Catarse


Cristina Torrão,

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Foto Vincenzo Pinto/afp

Esta foi, sem dúvida, a Via Sacra mais triste a que assisti, com a Praça de São Pedro quase vazia, apenas se encontrava lá um pequeno grupo de pessoas, à volta da cruz, que era carregada à vez, como de costume; o papa Francisco assistido por um único sacerdote.

E, no entanto, apesar de toda a angústia e das lágrimas a rebentar, adorei. Foi a Via Sacra mais triste, mas também a mais bonita. Estarmos a passar por este momento tão difícil, de medo e de revolta, ajudou-me a identificar-me melhor com o sofrimento de Cristo. Foi gratificante, uma espécie de catarse.

Nos últimos tempos, nos destaques dos blogues-Sapo, deparo com posts a dizer que não temos direito a estarmos chateados, revoltados, tristes e a termos medo. E eu pergunto-me: mas é preciso escrever coisas dessas? Porque têm tantas pessoas vergonha desses seus sentimentos? Porque pensa tanta gente que é egoísta estar triste e sem ânimo? A nossa vida modificou-se da noite para o dia. Perdemos a nossa liberdade, não podemos visitar pessoas de quem gostamos, vamos fazer compras angustiados, a pensar na melhor maneira de evitarmos contágio, deixámos de ir a restaurantes, a cafés… Não são estas razões suficientes para andarmos tristes e revoltados?

Sim, há sempre quem sofra mais. Sim, há sempre quem precise da nossa ajuda. Mas ninguém é de ferro. Todos nós precisamos de recarregar as baterias, não podemos ser fortes, destemidos e estar disponível para os outros o tempo todo.

Aristóteles falava da catarse como uma “purificação” sentida pelos espectadores durante e após uma representação dramática; na psicanálise, ela é usada para designar a libertação de emoção ou sentimento que sofreu repressão. Nós precisamos desses escapes, precisamos de momentos em que admitimos a nós próprios tudo aquilo que não desejamos admitir.

Assistir à Via Sacra de ontem foi uma catarse, a tal purificação, o tal escape, que nos ajuda a fazermos as pazes com o mundo, por mais deprimente que ele se nos apresente.

Boa Páscoa!

Via Sacra 2020.jpeg

Imagem “Vatican News”

 

4 comentários em “Catarse”

  1. Vi apenas umas imagens da via sacra no telejornal e achei bem triste, sim. E concordo, também nos assiste o direito à tristeza pessoal que nem sequer é infundada.

    1. Penso que havia outras profissões representadas, enfermeiros e médicos, por exemplo. As outras, não identifico, nem encontrei nenhum artigo que me pudesse ilucidar, mas, a avaliar pelas roupas, parece-me que cada pessoa simboliza alguma profissão relacionada com esta crise.

  2. Assino por baixo o seu artigo, Cristina, mas, em minha opinião, não foi triste, foi autêntica… Foi o que deve ser uma Via-Sacra de Jesus e de todos nós… de todos os anos. Não virtual como parece acontecer por vezes ou encenada para turista ver (eu próprio já colaborei nela há uns anos, no Coliseu). Foi particularmente violenta porque falava da realidade das prisões e só… centrada na realidade concreta da prisão de Pádua (o sítio do nosso Santo António…). Já preparada e anunciada muito antes de se falar da pandemia. Testemunhos de presos, sós e em família na própria prisão, familiares de presos, familiares de vítimas de presos, guardas prisionais, assistentes religiosos, psicólogos. Até o director técnico (não sei se é o termo exacto) da própria prisão. Textos particularmente belos e marcantes, mesmo que, em meu entender, revistos. Como contraponto, veja, se não foi o caso, a Homilia de Francisco na Vigília Pascal… Confesso que não sou particularmente “devoto” do estilo Francisco, mas, aqui, ele esteve particularmente bem… Parece que encontrou o caminho de Pedro… de Jesus.
    Boa Páscoa para si e para todo o DL.

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