Carlos, o Breve.


Luís Menezes Leitão,

 

A monarquia inglesa só tem conseguido sobreviver, graças ao facto de os monarcas nunca se ingerirem em política, deixando a condução dos negócios do Estado ao governo eleito, e só intervindo quando este o solicita. Infelizmente, o Príncipe Carlos há muito que foge a esta regra, costumando exprimir desassombradamente as suas opiniões em público. No momento em que ele compara Putin a Hitler, corre um sério risco de atear uma fogueira mundial. O argumento de que ele é livre de falar como cidadão comum não faz qualquer sentido. O herdeiro do trono tem um manifesto dever de reserva relativamente a declarações que podem incendiar as relações entre o Reino Unido e a Rússia, o qual se estende a qualquer declaração que implique um envolvimento político da monarquia. Se quer falar como cidadão comum, tem que renunciar ao trono, mas aí ninguém mais o ouve.

 

Curiosamente esta situação já há muito que tinha sido prevista numa extraordinária série televisiva, House of Cards (a original inglesa e não este novo produto americano, muito inferior). Naquela série, o Rei — claramente o actual príncipe Carlos — decide apoiar a oposição contra o Primeiro-Ministro eleito. Este, após ser reeleito, obriga naturalmente o Rei a abdicar do trono. Neste extraordinário diálogo, faz-lhe ver quão fraca é a legitimidade de um monarca, a partir do momento em que este se envolve no combate político.

 

Prevejo por isso um tão curto reinado para o Príncipe Carlos, que será seguramente conhecido como Carlos, o Breve. Isto admitindo que consegue chegar ao trono, o que já é duvidoso.

3 comentários em “Carlos, o Breve.”

  1. A uma hora destas fico-lhe a dever umas boas gargalhadas.

    A monarquia britânica vive de boa saúde, numa antiga, forte e sempre rediviva democracia, num país vivo e criativo, com uma capital que é um dos grandes centros mundiais da finança e da cultura.

    O verbo “sobreviver”, que implica alguma penosidade, aplicar-se-ia com mais propriedade à república portuguesa, que abriu falência pela 3ª vez em quarenta anos, com níveis de corrupção sempre crescentes, com uma democracia de “pro forma” (em que ninguém conhece o nome do seu deputado), e onde há processos judiciais resolvidos à tesourada (o que ameaçaria a existência dos juízes do país da Magna Carta, a julgar pela reacção de um deles, a quem esse expediente recente da república portuguesa foi relatado), etc, etc.

    Por isso, seja o reinado do actual Príncipe de Gales curto ou longo, prevejo que, quando subir ao trono, a) a república portuguesa estará à beira da falência; b) a corrupção será ainda maior; c) a democracia será cada vez mais de opereta; c) os cidadãos da república portuguesa continuarão a emigrar para Inglaterra; d) continuar-se-á a ler “posts” sobre a periclitante sobrevivência da monarquia inglesa (ou da holandesa, sueca, luxemburguesa, etc); continuarão a ser escritos “posts” em que ninguém se interroga como e porquê sobrevive a república portuguesa.

    1. Ora eu também lhe fico a dever umas boas gargalhadas .

      Aproveitar este post para fazer um longuíssimo comentário que não tem absolutamente nada a ver com ele é notável de engenho .

      Não sei porquê lembrei-me de uma muita estúpida anedota dos tempos da minha adolescência sobre um busto do Napoleão …

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