Catalunha: mitos e factos (1)


Pedro Correia,

15069384474856[1].jpg

 A “pós-verdade” alimentando a propaganda separatista na Catalunha

 

Nestes dias tenho ouvido e lido os maiores disparates sobre a Catalunha. Que os catalães só querem “recuperar a independência”´. Que eles são “um povo” e só a eles devemos o facto de Portugal ser um país soberano. Que a Espanha é um Estado de formação recente e não concede o autogoverno aos catalães nem os deixa usar a língua autóctone. Que a Catalunha tem sido “explorada” por Espanha e a democracia nunca lá chegou. Que nenhum catalão ocupou ou ocupa funções relevantes nos órgãos políticos espanhóis. Etc, etc.

Vivemos tempos de aldrabice elevada a notícia. Vivemos tempos em que a mentira tem a perna tão longa que deixou até de chamar-se mentira: agora chama-se “pós-verdade”. Vivemos numa realidade paralela, em que ninguém se preocupa com o rigor dos factos. Prestamos culto ao dislate, travestido de sabedoria. Tornámo-nos incapazes de distinguir entre o discurso do sábio e o discurso do ignorante: todos se equivalem nas chamadas “redes sociais”.

 

Nos últimos dias, a propósito do tema catalão, o delírio pseudo-informativo bateu todos os máximos estabelecidos. Chorou-se baba e ranho pela mulher a quem a bárbara polícia espanhola tinha “partido os dedos” e afinal soube-se que sofria apenas de uma inflamação numa das mãos. Rasgaram-se as vestes com a circulação da fotografia de uma  criança sangrando da cabeça – que afinal tinha ocorrido em 2012, durante um protesto frente ao Corte Inglés de Tarragona reprimido pela polícia autonómica catalã. A imagem de um  mineiro ferido num protesto em Madrid, também há cinco anos, foi agora também associada à suposta “repressão castelhana”, o mesmo sucedendo com uma bastonada a um homem em cadeira de rodas: tratava-se de uma manifestação de 2011, quando os Mossos d’ Esquadra catalães procuravam desalojar uma manifestação de “indignados” na Praça da Catalunha, em Barcelona.

Já para não falar da bandeira independentista desfraldada por magia do photoshop numa das imagens alegadamente icónicas da “revolução catalã” – tomada como verdadeira nas redes sociais afectas ao separatismo mais inflamado. Não faltou quem reclamasse o Pulitzer para premiar a fraude – o que revela até que ponto já nos tornámos incapazes de distinguir a verdade da mentira.

 

Actualidad_251987585_49332006_855x1140[1].jpg

 Alegada “repressão” em Barcelona: a imagem afinal era de 2011

 

Confesso-me antiquado: eu insisto em raciocinar com base em factos, não com base em mitos. Em relação à Catalunha, estou nos antípodas daqueles que só agora acordaram para esta questão e de imediato se juntaram aos ruidosos tudólogos de turno, que teimam em exibir a sua monumental ignorância sobre os mais diversos temas. Sobre este também.

E no entanto, apesar de tudo, vale a pena remar contra a maré. Lembrando factos e desmontando mitos. É o que tenciono fazer nos próximos dias aqui no DELITO DE OPINIÃO.

 

 

Leitura complementar:

Os vizinhos não se escolhem (DELITO, 11 de Novembro de 2014)

Catalunha: liberdade e lei (DELITO, 13 de Novembro de 2014)

 

41 comentários em “Catalunha: mitos e factos (1)”

    1. Um dos mitos é comparar os separatistas catalães com os nacionalistas escoceses, equiparando-os.
      Nada a ver.
      O referendo escocês, em 2014, só se tornou possível porque houve diálogo e negociação política: não caiu do céu. Passou por conversações civilizadas que levaram à aprovação de uma lei constitucional britânica que permitiu a consulta. Havendo a garantia prévia, por parte dos escoceses, que mesmo em caso de independência manteriam a Rainha como chefe do Estado, a Escócia continua a ser membro da Comunidade Britânica e adoptariam como moeda a libra esterlina, vigente no Reino Unido.
      O referendo catalão só se tornará possível pela mesma via. A do diálogo. Não pela via da confrontação “anti-Madrid” (à moda de Jardim na Madeira) nem pela política do facto consumado, adoptada pelos nacionalistas radicais, cada vez mais num beco sem saída. Por culpa própria.

  1. Aviso já que vou estar em terras galegas. Mas se o Tric. Líbano não se importar escolho-o como meu procurador. Quanto à temática em análise e metanálise vossas excelências que decidam se concedem ou não a independência. Eu assino de cruz. Bem haja…quanto à pós verdade e aos guardiões da verdade relembro um espanhol chamado Miguel Servet, que queimado numa fogueira de galhos verdes disse: não discordo nem de um nem de outro pois todos têm um pouco de verdade e erro. Mas todos vêem os erros dos outros e nunca os seus.
    Calvino discordava. Não tinha dúvidas e nunca se enganava. Para ele a verdade estava escrita.

  2. Para mim é simples, um acto ilegal, apenas isso. Se eu for contra, nem vou votar, se é ilegal nem perco tempo. O governo esteve mal e bem, mal por ter sucumbido aos ataques dos radicais e ter que dar noticia, de agressões, bem por não aceitar a ilegalidade.

    Se assinaram uma Constituição, mudem-na, se for isso que querem, mas nunca desta forma.

  3. Pedro, um pouco de humildade nas suas palavras só lhe ficava bem. Quem lê o seu post, fica com a sensação que você se considera um ” sábio”, e do outro lado da barricada estarão os supostos ” ignorantes”. A sua verdade vale tanto como a verdade de outros. É apenas uma verdade relativa, assim como a daqueles que têm posições diferentes nomeadamente em relação a esta questão da Catalunha. Verdade absoluta só Deus a terá, para quem acredita na sua existência.
    Apesar de você se considerar muito coerente, já detetei em si contradições bem visíveis nas posições que assume, não apenas neste blogue como noutros mais direcionados para a temática desportiva. Segue por diversas vezes a chamada trajetória do Ziguezage.
    Defenda as suas posições com convicção, mas tenha mais respeito pelas posições dos outros, muitas delas fundamentadas em factos, e defendidas por pessoas que de ignorantes no sentido mais comum do termo nada têm, apesar de considerar que todos nós no fundo, bem lá no fundo, sabemos tão pouco em relação à maioria das coisas deste Mundo.

    1. Não há a “minha” verdade: há factos. Do outro lado há mentiras – e não têm faltado mentiras propaladas como verdades nos últimos dias.
      Não, Orlando, mentira e verdade não se equivalem. Há uma diferença gigantesca entre uma coisa e outra. Ter de sublinhar isto revela até que ponto andamos a patinar em matéria de valores nos dias que vão correndo.

  4. A denominação “Catalunha do Norte” (“Catalunya del Nord”, “Catalogne du Nord”), desconhecida fora da Catalunha, foi cunhada pelo francês Alfons Mias nos anos 1930[1] e recuperada nos princípios da Transição espanhola por setores catalanistas e a própria Generalitat da Catalunha como “Catalunya Nord”. Também o Conselho Geral de Pirenéus Orientais em algumas ocasiões referiu o seu território como “Catalunya Nord”[2]. Não é um nome oficialmente reconhecido por nenhum estado.

    1. A “Grande Catalunha” sonhada pelos independentistas mais fanáticos e radicais abrange, no essencial, o antigo reino de Aragão. Incluindo precisamente o Rossilhão, ex-departamento francês dos Pirenéus Orientais, acrescido de quase todo o País Valenciano, da comunidade autónoma de Aragão, do arquipélago das Baleares, de parte da ilha da Sardenha e ainda do Principado de Andorra, que tem como língua oficial o catalão.
      Esta é a componente ainda inconfessável do separatismo catalão, que se desenrola em duas fases. Primeira: a secessão de Espanha. Segunda: a aglutinação na “República Catalã”, por diversas etapas, daquelas parcelas territoriais.
      É todo este filme que alguns aplaudem por cá, munidos pelo ódio a Espanha. Como se Portugal se devesse congratular por ver a casa do vizinho a arder. Vizinho que, além de único, é ainda – de longe – o nosso principal parceiro económico.

      1. Cá para mim a questão resume-se à Catalunha , comunidade autónoma da Espanha, situada a nordeste da Península Ibérica. Ocupa um território de cerca de 32.000 km², limitada a norte pela França e por Andorra, a leste com o Mar Mediterrâneo, a sul com a Comunidade Valenciana e a oeste com Aragão.

        A Catalunha é reconhecida como uma nacionalidade no artigo segundo da Constituição Espanhola onde se refere a nacionalidade histórica, reconhecendo e garantindo o direito à sua autonomia. No preâmbulo do seu Estatuto de Autonomia, aprovado pelo povo catalão via referendo em 2006, a Catalunha é definida como nação

        1. Então a Constituição espanhola e o Estatuto Autonómico da Catalunha, grosseiramente violados pelos separatistas, agora já são documentos respeitáveis outra vez?

  5. Depreende-se das suas palavras que não houve cargas e repressão policial na última semana na Catalunha, que as imagens que vimos são aldrabices, pós-verdades, e mitos. Muito cuidado com as obsessões cujo resultado é ignorar acontecimentos básicos com descaramento de usar ainda o argumento da “pós-verdade”.

    1. Qualquer manifestação anti-FMI ou anti G-7 que tem ocorrido nos mais diversos países é muito mais violentamente reprimida do que foi a tentativa de golpe de Estado na Catalunha.
      Por exemplo: em Hamburgo, em Julho, a polícia carregou com bombas de gás lacrimogénio.
      http://www.esquerdadiario.com.br/Manifestantes-contra-a-cupula-do-G20-sao-desalojados-e-reprimidos-em-Hamburgo
      Tanto quanto sei, não houve nada disso em Barcelona.

      Mas repressão a sério houve este ano, entre Abril e Agosto, na Venezuela. Com mais de 150 mortos pela repressão policial e paramilitar, às ordens do ditador Maduro.
      http://runrun.es/rr-es-plus/319427/fotos-infografia-y-mapa-muertos-en-protestas-en-venezuela-parte-dos.html
      Não me recordo de um só separatista catalão ter vertido uma lágrima por essas vítimas mortais.
      Nem me lembro de anónimos indignados com essa repressão virem aqui condená-la no DELITO. Ficaram caladinhos. Ou se calhar até aplaudiram o regime homicida de Caracas.

    1. Os indignadinhos de agora estiveram calados entre Abril e Agosto, quando a ditadura venezuelana esmagou com mão de ferro os protestos dos estudantes e dos trabalhadores e dos opositores políticos, provocando mais de 150 mortos:
      http://runrun.es/rr-es-plus/319427/fotos-infografia-y-mapa-muertos-en-protestas-en-venezuela-parte-dos.html
      Estou farto da hipocrisia e da duplicidade moral destes indignadinhos, Rui.

      1. É isso mesmo. Os double standards ou, à portuguesa, usar dois chapéus, conforme convém, também me causa urticária.

  6. Sim, caro Pedro Correia! Mas, como podemos aferir, por aqui e por ali, na media de referencia, nada disso importa! A coisa foi tomada por fidúcia e, como tal, é-lhe atribuído valor! É ler a media de referencia internacional, ou por aqui o P, e discernir da verdade e dos clamores do mundo (aquele mundo dos fazedores de opinião).
    Valha-nos que em Espanha sabem a verdade!

    1. O que mais me choca, caro Justiniano, é ver gente que durante anos a fio não disse uma palavra de condenação dos crimes da ETA e até costumava apelar à “compreensão” face aos homicídios etarras, advogando o diálogo entre carrascos e vítimas, desatar agora num pranto pela alegada “repressão castelhana” na Catalunha.

      1. Hoje, de turno, estão o Loff e o Rosas! Em modo Carmelitas, preocupadíssimos com a democracia em Espanha, e na Catalunha em especial!
        Às tantas já nem se percebe se falam de Espanha ou da Venezuela!

  7. Enfim, o fundamentalismo é extraordinário da sua parte…a repressão existiu, não pode negar. Para si os “democratas” espanhóis podem enviar polícias para agredirem pessoas que simplesmente querem votar, mas pelo contrário a polícia venezuelana já não pode reprimir os democratas nas ruas, incluindo os que destruíram lojas e saquearam. Enfim, dois pesos e duas medidas…é falso os seus factos sobre a história do povo catalão, até a constituição do reino de Espanha, que você idolatra, o desmente.

    Rui Mateus.

      1. Tirania comunista na Venezuela??? Essa deve ser só para rir…o regime venezuelano agora é comunista??? Que visão mais simplista, primária e bacoca que você tem da politica, tal é a sua cegueira politica. Enfim, quando alguém entra no campo das comparações comparando o incomparável, para fazer valer as suas opiniões sobre uma dada situação, neste caso concreto o da Catalunha, só demonstra falta de argumentos para defender a sua posição.
        Quando a vontade de um povo é forte ninguém a verga! E a vontade do povo catalão de ser independente é histórica e secular. Os catalães têm tanto a ver com os castelhanos como nós portugueses. A diferença é que tiveram que sofrer durante séculos uma aculturação forçada durante séculos, coisa que nós nos safámos em boa hora em 1640, precisamente na mesma altura que os catalães tentaram o mesmo infelizmente sem sucesso, já que as forças de ocupação castelhanas preferiram concentrar-se politica e militarmente na Catalunha, minimizando a sua vigilância em relação a Portugal, para nossa sorte e desventura dos catalães.

          1. A Coreia do Norte tem apenas roupagens comunistas, porque no fundo é apenas um regime nacionalista, onde existe um culto da personalidade exacerbado e com uma vocação bélica muito acentuada.
            Contudo, não quero deixar de acentuar que essa disposição e tomada de força por parte da Coreia do Norte, tem muito a ver com as intenções imperialistas os Estados Unidos com o objetivo de dominarem toda a península da Coreia. Em certa medida compreende-se que a Coreia do Norte se tente defender dessa ameaça. O instinto de sobrevivência manifesta-se sempre neste tipo de situações.
            Sou frontalmente contra a existência de armas nucleares, independentemente de quem as tenha. Mas pela lógica imperialista americana, só eles poderiam ter armas, forma manhosa para enfraquecer os seus adversários, e poderem dominar ainda mais o Mundo a seu belo prazer. Pobres de espírito quando pensam que podem ser os policias do Mundo. Da minha parte não lhes passei qualquer procuração atribuindo-lhes esse poder.

          2. A Coreia do Norte “é apenas um regime nacionalista, onde existe um culto da personalidade exacerbado e com uma vocação bélica muito acentuada”?
            Diga isso ao PCP, que tem relações privilegiadas com a Coreia do Norte e nunca deixa de mencionar o regime norte-coreano nas Teses que apresenta a todos os congressos do partido.

          3. Relativamente à Venezuela, não interessa se é mais ou menos comunista. O problema reside no facto da Venezuela neste momento ser um empecilho aos interesses imperialistas norte americanos. As reservas de petróleo da Venezuela são das maiores do Mundo, daí o interesse estratégico americano. Estão habituados a tratar os países latino americanos como verdadeiros quintais, e infelizmente diversos regimes desses países têm-se prestado a esse papel.
            O curioso é que os americanos e outros ocidentais pro americanos, só se preocupam com a questão dos direitos humanos em países que lhes são hostis. Hipocrisia e cinismo é o que mais abunda no Mundo Ocidental. Ninguém se esquece da sabotagem económica comandada pelos americanos ao governo de Unidade popular chefiado por Salvador Allende no Chile, eleito democraticamente, que desembocou num golpe militar chefiado por Pinochet, apoiado direta e indiretamente pelos americanos, dando origem a uma das mais sangrentas ditaduras de que há memória na América Latina.
            Uma parte da dita ” oposição” ao regime venezuelano é paga e apoiada pelo Tio Sam. Compreende-se não é verdade?
            em relação ao problema da Catalunha, para além do que já opinei, oferece-me dizer ainda o seguinte:
            A “Espanha” enquanto país, é um dos maiores mitos e falácias da Europa. É constituído por um mosaico de nacionalidades, particularmente a Catalunha, País Basco e Galiza. Nacionalidades essas que pouco têm a ver com os castelhanos, a não ser a aculturação forçada a que foram sujeitas. A ” Espanha”, tem um hino que nem letra tem ( caso único no Mundo), uma língua designada grosseiramente espanhola que nem existe. O que existe é a língua castelhana falada em ” Espanha” e nos países latinos americanos que falam castelhano.
            Para além do que já disse noutro comentário em relação à Catalunha, convém também fazer uma referência ao País Basco. Este então nada tem a ver com os castelhanos, nem em termos étnicos, nem linguísticos. Aliás os bascos não pertencem a nenhum grande grupo étnico-linguístico europeu( latinos, germânicos ou eslavos).
            Também em relação à Galiza, ninguém se espantará que se considere a Galiza mais ligada a Portugal em termos históricos e linguísticos do que à ” Espanha”. A língua galega, ou talvez mais corretamente o dialeto galego, pertence ao mesmo tronco do português ( galaico-português). Existem até alguns historiadores galegos e portugueses que consideram que o português e o galego são apenas duas variantes da língua portuguesa.
            Também em termos históricos basta recordarmos a origem da nossa nacionalidade. Nascemos no Condado Portucalense que como sabemos pertencia à Galiza. Não surpreende por isso que existam alguns historiadores e intelectuais que defendem que a Galiza deveria ser, ou independente, ou estar unida a Portugal.
            Tenho plena convicção que a ” Espanha”, mais cedo ou mais tarde vai desintegrar-se, e possivelmente o primeiro passo será dado pela Catalunha. Aliás, acho até que esse processo de desintegração não se iniciou mais cedo, por força da adesão da “Espanha” à UE.
            O desenvolvimento dialético da história é imparável, e as mudanças são inevitáveis, apesar da massa conservadora e muitas vezes amorfa, ser regra geral avessa a essas mesmas mudanças, tentando perpetuar com unhas e dentes o status quo das nações e sociedades. Se a evolução do Mundo dependesse desta massa conservadora e amorfa, ainda estaríamos na Idade da Pedra!!!
            Por último quero acrescentar, que mais importante do que nós sermos a favor ou contra a independência da Catalunha ( essa é uma questão que só ao povo catalão diz respeito), será o Estado espanhol criar os mecanismos legais que possam permitir que o povo catalão se possa expressar livre, democraticamente e legalmente, para dizer se quer ou não a independência.
            Se pelo contrário, o Estado espanhol continuar com uma postura autoritária e repressiva, agarrada ao texto constitucional de 1978, texto este que ainda denota diversas influencias do franquismo, temo sinceramente que esta situação acabe muito mal, para não dizer trágica.
            A ” Espanha”, parece que não aprende nada com a sua própria história e com os erros cometidos no passado.
            A ver vamos o que tudo isto vai dar!

          4. 1. A “independência” da Catalunha, ao contrário do que refere, não “só ao povo catalão diz respeito”. Como é óbvio, diz respeito a toda a Espanha – e até ao conjunto do espaço europeu, pois fazemos todos parte da União Europeia.
            Acabou o tempo das ilhas isoladas: hoje, na era da globalização, vivemos em arquipélagos. Felizmente, acrescento eu.

            2. Ignoro o que seja o “povo catalão” com base no critério da territorialidade.
            Catalunha é Espanha. E há catalães em toda a Espanha, assim como há andaluzes, castelhanos, galegos, extremenhos, bascos, aragoneses, cantábricos, canários, navarros, asturianos, valencianos, murcianos, leoneses, madrilenos e manchegos na Catalunha.

            3. Cuidado com essas “convicções” a respeito da desintegração da Espanha. O melhor é esperar muito bem sentado. Ou até deitado.

            4. Recomendo precaução ainda maior contra essa noção de que um Estado deve ter por base a pureza étnica ou linguística. Isso conduziu a Europa sempre por caminhos muito perigosos. O da xenofobia, o da segregação, o do nacionalismo. E, como acentuou o ex-presidente francês François Mitterrand, “o nacionalismo é a guerra”.
            O continente europeu teve mil anos de guerras, sabe muito bem o que isso é.

            5. Acautele-se com esse ódio aos espanhóis, Orlando. O ódio é sempre um péssimo conselheiro. E o ódio aos vizinhos ainda mais.
            Nunca é de mais lembrar que Espanha é hoje o nosso único país vizinho. E os vizinhos, ao contrário dos amigos, não se escolhem. É uma fatalidade: queiramos ou não, vivem sempre à nossa beira.

          5. Pedro, não tenho ódio nenhum em relação a ” Espanha” como aliás não sinto ódio em relação a nada nem a ninguém.. Não sou pessoa de alimentar ódios. Apenas defendo posições com base nas minhas convicções e conhecimentos, olhando para a história e para o seu desenvolvimento dialético, no qual se inserem mudanças óbvias e muitas vezes inevitáveis, com abertura de espírito, evitando estar preso a convenções e status quo, muitas vezes já se encontram ultrapassados pela dinâmica das sociedades e nações.

          6. Escrevi Espanha com aspas, excecionalmente nesse meu comentário, não por ódio como o Pedro concluiu errada e precipitadamente, mas apenas para sublinhar o facto de considerar a Espanha um país criado artificialmente, através da força, em consequência de determinados condicionalismos políticos, económicos e culturais. Mas como tudo nesta vida, a situação da Espanha é suscetível de mudança. Lá diz a cantiga…O Mundo é composto de mudança. E o mapa da Europa já mudou tantas vezes, que é muito natural ( demore o tempo que demorar), que o mapa da Península Ibérica venha também a mudar.
            A história no seu desenvolvimento dialético não para, nada por isso é definitivo, e por isso há que ter a abertura de espírito necessária para encarar e saber conviver com as mudanças. Sei que isso é complicado para mentes conservadoras, sempre foi e sempre assim será, mas essa postura nunca impediu que o Mundo evoluísse e avançasse, apenas servem muitas vezes para travar, ou melhor retardar ( e às vezes também abrandar o ritmo das mudanças diga-se em abono da verdade, para que elas se façam a uma velocidade que possam ser acompanhadas pela grande massa amorfa, que tem compreensivelmente mais dificuldade em aceitar tudo o que se afaste do cliché, do figurino, da convenção).
            Muito sofrimento humano poderia ser evitado, se existisse maior abertura, compreensão e aceitação, e menos aprisionamento a convenções e estruturas rígidas, externas e internas. Mas é o Mundo que temos, pelo menos por enquanto…

          7. Orlando, um país que existe há mais de 500 anos na actual configuração é “artificial” e deve portanto ver o nome escrito com aspas?
            Acho isso extraordinário.
            Então quantas aspas terá você de usar para referir-se à Alemanha, à Itália, à Bélgica, ao Reino Unido, à Turquia, à Índia, ao Paquistão e a tantos outros?

            Claro que, em tese, tudo é “susceptível de mudança”. Se o ditador comunista norte-coreano lançar amanhã uma bomba nuclear sobre os EUA, por exemplo, nada ficará na mesma.
            Mas mudar as fronteiras internas de um país que se formou como Estado no início do século XVI só porque 40% dos habitantes de uma determinada região hoje assim o entendem (violando a Constituição desse Estado e o próprio Estatuto dessa região validados em referendo), correndo o risco de fazer alastrar a febre “independentista” como incêndio pronto a devastar um continente que no último século enterrou mais de 80 milhões de mortos em sucessivas guerras, é irresponsável. E é inaceitável.

          8. Pedro, quinhentos anos pode parecer um longo período atendendo ao tempo de vida de cada um de nós seres humanos, mas em tempo histórico é apenas pouco mais que um salto curto.
            É inútil continuarmos este debate iniciado com a atual situação da Catalunha, porque somos pessoas com convicções e maneiras de olhar o Mundo diferentes. Quando se insiste num ” bate boca” nestas circunstâncias, acaba-se por cair num debate estéril que não leva a lado nenhum, ou melhor leva a uma mão cheia de nada!
            Respeito as suas opiniões, assim como espero e desejo que respeite as minhas, e isso já será positivo.
            E já agora, para desanuviar o clima, envio-lhe as minhas cordiais…saudações leoninas ( risos).

          9. E eu também não, caro Orlando! Por essas e por outras é que mandei regressar o meu embaixador na yankelandia e cortei relações diplomáticas com essa gente!!

          10. Sim, ainda lhes falta qualquer coisa!! Também não é de um dia para o outro, caro Pedro Correia. Há que dar tempo à coisa, limar arestas e tal!! Depois, talvez, quiçá, se lhes reconheça o sucesso, podendo, então, ostentar as insígnias de reconhecimento e mérito emitidas pelos Orlandos deste mundo!!

    1. O resultado da repressão que refere salda-se em 4 pessoas admitidas num hospital. Dessas 4, apenas duas ficaram internadas, uma teve um enfarte, a outra levou uma bala de borracha na cara. Felizmente parece estar bem.

      Houve cerca 800 pessoas que foram vistas por paramédicos/enfermeiros/médicos no local. Pessoas como a senhora que se queixou de um polícia lhe ter partido um-a-um todos os dedos de uma mão e que, afinal, veio admiti-lo depois, torceu um dedo. Quantas pessoas são vistas por paramédicos/etc num festival de música?

      Claro que houve feridos. Como há em todas as manifestações. Também houve polícias feridos. Claro que houve excessos. Normalmente acontece mesmo nas manifestações ‘pacíficas’, sobretudo naquelas que são convocadas à margem da lei, sem pedir autorização às autoridades competentes.

      Porque até numa democracia avançada, e que dá seguramente lições à espanhola, como por exemplo a nossa, é suposto as manifestações serem sancionadas pela polícia, e os manifestantes cumprirem as ordens da polícia durante a manifestação.

      1. Quase 900 feridos, como alegavam os separatistas. Horas depois, havia apenas esses dois hospitalizados. O que levou o jornalista Santiago Gonzalez, no seu blogue, a escrever com inegável sentido de humor que “o sistema de saúde catalão é o melhor do mundo”.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *