Cyrano por ter o nariz comprido, está a escrever um tríptico realista sobre os deserdados da vida e vai observando os vizinhos da sua rua de Barcelona, enquanto imagina os detalhes de uma conferência sobre a ‘estrutura mítica do herói’, cujo tema, por razões amorosas, pondera alterar para ‘a condição do espião inerente à do escritor’.

Em estilo fragmentado e pós-moderno, Vila-Matas constrói um fio de pequenas histórias cheias de imaginação, com personagens divertidas ou inquietantes. O narrador não parece levar demasiado a sério as suas divagações. Há numerosas referências a outros livros ou a filmes: Graham Greene surge numa passagem que mais parece retirada de um sonho; em outro caso, a personagem é Salvador Dali, naquilo que parece ser uma história verídica ouvida pelo autor e ‘aproveitada’ neste contexto; há ainda um episódio que lembra um filme de Alfred Hitchcock e outro talvez inspirado num conto de Nabokov, sobre um barbeiro empunhando a navalha, que passa pela garganta de alguém à sua mercê; surge ainda a ideia bem conseguida de uma interferência telefónica que dá origem a conversa absurda.

Os malabarismos pós-modernos podem ser por vezes artificiais, mas dão um tom irónico ao texto e facilitam o fluxo narrativo. O autor é um mestre do disfarce, escondendo ideias elaboradas num quotidiano de aspecto banal: “Uma vez que Deus não existe, uma vez que não acreditamos que alguém nos observa, a nossa vida carece de finalidade”, admite o narrador, numa reflexão bem mais profunda do que parece à primeira leitura.

No fundo, o escritor observa, como faz o astrónomo, como faz o espião. Quem assim vigia tem de ser discreto, invisível, Vila-Matas consegue criar um microcosmos de personagens variadas, sobretudo trágicas, que Cyrano decide esquecer num momento de chuva, mudando o seu estilo de escrita a favor das personagens da imaginação: “Senti-me absolutamente infeliz, um cobarde, um moderno, um homem sem guarda-chuva, o triste herói do nosso tempo”.

O título poético adoptado a Portugal sugere que este universo novelesco e vagamente humorístico obedece a uma espécie de fado, com as personagens presas ao destino, condenadas a interpretar-se nos seus papéis fixos, permitindo-se apenas devaneios e pequenas rebeliões onde, apesar de tudo, ficam reduzidas à anónima espionagem do real. Por tudo isto, é pena que as referências a Portugal nesta novela sejam decepcionantes e folclóricas, servindo apenas para justificar o título, Estranha Forma de Vida, que o autor encontrou num disco de Amália Rodrigues.

 

“Nada retoma a forma antiga”


Luís Naves,

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Uma frase

“Não faz sentido imaginar isso [coligação com o PS]. António Costa está, e está para durar. Chegou ao poder da forma como chegou. Quem chega ao poder assim, fará tudo para lá continuar. Não tenho nada a ideia de que isto esteja quase a acabar, não vou fazer cenários. No CDS vemo-nos como oposição ao Governo das esquerdas e como parceiros do PSD”.

Assunção Cristas, líder do CDS

18 de Agosto de 2016

Revista Sábado

 

Um post

Francisco Seixas da Costa explica as implicações legais de um caso raro: os dois filhos do embaixador iraquiano espancaram um jovem em território nacional e poderão ficar impunes.

 

A semana

Domingo, 14 de Agosto de 2016

No recomeço da temporada política da oposição, com o tradicional discurso do líder do PSD no Pontal, o mandarinato do comentário não se cansou de sublinhar dois pontos: o PSD anda farto do seu líder e o discurso da oposição é pessimista, faltando-lhe a parte da esperança. Passos devia ter subido ao palanque para dizer que está tudo bem e que o primeiro-ministro é um formidável estadista. Sobre a sua substituição, não se conhece um único facto, mas todos dão isso como adquirido ou inevitável: haverá intrigas, movimentações misteriosas, mas nem sequer se sabe quem se movimenta nos bastidores e quem será o possível substituto. Nenhum dos analistas explica o óbvio, que as sondagens não seriam as mesmas em caso de ruptura da aliança da esquerda e que dificilmente as próximas eleições serão as autárquicas de 2017, nas quais, de facto, o PSD pode levar uma banhada, pelo menos em Lisboa e Porto.

 

Segunda-feira, 15 de Agosto de 2016

O Governo minoritário do PS vai durar dois anos? Pela amostra dos primeiros oito meses, não parece. A economia cresce a metade do ritmo previsto, mas acredita-se numa execução orçamental espectacular. Os parceiros europeus vão fiscalizar as contas de três em três meses e mantêm ameaças de sanções e cortes de fundos, mas a malta da esperança acha que podemos confiar numa negociação favorável. A dívida pública cresceu em vez de diminuir, o Governo recusa aplicar medidas adicionais pedidas por Bruxelas, mas há esperança. As taxas de juro negativas atingem já os bancos alemães, mas espera-se que as políticas do BCE continuem eternamente. Está tudo a correr bem, como acontece no Natal com o peru: o animal dispõe de comida abundante, donos contentes, o peso aumenta, o que poderá correr mal no futuro brilhante que se adivinha?

 

Terça-feira, 16 de Agosto de 2016

Como escreve Jorge Costa, em O Insurgente, a economia portuguesa está presa por um fio. O texto comenta as declarações de um responsável da agência de notação canadiana DBRS, que menciona as dúvidas sobre o crescimento medíocre, a necessidade de meter dinheiro público nos bancos e ainda a incerteza que rodeia a actual situação política. O facto é que na democracia portuguesa nunca existiu um governo minoritário estável, pormenor esquecido em todas as análises políticas que leio na Imprensa. Os comentadores tendem também a subestimar a conjuntura económica: a calamidade social do desemprego desapareceu por inteiro dos radares jornalísticos; o fraco crescimento impede a recuperação da banca e ameaça a receita de impostos; há pressões da Europa no sentido de Portugal fazer as reformas que garantam orçamentos equilibrados e o pagamento da dívida pública, mas ouvimos cada vez mais o argumento da esquerda de que é preciso sair do euro ou renegociar a dívida, única maneira de manter a despesa a crescer mais depressa do que a economia. Restam poucas vozes lúcidas. Uma das excepções é António Barreto, que na sua coluna no DN sublinhava esta semana a pobreza da argumentação da esquerda e o inaturável tom de superioridade moral com que começam todas as discussões. 

 

 

Quarta-feira, 17 de Agosto de 2016

A França discute o burkini, fatiota de praia que tapa inteiramente o corpo das mulheres. Alguns municípios proibiram e impuseram multas, para grande escândalo dos que consideram tratar-se de ‘islamofobia’. O argumento de que as nossas avozinhas usavam roupa de praia semelhante é absurdo, pois entre nós o corpo feminino tornou-se uma banalidade, pelo que a imposição de um pudor extremo alheio à cultura ocidental parece ser uma cedência ridícula das nossas liberdades. Alguma esquerda defende a ideia aparentemente liberal de cada um vestir o que lhe apetece, mas a questão do burkini não é um fait divers, pelo contrário, é altamente política e não tem nada a ver com as liberdades, mas com a opressão. Esta moda está a ser imposta pelos salafistas, corrente extremista com uma interpretação da religião muçulmana que exclui todas as outras, como se pode ler neste artigo de Aalam Wassef, no insuspeito Libération.

A esquerda europeia tende a olhar para a minoria muçulmana nos seus países como um grupo discriminado e oprimido de trabalhadores, resultando num raciocínio perverso de que impor valores ocidentais apenas aumenta a alienação social destes emigrantes e filhos de emigrantes. O avanço das ideias salafistas, graças a dinheiro saudita que sustenta mesquitas radicalizadas, prejudica ainda mais estas populações pouco integradas, que já não apenas rejeitam, mas combatem abertamente as ideias republicanas de Estado secular e liberdade individual. A tolerância da esquerda facilita a intolerância dos fundamentalistas e as primeiras vítimas são as mulheres muçulmanas de França.

O que fazer com o Islão político será o grande tema das presidenciais francesas da primavera de 2017, que entra agora na fase das primárias para escolher os principais candidatos. À esquerda, parece surgir o esboço de um movimento de contestação a François Hollande: Arnaud de Montebourg promete aparecer na corrida como uma espécie de Bernie Sanders francês. Se passar as primárias, será um dos favoritos.

 

Quinta-feira, 18 de Agosto de 2016

Após várias semanas de impasse, os políticos espanhóis decidiram finalmente ir a jogo. Mariano Rajoy, líder do PP, aceitou negociar as condições de Albert Rivera, do Ciudadanos, e tentar a investidura, o que acontecerá no final da próxima semana. Os dois partidos, somados, estão a sete deputados da maioria. Rajoy terá duas oportunidades de formar um governo de minoria do PP: a primeira votação exige maioria absoluta, 176 votos; a segunda exige maioria simples, ou seja, as abstenções serão decisivas e basta que a soma dos votos favoráveis seja superior à dos votos negativos. Os cenários são complexos, como se mostra neste simulador, e não parece existir uma solução estável.

Em princípio, Rajoy pode contar com votos favoráveis dos bascos do PNV e do deputado das Canárias, mas mesmo essa hipótese fica aquém do necessário, apenas 175 votos; caso todos os outros votassem contra, haveria chumbo na primeira votação e também na segunda. Além do voto favorável de bascos moderados e coligação canária, o PP precisa de garantir uma abstenção e parece remota a possibilidade dos catalães da Convergência ou a abstenção do PSOE.

Os socialistas prometem votar contra e arriscam-se a não conseguir formar governo alternativo, pois teriam de fazer um pacto com o Podemos, com exigências duras, o que não dispensava mesmo assim a abstenção dos catalães, com mais cedências difíceis. Aliás, o PSOE teria poucas semanas para negociar e o resultado seria facilmente o fracasso. Seguia-se a dissolução do parlamento e a terceira eleição consecutiva, com alta probabilidade de novo pântano, acrescido do requinte da data limite das terceiras legislativas coincidir com o dia de Natal. A Espanha mergulhou assim numa situação esquizofrénica: o PP não tem aliados para uma maioria absoluta e os socialistas, tendo perdido as eleições, ponderam suicidar-se numa aliança improvável, que terá de incluir a esquerda radical e os separatistas catalães.

 

Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

As imagens chocantes de um menino de Alepo retirado de um edifício bombardeado, filmado em estado de choque, repleto de pó e sangue, lembraram de novo ao mundo o grau de horror que se vive na Síria. A criança chama-se Omran Daqneesh e sobreviveu ao ataque de aviões russos ou governamentais. A indignação é compreensível, mas o mais terrível deste conflito não será tanto aquilo que vemos, como o sofrimento de Omran, mas sobretudo o que não vemos. Segundo a ONU, a guerra civil na Síria já causou a morte a 400 mil pessoas, mas há quem fale em meio milhão. As vítimas são centenas de milhares de feridos, um número de deslocados equivalente a metade da população, mais de dez milhões de pessoas, famílias destruídas, cidades históricas arrasadas, um país devastado. Há quatro milhões de refugiados em relativa segurança no exterior, sobretudo na Jordânia, Líbano e Turquia, e muitos já conseguiram chegar à Europa, talvez mais de um milhão.

A Síria está em escombros e morreu como nação. Há dois grupos principais na guerra civil: as forças governamentais de Bachar al-Assad, apoiadas pela minoria alauíta, pela Rússia, pelo Irão e pela milícia xiita libanesa do Hezbollah. Do outro lado, há centenas de grupos rebeldes, mas juntaram-se sobretudo em duas alianças: os rebeldes sunitas moderados, apoiados pelos EUA, França e Turquia, a que por vezes se juntam salafistas, com apoio Saudita. A segunda grande força anti-governamental é o Estado Islâmico, que combate todos os intervenientes do conflito e pretende exportar a violência, criando atentados no Ocidente.

A segunda camada do conflito é uma guerra religiosa, entre xiitas e sunitas, mas que inclui também o extermínio de cristãos (minoria significativa que apoiava Assad, mas que já deve ser residual). Este labirinto complica-se com a intervenção externa. No pântano sem solução, há uma rivalidade entre americanos e russos, embora os dois países colaborem no combate ao Estado Islâmico; e o mesmo acontece entre Estados Unidos e Irão, cuja rivalidade tem intervalos pragmáticos em que é possível a discreta colaboração contra salafistas, mas sobretudo contra o Estado Islâmico. Os Estados Unidos e a Turquia, aliados na NATO, podem ter interesses diferentes no que respeita aos curdos, que ocupam a faixa de território na fronteira norte da Síria, onde estão aliás também turcomanos e outras minorias que o Estado Islâmico pretende subjugar.

Não falta sequer a esta guerra cruel uma brigada internacional de combatentes ao serviço do Estado Islâmico e vindos sobretudo da Europa, dispostos a executar as piores atrocidades em nome de uma versão homicida da pureza religiosa. Neste pesadelo, que começou em 2011 com manifestações pacíficas então reprimidas por atiradores furtivos e tanques, tem sido impossível um simples cessar-fogo humanitário, já para não falar de um processo de paz que permita o regresso dos refugiados e o início da reconstrução.

 

Sábado, 20 de Agosto de 2016

Um irmão de Omran Daqneesh, ferido no mesmo bombardeamento, não resistiu aos ferimentos. Tinha dez anos. Para que serve a indignação? Esta questão surge na mente de qualquer ocidental incomodado com os horrores da guerra da Síria ou com o pouco que sabemos dela. Nas sociedades contemporâneas temos acesso a um vislumbre do espectáculo do horror. A intransigência do regime de Bachar al-Assad, a violência extrema dos beligerantes, o armamento abundante, a ingerência internacional, o fanatismo religioso que anima os combatentes, enfim, esta guerra parece ter o azar de juntar tudo o que há de pior no mundo. E, no entanto, para travar este conflito era preciso uma intervenção militar em larga escala, com tropas no solo que nenhum político está disposto a enviar. Longe vão os tempos em que os líderes olhavam para os seus exércitos como colecções de soldadinhos de chumbo.

Enfim, somos assim tão insensíveis? Nas notícias há sempre vestígios do mito da culpa ocidental, como se o Ocidente tivesse obrigação de resolver o conflito sem lançar bomba. O facto é que, ao receber em poucos meses um milhão de refugiados sírios, a Europa mostrou uma generosidade sem precedentes, sendo mesmo assim muito criticada pela insensibilidade que nunca teve. É talvez um dos efeitos perversos da globalização: todos os problemas do mundo parecem também nossos, mesmo quando a sua resolução não está ao nosso alcance.

 

Um livro: Arco do Triunfo, Erich Maria Remarque

O autor deste romance foi ele próprio refugiado em fuga da Alemanha nazi. Remarque era uma celebridade internacional, autor de A Oeste Nada de Novo, ainda hoje um clássico. A fama permitiu-lhe fugir para os Estados Unidos e publicar ali este Arco do Triunfo, que garantiu vendas astronómicas e outra adaptação ao cinema: o filme, de 1948, foi interpretado por Ingrid Bergman.

Arco do Triunfo tem cenas demasiado longas e alguma repetição de ideias, há por ali personagens secundárias dispensáveis. Remarque procurou escrever um romance sobre a experiência dos refugiados, mas exagerou na dose da história romântica, pouco convicta, que atravessa toda a história. O autor alemão fora bem mais eficaz num livro de 1939, Desenraizados, sobre a situação dos apátridas que percorriam a Europa em fuga das perseguições raciais do regime nazi. O anti-semitismo, o oportunismo e a indiferença das populações são ali descritos de forma muito crua. Também serviu para o cinema: So Ends Our Night, de 1942 (que nunca vi).

No caso de Arco do Triunfo, há certa dispersão da intriga, concentrada no amor entre o herói, um médico alemão refugiado em Paris, que usa nome falso, e uma mulher misteriosa cujo suicídio ele impede na cena inicial. Essa paixão ocupa dois terços das páginas, mas resulta em excesso de sentimentalismo. Provavelmente, Remarque cedeu um pouco ao gosto da época, por isso o romance vale pelos detalhes, as pequenas histórias dentro da história, os minúsculos golpes de asa que surgem nas reflexões da personagem principal, refugiado não judeu que foi também soldado alemão na Primeira Guerra, tal como aconteceu com Remarque. O melhor vem no fim: Arco do Triunfo tem uma história secundária (concentrada no terço final) sobre uma vingança. São páginas brutais, no duplo sentido de violência e precisão. Na realidade, trata-se de um homicídio perfeito, executado sem remorsos.

A grande literatura está provavelmente ligada à sinceridade, sobretudo quando o autor, sem querer, nos transmite o mais profundo das suas raivas, dos seus ódios e medos. Por isso, a parte deste romance que mais nos perturba é a que tem menos fantasia: diz respeito ao desespero dos refugiados que se arrastam no limbo legal, à espera da prisão e deportação ou da passagem para um paraíso terrestre inacessível. Poucos deles têm esperança em escapar (as situações de injustiça são ainda mais poderosas em Desenraizados). À medida que se aproxima a guerra com os nazis, os ‘sales étrangers’ transformam-se progressivamente em ‘sales boches’. (“Mas somos judeus”, diz, com muita graça, uma senhora que ainda não compreendeu o filme).

“Nada retoma a forma antiga”, afirma outra personagem, para sublinhar que o passado nunca voltará: os refugiados são roubados e explorados, não podem ter vidas normais. Arranjam biscates, são fantasmas, vendem quadros da família. O médico, por exemplo, é preso quando tenta salvar a vítima de um acidente. E estas não são pessoas de uma cultura estranha, pelo contrário, são europeus privilegiados, podiam perfeitamente ser aceites na sociedade francesa, mas só merecem desprezo. Em Arco do Triunfo ou em Desenraizados, Remarque fala-nos do verniz fino da civilização, da frágil estabilidade de cada existência, de como uma vida confortável e feliz se pode tornar de súbito numa situação precária, infernal, repleta de regras incompreensíveis e de perseguições sem saída. O livro é um triunfo de pequenas histórias de duas linhas: muitas destas observações curtas foram certamente tiradas da realidade, narrando o labirinto sem escapatória dos que caminhavam como cordeiros para o extermínio. Arco do Triunfo, cuja história decorre em 1939, ajuda-nos a ver com outros olhos o tratamento dos refugiados que tentam hoje chegar à Europa: o nosso tempo, com todas as suas limitações, é bem mais generoso do que um passado que gostamos de idealizar.

 

A árvore e a floresta


Luís Naves,

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Uma frase

“Não posso deixar de sublinhar aquilo que tem sido uma redução muito significativa da área ardida quando comparada com os anos anteriores”.

João Matos Fernandes, ministro do Ambiente, falando dos fogos, na véspera do grande incêndio que atingiu a cidade do Funchal.

8 de Agosto de 2016

 

Um post:: No excelente Desvio Colossal, Pedro Romano faz a análise dos últimos dados sobre o emprego.

 

A semana: 

Domingo, 7 de Agosto de 2016

Notícia do Público dava conta que o Banco Central Europeu já está a limitar as compras de dívida portuguesa, provavelmente numa tentativa de esticar ao máximo o período em que fará essas compras. O problema, diz o jornal, é que a autoridade monetária estará a chegar ao limite legal do mecanismo que lhe permite comprar activos. Quais são as implicações desta situação? As taxas de juro das obrigações do tesouro a dez anos estiveram de forma consistente num intervalo entre 3% e 3,5% e a redução das compras mensais do BCE poderá ter um efeito de subida do respectivo valor. Estão igualmente a chegar ao fim outros programas de compras de activos e aparentemente estas medidas de estímulo não tiveram o efeito desejado. Esgota-se assim a pequena janela de oportunidade de que Portugal beneficiou durante dois anos, com juros historicamente baixos. Vem aí um período de dificuldades no financiamento da República.

 

Segunda-feira 8 de Agosto de 2016

Uma invulgar vaga de calor e ventos fortes desencadeou incêndios florestais de grandes dimensões que atingiram zonas habitadas em várias regiões do continente e também na Madeira. Este ano os fogos começaram relativamente tarde, mas atingiram depressa proporções catastróficas. O Inverno húmido também contribuiu para o crescimento de matos que agora, em condições secas, aumentam o combustível florestal.

Os incêndios são um fenómeno recorrente e as vagas de calor ocorrem de forma cada vez mais violenta. Os cientistas afirmam que Portugal será bastante afectado pelas alterações climáticas, passando a ter um clima parecido com o de Marrocos. No futuro, haverá maior número de períodos secos e quentes. A floresta portuguesa já tinha as espécies erradas para o clima que existia nos anos 50 ou 60 do século passado; agora, a floresta existente é ainda mais vulnerável, como sugere a redução progressiva da mancha de pinhais. A demografia rural e a própria sociedade mudaram completamente, os interesses económicos estão montados para este tipo de floresta caótica, com espécies combustíveis, como é caso das resinosas. Perante as alterações de clima que ninguém conseguirá travar, a adaptação urgente será porventura a concentração de subsídios florestais em espécies que resistam melhor aos incêndios. A questão está estudada e há muitos trabalhos sobre o tema, como por exemplo este relatório, com pistas interessantes de leitura.

 

Terça-feira, 9 de Agosto de 2016

Uma verdadeira tempestade de fogo desceu sobre a Madeira. Impulsionada por ventos muitos fortes, após semanas de tempo quente e seco. Os fogos florestais no topo da Ilha assumiram proporções devastadoras e invadiram zonas urbanas do Funchal, destruindo inúmeras casas, desalojando centenas de habitantes, matando pelo menos três pessoas. As televisões mostraram em directo o pânico, a histeria, a coragem doida, o esforço inútil, a confusão e o medo. Os incêndios multiplicavam-se pelos jardins da cidade, numa espécie de guerrilha furiosa, e os meios de combate foram insuficientes. A cidade tinha antes sido atingida por inundações: os dois fenómenos estão ligados: as inundações foram mais destruidoras devido a incêndios anteriores e o ciclo vai repetir-se. Caos urbanístico, regras de construção permissivas, excesso de concentração populacional, um clima agora com mais fenómenos extremos (calor e vento forte ou chuva anormal), a Madeira é provavelmente um pequeno laboratório dos erros de ordenamento misturados com os efeitos das alterações climáticas.

Também houve fogos em várias regiões do continente: Aveiro, Viseu, Viana do Castelo e Leiria. As populações organizaram-se como podiam, usando conhecimentos acumulados em episódios anteriores. Numa impressionante reportagem da televisão, mostrava-se uma aldeia a fazer um contra-fogo: era uma cena dramática, mas estranhamente tranquila. Nos incêndios em Portugal vemos muitas pequenas aldeias cercadas, meios que tardam em chegar e populações que se queixam de abandono. A questão dos incêndios é demasiado antiga, resulta “da natureza” e “das transformações sociais do último século”, como aqui justamente escreveu o historiador Rui Ramos.

O Presidente da República, entretanto, travou à nascença as primeiras tentativas de politizar estas catástrofes. Foi uma intervenção cirúrgica de Marcelo Rebelo de Sousa. Num momento de perfeita lucidez, quarta-feira, na Madeira, Marcelo travou o passo às críticas demagógicas e ao circo mediático que já se estava a montar.

 

 

Quarta-feira, 10 de Agosto de 2016

Duas notícias económicas com sinais opostos. O desemprego desceu no segundo trimestre para uma taxa de 10,8%. Aparentemente, é um bom resultado; visto de forma mais cuidadosa, sugere uma melhoria marginal do emprego. Estas estatísticas são sobre o emprego e deve olhar-se para os valores homólogos. Assim, houve um modesto aumento de 20 mil trabalhadores, apesar de se ter passado a barreira dos 4,6 milhões de pessoas com trabalho. A actual taxa de crescimento não é suficiente: a economia permite uma pequena melhoria ou a estagnação do mercado de trabalho. Este é cada vez mais um país a várias velocidades: há os portugueses invisíveis, um pouco embaraçosos, que podem ser facilmente despedidos ou nem sequer têm trabalho; depois, há os portugueses visíveis, beneficiados pelo poder político e cujos problemas os meios de comunicação nunca se cansam de analisar. É o caso do grupo que protagoniza a segunda notícia: o Jornal de Negócios teve acesso a um relatório oficial que aponta para efeitos significativos na questão das 35 horas. Muitos serviços disseram precisar de mais pessoal e mais horas extraordinárias. O que parece espantoso é que se tenha falado em impacto orçamental mínimo desta medida.

 

Quinta-feira, 11 de Agosto de 2016

Com o País ainda em estado de choque com a situação dos incêndios, terá passado despercebido um novo incidente na campanha de Donald Trump, uma ‘piada’ que poderá custar muito caro ao candidato republicano. Trump falava de uma hipotética vitória de Hillary Clinton, problema que apenas os defensores da ‘segunda emenda da Constituição‘ poderiam resolver. A referência era jocosa, mas foi lida de forma séria: seriam os defensores do porte de armas a resolver o problema, ou seja, a tiro. A frase causou uma imediata onda de condenação, dado o historial de presidentes assassinados. A campanha de Trump procurou desvalorizar, dizendo que era uma interpretação dos meios de comunicação desonestos, mas a afirmação tem pouco espaço para ambiguidade. Trump não estava a falar do voto desses cidadãos, mas de algo que eles teriam de fazer após a eleição. A ameaça ao adversário é algo de inédito na História das eleições presidenciais americanas. Em poucos dias, as intervenções demagógicas do candidato republicano, a agressividade da sua campanha e o vazio das proposta políticas causaram forte impacto na disposição dos eleitores. O plano económico, por exemplo, baixa os impostos dos ricos e fará disparar a dívida americana. Trump está a perder terreno em estados cruciais. Desde o início de Agosto, Hillary Clinton distanciou-se no Wisconsin, na Virgínia, na Pensilvânia, em Oregon e Colorado. Hillary está a ganhar terreno em estados decisivos, como Ohio e Flórida, que ainda parecem empatados, mas onde surge uma pequena vantagem democrata. Trump convenceu muitos americanos, mas a sua base de apoio não é suficiente para a vitória. As gafes tiram-lhe qualquer hipótese de alargar a coligação de votos. Na realidade, está a acontecer o inverso: a campanha de Trump ameaça ruir em poucas semanas.

 

Sexta-feira, 12 de Agosto de 2016

Enquanto o país continuava a arder, esfumava-se a estratégia orçamental do governo. O INE divulgou a estimativa rápida sobre o PIB no segundo trimestre e o decepcionante valor de 0,8% em termos homólogos, permite explicar o comportamento medíocre do emprego no mesmo período. É uma péssima notícia. O valor está longe da previsão do governo para 2016, que era de 1,8% e que muitos organismos económicos consideraram optimista. Está tudo bem explicado em O Insurgente, neste post de Jorge Costa.

O crescimento lento implica dificuldades na execução orçamental, tornando mais estranha a recusa de aplicar medidas adicionais exigidas pelos parceiros europeus. Do cumprimento do objectivo de 2,5% em 2016 dependerá a saída do procedimento por défice excessivo. Se falhar, Portugal sujeita-se a sanções ou a suspensão dos fundos europeus, tendo como alternativa mais provável a aplicação de impopulares medidas de austeridade. O crescimento económico abrandou devido à degradação de componentes que o Governo visou estimular de forma objectiva, o investimento e o consumo interno, portanto, estaremos perante um falhanço de estratégia. Será preciso encontrar depressa mais receita (aumento de impostos) ou cortar despesas que os partidos que suportam o governo podem não estar dispostos a apoiar.

A realidade tem sempre mais força, podemos escondê-la durante algum tempo, iludir os seus efeitos, adiar o inevitável, mas não é possível contrariar a natureza. Tudo isto parece uma metáfora dos dias de brasa: nunca houve coragem política para fazer reformas, o país vive há vinte anos num lírico deixa-andar, num irresponsável depois-logo-se-vê. Está tudo estudado, os diagnósticos foram repetidos em cada ano, mas a política continua a discutir a árvore em vez da floresta.

 

Sexta-feira e madrugada de sábado, 12 e 13 de Agosto de 2016

O nadador norte-americano Michael Phelps será o grande herói dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, após ter batido um recorde com mais de 2100 anos. Ao ganhar a sua 13ª medalha de ouro individual, Phelps ultrapassou o anterior recorde de vitórias, que pertencia a um grego chamado Leonidas de Rodes, que venceu 12 competições em quatro olimpíadas clássicas. Leonidas, evidentemente, não ganhou medalhas de ouro, mas ramos de oliveira. Para além deste momento histórico, os jogos do Rio estão a ser marcados pelas primeiras críticas públicas de atletas limpos aos batoteiros que usam drogas para melhorar as suas capacidades físicas. O movimento olímpico só poderá sobreviver se conseguir reduzir os custos destes eventos e se conseguir identificar e expulsar todos os ladrões de medalhas. É uma tarefa difícil, devido à politização do desporto, fenómeno quase tão antigo como as olimpíadas.

Em 67 d. C, numa altura em que os jogos já estavam em decadência, o imperador Nero fez uma visita à Grécia e cumpriu o seu sonho de competir nos jogos olímpicos. Nero adorava corridas de carros puxados por cavalos e tentou bater todos os recordes com uma viatura de dez cavalos, o Ferrari do seu tempo, muito instável e perigoso. O imperador romano saiu da linha de partida a uma velocidade louca e estampou-se logo na primeira curva, sendo projectado para fora da pista. Ficou bastante maltratado (há teorias de que bateu com a cabeça e enlouqueceu neste episódio), mas apesar de não ter concluído a corrida, Nero foi mesmo assim declarado vencedor. Aliás, bateu todos os recordes relevantes, talvez também estivesse sob o efeito do doping, teria bebido uns copitos para ganhar coragem, mas é pura especulação da minha responsabilidade.

 

Um livro: Mocidade, de Joseph Conrad

Muitos exemplos de grande literatura são textos curtos sobre temas aparentemente simples, mas que escondem uma profunda e justa complexidade. É o caso deste conto de Joseph Conrad, publicado de forma isolada numa excelente colecção da Assírio e Alvim. Mocidade terá sido um ensaio ou um esboço para a obra-prima deste autor britânico de origem polaca, O Coração das Trevas, publicado um ano depois, em 1899. O narrador é o mesmo nos dois textos, Marlow, também o narrador de Lord Jim. Conrad usa no conto e na novela o mesmo esquema narrativo banal, de alguém que conta uma velha lenda aos amigos.

Mocidade é uma história de homens fracassados, que executam com valentia uma viagem feita de sucessivos obstáculos. O texto está repleto de pequenas observações certeiras sobre as personagens, “um homem que tivera, tinha ou esperava ter desgostos”, e descreve num tom nostálgico perigos quase inimagináveis. Este conto tem também aspectos autobiográficos: Conrad fez aos 21 anos uma viagem parecida com a que descreveu, num velho navio fustigado por tempestades, vítima da combustão espontânea da sua carga de carvão, incluindo uma explosão quase catastrófica e a propagação imparável do incêndio, culminando no abandono do navio perdido. Há também semelhanças na última etapa, até um porto onde o herói tem a sua primeira visão do mítico oriente e que, no caso de Conrad, terá sido um pouco mais fácil do que acontece na ficção.

Num plano mais simbólico, há aqui uma metáfora do mal que nos acompanha, que se esconde no porão da sociedade e cuja superação é o verdadeiro triunfo. É pelo menos assim que Marlow olha para aquele episódio: “Para mim era o esforço, a prova, o julgamento da vida”, isso era o importante, ou, como afirma mais à frente, “a convicção triunfante de termos força, o calor da vida numa mão cheia de pó, aquela chama do coração que ano após ano esmorece, esfria, encolhe até se apagar de todo…e se apaga cedo, muito cedo… antes da própria vida”.

O mal, o horror, é aquilo que Marlow encontrará no Coração das Trevas, uma extraordinária denúncia do colonialismo que serviu de base para o mítico filme Apocalipse Now. Em Mocidade, temos um texto mais brando, sobre a prova da vida, a superação da juventude, o combate contra o fogo escondido que arde no interior de um navio condenado. O Judea devia transportar homens sem nada de especial, mas estes revelam-se no meio da adversidade, nunca desistindo, a sua coragem sem glória, como explica o narrador, evocando “aquele velhote cheio de ironia…e Deus queira que o mar alto onde agora dorme seja carinhoso para ele”. Existe em Mocidade uma suave crença no humano que recusa a derrota, apesar das forças adversas, da natureza cruel e das marcas do tempo que vão apagando a chama do coração.

 

Não se deixem cair na tentação


Luís Naves,

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Uma frase: “Não excluo legislativas antes das autárquicas“.

Rui Rio, ex-dirigente do PSD

Diário de Notícia, 6 de Agosto de 2016

 

Um post: Francisco José Viegas escreve aqui sobre a hipocrisia política e elogia as raras vozes que vão remando contra a maré.

 

A semana

Domingo, 30 de Julho de 2016

O País seguiu para férias e, como se toda a gente ouvisse um sinal sonoro, desapareceram de repente os problemas da crise. Tirando os incêndios, que infelizmente fazem parte da paisagem de Verão, chega o tempo das histórias positivas: famosos a banhos, políticos descontraídos, dinheiro a rodos, abundantes trabalhos sazonais e festas de ricos. Subitamente, anda toda a gente feliz e a esquerda radical já não critica como antigamente. Os desempregados desapareceram e nenhum jovem foi forçado a emigrar. As redes sociais descansam umas semanas e não sentiremos o seu veneno e frenesim. No intervalo de Agosto percebe-se melhor como o debate político é uma repetição de mais do mesmo, com umas pitadas de treta.

 

Segunda-feira, 1 de Agosto de 2016

A campanha eleitoral nos EUA está a tornar-se invulgarmente negativa, mesmo para os padrões americanos. Donald Trump troçou de uma família de origem paquistanesa que perdeu um filho no Iraque e começa a ser penoso assistir às intervenções malévolas do candidato republicano. Ao hostilizar a poderosa instituição dos combatentes e veteranos, Trump escandalizou outro influente sector da sociedade americana. Um incidente igual a este teria liquidado qualquer campanha anterior de um candidato à Casa Branca, em qualquer eleição que não esta. Trump tem sobrevivido às piores controvérsias mas, neste caso, está a sofrer uma queda nas sondagens, com perdas em estados decisivos, não se tratando ainda de uma derrocada. Sendo o candidato fora do sistema, Trump pode dizer o que quiser, mas esta suposta invulnerabilidade talvez não seja mais do que uma ilusão. O Partido Republicano ficou desfeito com a escolha de um candidato que não respeita os seus valores tradicionais. As críticas tornam Trump mais atrevido e os seus apoiantes mais convictos de estarem a ser manipulados por elites financeiras e políticas. Se cair na tentação de continuar este jogo de casino, Trump arrisca-se a uma derrota humilhante. Caso seja eleito, mesmo após atacar tanta gente, o novo presidente será contido pelas restantes instituições da democracia americana, tendo mesmo assim amplas oportunidades para fazer estragos sérios, criar divisões e frustrar aliados. Como escreve Robert Kagan neste artigo há algo de incrivelmente errado com o candidato republicano, que dispara em todas as direcções, como se fosse um pistoleiro do velho oeste em busca de notoriedade: e só diz coisas tremendas, por exemplo, que os Estados Unidos são um país do terceiro mundo, que Hillary Clinton é o diabo.

 

Terça-feira, 2 de Agosto de 2016

Entraram em vigor novas regras para calcular o imposto municipal sobre imóveis (IMI), pago pelos proprietários, e as alterações são delirantes: os imóveis terão um agravamento de imposto em função da exposição solar e em função das vistas, entre outros elementos pouco objectivos, que introduzem componentes discricionárias na avaliação das finanças. Os socialistas responderam à reacção negativa da direita com a habitual agressividade, à qual juntaram argumentos pouco convincentes (que não há nada de novo, que se pretende introduzir justiça): afinal, os imóveis com boas vistas e boa exposição solar já são mais caros, portanto, tendem a pagar mais IMI; a partir de agora, pagam duplamente. Francisco Sarsfield Cabral observa, neste texto: fracassou o plano do governo de estimular o consumo e pôr a economia a crescer mais depressa; resta a via dos impostos.

 

 

Quarta-feira, 3 de Agosto de 2016

O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Fernando Rocha Andrade, foi assistir em França a jogos da selecção nacional de futebol a convite da Galp, empresa que tem um litígio fiscal com um organismo sob tutela do próprio secretário de Estado. A história transformou-se no escândalo político da semana. O spin governamental pôs a circular notícias em que se misturavam outros casos, incluindo de três deputados do PSD que teriam viajado a convite do empresário Joaquim Oliveira. Essa notícia era falsa, embora fosse verdade que alguns deputados justificaram a falta na Assembleia da República com a desculpa de ‘trabalho político’.

No que respeita à vertigem do futebol, Marcelo Rebelo de Sousa e Passos Coelho parecem ter compreendido a importância de um comportamento cuidadoso. O Presidente foi criticado por querer pagar do seu bolso a despesa do Falcon e o líder do PSD foi ridicularizado por não comparecer na recepção em Belém à equipa nacional. Em resumo, para a maioria dos comentadores, tratou-se mesmo de trabalho político. É bem estranha esta obsessão do regime com o futebol, mas a situação de Rocha Andrade tem aspectos que vão além da simples tentação de aparecer na fotografia ao lado dos heróis ou no palco dos sonhos e dos triunfos. No futuro, o secretário de Estado não poderá decidir sobre assuntos que envolvam a Galp, tem portanto uma limitação à sua autoridade e não se compreende a razão de se manter em funções.

Rocha Andrade não podia aceitar o convite da Galp, pois o fisco tem um código de conduta que impede os seus membros de aceitarem qualquer oferta. Se os funcionários não podem aceitar presentes, o secretário de Estado também não deve poder. O caso é de longe o mais grave porque ele é o responsável máximo pela arrecadação de impostos, tem de ser um exemplo para todos os contribuintes, estar acima de qualquer suspeita. Se cada cidadão paga impostos e cumpre as regras, mais importante se torna a responsabilidade de arrecadar essas verbas. Cabe aos políticos dar o exemplo, não o inverso. O resto é hipocrisia da mais refinada.

 

Quinta-feira, 4 de Agosto de 2016

O caso Rocha Andrade motivou a resposta imediata do Governo. Não há mais discussão, assunto encerrado. É também assim nas coisas graves, não se passa nada na economia, onde surgem diariamente notícias que deviam preocupar toda a gente. A UTAO está pessimista em relação à execução orçamental e a agência de notação Fitch publicou uma análise arrasadora, que aponta para uma previsão de défice de 3,4% e uma taxa de crescimento de apenas 1,2%. Num governo de direita, haveria manchetes para semanas, mas o duplo critério jornalístico chuta para canto estes problemas, embora a realidade tenha a mania teimosa e embirrante de se impor às fantasias.

Parece assim cada vez mais provável que a geringonça se rompa por um motivo exterior. O deslize orçamental ameaça as taxas de juro da dívida e pode resultar em exigências de Bruxelas de cortes na despesa, que seriam intoleráveis para os partidos da esquerda. O Governo continua a dizer que não cumprirá a recomendação da comissão feita na semana anterior, de aplicar medidas adicionais, fingindo ignorar que existe uma ameaça de suspensão dos fundos comunitários de 2017. Talvez os socialistas não contem estar no Governo nessa altura. Para os analistas, o acordo entre os quatro partidos está sólido e quem romper perde imensos votos. Talvez tenham razão, mas se todas as noivas saírem ao mesmo tempo, a compreensão dos convidados irá apenas para elas; quem fica ridículo é o noivo deixado no altar, deve ter um problema qualquer.

 

Sexta-feira e madrugada de sábado, 5 e 6 de Agosto de 2016

Começaram os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, com muitas notícias sobre problemas de organização e protestos na rua. Um pouco antes da cerimónia de abertura, na televisão portuguesa, ouvia-se uma manifestante protestar contra os gastos, mas a culpar o actual poder, que ela considerava golpista. Os meios de comunicação já não pensam um pouco naquilo que transmitem, não houve um momento de dúvida, o repórter não conseguiu travar a diatribe, lembrando à senhora indignada que os gastos tinham sido feitos no tempo da administração de Dilma. Vivemos num tempo de ‘narrativas’, em que uma boa história nunca deve ser interrompida pela realidade. No Inverno do Rio, não há mosquitos para transmitir o vírus Zika, mas que esse pequeno detalhe não estragou a boa história de haver por ali uma séria ameaça de contaminação. Os Jogos Olímpicos são hoje uma extravagância que os países organizadores pagam durante décadas. Para um país como o Brasil, será uma conta calada.

 

Um livro: Definetely Maybe, de Arkady e Boris Strugatsky

À colecção de uma editora americana foi dado o nome de ‘Biblioteca do Neversink’, referência extraída de Herman Melville, sobre a biblioteca de um navio de ficção. A ideia é a seguinte: os livros mais agradáveis que lemos são geralmente os que encontramos por acaso. Li vários livros assim, brilhantes, esquecidos, menos famosos do que tantos outros, mas igualmente fascinantes. Um dia, encontrei por acaso um livro em que penso muitas vezes, Apepe, de Ferenc Karinthy, que não existe em português, mas podia citar outros: Coming Up for Air, de George Orwell, que julgo não estar editado em Portugal; Enviado Especial, de Evelyn Waugh, uma divertidíssima sátira sobre jornalismo; ou ainda Jogo da Cabra Cega, de José Régio, obra-prima infelizmente esquecida e que também encontrei por acidente.

A minha biblioteca do Neversink tem volumes de Laszlo Krasznahorkai, Dino Buzzati, Joseph Roth, Raul Brandão, Paul Bowles, Vergílio Ferreira, Romulo Gallegos, tem um Dostoievsky dos menos citados, ganhou agora este Definitely Maybe, a história de um cientista soviético que, à beira de uma grande descoberta, e por qualquer razão misteriosa, é interrompido por toda a espécie de peripécias parvas, ruídos insistentes e personagens ambíguas.

Os dois autores são famosos na ficção científica, mas esta sua obra supera o género. Os irmãos Strugatsky usam todos os mecanismos populares, com referências de cultura e diálogos de qualidade acima da média. O ritmo e o suspense obrigam a continuar a leitura, encontramos personagens cómicas e cínicas, subtis críticas políticas e também é usado o mecanismo das histórias de espionagem, com pistas falsas e cambalhotas lógicas que enganam o leitor à maneira do grande John Le Carré, que é expressamente citado.

Em Portugal, este livro foi publicado nos anos 90, com título Até ao Fim do Mundo, numa colecção de ficção científica da Europa-América. Teve, por isso, dificuldade em encontrar os seus leitores. Para os fanáticos do género, será demasiado intelectual e decepcionante, pois dispensa os lugares-comuns habituais da ficção científica, que geralmente é uma forma de fantasia onde a realidade foi cuidadosamente disfarçada. Para quem não gosta deste tipo de literatura, Até ao Fim do Mundo tem tudo: inteligência, ideias, modernidade, simplicidade na estrutura e no estilo, com o brinde inesperado de colocar um sorriso permanente na cara do leitor.

Este romance é também um bocadinho mais subversivo do que parece. Questiona o domínio do politicamente correcto, especula em torno do tema das conspirações, dos poderes ocultos e do respectivo controlo do pensamento. Coloca o problema da resistência fútil e explica como a desistência pode ser uma grande tentação. Estará mesmo uma super-civilização a interferir no desenvolvimento científico da humanidade? Tudo indica que sim, mas nas certezas convém colocar um talvez. O facto é que se tornou difícil pensar: somos constantemente interrompidos por minúsculas preocupações da vida contemporânea. Este livro, escrito numa sociedade onde havia o peso do sistema político totalitário, é hoje muito compreensível para os contemporâneos da menos poética era da internet e dos telemóveis.

 

Mundos com regras próprias


Luís Naves,

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Frase

“É possível, dentro das regras europeias, gerir um orçamento com o rigor necessário, sem penalizar os rendimentos das pessoas, sem mais cortes nos salários e pensões e sem carregar a economia com impostos”. Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, recusando a recomendação da Comissão de aplicar medidas equivalentes a 0,25% do PIB.

SIC, 28 de Julho de 2016

 

post:

A ironia de Rui a, em Blasfémias, aplicada aos exageros patrióticos dos últimos dias.

 

A semana

Domingo, 24 de Julho de 2016

Foram conhecidos mais pormenores sobre o golpe na Turquia. Um artigo do New York Times explicava que, antes dos acontecimentos, os serviços de informação turcos estavam a recolher informação sobre milhares de adeptos do movimento de Fethullah Gulen, o clérigo que Erdogan acusa de ter inspirado a acção militar. A sede dos serviços de informação foi um dos primeiros alvos dos ataques. Sabe-se agora que o regime preparava uma purga destes elementos, que se lançaram no golpe para impedir o seu próprio afastamento da hierarquia militar. A facção gulenista é acusada de se ter infiltrado em todos os sectores da sociedade, sobretudo nas mesquitas, meios de comunicação, magistratura e forças armadas. Segundo o jornal americano, o poder dos gulenistas era enorme, incluindo no sector financeiro, universidades e funcionalismo público. Enfim, estas informações indicam que a purga do movimento Hizmet de Fethullah Gulen vai certamente continuar, o que não deixará de criar profundas divisões na sociedade turca.

 

Segunda-feira, 25 de Julho de 2016

Sequência de quatro atentados na Alemanha em apenas uma semana provocou nova discussão sobre a vaga de refugiados. Num destes ataques, um sírio matou uma mulher grávida e feriu outras duas; outro caso envolveu um refugiado que teve acesso a explosivos (o homem morreu na explosão e deixou quinze pessoas feridas). Os autores destes actos de violência tinham problemas psiquiátricos, mas cresce a irritação em relação à política de imigração do Governo. Para muitos alemães, permitir a vaga de refugiados foi um erro de Angela Merkel. Os partidos populistas, com destaque para Alternativa para a Alemanha, tentarão aproveitar a onda de descontentamento. Há um clima de insegurança em toda a Europa, mas os políticos e os meios de comunicação continuam a desvalorizar o fenómeno, o que apenas reforça a desconfiança popular. O estado de negação tende sempre a agravar o problema.

 

Terça-feira, madrugada de 26 de Julho de 2016

A divulgação de mails comprometedores sobre a parcialidade do comité nacional democrata marcou o primeiro dia da convenção do Partido Democrata, em Filadélfia. É profunda a irritação dos apoiantes de Bernie Sanders e o escândalo pode ter efeitos significativos na campanha de Hillary Clinton. Apesar dos primeiros discursos de unidade, muitos eleitores à esquerda terão relutância em votar numa candidata que vêem como a personificação de um sistema político corrompido. Clinton escolheu um candidato a vice-presidente que a ala liberal do partido considera demasiado conservador. As sondagens indicam crescentes dificuldades em estados onde a vitória dos democratas devia ser mais fácil do que se adivinha. A eventual eleição de Donald Trump seria um sismo sem paralelo na história do país, mas os políticos parecem continuar a subestimar a rebelião do eleitorado. Parafraseando a famosa tirada do marido de Hillary, (‘é a economia, estúpidos’), desta vez grita-se: ‘é o sistema político, estúpidos’.

 

Quarta-feira, 27 de Julho de 2016

A Comissão Europeia optou por propor sanções zero a Portugal e Espanha, em relação ao procedimento por défice excessivo. Terminou em anti-clímax um episódio onde ninguém ficou bem na fotografia. Perante a opinião pública, a direita foi colada (justa ou injustamente) ao desejo de que as coisas corressem mal, mas livrou-se de culpas nas contas de 2015; o Governo fez grande berraria contra os credores europeus e os falcões de Bruxelas, terá por isso dificuldade em explicar as medidas adicionais que aí vêm e, paradoxalmente, mais facilidade em manter a geringonça a funcionar. A Comissão, por seu lado, frustrou os países que querem maior rigor na aplicação dos tratados, provocando irritação em alguns deles. O presidente da comissão, Jean Claude Juncker, parece ter caído num momento de hipocrisia delirante, ao vangloriar-se que o órgão a que preside tem de ser mais ‘político’: quem o elegeu para extravasar as suas competências? A Comissão é um organismo técnico que defende a aplicação dos Tratados.

Enfim, o Governo de António Costa deixou de ter álibis para justificar os problemas que criou nos primeiros seis meses de governação. Culpar o governo anterior passa a ser um pouco absurdo e acusar Bruxelas de inflexibilidade colide de forma demasiado óbvia com os factos. Não há, a partir de agora, qualquer pretexto para demissões, nem mesmo a recomendação de medidas adicionais para aplicar até 15 de Outubro (num valor de 0,25% do PIB, ou 450 milhões de euros). O próximo orçamento será rigoroso, sobretudo se o novo objectivo de défice para 2016 (2,5% do PIB) não for alcançado, mas não haverá mais reversões de reformas. Os partidos que apoiam o Governo assinam por baixo ou entram em ruptura. É irónico, mas a esquerda, que cantou vitória com as sanções zero, está numa curva apertada: se sobreviver até fim do mandato, é porque continuou o ciclo de reformas iniciado no tempo da troika. Recomendo, a propósito do futuro, a leitura deste excelente texto de Rui Ramos.

 

 

Quinta, 28 de Julho de 2016

Neste artigo de Wolfgang Munchau são analisados os erros da chanceler alemã na união bancária. O pragmatismo pode produzir políticas insustentáveis, escreve o autor (e talvez a crise dos refugiados seja um novo exemplo). Voltando às ideias principais: Merkel errou ao decidir que cada país seria responsável por resgatar o seu sistema bancário; a união monetária tem ainda maior importância após o Brexit; a zona euro deverá evoluir para uma região com mais integração política e de mercado, incluindo na área laboral.

Em Portugal, a discussão sobre o futuro da zona euro tem privilegiado a visão simplista das sanções injustas, dos tratados que não são para cumprir, das reformas que não são para fazer, da despesa pública que não convém reduzir. Enfim, estamos numa zona de sonho e lirismo lusitano, em que nos pagam as contas se falarmos com dureza, em que nos tornamos mais competitivos por sermos bons, onde basta estar optimista para que tudo corra pelo melhor. As fantasias são geralmente dispendiosas. Sob tutela de regras incompatíveis com a visão socialista da sociedade, é mais improvável a sustentabilidade da realidade paralela com que sonha a esquerda.

 

Sexta-feira, 29 de Julho de 2016

Hillary Clinton é oficialmente a candidata democrata à Casa Branca. Foi aclamada na convenção do partido e está a ser feito um esforço de unidade, mas é indisfarçável a dificuldade da sua eleição. Clinton é um dos melhores exemplos de operador dominante num sistema político onde mandam os interesses especiais. Será uma presidente formidável, mas o caminho para a Casa Branca está cheio de obstáculos, nomeadamente a retórica agressiva dos republicanos (enfim, do que resta da fragmentada direita americana).

A eleição de Donald Trump seria uma catástrofe para a América e para o mundo. Trump teria enormes limitações ao seu poder e todas as instituições lhe seriam hostis, a começar pelo congresso, onde o seu próprio partido lhe faria a folha sem remorsos. Uma parte da opinião pública americana vê o assunto de outra forma: Trump tem vantagem nos estados mais afectados pela crise económica e em toda a geografia conservadora; o seu ponto fraco será a hostilidade das minorias étnicas e religiosas, sobretudo dos negros e hispânicos.

Clinton já conquistou o voto das minorias, assegurou igualmente o voto feminino, mas tem forte rejeição entre eleitores masculinos e brancos que se sentem vítimas da globalização, de Wall Street e das elites políticas em Washington. A candidata democrata também sente dificuldade em convencer eleitores democratas que aderiram ao movimento de Bernie Sanders, cuja derrota se deve em parte ao campo inclinado no partido. Hillary tem falta de carisma, não é boa oradora, mas o seu fracasso seria uma oportunidade perdida para a América. A eleição do demagogo Donald Trump, com as suas realidades paralelas e regras próprias, iniciará um processo de declínio acelerado e talvez irreversível: a América vai fechar-se e perderá o elemento que lhe deu a vitalidade, ou seja, a capacidade de absorver a diferença. Neste aspecto, os Estados Unidos imitaram genialmente a antiga Roma. A eleição de Novembro será um referendo sobre se este País quer deitar fora a galinha dos ovos de ouro.

 

Sábado, 30 de Julho de 2016

No tempo de uma única geração, não se compara o acesso que hoje temos a conforto, cultura ou informação. Há 30 ou 40 anos, uma pessoa das elites teria dificuldade em manter uma conversa inteligente com alguém do povo: não porque o povo fosse estúpido, mas por haver entre as duas pessoas um fosso de linguagem e de interesses. A educação em massa e o progresso material mudaram tudo e é possível hoje ter essa conversa, pois o povo já não existe, é uma imensa classe média capaz de ler clássicos e de ouvir ópera, capaz de conhecer com profundidade assuntos técnicos complexos. O fosso entre cultura de elites e cultura popular estreitou-se.

Se a diferença entre elites e povo deixou de ser assim tão intransponível, mesmo na linguagem e na cultura, então é evidente que os eleitores mais numerosos têm vantagem na contestação a instituições que deixaram de reflectir o consenso social. Enfim, morre devagar o sistema em que as elites controlavam comodamente todas as alavancas do poder e triunfa a vaga anti-elitista: a simplificação em voz popular, a denúncia dos meios de comunicação que vivem na sua bolha, a rejeição dos banqueiros gananciosos e dos políticos fracos, incompetentes e corruptos, a percepção de que tudo se decide atrás da cortina e de que o maior perigo vem dos manipuladores da realidade.

 

O livro:

A História de Um Sonho, de Arthur Schnitzler

A novela de Schnitzler serviu de base para o filme De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick, que não consegue captar o tom expressionista original, que nos leva pelos labirintos do sexo, até ao abismo do fascínio pela morte. Neste texto, há um ruído de fundo que nos remete para as zonas secretas da sociedade. A busca da personagem principal, o médico Fridolin (frívolo, libertado?), ocorre num contexto de revelação de algo que se encontrava oculto, no interior do próprio conforto burguês de um casamento. A novela é um falso policial e decorre na Viena dos anos 20 do século passado, mas a ideia parece contemporânea, de que existe uma realidade paralela, um mundo de elites com regras próprias. A entrada, ali, é proibida, mas será verdadeira a sugestão causada por factos de interpretação ambígua? O perigo é autêntico? A mulher morta foi a mesma que salvou a vida ao intruso?

A curiosidade e a fantasia resultam na dúvida sobre o que aconteceu e, sobretudo, na culpa sobre o que possa ter acontecido. A mulher de Fridolin, cuja confissão de um pecado imaginário desencadeou a crise, diz no final: ‘agora, estamos plenamente acordados’. Naquele momento termina o devaneio e recomeça a fatia maior da realidade: ‘Nenhum sonho é inteiramente sonho’, o que pode significar que somos responsáveis pelo que fazemos, mesmo quando tudo parece ter a maior inocência. Como tudo isto parece actual!

 

Realidades paralelas


Luís Naves,

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A frase:

“Seria uma aventura referendária (…) e por isso inadmissível para o Presidente da República, seja um referendo sobre a pertença à Europa ou um referendo sobre a vinculação a tratados ou pactos celebrados no quadro europeu”.

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República

21 de Julho de 2016

 

O post

Reflexão sobre Donald Trump e a sua imagem nos meios de comunicação, por José Mendonça da Cruz, em Corta Fitas

 

O livro:

Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco

Este romance de 1864 foi escrito após alguns dos melhores livros de Camilo, como Amor de Perdição ou O Bem e o Mal. O narrador (o próprio Camilo, claro) ouve o relato de uma paixão antiga de um fidalgo que reencontra por acaso, anos depois dos factos. É a história de um adultério, de um amor proibido, com os habituais mal-entendidos e desencontros dos amantes. Camilo parece recear o tema e, após algumas divagações moralistas, o amor pecaminoso transforma-se num labirinto de ódios e termina no tal amor de salvação que redime a alma perturbada do protagonista. A personagem de Teodora é um dos modelos de mulher camiliana: nunca percebemos bem a sua motivação, a infidelidade é demasiado conveniente, não percebemos por que razão ela desiste do amante, é demasiado bela, exerce demasiado poder, é a perdedora, torna-se perversa e perigosa. Talvez esta seja apenas a versão do homem que desistiu do amor e Camilo não se interessa pelo que aconteceu à mulher da história. Naturalmente, está lá tudo o resto: a prosa esfuziante, as frases esculpidas, o ritmo que leva tudo à frente, o génio das novelas de Camilo.

 

A semana

Domingo, 17 de Julho de 2016

Excelente artigo no jornal El Pais sobre o crescente movimento de partidos insurgentes na Europa. Não concordo com todas as escolhas (a inclusão do Fidesz húngaro, como se vê na tabela; e, no caso português, falta o PCP), mas é mesmo assim o trabalho mais completo que já vi sobre este tema. A análise tem aspectos interessantes, por exemplo a constante do anti-americanismo ou o número surpreendentemente elevado de formações que contestam a participação dos respectivos países na Aliança Atlântica. Em relação a Portugal, segundo sugere o gráfico, os partidos que cabem neste conceito de rebelião anti-sistema não estão abaixo de 10% da votação, mas na realidade eles rondam 20%, que é provavelmente a média europeia (temos de somar os comunistas e os bloquistas). A média está talvez a subir, não apenas em Portugal, mas nos outros países analisados. Não parece tão acertada a contabilização no caso dos países de leste, onde a insurreição terá a dimensão típica, em redor de um quinto do eleitorado. Independentemente dos exageros ou erros, tudo indica que as próximas eleições europeias vão criar um Parlamento Europeu pouco interessado na fórmula actual. Já este ano veremos cenas dos próximos capítulos na Áustria e no referendo constitucional italiano. Em 2017, teremos novos episódios, com a Frente Nacional, Geert Wilders e a Alternativa para a Alemanha. Serão os grandes testes desta insurreição e já veremos até onde ela irá.

 

Segunda, 18 de Julho de 2016

A propósito do tema anterior, o Observador publicou esta notável entrevista ao historiador e autor britânico Timothy Garton Ash, onde se encontram reflexões sobre o Brexit, Donald Trump e o enorme movimento que poderemos definir como vaga iliberal. A entrevista inclui uma aparente contradição de Garton Ash: por um lado, o autor está convicto da superioridade do sistema liberal; por outro lado, reconhece que o período de globalização que se seguiu à queda do Muro de Berlim provocou grandes descontentamentos. Ash fala também do que viu durante a campanha do referendo britânico, na sua região de Oxford, ao encontrar pessoas zangadas com o sistema, temendo perder empregos para imigrantes de leste e que criticavam os vizinhos: banqueiros, oligarcas russos e milionários chineses. Na mesma cidade, viviam vencedores e perdedores da globalização. A entrevista sugere que no mundo industrializado emerge uma viragem ideológica empurrada pelo descontentamento dos perdedores. Esta transformação está presente em cada uma das notícias que vemos diariamente, dos atentados do jihadismo à convenção republicana nos Estados Unidos, da emergência de insurreições partidárias à votação no referendo britânico. Também parece que alguns liberais estão a cair na mesma ilusão que no passado embalou os defensores de outras ideologias: que o seu sistema era tão perfeito e vantajoso, que seria o fim da história.

 

Terça-feira, 19 de Julho de 2016

A sequência de más notícias na economia começa a ser preocupante. A incerteza em relação à Caixa Geral de Depósitos não faz sentido e o sistema financeiro parece andar sobre gelo fino, a ponto de o FMI ter incluído a pequena banca portuguesa no lote dos problemas que a organização detectou. No sábado passado, o Expresso noticiava que o crédito malparado, em 2015, seria superior a 33 mil milhões de euros, ou quase 13% do total. O mesmo jornal referia que a poupança das famílias foi negativa pela primeira vez no primeiro trimestre de 2016 (a série tem 40 anos), pois os gastos cresceram dez vezes mais do que o orçamento familiar, uma loucura. Em Maio, o saldo da balança corrente foi um dos mais negativos da Europa (940 milhões de euro, na realidade o pior em percentagem de PIB) e é um susto olhar para o gráfico incluído neste post de Mário Amorim Lopes. Em resumo, tudo isto sugere que os políticos deram os sinais errados à população, que houve excesso de optimismo e falsas promessas de que a crise tinha acabado. O essencial do problema está bem explicado neste texto de Sérgio Figueiredo: o crescimento económico é insuficiente. O Governo queria estimular a economia desapertando o cinto, mas a economia abrandou, não há confiança dos investidores e credores, não há poupança, os bancos estão a perder depósitos, as pessoas desataram a consumir e a balança externa degradou-se. A Europa sabe que as contas públicas foram afectadas por erros desnecessários, a política interna exige que esses erros prossigam, isto é como aquelas bebedeiras eufóricas, que já não param até ao momento da ressaca.

 

 

Quarta-feira, 20 de Julho de 2016

O golpe de sexta-feira na Turquia durou poucas horas e fracassou de forma patética. Seja por cinismo ou oportunismo, já parece claro que a democracia turca, ou que dela restava, não resistiu aos dias seguintes. O presidente Recep Erdogan desencadeou uma vasta purga nas forças armadas, no sistema de ensino, no sistema judicial e nos meios de comunicação. O número de detenções e demissões já ultrapassou 50 mil. O Presidente está a eliminar a facção gulenista do movimento islâmico e desistiu de vez de uma hipotética adesão à Europa. Após anos de avanços tímidos e recuos abruptos, as negociações visando a possível adesão da Turquia à UE estão definitivamente enterradas. A partir de agora, o regime turco não tem de fingir que é moderno, democrático e tolerante, pode largar todos os seus instintos autoritários. Será menos militar do que o Egipto, mas impondo igualmente ordem e estabilidade. Os islamitas radicais não têm lugar nesta visão, mas a república secular também não será bem-vinda. Haverá partidos, eleições, mas nenhuma vontade de seguir o modelo europeu de democracia liberal. Neste caso, a UE não geriu o pau e a cenoura, com as habituais promessas de adesão em caso de bom comportamento. A Turquia era demasiado grande para entrar no clube e Erdogan percebeu que o seu país jamais seria ali aceite. Refira-se que o Presidente possui um trunfo precioso: o Ocidente precisa da Turquia. Os americanos não podem hostilizar o seu maior aliado na região (depois de Israel) e os europeus terão de continuar a falar com juízo e jeitinho, pois o sultão pode abrir subitamente a torneira dos refugiados sírios.

 

Quinta-feira, madrugada de sexta, 21 e 22 de Julho de 2016

Donald Trump aceitou a nomeação do Partido Republicano para concorrer à Casa Branca, numa convenção cheia de momentos folclóricos e pequenos incidentes. Trump continua a ser subestimado pelos críticos e fez um discurso tremendo, que um comentador na CNN definiu como a descrição de uma América Mad Max. O Partido Republicano está estilhaçado (talvez mesmo moribundo) e a direita americana mergulhou num populismo agressivo e repleto de raiva. As pessoas estão fartas dos políticos do sistema e isto pode reflectir-se de forma inesperada nas urnas, como aconteceu com o Brexit, onde a irritação das massas obrigou o Reino Unido a uma má escolha. Será que Hillary Clinton consegue sobreviver à insurreição populista? Esta é a grande questão das eleições presidenciais de Novembro. As sondagens nacionais pouco dizem. Analisando o mapa eleitoral, vemos que a candidata democrata tem vantagem segura em mais estados do que Trump, o que somado às vantagens ligeiras, lhe poderia dar 209 votos eleitorais, contra 164 do candidato republicano, (é isto que conta e pode ser visto aqui). São precisos 270 votos e há incerteza em estados que deviam ser seguros para Clinton, por exemplo no sul (Carolina do Norte, Virgínia, Geórgia) onde votam muitos afro-americanos e hispânicos. Ohio, Pensilvânia e Flórida parecem ser os principais campos da batalha presidencial de Novembro. Tirando o folclore, se Trump for eleito, a América torna-se proteccionista e isolacionista. O que o candidato disse ao New York Times sobre a NATO é um susto: quem não pagar a sua quota (ele diz quem não pagar a protecção das forças americanas) ficará por sua conta. Seria o fim da NATO, naturalmente. Delírio, paranóia, realidade paralela, como escrevi num longo texto da última edição da revista Ler, Donald J. Trump parece uma personagem arrancada à ficção de Philip K. Dick, ou talvez seja uma das famosas premonições daquele génio da ficção científica.

 

Sexta-feira e madrugada de sábado, 22 e 23 de Julho de 2016

Um jovem perturbado matou nove pessoas em Munique, três dias depois de um rapaz de origem afegã ter atacado com um machado os passageiros de um comboio regional na Baviera, ferindo gravemente quatro pessoas. No caso de Munique, viveram-se horas de pânico, pois podia tratar-se de um novo atentado de inspiração islâmica e havia indícios de fuga de terroristas. Afinal, o suspeito do tiroteio, de 18 anos, agiu sozinho, suicidou-se e parece que usou as redes sociais para atrair algumas das suas vítimas ao local do crime. O jovem tinha origem iraniana (e cidadania alemã), mas o incidente não teve relação com o terrorismo islâmico. Apesar de tudo, não é possível iludir o padrão emergente de jovens alucinados que matam gente comum em sítios banais e com extrema crueldade. O fenómeno tem mais a ver com realidades paralelas e paranóia desenfreada, incluindo no caso dos loucos que matam em nome da religião. A sensação de fragilidade e perigo é agora uma banalidade nas nossas sociedades e também começa a ser preocupante ouvir, nos meios de comunicação nacionais, tantos peritos a desenvolverem teorias de justificação das atrocidades e da relativização do terrorismo. Ontem, na televisão portuguesa, só se falava dos perigos da extrema-direita; e, no entanto, nas últimas semanas, houve atentados islâmicos com dezenas de mortos ou feridos na Flórida, na Bélgica, no Bangladesh, no Iraque, na Turquia e em França. Centenas de vítimas da loucura e da desumanização.

 

Semana sangrenta


Luís Naves,

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Frase

“Mais injustas do que qualquer sanção são as palavras da dra. Maria Luís Albuquerque”, António Costa, primeiro-ministro, reagindo em Bruxelas à acusação da ex-ministra das Finanças de que o Governo não defendeu o legado recebido. 12 de Julho de 2016

Um post

Suzana Toscano, em Quarta República

Um livro

Pierrot Meu Amigo, de Raymond Queneau

Sentido de humor delirante, diálogos precisos, numa linguagem cheia de invenção; a história é simples e as personagens têm complexidade e um pouco de loucura. O ritmo da prosa é alucinante. Como a França era engraçada. Apesar de ter sido publicado em 1942, este romance não tem referências políticas e mostra uma cultura optimista e alegre, que celebra a vida.    

 

Domingo, 10 de Julho

Portugal venceu a final do campeonato europeu de futebol, num jogo repleto de emoção e drama, com um suplemento de alma que parecia improvável. Fica para a História a imagem das lágrimas de dor e alegria de Ronaldo, fica na nossa memória a tenacidade do seleccionador Fernando Santos, que durante semanas foi vergastado por mil tudólogos. É bem ténue a linha que separa a vitória da humilhação: muitos observadores já afiavamas facas para criticar todos os que deram o litro em campo, incluindo o extraordinário Cristiano Ronaldo. Ironia das ironias, o golo da vitória foi marcado pelo ‘patinho feio‘ da equipa, Éder, aquele que ninguém achava à altura dos nossos longos pergaminhos de derrotas morais. Éder desmentiu os sábios da farinha amparo e ainda nos deu uma vitória que levará anos, talvez décadas, a ser repetida.

 

Segunda-feira, 11 de Julho

Portugal celebrou nas ruas, onde se acumularam multidões eufóricas. Buzinas, cânticos, danças, alegria, o esvoaçar de bandeiras, a explosão da cor no dia quente. Este povo, que as elites tanto subestimam, teve sempre nos momentos de adversidade a mesma coragem e resistência que a sua equipa de futebol mostrou em campo, quando tudo parecia perdido. Neste texto, o historiado Rui Ramos, notou com lucidez que assistimos ao “sequestro da selecção” pelos políticos, espectáculo embaraçoso que teve momentos de algum ridículo e mostrou o “desespero do regime”. Está a tornar-se um hábito: aquilo que a esquerda tanto criticou nos tempos do fascismo, os famosos três F (de fado, futebol e Fátima) são agora uma banalidade praticada pelos mandarins da nova ordem.

 

Terça-feira, 12 de Julho

Portugal ficou sob ameaça de sanções da União Europeia. Negando o óbvio, entre nós prossegue a operação de mistificação da opinião pública. O actual Governo tenta culpar o anterior por não ter cumprido o défice de 2015 e afirma que não fará alterações de política, mas as autoridades europeias exigem medidas. A coligação PSD-CDS desbaratou a oportunidade de sairmos do procedimento por défice excessivo, onde nos encontramos por nunca termos atingido o objectivo de 3% do PIB no défice orçamental, no entanto as sanções não resultam de duas décimas de PIB (o que seria pouco mais de 300 milhões de euros), mas do afastamento continuado da trajectória de redução. O Governo de António Costa adiou pagamentos, subestimou o abrandamento económico e aumentou a despesa. Portugal financia-se nos mercados e estes estão a reagir com crescente desconfiança à reversão das reformas. Perante a ameaça de sanções, o primeiro-ministro terá de escolher entre austeridade e risco de bancarrota; os partidos que o apoiam podem aceitar medidas duras ou avançar para uma ruptura que cortará o PS em pedaços. Isto seria o dilema racional, mas há sempre a hipótese de querer bater o pé à Europa, estratégia que deu tão bons resultados na Grécia.

 

 

Quarta-feira, 13 de Julho

Excelente artigo de Rui Zink sobre a questão racial na América. Obama fez ontem um discurso extraordinário sobre o tema e explicou que a sociedade americana “está menos dividida do que parece”. A frase aplica-se também às divisões europeias ou à crispação política nacional. Estamos menos divididos do que afirmam os meios de comunicação ou do que sugerem as frases tremendas que se escrevem sobre adversários políticos. A Europa enfrenta muitos problemas, mas continua a ser a região onde se joga o poder mundial. É assim há 500 anos. Apesar de tudo, persiste a sensação geral de declínio e os europeus precisam de resolver as contradições na sua moeda única. Em Itália, espreita uma nova crise: após anos de estagnação ou baixo crescimento, os bancos ficaram carregados de crédito malparado. As novas regras europeias de resolução bancária exigem que a factura seja passada também a detentores de obrigações e isso implica a destruição da poupança de dezenas de milhares de italianos. A situação pode tornar-se num devastador terramoto político. Salvar a banca italiana exige atingir milhões de pessoas, para evitar o risco de uma epidemia de falências; a alternativa será alterar as regras e destruir a credibilidade da união bancária. Estamos perante um no exemplo do velho trilema europeu: não é possível ter simultaneamente mais integração económica, mais democracia e mais soberania nacional; só é possível ter duas destas; por exemplo, mais democracia e soberania com menos integração; ou mais integração e democracia, mas sacrificando a soberania.

 

Quinta-feira, 14 de Julho

O Governo estica a corda e compra uma nova guerra com a União Europeia, o que só se entende se quisermos pensar no ‘day after’. Os números do défice serão simpáticos até ao final do ano, quando chegarem as contas que foram empurradas com a barriga e as facturas relativas a medidas tais como as 35 horas ou o IVA da restauração. Mesmo com sanções, a máquina de spin pode dizer que está tudo a correr bem, no entanto o BCE deixará em breve de comprar dívida portuguesa e as taxas de juro vão começar a subir mais depressa. Do Presidente da República, da oposição ou dos partidos que apoiam o Governo não há pretextos razoáveis para justificar uma demissão, portanto António Costa precisa de procurar no exterior o bode expiatório, antes que os erros cometidos mostrem os seus piores efeitos. Em bombardeamento diário, está a ser criado um clima anti-europeu, com ajuda preciosa do Bloco de Esquerda.

 

Quinta-feira à noite, 14 de Julho

A multidão assistia em Nice ao fogo de artifício da festa nacional francesa quando, de súbito, um camião a alta velocidade atropelou quem não conseguiu sair da frente. Num monstruoso atentado que durou poucos segundos, morreram 84 pessoas e ficaram feridas mais de cem, incluindo dezenas de crianças. O terrorismo islâmico procura atingir a civilização Ocidental e os seus valores. Neste caso, o autor agiu sozinho, mas conhecia a propaganda do Estado Islâmico que circula nas redes sociais. A França transformou-se num território de caça ideal para os terroristas: células de radicais islâmicos bem escondidas, o fervilhar de uma reacção de extrema-direita, a ideia de declínio e vulnerabilidade. Eles querem destruir as liberdades ocidentais e a democracia, usando tácticas de terror especialmente perigosas, com meios de baixa tecnologia que a polícia tem dificuldade em detectar. O objectivo é causar o máximo de vítimas e, ao contrário do que aconteceu no terrorismo político europeu do passado, não se visam oligarquias e alvos militares, que estão bem protegidos; pelo contrário, procura-se fazer o máximo de vítimas entre os cidadãos comuns. O atentado de Nice parece inserir-se numa campanha de terrorismo islâmico com efeitos económicos imediatos e profundos. O Estado Islâmico usou estas tácticas horríveis na sua expansão em território iraquiano e sírio, baseando-se na surpresa e na violência extrema, com meios simples, em células minúsculas, procurando vítimas indefesas, em acções extremamente difíceis de contrariar.

 

Sexta-feira à noite e sábado de madrugada, 15 e 16 de Julho

Um inesperado golpe militar na Turquia provocou horas de combates envolvendo tropas rebeldes e forças governamentais, com muitas vítimas. O Presidente Recep Erdogan usou as redes sociais para um apelo desesperado a que as pessoas saíssem à rua e a população enfrentou os golpistas, desafiando o estado de emergência. Devido à intervenção popular, o golpe parece ter falhado. Foram detidos milhares de soldados e demitidos juízes: o Governo acusa os golpistas de pertencerem a uma facção de ‘gulenistas’, adeptos do movimento de Fethullah Gulen, académico que vive no exílio nos EUA e defende um Islão político caracterizado por tolerância, modernidade e pacifismo. A explicação não convenceu inteiramente os aliados da NATO.

Erdogan e Gulen são os dois chefes políticos de movimentos islâmicos cuja aliança, em 2002, permitiu ao AKP, chefiado por Erdogan, a primeira de uma série de maiorias absolutas. O partido islâmico moderado venceu de novo em 2007 e 2011, mas falhou a maioria em Junho de 2015, o que levou a eleições em Novembro desse ano, com nova vitória estrondosa. Em 2014, Erdogan (até aí primeiro-ministro) venceu as presidenciais e iniciou a alteração do regime, retirando poderes ao parlamento. Pouco antes, o líder turco entrara em conflito aberto com Gulen, por razões pouco claras, acusando o seu antigo aliado de criar um ‘estado paralelo’. A imprensa controlada por Gulen começou a publicar histórias sobre a corrupção no círculo próximo de Erdogan e o poder respondeu com o fecho dos jornais financiados pelos ‘gulenistas’.

O golpe de ontem na Turquia permite fazer algumas observações adicionais, por exemplo, a velocidade na circulação de informação torna improvável um golpe militar numa sociedade com boas redes sociais. A qualidade dos armamentos criou combates rápidos, extremamente letais e destrutivos. Um exército moderno e bem equipado, como é o caso do turco, pode ter facções capazes de organizar um golpe complexo. O regime de Erdogan vai provavelmente reforçar as tendências autocráticas, mas o presidente também provou que é uma figura invulgarmente popular, com quatro vitórias em legislativas, três em eleições locais e uma eleição presidencial. O período de eleições livres dominado pelo AKP teve grandes benefícios para os pobres: em 14 anos, o rendimento per capita (medido em paridades de poder de compra) aumentou mais de 50%. No mesmo período, a economia real cresceu dois terços. Não admira, pois, que as pessoas tenham saído à rua em defesa do presidente. Para as próximas semanas, colocam-se muitas incógnitas, sobretudo sobre o futuro do movimento islâmico, a evolução da república secular e o papel das forças armadas na sociedade turca.