A brisa nervosa dos primeiros dias de Sol revolteava garrafas vazias de plástico e papéis que subiam em espiral e aterravam na sarjeta, emitindo um som próximo daquele que fazem as folhas do outono quando arranham o asfalto. Na volta da esquina carros em fila para a ponte, a pingar areia das praias, anunciavam a chegada da saison. Como era domingo, os contentores atingiam o seu pico, extravasando para o passeio pilhas de sacos e uma rave de moscas excitadas pelo vasto espectro de cheiros que subia aos céus.
Em contraluz não se adivinhava, pela desenvoltura dos gestos, a avançada idade da mulher que se atulhava no lixo, lembrando uma versão minimalista daquelas cenas que conhecemos da televisão. Daquelas cenas que já todos vimos em documentários sobre países miseráveis em que bandos de gente, às vezes famílias inteiras, vivem da recolha do lixo.
Quando me aproximei perguntou-me, indiferente ao meu constrangimento, se tinha alguma coisa que lhe pudesse interessar dentro do caixote que me preparava para deitar fora. Avisei-a para não lhe tocar: “são latas e panos sujos de tinta”. Agradeceu-me com naturalidade, sem tirar os olhos dos sacos que desatava. Tinha pressa. Restava-lhe pouco tempo. De luz.


Daquelas cenas que já todos vimos em documentários sobre países miseráveis
Não somente em países miseráveis: nos EUA vi muita gente a vasculhar caixotes do lixo, lá é perfeitamente normal.
E mesmo gente não miserável faz isso: a minha mulher frequentemente dá uma espreitadela, quando vê que vizinhos deitaram fora coisas perfeitamente reaproveitáveis (moveis, quadros, etc).
Ainda bem – para si – que não o incomoda ver gente a vasculhar no lixo. Nada como relativizar as coisas, não é?
Eu não disse que não me incomodava.
bom!
Obrigada