A do rés-do-chão, quando é vista na rua com o marido, parece uma matraca, não se cala. Os dois na casa dos 60, com dois filhos que já passaram dos 30, devem falar-se todos os dias há pelo menos 40 anos. É impossível que aquela mulher não lhe tenha repetido milhares de histórias e de opiniões pontuadas por tiques de linguagem, sempre tão abrasivos quando a conversa se esvai. Mas ele ouve-a com gosto. Nota-se pela forma como inclina a cabeça com o rosto distendido e lhe responde. Se um dia ela lhe faltar vai sentir-se a boiar numa cabine insonora e provavelmente sofrer de enxaquecas.
Já os do 1º esquerdo, ainda mais idosos, não falam. Como não têm filhos e já lhes devem ter morrido muitos familiares e amigos se calhar têm menos assunto. Mas o silêncio deles é aparente. Percebe-se que não deixaram de se falar pela serenidade que irradiam. Só não precisam é de palavras, que é o inverso do que acontece com os casais que não têm nada para dizer e por isso falam como se estivessem a afogar-se, agitando vogais e consoantes mudas numa conversa sem pé.

Título mais adequado para este post.
Ou para o seu próprio comentário…
Um casal é um casal ao passo que um post…
Delicioso.
Obrigada 🙂
“não têm nada para dizer e por isso falam como se estivessem a afogar-se, agitando vogais e consoantes mudas numa conversa sem pé”
Na mouche, Teresa. O excesso de palavras traduz quase sempre o desconforto entre os casais infelizes. Só convive bem com o silêncio quem está bem. 🙂
Pois é, Ana. Apesar de também haver silêncios de morte. Mas esses distinguem-se bem do silêncio da cumplicidade, uma jóia rara.
Sim, claro que também há esses. Traduzem-se na incapacidade de um casal ficar a sós, sem interlocutores que disfarcem o incómodo de um silêncio gelado. É uma situação constrangedora que se vê muito em restaurantes, por exemplo.