Carta aos empresários portugueses


Teresa Ribeiro,

Vejo-vos sempre muito preocupados com a rigidez do nosso mercado laboral, mas cá entre nós, que ninguém nos ouve, souberam dar a volta à situação com grande facilidade. A instituição dos falsos recibos verdes, a que até o Estado aderiu, deu provas do vosso talento tornando este mercado mais flexível do que muitos mercados reconhecidamente flexíveis.

Por outro lado sabe-se que somos os mais mal pagos da UE e que a desigualdade salarial que entre nós se pratica é das mais acentuadas da Europa (o que indicia, desculpem que vos diga, uma péssima concepção do que deve ser a gestão salarial de uma empresa: a pagar fortunas a chefias e uma miséria aos subalternos, depois queixem-se da falta de produtividade dos vossos trabalhadores).

Mas falava eu das vossas reivindicações. Se trataram de liberalizar o mercado à vossa maneira e em regra pagam mal, preocupa-me esta obsessão pela flexibilização. Acho que revela que o essencial não mudou e que a política dos salários baixos e empregabilidade precária continua a ser a vossa ideia de competitividade. Sei que o talento para a gestão e a visão estratégica não fazem parte do ADN dos portugueses, mas se pensam que baixar ainda mais  esta fasquia, trabalhando de costas voltadas para as pessoas de que afinal dependem para produzir riqueza vos vai defender da concorrência externa, estão enganados.

Bem sei que reduzir despesa à custa do pessoal é mais fácil do que pôr um negócio realmente a funcionar, mas por favor, leiam os gurus do management. Todos afirmam que as empresas de sucesso são as que têm os trabalhadores mais felizes. Ah, e já agora olhem para o exemplo dos nossos políticos. Também eles preferiram seguir pelo caminho mais fácil, extorquindo dinheiro e direitos às pessoas em vez de governarem e vê-se no que deu. 

 

P.S. – Parem de dar preferência a primos e a namoradas.  E já agora de premiar os lambe-botas que vos dizem a tudo que sim. A lambebotocracia é letal. Gera chefes que dificilmente se farão respeitar e chefe que não é respeitado não motiva ninguém para trabalhar. Além disso, promover as pessoas pelo mérito é moderno. Sério, deviam mesmo experimentar.

14 comentários em “Carta aos empresários portugueses”

  1. concordo com tudo, Teresa.

    e acrescento o “uso e abuso” dos estágios gratuitos, servindo-se de mão de obra gratuita, sistematicamente, susbtituindo estagiários por estagiários.

  2. É uma grande verdade… mas se começassem a gerir empresas de forma diferente da “gestão de merceeiro”, por quase todos utilizada, notar-se-ia a ignorância de muito pavão inchado que abana as penas por esses jornais e canais afora.

    1. Fala-se muito por cá da acomodação dos trabalhadores portugueses, que parece só suspirarem por empregos para a vida e da sua baixa produtividade, esquecendo o perfil dos empregadores. E a verdade, Cristina, é que muitas vezes é a sua mediocridade que condiciona o desempenho de quem para eles trabalha.

  3. Já fui empregado por conta de outrem e sei como é bom receber 14 ordenados por 11 meses de trabalho. Apesar disso, e de até auferir na altura uma remuneração simpática, assumi há dez anos a gestão de um negócio familiar. Investi, criei postos de trabalho, paguei impostos e tenho as minhas obrigações fiscais em dia.
    Trabalho cerca de 60 horas por semana e o meu salário é sempre o último a ser pago.
    Passo contar-lhe um episódio recente. No primeiro dia útil deste ano fui informado por um colaborador que pretendia terminar a nossa relação laboral. A pessoa em causa soube gerir bem as datas e as garantias da nossa legislação de trabalho e por dois meses de trabalho em 2011 tem direito ao equivalente a quatro ordenados. Vendo a coisa do lado da empresa, teremos de pagar quatro ordenados por dois meses de trabalho, para no momento seguinte ficarmos sem uma pessoa que faz falta à empresa. Se esta pessoa estivesse a recibos verdes a nossa empresa estaria neste momento mais próxima de um investimento que entendemos ser necessário fazer logo que haja condições, e que neste caso particular terá de ser feito sem recurso a endividamento.
    O senso comum dizia-me que no actual momento, de elevado desemprego, nem seria difícil de voltar a ter alguém com perfil adequado à função, mas a prática mostrou o contrário. Encontrei dezenas de pessoas a precisar de dinheiro mas muito poucas a precisar de trabalho. Não vale a pena descrever caso a caso as situações com que lidei, sendo que algumas rondam o escândalo, mas depois de fazer um esforço em observar a realidade à distância, constatei que as pessoas são na sua essência racionais, pois olham para as regras do jogo decidem de forma a maximizar o seu bem estar e minimizar o seu esforço. O ponto de equilibro entre estas duas variáveis difere de cultura para cultura, mas na nossa sociedade é algo ocioso.
    Posso ainda dizer que me lembro amiúde do meu tempo de empregado por conta de outrem e sei bem que o dia do pagamento é um dia solene. Se não me preocupasse com a capacidade da empresa em cumprir as suas obrigações a média prazo não teria qualquer dificuldade em aumentar anualmente vinte ou trinta por cento todas as remunerações. Poderia sempre usar uma estratégia socrática que passaria por recorrer ad nauseam ao endividamento, mas como trabalho com um horizonte temporal que ultrapassa os quatro anos de uma legislatura, não o farei.
    Após estes dez anos digo-lhe que o maior subsídio que qualquer governo deste país pode dar às empresas é não lhes complicar a vida. Sabia que me exigem o pagamento de 20 euros para ter uma declaração de não dívida ao fisco?

    PS: – Jornalistas e opinadores em geral, se o país tivesse o dobro dos empresários, mesmo dos que nunca tivessem lido os gurus do management, haveria menos desemprego. Sei que há muitos empresários que dão má imagem de todos os outros, mas a generalização e até a leviandade com que se dirige aos empresários em geral, obriga-me a este comentário.

    1. Paulo Sousa, como é óbvio, temos muitos empresários competentes e desses ninguém tem razão de queixa. Daí que me tenha focado nos outros, que são muitos. Em número suficiente para terem criado uma determinada cultura, que no meu post descrevi e que é reconhecida sem dificuldade por todos os que conhecem o mercado de trabalho português.
      Fala da sua experiência como empresário e eu – também lhe poupo os pormenores – poderia falar da minha como trabalhadora por conta de outrém. Sou jornalista. Ao longo do meu percurso porfissional tive a oportunidade de trabalhar para pequenos empresários e grandes grupos. Infelizmente em todos os casos. Sublinho, em todos, observei comportamentos que encaixam em algumas das situações que referi no post.

        1. Compreendo, mas perante o post não pude deixar de comentar de forma a me salvaguardar, a mim e a muitos outros, de uma generalização fácil, rápida e errónea.
          Ambos sabemos que a nossa verdade poucas vezes coincide em absoluto com a verdade efectiva, pois é difícil abstrair-mo-nos da proximidade com os assuntos em que estamos envolvidos.
          Por isso não pretendo de todo questionar uma ou outra linha de raciocínio de ninguém, e muito menos de uma jornalista num blog, mas é demasiado frequente encontrar nos nossos media uma imagem dos empresários idêntica à que traçou, o que cola bem com a demonização do lucro que atravessa a nossa actual sociedade.

          1. Percebo também a sua reacção Paulo Sousa. “Quem não se sente não é filho de boa gente”, diz o povo. Mas como lhe disse pretendi falar apenas dos maus empresários, que infelizmente são muitos e por conseguinte responsáveis por uma cultura empresarial que promove a mediocridade.
            Não demonizo o lucro, bem pelo contrário. Tomáramos nós que todas as empresas dessem lucro.

  4. Na verdade, muitos dos problemas deste país também se devem aos empresários. Tudo isto começou logo quando chegaram as grandes vagas de apoios comunitários, milhões de euros, que foram astutamente para as contas bancárias de engenhosos donos de empresas, que se “desdobraram” em manobras e esquemas para receber o dinheiro que deveria ter servido para o desenvolvimento do tecido empresarial e do país… Esse dinheiro serviu, sim, para o desenvolvimento das contas bancárias de muitos empresários de algibeira, dos mesmos que agora se queixam que têm que pagar a segurança social e as férias de quem trabalha para eles… todos conhecemos histórias inacreditáveis. Certamente que há bons empresários (mal seria…), mas o registo de maus, demasiado maus, é gigantesco. Um dos últimos casos que conheci reflecte bem o que se passa neste país: a senhora empresária gosta de se apresentar no seu BMW (comprado obviamente pela empresa) e de fazer boa figura, mas depois de no último ano ter conseguido levar a empresa que tinha todo o potencial quase à ruína (trabalhar cansa), e de chegar à conclusão que não conseguia pagar o ordenado da sua única funcionária (as contas do telefone, do cartão de crédito e do gasóleo para as suas necessidades privadas eram mais importantes…) também auferiu que não lhe podia pagar a indemnização devida, e que iria pagando conforme pudesse… mas do BMW e do restante nem pensar em abdicar! Pior: Ainda ficou ofendida quando a ex-funcionária de quatro anos defendeu os seus direitos! Esta é, infelizmente, a mentalidade de muitos dos nossos empresários… vamos esperar que esta crise também sirva para “varrer” muita dessa gente, e que fiquem os bons…

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