Canções no cinema (9)


Pedro Correia,

 

CAN’T TAKE MY EYES OFF YOU (O Caçador, 1978)

 

You’re just too good to be true,
Can’t take my eyes off of you.
You feel like heaven to touch.
I wanna hold you so much.

At long last love has arrived
And I thank God I’m alive.
You’re just too good to be true,
Can’t take my eyes off of you

 

Não sei se convosco acontece o mesmo. Comigo é assim: mal ouço os acordes iniciais da belíssima Cavatina, composta por Stanley Myers, já não consigo desviar os olhos do ecrã. É o tema instrumental que assinala o início de um dos filmes da minha vida: O Caçador (The Deer Hunter), de Michael Cimino.

A película prolonga-se por três horas. Cada minuto merece ser acompanhado com atenção.

Estreou em Dezembro de 1978, entre incontáveis polémicas. Chamaram de tudo ao realizador: “fascista” e “racista” foram dois epítetos que lhe dirigiram por ter ousado retratar a face menos amável dos norte-vietnamitas na guerra que os norte-americanos travaram durante uma década na Indochina. A exibição da película no Festival de Berlim, em 1979, originou um boicote dos países comunistas e também de diversos representantes do então denominado Terceiro Mundo. Nesse mesmo ano, por sinal, cerca de 350 mil pessoas fugiam em desespero do Vietname “libertado”, a bordo de embarcações improvisadas. Eram os chamados boat people: foi um dos êxodos mais dramáticos de que há memória no último meio século.

 

O Caçador não era nada do que lhe chamaram à época alguns críticos sempre prontos a confundir ideologia com arte. É um drama com sopro épico centrado em três indivíduos banais, oriundos da América profunda, envolvidos em circunstâncias excepcionais ditadas pelas contingências da geopolítica. É a história de três amigos, jovens operários da indústria do aço na Pensilvânia, mobilizados para uma missão militar no inferno indochinês: Mike (Robert de Niro), Nick (Christopher Walken) e Steven (John Savage).

Acompanhamos o percurso deles – desde os dias em que toda a povoação se veste de gala para figurar no casamento apressado de Steven, na véspera da mobilização para o Vietname, até aos penosos tempos do pós-guerra, em que nenhum volta a ser o mesmo. As caçadas a gamos e veados em que se entretinham antes do embarque não serão mais do que evocações do tempo de feliz camaradagem ao ar livre. Na guerra, quando cada ser humano se torna peça de caça, ou se mata ou se morre. E mesmo os que sobrevivem aparentemente ilesos regressam mutilados por dentro.

deer_hunter[1].jpg

 

Acompanhei o filme na estreia em Portugal, nesse ano de 1979 (quando O Caçador recebeu Óscares para melhor longa-metragem e melhor realização), e percebi de imediato que acabara de assistir a uma obra-prima que subsistiria como marco da Sétima Arte. Tão forte, tão intensa, tão pungente, tão emblemática como O Padrinho 2, de Coppola, que por coincidência vira semanas antes. E com Robert de Niro nas duas longas-metragens: foi quanto bastou para logo se tornar um dos meus actores de eleição.

Como todas as grandes películas, O Caçador contém vários momentos que nos perduram na memória. O mais polémico de todos – e que fez correr rios de tinta em panfletos no mundo inteiro – é a arrepiante sequência em que guerrilheiros vietcong forçam os militares americanos, feitos prisioneiros, a praticar roleta russa. Muito controversa foi também a cena final, em que Mike e uns amigos, à volta de uma mesa, cantam God Bless America: não é um pretexto para a exaltação acéfala de glórias patrioteiras, como alguns imbecis se apressaram a denunciar, mas uma elegia pelo sonho americano – mil vezes desonrado desde os dias dos pioneiros, mil vezes renascido de todas as cinzas.

 

Mas a cena que mais me fascina – e quanto mais a vejo mais me confesso fascinado por ela – decorre ainda na fase inicial do filme, antes do embarque que selaria o destino daqueles operários-soldados, antes dessa esplendorosa festa do cinema que é a sequência do casamento (com 51 minutos de duração, só comparável à do célebre baile protagonizado por Angelica e Tancredi n’ O Leopardo, de Visconti). Passa-se num café, à volta de uma mesa de bilhar: os três amigos e alguns outros despedem-se para sempre dos dias dourados da juventude entre uns goles de cerveja e umas tacadas no pano verde do snooker. Na jukebox, toca um tema musical da época em que a acção decorre. Estamos em 1967, Frankie Valli canta um mega-êxito daquele ano: Can’t Take My Eyes Off You, composto por Bob Crewe (1930-2014), o autor da música, e Bob Gaudio (nascido em 1942), responsável pela letra.

Gravado em Abril desse ano e posto à venda no mês seguinte, o disco fez furor nos tops, tornando-se à época o segundo tema mais popular nos Estados Unidos. Viria a constar do reportório de nomes ilustres, como Andy Williams e Nancy Wilson, e conheceria cerca de 200 versões de então para cá. Mas nenhuma tão célebre como o original de Valli, interpretado no seu inconfundível registo de falsete e secundado pelos Four Seasons, a banda que ainda hoje o acompanha em actuações esporádicas.

 

“I love you, baby and if it’s quite alright / I need you, baby to warm the lonely nights / I love you, baby, trust in me when I say / Oh, pretty baby, don’t bring me down I pray / Oh, pretty baby, now that I’ve found you stay. / Let me love you, baby, let me love you”.

Canção na aparência banal, mas que também se tornava extraordinária naquele tempo em que os trilhos do amor davam lugar à implacável rota da guerra. Canção que os amigos cantam em uníssono, enquanto bebem e jogam e riem e se abraçam. Pressentindo talvez que se tratava de um momento irrepetível: não haveria outra oportunidade para perpetuarem através daquele festivo elo tribal os frágeis filamentos que conferem alguma consistência à vida.

Tantas guerras ocorreram desde então – e ei-los ainda a cantar na tela, eternizados graças à magia do cinema. E nós cantamos com eles: “Pardon the way that I stare, / There’s nothing else to compare. / The sight of you makes me weak, / there are no words left to speak.”

0 comentários em “Canções no cinema (9)”

  1. Caro Pedro,
    parabéns pelo texto.

    Permita-me que fale, brevemente, não sobre a canção que apresenta, mas sobre a música com que abre este seu texto, a Cavatina, mais propriamente a versão dos «the shadows».
    Fora de tempo para mim, sempre que ouço esta música ela vem-me à memória colada com a expressão, dita em voz masculina e altiva: «100 escudos! Obrigado!» Era, entre outras, uma das músicas da «Moda do Ramo» dos bailaricos dos anos ’80 lá da aldeia, que eu apanhei na sua fase final!

    1. Gostei dessa sua evocação, António. O espírito desta série é precisamente esse: a pretexto de filmes, e de canções a eles associadas, falarmos também das recordações que nos suscitam. Porque cinema e vida andam sempre entrelaçados.

  2. Um filme inesquecível e que marcou uma geração. Impossível, de facto, ouvir o tema tocado pelos Shadows e não nos lembrarmos logo do The Deer Hunter.
    Vi o filme duas vezes no cinema, tal como fiz com tantos outros que me marcaram. Depois tive-o em K7 e finalmente em DVD, por isso nem sei quantas vezes o terei visionado.
    O Pedro faz aqui uma bela evocação do filme, só senti a falta da Meryl Streep que, embora num papel secundário, teve aqui a sua primeira nomeação para um Óscar.
    Eu também já conhecia e gostava do De Niro, do Padrinho 2 e também do ‘Novecento’, do Bertolucci, onde ele aparecia com o Dépardieu e a Dominique Sanda.
    Adoro esta canção, volta e meia dou comigo a trauteá-la.
    Escolha aprovadíssima a 200%, Pedro.
    🙂 Antonieta

    1. De Niro é um actor fundamental desta época. Filmando com Coppola (O Padrinho 2), Cimino (O Caçador), Elia Kazan (O Último Magnata), Sergio Leone (Era Uma Vez na América) e Martin Scorsese (Taxi Driver; New York, New York; O Toiro Enraivecido). Várias obras-primas em apenas uma década.
      Meryl Streep entrou no elenco d’ O Caçador precisamente pela mão dele, que já a conhecia do teatro. E entrou muito bem. Faz o contraponto feminino num mundo de homens, guerreiros à força.

      1. Sim, foi o de Niro (que tinha feito uma peça com a Meryl Streep e o seu companheiro John Cazale) que sugeriu que ela entrasse no filme.
        Cazale estava literalmente a morrer, com um cancro em fase terminal, e assim Meryl pode acompanhá-lo até ao fim. Ele morreu em Março/78 sem chegar a ver o filme montado.
        Mas eu recordo-o sobretudo como Fredo Corleone, o mano fraco e traidor que Michael (genial Al Pacino) foi forçado a eliminar.
        De Niro e Meryl voltariam a juntar-se no “Falling in Love”, de Ulu Grosbard, um filme que nos mostra uma deslumbrante New York.
        Para mim os filmes também servem para isso: ter oportunidade de conhecer locais que nunca poderei visitar.
        🙂 Antonieta

        1. É isso mesmo, Antonieta: os filmes permitem-nos visitar locais que talvez nunca visitemos. Isso relaciona-se um pouco com a próxima canção de filme que passará por cá.

  3. Os mesmos que, praticando zelosamente a sua (deles) obsessão antiamericana, desconsideram o canto de God Bless America (ou a bandeira no relvado frente à casa, por exemplo) como patrioteirismo acéfalo de um povo irreversivelmente imbecil, chefiado pelo Mal do mundo, serão os mesmos que decerto, e limitando-me ao nosso panorama doméstico, acham muito bem a redução do patriotismo à demência futeboleira (a única circunstância, que me recorde, onde este povo procura exaltar – e com traços de tribalismo quase bestial, infelizmente – a sua condição de português), aplaudindo coisas como um futebolista, brilhante que tenha sido, levado ao Panteão Nacional, por entre levas de emoção quase histérica. Mas adiante.

    Também a mim a Cavatina produz esse efeito. E é esse um dos filmes – longe, muito longe, é bem certo de merecer eu o qualificativo de cinéfilo – da minha vida. Um filme brilhante em tudo, até na ousadia do enredo: nem americanos a reduzir tudo a cinza, professando o seu amor do cheiro do napalm pela manhã, nem americanos pejados de vícios trazidos da sua terra malévola, consumidos em droga e praticando impunemente coisas inimagináveis sobre um pobre mas heróico povo.

    Tipos comuns, lançados na guerra e a quem as coisas correram muito mal, caídos nas mãos de um inimigo longe – muito longe – de ser uma virtuosa luz de humanidade.

    Claro que para a esquerda, senhora exclusiva do bem e da justiça, admitir isso é anátema e aquele que ouse suscitar essa possibilidade um ente a condenar, fosse isso ainda possível (ainda o é, em alguns casos), a uma estada num campo de reeducação.

    O que me remete para outro filme, de uns anos mais tarde, também assaz incómodo para algumas almas bem-pensantes, acredito, e susceptível de alguma analogia, seja pelo tempo, seja pela geografia, seja pela ousadia de interrogar a conduta dos vencedores (daqueles vencedores): The Killing Fields.

    Costa

    1. ‘The Killing Fields’ é outro filme da minha vida. Um filme arrepiante, que fez sobressaltar muitas consciências ocidentais. E quem ainda hoje não sente um sobressalto perante esse filme peca por fanatismo ideológico ou desonestidade intelectual. Costuma suceder, com demasiada frequência, a quem reduz a realidade a uma trincheira – seja ela qual for.
      Subscrevo a sua leitura do filme de Cimino. Os grandes filmes são assim: transcendem a sua época e o contexto que lhes serve de ponto de partida, ganhando a todo o momento novas pistas de leitura.

      1. The Killing Fields, um extraordinário filme de Roland Joffé, música de Mike Oldfield, e excelentes interpretações de Sam Waterston e Haing S. Ngor. Este médico, que acabou por ganhar o Óscar de melhor actor secundário, era um sobrevivente dos ‘campos de trabalho’ do Khmer Vermelho e apenas por isso aceitou entrar no filme: queria dar a conhecer ao mundo o seu testemunho
        pessoal.
        🙂 Antonieta

        1. Fez um excelente papel, no fundo representando-se quase a si próprio, e foi merecidamente galardoado com um Óscar pelo seu desempenho neste filme. Teve infelizmente uma morte trágica.

  4. Fui ver ao Berna. Chorei. Comprei o VHS logo que disponível. Comprei o Vinil dos Shadows.
    A Cavatina é linda de arrepiar e associo sempre a música á cena do veado. A perda da inocência impede a morte leviana e sem sentido.
    “Can’t take My eles off you” faz o contraponto entre a vida simples e despreocupada e o horror da guerra, e da outra guerra aquela que só acaba quando as vozes por fim se calam na roleta do último disparo.
    Muito bom, Pedro, adorei.

  5. Pedro
    Esta série é excelente.
    Não costumo ser saudosista, mas este texto tocou-me particularmente. Não por saudade, mas porque ela evoca, ainda hoje, uma série de coisas em que continuo a acreditar!

    1. Andei muito tempo com esta série na cabeça, Teresa. Como se tivesse vindo a escrevê-la mentalmente durante anos. Calhou iniciá-la este Verão. E sou capaz de prolongá-la até ao Outono. Porque ao lembrarmos filmes e canções também rememoramos etapas importantes das nossas vidas. Ainda bem que estás a gostar. Agradeço-te as palavras que aqui deixas.

  6. Obrigado. Tantas vezes falei desta cena… E deste filme. Heavens gate é outra maravilha inesquecivel do mesmo…

    1. Plenamente de acordo com ‘Heaven’s Gate’ – um filme considerado maldito, que levou à falência da United Artists e que por esse motivo se manteve invisível durante décadas. Pude vê-lo finalmente, há poucos anos, numa sessão especial de cinema. E gostei muito. Com uma fabulosa Isabelle Huppert, uma fotografia inesquecível e um sopro épico que já tínhamos detectado em ‘O Caçador’, dois ou três anos antes.

  7. Pedro,
    Assinava por baixo do post!
    O Caçador é um grande filme, com jovens actores fantásticos, alguns já consagrados (De Niro em O Padrinho 2) outros a dar os primeiros passos na 7.ª arte (a sempre fabulosa Meryl Streep), vive do conjunto das actuações, da história, da banda sonora, da fotografia, das paisagens (que, por acaso, nem são da Pensilvânia…).
    Ouvir os dois temas que refere (Cavatina e Can’t take my eyes out of you – cuja autoria só este ano descobri, no filme Jersey Boys, de Clint Eastwood) provocam-me de imediato um regresso aos idos de 1979, à minha adolescência despreocupada de dias infindáveis, de um Verão de “passagem”, de fim de ciclo, o último Verão antes da entrada na Faculdade.
    É curioso que nesse ano de 1979 os dois grandes rivais nos Óscares eram “O Regresso dos Heróis” (Coming Home) e o Caçador. O primeiro aclamado pela esquerda e o segundo vilipendiado por essa mesma esquerda. Vi os dois filmes e não considero nenhum deles um filme politicamente “entrincheirado” mas sim filmes sobre pessoas e os efeitos da guerra nessas mesmas pessoas. Sempre vistos na perspectiva americana. Mais contestatária ou menos contestária. Ao fim e ao cabo o que está em causa é a abordagem da vida quando se passa por momentos tão devastadores em termos pessoais, familiares, comunitários e nacionais. Não é por acaso que muitos grandes filmes são filmes “à volta” de guerras em que os EU estiveram envolvidos – a Guerra Civil, a Segunda Guerra, o Vietnam e, mais recentemente, o Iraque (American Sniper, p. ex., outro grande filme também arrasado com críticas de que patrioteirismo e de apelo á guerra).
    O Caçador já passou este ano várias vezes nas TV por cabo – a última das quais na semana passada. Revi-o e acho que resistiu muito bem à usura do tempo (contrariamente ao The Graduate, como muito bem referiu o Pedro num post anterior, do qual só a banda sonora se mantém intemporal).
    Sobre John Cazale, quem tiver curiosidade poderá ver na NET um interessante documentário com testemunhos do Robert de Niro, da Meryl Streep e uns quantos mais. O Michael Cimino escondeu do estúdio a doença do Cazale porque tinha a certeza de que o estúdio o recusaria por essa razão (como efectivamente veio a suceder quando dela teve conhecimento e só não se consumou porque a Meryl Streep ameaçou que deixaria o filme se se consumasse o despedimento) e filmou as cenas com o Cazale todas no início das filmagens. Na indústria cinematográfica é obrigatório fazer seguros para garantir a cobertura dos prejuízos decorrentes do abandono dos actores e como tal era muito complicado no caso do Cazale, foi o Robert de Niro quem prestou fiança (já não me lembro se o fez em substituição do seguro ou como contra-garantia da seguradora).
    Espero que continue a brindar-nos com estes posts temáticos!
    paula

    1. Há filmes que marcam vários de nós por constituirem um traço geracional. É o caso deste, que vimos ainda adolescentes por ocasião da estreia: bastaria isso para fazer parte do nosso património emocional. Mas ‘O Caçador’, como bem sublinha, transcende largamente o contexto da estreia. A tal ponto que nos parecem hoje muito remotas e até ridículas as críticas que então lhe foram dirigidas pelas bempensâncias de turno. Como tantas vezes sucede, esses patrulheiros ideológicos não tinham a menor razão. Ao contrário do que juravam, não estamos perante um panfleto político: estamos perante um marco da Sétima Arte. Um filme com personagens densas, credíveis, bem construídas. Um filme muito bem interpretado. Um filme que nos faz pensar porque aborda aspectos essenciais da natureza humana.
      Agradeço-lhe as palavras que aqui deixou, Paula. Espero que continue a gostar desta série, que vai prolongar-se. Assim não me falte engenho e arte…

      (Você é jornalista? Julgo que nos conhecemos.)

      1. Pedro,
        Não, não sou jornalista (terá pensado que sou a Paula Torres de Carvalho?). Sou leitora habitual do Delito e acho que este foi o segundo comentário que publiquei.
        E já que estou com a mão na massa, aproveito para lhe dizer que gostei muito da série dos livros, sobretudo porque já já lido muitos deles. Curiosamente, estava a ler o Martin Eden (Jack London é um autor da minha especial predilecção) quando publicou um post sobre esse livro.
        Cá ficarei à espera das próximas publicações.
        paula

        1. Óptimo, Paula. Ainda bem que nos acompanha: espero que comente mais vezes.
          Tenciono retomar em breve a série Grandes Romances, que não actualizo desde Fevereiro. ‘Matéria-prima’ não falta.
          Gostei dessa coincidência em relação ao ‘Martin Eden’. Sou coleccionador de coincidências….

  8. Isto dos filmes de que gostamos é como as cerejas, há sempre mais alguma coisa a dizer!
    Quando vi O Caçador este ano comentei que a duração da cena do casamento seria absolutamente impensável nos dias de hoje, assim como a duração do próprio filme, pouco própria para salas de cinema descartável e de pipoca e coca-cola. Saudades (muitas) de salas como o S. Jorge e Mundial (já para não falar do Monumental) ou do Batalha, Coliseu e Rivoli no Porto.
    Também me esqueci de referir o Heavens’s Gate – outro filme longo e mal amado da crítica, mas que explica muito bem como se forjou a América -, de que gostei imenso, com grandes actores: para além da Isabelle Hupert, já referida, Kris Kristofferson, Christopher Walken, Jeff Bridges, Sam Waterson e, lá pelo meio, um Mickey Rourke em começo de carreira, tão novinho e bonitinho, longe do camafeu em que entretanto se tornou!
    E agora termino o meu comentário pois já me alonguei para além da conta…

    1. Paula, e que bom foi ter-se alongado, que bom foi lê-la. Revejo-me em tantas coisas que diz como, por exemplo, nas saudades das grandes salas de cinema de Lisboa, cidade onde nasci e vivi até aos 30 anos. Possivelmente estivemos nas mesmas salas a ver os mesmos filmes.
      Lembro-me de ter visto a primeira parte do “1900” do Bertolucci no S. Jorge, e depois ir a correr para o Mundial ver e segunda parte.
      E apesar de alguns filmes serem incrivelmente longos não nos aborrecíamos nem precisávamos de pipocas.
      🙂 Antonieta

        1. E pensar que está escrito desde 2009 e eu nunca o tinha lido.
          Foi um reavivar de memórias incrível, mesmo muito bom. Obrigada, Pedro!
          🙂 Antonieta

          p.s. Já escrevi 2 longos comentários que não consegui publicar.
          Desisto… por agora.
          🙂 Antonieta

        2. Pedro,
          Fui ler (em 2009 ainda não lia o Delito) e relembrei muitas dessas salas que foram progressivamente fechando, algumas ainda antes de vir para Lisboa, como o Monumental, onde vi o Apocalipse Now em 1980, ou Satélite (a sala
          estúdio do Monumental), onde vi Sorrisos de uma Noite de Verão, no Verão de 1978, ou o City, onde vi Barry Lindon. Depois de ter vindo para Lisboa ainda apanhei as salas originais do S. Jorge, do Mundial, do Tivoli, do Éden, do Império, do Vox, bem como as outras salas mais pequenas, de bairro ou nem por isso. No Porto, o Caçador estreou em 1979 no Rivoli e esteve em exibição três meses, tendo tido uma reprise em 1983 no Passos Manuel (um estúdio adjacente ao Coliseu).
          Em relação ao tempo de permanência em cartaz não há muito tempo (quer dizer, já foi em 1995, ou seja, há 20 anos…), O Carteiro de Pablo Neruda esteve em cartaz um ano, salvo erro, no Mundial (já transformado). Deve ter sido o último filme a cometer essa proeza.

          Antonieta,
          Não sei se nos cruzamos – eu fiz o percurso inverso, imigrei para Lisboa e já cá estou há quase três décadas – mas certamente temos gostos semelhantes e agradeço-lhe o seu simpático comentário!

          paula

          1. Paula: aqui está como, a pretexto do cinema, podemos desfiar tantos fios de memórias partilháveis.
            Os blogues servem também para isto. Direi mais: servem sobretudo para isto.

  9. Olá Pedro,

    Parabéns pela série!

    Vi este filme no entanto quando li as primeiras linhas desta canção:
    “You’re just too good to be true,
    Can’t take my eyes off of you…”

    Lembrei-me logo de outro filme (10 Things I Hate About You de 1999, tinha 19 anos). Com O Heath Leadger a cantar esta música… Nem me lembrava que o Caçador tinha esta fantástica música e esta fantástica cena no bar.

    É engraçado, que uma mesma música, faça lembrar filmes tão diferentes!

    Os filmes, tal como os livros e as músicas, marcam-nos de maneiras diferentes dependendo da idade, e do sítio onde estamos…

    Estou à espera da próxima série sobre músicas no cinema (” Ennio Morricone vs John Williams?)

    1. É verdade, Ricardo. A mesma música pode trazer-nos memórias muito diferentes. Mesmo quando se trata do mesmo filme: tudo depende do olhar de cada um. E do contexto em que o vimos.
      Essa série da relação entre o cinema e a música instrumental dará ainda mais pano para mangas do que esta. Com nomes tão diversos como Chaplin, Vangelis, Maurice Jarre, Francis Lai, Mikis Theodorakis, Anton Karas, Michel Legrand, Bernard Herrmann, Miles Davis, Ryiuchi Sakamoto, Nino Rota, Gato Barbieri, Ry Cooder, Chico Buarque e Duke Ellington. Além dos dois mencionados (Williams e Morricone).
      Aqui fica um exemplo, de Nino Rota, na bela composição Terra Lontana para essa obra-prima de Visconti que é ‘Rocco e os seus Irmãos’:
      https://www.youtube.com/watch?v=Nlth9LwKyGE

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