
(Postal no meu mural de Facebook)
1. O plano para ontem era assistir ao Portugal-Marrocos e ao França-Inglaterra. Logo adveio o infausto destino luso – algo imerecido, insisto, pois a equipa “das quinas” criou um punhado de hipóteses de golo ultrapassando o autocarro de Rabat, jogando muitíssimo melhor do que a vice-campeã mundial Croácia, a celebrada Bélgica e a mui convencida Espanha o haviam feito diante daquele antipático e infértil catenaccio berbere.
Acontecido o desastre pátrio foi patente o acabrunhamento da nossa pequena comunidade, sanguinolento neste vosso “amigo-FB” letrado e patente nos restantes presentes. Após o (longo) estupor inicial decidi ultrapassar a minha abissal vertigem suicidária através de trechos de uma bôla de carne (de Lamego) acompanhados de um tinto de Setúbal apresentado em vasilhame de cartão a 3 euros o litro, de marca esquecível e de sabor bem bebível. Fui nisso ombreado por uma das ali teleespectadoras, gentil o suficiente para aturar as algo engrandecidas memórias de vida aventurosa que fui então desfiando, nisso tentando esquecer o vazio existencial desde agora feito definitivo – o meu artificial “daqui a 4 anos há mais Mundial!” fora acolhido com evidente fastio, algo que li como uma ali generalizada descrença de que eu ainda por cá ande nessa época.
Nisso começou o conflito (de séculos) França-Inglaterra, o qual por todos foi ignorado, sem qualquer azedume pois apenas um desinteresse fruto do torpor desesperançado. “The Show Must Go On”, pensámos – em réstias do recente apoio aos pupilos do cidadão Kane -, e refugiou-se o contingente num restaurante da planície vizinha, que tem os defeitos de parecer “Lisboa”, em cardápio, confecção e ambiência “classe média” local. Lânguido, rebaixei-me a um hamburguer (com lâmina de queijo industrial) num pão – ao qual ali dão o patusco nome de caco, correspondente ao estado em que me sentia – acompanhado de mais um par de copos de vinho da região. E nesse longo entretanto, horas decorridas, fui ignorando a miríade de mensagens recebidas, algumas iradas (com o engenheiro Santos e avulsos jogadores), outras mesmo humorísticas. Para além das condolências recebidas de amigos moçambicanos, nas quais viria a detectar algum ligeiro e risonho sarcasmo, malévolo.
2. A alvorada de hoje recebeu-me nebulosa e chuvosa. Estou de viagem, cumpre-me percorrer cerca de 20 kms até à serra defronte ao mar, para almoço em casa amiga. Mas o pior já passou, percebo que encontrei em mim mesmo forças para enfrentar os anos vindouros mesmo sem a taça almejada no bojo. Será, é certo, uma vida triste. Mas é o fado, como antevi ontem.
3. Que retirei desta última experiência havida? Isto, o filho do jogador croata a percorrer o campo para saudar/animar o seu ídolo Neymar, este choroso após a derrota eliminadora. Em radical contraposição com o acontecido no mesmo dia, os energúmenos jogadores argentinos (encabeçados pelo benfiquista – tinha de ser – Otamendi) gozando os também devastados eliminados holandeses. E o ídolo Messi, insultando o derrotado adversário que esperava para o cumprimentar… Ocorre-me aquela piada que me contam há pouco: “o melhor negócio possível é comprar um argentino pelo preço que vale e vendê-lo pelo preço que ele julga valer!”. Não, não é apenas a voluptuosa Miss que me faz torcer, com a diminuta energia que me restou, pela Croácia.
4. É geral – vê-se nos “memes”, percebo-o no que leio entre os meus amigos austrais – a saudação aos bons “africanos” marroquinos, representantes dos “vencidos”, de África, do “Mundo Árabe”, reconquistadores do Al-Gharb, o pérfido “ocidente”. Para além do meu incómodo com estas politiquices da bola, mas porque elas “fazem parte”, respondo em dois fascículos: 1) “Poitiers” (ou “Tours”) – sim, eu sei que a batalha é muito mitificada, e terá sido menos relevante militarmente do que diz a lenda, mas é um bom símbolo; 2) para os mais políticos pan-africanistas, com pitada de revanchismo até nisto da bola (e para os “decoloniais” que se comoveram com a bandeira palestiana nas mãos de um jogador marroquino após uma vitória), deixo apenas, e nisso com uma implícita citação do agora celebrizado José Milhazes, “Saara Ocidental”. Ou seja, deixem-se de tretas…
5. Tenho as minhas ligações de FB apinhadas de postais de portugueses (e de partilhas de postais de jogadores internacionais) louvando o ídolo e grande campeão Cristiano Ronaldo. Ou seja, não exageremos, há muito ressabiamento por cá, entre doutores comentadores, jornalistas, painelistas e anónimos vis. Mas, de facto, nós-plebe adoramos o CR7!
Vou então ao almoço. Com uma garrafa de tinto de Palmela debaixo do braço.

Cristiano foi, senão o melhor, um dos melhores do mundo e, em grande parte, à sua persistência o deve. Pode afirmar que atingiu os objectivos. Esquecer o que trouxe à selecção nacional em tanto ano é perfídia que não merece.
Mas há qualquer coisa que anda a falhar nele. Mesmo com a preferência da plebe. A qual, deixe que lhe diga, se se aloja no passado, deixa de resultar. Pode resultar se ele mesmo aceitar de si para si que joga, mas não joga tanto como antes de ter a idade que tem. Ele e mais todos os que lhe exigem isso que já perdeu.
Não percebi tanto sururu.
Tantos meses sentado no banco é evidente
que não marque golos e não corra tanto .
Não lhe parece ??
Mas quando jogava, agora no Manchester, não marcava tinha que ir para banco.
Se marcava e deixou de marcar está em má forma e tem de dar lugar a outro, assim entendeu o treinador em Inglaterra.
Os melhores do mundo nunca marcaram
sentados no banco, que seja no Manchester ou
em qualquer outro clube.
Para alguns o Maradona foi um rei e para isso tinha a cocaína
e marcava sempre até com a mão.
O Cristiano é um grande jogador e tem um físico de atleta de alta competição,
Existe muito boa gente que não suporta o seu talento.
O que me deixa alvoraçada é que esses invejosos uma grande maioria
são portugueses.
O treinador do Manchester foi por vingança tal como o FS.
Preferem perder o jogo para o castigar.
Tudo isto é lamentável e inadmissível.
Ainda não nasceu um atleta como o CR7.
Não me parece. Mas do parecer ao ser vai certa distância. O futuro tem a última palavra.