Cadáver Esquisito (2)


Ana Cláudia Vicente,

1. UM LIVRO

2

CA…… SARKIS G……..N

 

Bastou a João Cosme um esfregar de olhos mais acordadiço para perceber que o livro havia de ser obra de bifes. Vamos e convenhamos: depois de uma mão cheia de filmes de estio na praça da vila, as garatujas da capa não exigiam um Detective Varatojo.

Já a aparição daquele volume ali, no seu quarto, o quarto do seu falecido padrinho, na exacta madrugada do regresso da “expedição”? Preocupante o suficiente para entender o quanto antes. Talvez começar por aquele resto de assinatura na folha de rosto: Ca…… Sarkis G……..n?

Cosme ouviu os passos curtos e ainda ligeiros de Vivelinda em direcção à sala de refeições. O cheiro a pão fez parágrafo no seu ritual matinal de higiene, mais longo que o costume, dada a quantidade de lama terrosa que havia ficado por limpar.

– Vivelinda! – chamou, com poucas maneiras.

– Diz lá, João… – respondeu a sexagenária, em tom simétrico.

– Qu’é lá?! – impôs ele.

– Faz favor, menino Cosme… – fingiu a serviçal.

– A madrinha e o professor José Augusto, já estão na casa de jantar? – inquiriu, por fim.

– Não, menino, ainda só estás só tu e o Eduardo – despachou, empurrando o carrinho dos beberes.

– Já não estamos nos Freixos, Vivelinda – resmoneou, deixando escapar o sotaque.

– Pois não, João Cosme! – suspirou.

– Bom dia, D. Linda – acenou, respeitoso, o outro inquilino.

– Bom dia, sr. Eduardo – correspondeu, plácida.

 

(Este é o segundo capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a da Ana Vidal.)

16 comentários em “Cadáver Esquisito (2)”

        1. Quem te mandou:

          a) não dizeres – literalmente – que ele era ceguinho (deixando a porta aberta aos desmancha-prazeres – bruá-há-há!: ouves daí a gargalhada malévola?- ), hã, se o querias ceguinho até ao fim?

          b) introduzires um narrador omnisciente que, ao dizer a cor dos lençóis do ceguinho, pode por isso ser reinterpretado a bel-prazer do seguinte?

          Posto isto: nem quero ver o que vão fazer às minhas pistas….

          1. Parem lá com as portas. Tenham piedade de mim…
            Se alguém meter as ditas no romance vê-se comigo!

  1. Estousem cumputador por uns dias e por isso pior do que o Cosme da nossa história: cega, surda e muda. Resta-me o telefone, e dou graças aos céus por ter deixado de embirrar com smartphones há pouco tempo. Por isso venho só aqui dizer, Cláudia do meucoração, que arranjaste maneira de armadilhar a história por muitos posts. Ah, valente! Mas a vingança serve-se fria, ou seja, uma semana depois. Vais ver o que eu faço com esses teus serões na província… 😉

    1. Ai, Ana , tu segura-me a esse telefone, senão deslizas (como certas-e-determinadas-pessoas) para uma dimensão…oitocentista!

      Isto vai ser ainda mais divertido do que pensávamos: suspeito que a maior parte de nós se mostrará tão pouco desprendida quanto o Adolfo em relação às suas criações, eheh.

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