
Mania tão nossa esta, a de alterar os nomes às coisas. Como sucedeu com Uma Agulha no Palheiro, de Salinger, entretanto baptizada com um título horrível, À Espera no Centeio. E com a já clássica Cabra-Cega de Roger Vailland, que passou a um insípido Jogo Curioso. Ou – pior ainda – com o magnífico Monte dos Vendavais, de Emily Bronte, transformado sucessivamente em O Monte dos Ventos Uivantes, O Alto dos Vendavais e A Colina dos Vendavais.
Ainda há dias vi dois destes títulos diferentes para crismar a mesma obra alinhados numa livraria em Lagos: surgem documentados nesta fotografia, como irmãos siameses. Interrogo-me se estaremos perante simples manha comercial para iludir uns incautos (que pensam adquirir uma obra diferente daquela que já terão lá por casa) ou mera vontade de mudar o que está bem, outra mania muito nossa. Sem absorver um salutar princípio colhido do futebol: em equipa que ganha não se mexe. Dos livros devemos dizer o mesmo.
Desonestidade intelectual, em qualquer dos casos. Ou nem isso: burrice apenas.

Nos filmes também acontece com frequência, caro Pedro. “Shadow of a doubt”, de Hitchcock transforma-se em “Mentira” na versão portuguesa. “Silent Movie” de Mel Brooks passou a “A última loucura”. Mas a mais absurda de todas foi ter chamado “O Homem do Futuro” ao “Planet of the Apes”, contando assim o fim do filme no título.
Meu caro Luís: isso dar-nos-ia pretexto até para fazer uma longa série aqui no blogue.
E nem precisamos de ir para as traduções brasileiras (‘A Noviça Rebelde’ como tradução de ‘Sound of Music’ ou ‘O Poderoso Chefão’ como tradução de ‘The Godfather’)
As portuguesas bastam.
E eu ficarei à espera para a ler.
Alguém me disse que nos filmes a razão de alterarem os títulos é questão de diminuir custos. Aparentemente, manter o título original aumenta as tarifas. Não sei se é verdade. Parece-me pouco provável, mas enfim, aqui fica a dica.
Será?
Vou seguir essa pista.
Obrigado, Luís.
Deve ser, em parte, como Luís Serpa afirma.
E não sei se também não existe uma norma que obrigue à existência de um título em português, para uso em Portugal.
Se o uso do título original for permitido, ao usá-lo terá de pagar os copyright.
Se traduzir o título e registar essa tradução, mais ninguém a pode usar sem consentimento seu.
No caso de um remake de um filme, aquando da sua exibição em Portugal, se detiver os copyright do título original traduzido, ou chegam a acordo consigo, ou têm de usar outro.
Como vai? É por isso que chego a uma livraria e pergunto por um nome de um livro com o referido autor e ficam a olhar para mim como se eu dissesse sei lá o quê. Para além de, ter de esperar que atendem uma pessoa para, me acompanharem às prateleiras e depois de me esforçar imenso a explicar o que quero, informarem-me que não têm. E será que não? Será que têm mas com outro título e não o sabem? Tristeza… Será que são guerrinhas das editoras?!?!?
Estratégia comercial, no melhor dos casos. No pior, pura incompetência. Ou burrice, como prefiro chamar-lhe.
É como diz: isto explica em boa parte o motivo por que não sabem dizer-nos se têm determinada obra. Muitas vezes até têm, mas com outro nome.
Um disparate, realmente.
Assim como a Anita que passou a Martine e os Estrumfes que passaram a Smurfs!
Lembra muito bem, Gorduchita.
Não podia vir mais a propósito.
(Espero que isto mude muito rápido: o.pt/segunda-metade-do-ano-365263)
https://avidadagorduchita.blogs.sap
Vertigo é outro. Por cá tivemos o título/spoiler que se sabe.
Mas há bons exemplos ao contrário, Dulce.
‘O Mundo a Seus Pés’, por exemplo. Que seria de uma sensaboria indescritível traduzido à letra por ‘Cidadão Kane’.
Ou mesmo ‘E Tudo o Vento Levou’ – um título que é um verso. Soando em português sempre melhor que o original traduzido à letra, na voz passiva: ‘Levado Pelo Vento’.
Quem sabe agora não seriam traduzidos à letra e perderiam a mística do título, porque esses que referiu tiveram traduções geniais !
Sempre fui contra as traduções dos nomes próprios.
Não gostaria muito que Rosebud fosse Botão de Rosa. Não faria para mim qualquer sentido, apesar de ser esse o significado.
Aplaudo boas traduções, Dulce. E não deixo de me indignar contra a subvalorização do trabalho intelectual tão necessário que é este, por vezes desenvolvido por pessoas que muito prezam e cultivam a nossa língua sem serem reconhecidas como tal pelas próprias chancelas editoriais a que prestam serviço.
Por isso faço questão de especificar sempre o nome dos tradutores na minha rubrica diária do DELITO, “um livro por dia”, existente há mais de cinco anos. Várias vezes tenho questionado as editoras, que raras vezes mencionam os nomes dos tradutores nas notas à comunicação social, para saber os nomes de quem traduziu as obras.
É uma actividade exigente e mal remunerada. Ao menos que os nomes não sejam omitidos.
E por falar em burrices, lembrei-me do Triunfo dos Porcos, genial e inspirado título dado ao Animal Farm do Orwell, que agora passou a chamar-se A Quinta dos Animais.
Para muitos agora é que está correcto, para mim será sempre O Triunfo dos Porcos. 🐖🐷🐖
⚘
Maria
Lembrou-se muito bem, Maria. Escrevi este postal à pressa, único motivo que me levou a omitir esse exemplo, para mim bem relevante e que creio aliás já ter referido aqui.
Houve outro título: “O Porco Triunfante”. Se não me falha a memória, a cronologia é a seguinte: “O Porco Triunfante”, “O Triunfo dos Porcos”, e agora “A Quinta dos Animais”. Do outro lado do Atlântico chamaram-lhe “A Revolução dos Bichos”.
Até porque porcos é um retrato mais verdadeiro do que eles são.
A propósito de porcos: ando com saudades de fazer uma incursão à Bairrada.
Parece apenas burrice. Mas não é. Acredite. O “Monte” é provavelmente o romance da minha vida. Li e reli o romance de Brontë 4 vezes. E não vou ficar por aqui. Tenho a certeza. Perdoem-me: Marco António & Cleópatra; Romeu & Julieta; Pedro & Inês; Josefina & Napoleão; Simão & Teresa; Sansão & Dalila; Rick & Ilsa; mas não existe amor maior do que o de Catherine & Heathcliff. Um amor onde os apaixonados nunca chegam a trocar um beijo e não consumam a lei do desejo fortíssima e avassaladora que os corrói, e que resultará na perdição de ambos. Como foi possível a uma provinciana inglesa, solteirona, no início do século XIX, entrar de uma forma única no que mais belo e negro existe na alma humana: o amor e o ódio. E como soube transmitir, de uma forma sublime, a ténue fronteira existente entre estes dois sentimentos que, como sabemos, é tão fina como o fio de uma navalha.
Aos 13 anos fiquei fascinado pelo ambiente opressivo, claustrofóbico, demoníaco, em que decorre a narrativa, e pelo fim trágico de Catherine e Heathcliff, mas passei ao lado da imensidão do amor deles. Como é óbvio. Aos 25 anos, quando o coração já tem algumas cicatrizes provocadas pelas queimaduras dos amores, chorei, e rendi-me para sempre à figura de Heathcliff, embora repulsiva, mas que subjuga pelo que nele há de implacável, de demoníaco, de impiedoso, de apaixonado. São inenarráveis a sua angústia e a sua revolta perante um destino que ele em parte criou. Aos 49 anos, data da última leitura, finalmente assimilei, penso eu, a passagem onde Heathcliff, persentindo que o fim está próximo, dá instruções ao coveiro para cavar a sua sepultura ao lado da de Catherine e manda profanar o caixão desta ordenando que lhe sejam arrancadas as tábuas laterais direitas, e que as tábuas laterais esquerdas do seu caixão sejam igualmente arrancadas quando for a enterrar. Desta forma ficariam os dois, para a eternidade, a olharem um para o outro. Sublime Brontë.
Tudo isto para concluir que a “burrice” pode ser gratificante, há uns anos adquiri num alfarrabista um exemplar de uma 1ª edição de 1940 do “Monte” com uma encadernação soberba pela módica quantia de 2,5 euros! A joia da coroa da minha biblioteca. Orgulhosamente colocado ao lado de exemplares onde o “monte passa a colina” e o “vendaval a uivo”. E porquê? Porque os meus amigos sabendo da minha paixão pelo romance, cada vez que o “título muda” correm a comprar um exemplar para me oferecer …
Até fiquei sem fôlego com tanto entusiasmo: magnífico!
Se me permite, deixo aqui duas questões:
1- Qual o título que prefere?
2- Qual das adaptações cinematográficas prefere?
⚘
Maria
Deixarei, naturalmente, o nosso amigo leitor responder, Maria.
Mas adianto já as minhas respostas às suas perguntas:
1. Prefiro ‘O Monte dos Vendavais’. Pela eufonia e pelo poder imagético (e até poético) deste título.
2. Prefiro a versão de 1939, de William Wyler, com Laurence Olivier e Merle Oberon. Inesquecível.
Merle Oberon é a minha “Catherine” (o que é obra porque adoro a Binoche) e Ralph Fiennes o meu “Heathcliff”. A versão de 1939 é de facto inesquecível, o próprio preto e branco funciona como “ambiente”.
Eu vi esse filme na tv, ainda miúda. Lembro-me de ter tido imenso medo quando o Heathcliff chama o “fantasma”da Cathy, e de o meu irmão (quatro anos mais velho) me dizer: não tenhas medo mana, isto é tudo a fingir.
A outra versão que conheço (e que tenho em DVD) é a do par Juliette Binoche & Ralph Fiennes, que já vi várias vezes, sem qualquer espécie de medo, obviamente 🙂
A primeira vez que li o livro foi em edição francesa (Les Hauts de Hurle-Vent, Le Livre de Poche, 1976) e ainda tenho esse livro.
Nessa altura, lia muito em francês – aliás foi também em francês que li a Jane Eyre, da mana Charlotte Brontë e a Odisseia. Ia à velhinha Bertrand do Chiado e arrebanhava tudo o que me interessava.
⚘
Maria
A cena inicial do vento a provocar o batimento do ramo da árvore na janela é “puro terror” e define todo o ambiente do romance que é transposto para o filme (39). Teve toda a razão de sentir medo, foi igualmente esse o meu sentimento quando o vi, um “presságio” de desgraça.
(Pres)senti o mesmo. Excepcional.
Eu não sei se tenho já um romance da minha vida. Espero ter ainda uns vinte anos, talvez mais, de leitura pela frente, ao longo dos quais, quem sabe, serei capaz de inverter esta terrível mania de deixar a ficção para “o livro a ler a seguir”.
Em qualquer caso há dois romances que, se forçado a fazê-lo (e apenas nesse extremo), assim elegeria. Quanto ao primeiro, sem a menor hesitação (haja o que houver); quanto ao segundo, já não estou tão certo. E, todavia, ambos sublimes.
O primeiro – a revelação da minha adolescência, nas incrivelmente silenciosas noites de um Verão da segunda metade dos anos setenta (noites irrepetíveís, que nunca saberei descrever e que antecediam manhãs cinzentas, até que um Sol implacável vencesse o cinzento da Praia de Pedrógão) de uma aldeia a norte de Leiria, já pais e avós dormiam, que vai na terceira releitura integral e que, se por nada mais – e tanto mais -, vale pelo “ainda o apanhamos!” repetido nas suas linhas finais. Isso e as belíssimas, belíssimas!, vinte, vinte e poucas (não tenho aqui o meu exemplar) páginas que o encerram. Essas, lidas sabe Deus quantas vezes.
O segundo, passado na Figueira da Foz dos anos trinta do século passado. Dizem que autobiográfico. Sê-lo-á. Foi lido já eu era (sou) tudo menos um adolescente. É belo; é de fogo e, em qualquer caso, tenho que o reler.
Dos ingleses do inicio de Oitocentos, um certo mr. Darcy e uma determinada ms. Bennet encantaram-me há uns anos. Depois descurei o tempo e a geografia. Mas é bem possível que graças a si tenha resolvido a questão do meu próximo livro de férias.
Costa
Meu caro: traz aqui dois enormes – também pelo tamanho – romances, obras lapidares da literatura portuguesa.
No primeiro caso, ‘Os Maias’ – obra maior da nossa ficção literária e (porque não dizê-lo?) da história romance europeu. randes-romances-25-10438112
Já tive o imenso gosto de escrever sobre ele no DELITO:
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/g
O segundo é o magnífico ‘Sinais de Fogo’, único (e excepcional) romance desse grande e por vezes esquecido escritor que foi o Jorge de Sena, cujo centenário se assinalará em Novembro. s-livros-que-mais-nos-marcaram-10731257
Tenciono escrever muito em breve sobre este romance que tanto me surpreendeu e tanto me fascinou.
Sem dúvida um dos dez melhores romances portugueses do século XX, a que aludi aqui muito recentemente.
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/o
Voltarei ao tema, claro.
Tomo como minhas as suas palavras: obras maiores, magníficos e lapidares momentos da literatura portuguesa. Não saberia melhor sintetizar.
Leio com gosto, com admiração, o que sobre livros escreve. Li o que escreveu sobre Os Maias; li e lerei com igual gosto e admiração o que escreveu e escreverá sobre os Sinais de Fogo.
Quanto ao meu provável livro (ou um deles) das próximas férias, graças a minha mulher e ao precioso espólio que acrescentou à biblioteca doméstica, não tenho que hesitar entre montes ou colinas. Está por cá, numa das estantes, no idioma original, em despretensiosa edição da Penguin.
Costa
Pedro, e o terceiro livro referido pelo comentador Costa só pode ser o Pride and Prejudice, de Miss Jane Austen.
As vezes que eu li e reli a história da Miss Elizabeth Bennett e do Mr. Darcy.
Foi o livro mais marcante da minha vida enquanto teenager.
⚘
Maria
Sobre ‘Orgulho e Preconceito’ também tenciono escrever aqui em breve, Maria. Outro dos livros da minha vida.
⚘🌿⚘
Maria
Discordo. Trata-se simplesmente de liberdade de tradução. A liberdade, tal como se sabe, é em geral uma coisa muito importante, que não se deve deitar pela borda fora de ânimo leve.
Diferentes tradutores traduzem de forma diferente. Uns são adeptos da tradução fiel, outros preferem uma tradução criativa.
Acontece que, em muitos casos, a tradução é tão criativa que acaba por falsificar completamente o sentido original. Isso acontece, inclusivamente, em certos títulos – e não somente em traduções para português. Nesses casos, realizar novas traduções é de toda a conveniência.
(Exemplo: a obra de Freud Das Unbehagen in der Kultur (mias ou menos “O mal-estar na cultura”) tem tradução inglesa com título Civilisation and its Discontents, que falsifica totalmente o sentido do original alemão. Alterar a tradução desse título é de toda a conveniência.)
Fez bem em mencionar Freud. Um autor que deveria ler com mais frequência.
“Contra fala” magnífica, soberba e absolutamente “terrorista” se me permite, dado que acompanho sempre, com devoção, carinho e ansiedade a sua escolha em relação à “Lavourada da semana”. Tem toda a razão: o sexo explica tudo!
Não viesse o Lavoura comprovar que em todas as curvas estatísticas há uma anormalidade.
Apesar de gostar do título “Uma Agulha no Palheiro”, julgo ser uma opção de tradução demasiado livre; quem não leu o livro e apenas conheça o título original inglês dificilmente fará a associação. “Á Espera no Centeio”, não sendo poético, é competente, e alude tanto ao título original como a uma passagem muito concreta do livro.
(The Catcher in the Rye é um dos livros da minha vida, mas só na belíssima prosa do Salinger)
No resto, estou de acordo quanto aos títulos da Bronte, mesmo sem nunca a ter lido. E quanto a títulos de filme com spoiler incluído, isso é de merecer vara de marmeleiro.
Eu gosto muito da versão ‘Uma Agulha em Palheiro’ – expressão idiomática portuguesa que casa de algum modo com o título original, João. Bem resolvida pelo tradutor inicial da obra, o escritor João Palma-Ferreira.
É um daqueles casos em que a opção pela literalidade estraga muito mais do que soluciona. ‘À Espera no Centeio’ equivale, para mim, aos “ventos uivantes” que refiro no texto. Um título falhado, um tiro ao lado.
Aconteceu também com o excelente “The Lathe of Heaven”, da Ursula K. Le Guin. Na primeira tradução (Edições 70), o título dado – “O Outro Lado do Sonho” – alude não ao título original, mas ao tema do próprio romance. Já as traduções mais recentes, da Europa-América e da Presença, optaram por “O Flagelo dos Céus” e “A Tormenta dos Céus”, que só numa palavra aludem ao título original. Nenhum resulta especialmente bem.
(já agora, o próprio título original deriva de um erro de tradução do chinês cometido pela própria Le Guin; é uma história curiosa)
Talvez esta questão dos títulos se deva a algo mais simples: será talvez possível que as novas editoras não possam usar os títulos dados por outras (por questões de direitos, ou algo do género). O que, não justificando títulos desinspirados, sempre explicará por que motivo os bons títulos não foram reaproveitados.
Talvez seja isso, João.
Talvez algum responsável editorial nos esclareça, um dia destes.
(Esta história que aqui trazes, sobre a obra da Ursula, dá um belo postal aqui no blogue.)
É o mesmo com Agatha Christie, cada vez que reeditam mudam os títulos. Não terá a ver com copyrights?
Pior – a meu ver – são as versões “sanitárias” de Sherlock Holmes, onde as referências aos vários vícios do maior detective de sempre foram simplesmente retiradas.
Esse seu segundo parágrafo dá pano para mangas. Poderia fazer uma série inteira no DELITO só com a obsessão do “politicamente correcto” aplicada à literatura, clássica e não só.
Já que menciona Agatha Christie: um dos romances mais célebres dela, ‘Ten Little Niggers’, tem dado origem às mais retorcidas traduções.
Um título original politicamente muito incorrecto, convenhamos.
Um dia destes, O Pontal de Zéfiro.
Não sei o que dizer. Não sei se “O Monte dos Vendavais” ou “A Colina dos Vendavais” faria mais sentido no início (colina estará mais próximo do significado de “heights” de forma pura, mas este termo é muito genérico) mas sei que depois de um certo título estar em circulação, não se deveria mudar sem boas razões.
Uma delas pode ser o “Animal Farm”. Sempre o conhecemos como “O Triunfo dos Porcos”, mas recentemente começou a reaparecer como “A Quinta dos Animais”. Este título é o mais fiel e evita também revelar o fim antes de começarmos a ler, mas choca com as décadas em que o título antigo já levou a entranhar-se na nossa cultura.
No caso de Salinger, é-me mais difícil dizer alguma coisa. A origem do título original provém (como refere o João acima) de uma passagem no livro. Uma tradução mais fiel seria “O Apanhador no Centeio” mas seria muito pouco poético. “À espera no centeio”, apesar de chocar com o “Agulha no palheiro” a que nos habituámos, parece-me mais fiel e dar mais sentido à história. Por outro lado, o título português oferece a familiariedade do termo… Situação difícil.
João, as obras ao serem traduzidas ganham uma especificidade própria – desde logo porque a tradução é também trabalho intelectual e protegido pela lei e pelos códigos de autor.
Tornam-se, enfim, partes integrantes do próprio cânone cultural dos países de acolhimento.
Choca-me, também por isto, que existam vários títulos diferentes registados em português de uma obra tão marcante como foi (e é) ‘To Kill a Mockingbird’, de Harper Lee.
Registados por mim, há pelo menos quatro:
– Não Matem a Cotovia (Europa-América)
– Mataram a Cotovia (Relógio d’ Água),
– Matar a Cotovia (Editorial Presença)
– Por Favor, Não Matem a Cotovia (Difel)
Um absurdo.
Choca-me também que ‘Coração, Solitário Caçador’, o excelente título português escolhido por José Rodrigues Miguéis ao traduzir ‘The Heart is a Lonely Hunter’, de Carson McCullers, ande agora por aí com uma designação diferente: ‘O Coração é um Caçador Solitário’.
Seis palavras para dizer o mesmo, de forma pior, em nome da “literalidade”. Fazendo tábua rasa daquele título, dotado de cadência poética sem desvirtuar o significado original.
Não por acaso, Rodrigues Miguéis é um magnífico escritor. Não foi em vão que optou por aquela tradução – aliás a primeira do romance em língua portuguesa.
Traduzir é sempre, de algum modo, reescrever.
Quando a tradução é feita por escritores, a qualidade consolida-se. Ou até se reforça.
Daí não admira que muitos considerem a versão francesa do romance ‘A Selva’, de Ferreira de Castro, traduzido por Blaise Cendrars, superior ao original.
O mesmo se diz da tradução de Eça para ‘As Minas de Salomão’, de Rigger Haggard – ao ponto de ter chegado a ser incluída no acervo de obras completas do autor do ‘Crime do Padre Amaro’.
Círculo de Leitores: Não matem a cotovia
Já as edições brasileiras conseguiram harmonizar-se em torno de um (outro) título: O Sol é para todos.
A do Círculo de Leitores é igual à da Europa-América.
Mas não me admira se houver um quinto título.
Admira-me, sim, como é que tantas editoras portuguesas adquiriram, quase em simultâneo, os direitos de reprodução do romance de Harper Lee ainda em vida da escritora.
Quanto ao Brasil, nada de surpreendente. As traduções nunca foram o forte dos nossos irmãos de além-Atlântico.
Jamais direi “Martine”, em vez de Anita, “Smurfs”, em vez de Estrumfes (meu filho “ralha-me”, porque já os conheceu assim, coitado…), “Animal Farm”, em vez de “O Triunfo dos Porcos”, enfim, às vezes ganha-se, às vezes perde-se. Agora, convenhamos, “A Noviça Rebelde” parece coisa capaz de fazer corar os mais distraídos…
Chamar Smurfs (à “amaricana”) aos simpáticos anõezinhos azuis criados por Peyo que ainda conheci pelo nome original (Schtroumpfs) é, para mim, uma aberração.
Sobre a Anita não me pronuncio, pois nunca foi leitura da minha preferência, tal como as ‘Mulherzinhas’, por exemplo.
Quando era miúdo, deixei sempre claro que só queria “livro menino” e não “livro menina”.
Enfim, “estereótipos de género”, coisas antiquadas…
Nunca li nem umas nem outra, uma grande falta, da minha parte. Mas, no Verão, costumo recuperar alguns clássicos; na maioria das vezes, para reler, de modo que, talvez ainda venha a tempo de me redimir em relação a “Mulherzinhas”…a “Anita”, creio que já não 🙂
Espero retomar esta série muito em breve aqui no DELITO: ag/grandes+romances
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/t
Bom, confesso que também mudei o título do “Manifesto do Partido Socialista” para “O Coito dos Cabrões”. Burrice minha!
Tens saídas deliciosas….
A sério
um ab
Anedota do Dia, lida por aí:
“Lavoura, como é que vamos transformar a derrota em Bruxelas numa vitória retumbante?”
“É fácil, António, dizes que foste convidado para um lugar de topo, mas que não desertas do teu país”.
“Achas que papam isso, Lavoura ?
“Qual a dúvida? Já estão habituados a comer gelados com a testa” .
A.Vieira
Já tive a mesma dúvida e lembro-me de, na altura, já há alguns anos, investigar: trata-se de “copyright”.
O título “Monte dos Vendavais” como título da obra de Emily Bronte, está registado em Portugal e Brasil e só pode ser usado se o dono dos direitos o consentir.
Passados mais de 50 anos da primeira tradução, de qualquer modo, os direitos recaem no domínio público. Não há motivo para que o título consagrado não seja retomado – seja por que editora for.
O mesmo se aplica, por exemplo, a ‘Orgulho e Preconceito’, que não deixou de surgir no mercado sempre com este título. Ou ‘A Ilha do Tesouro’. Ou ‘Alice no País das Maravilhas’.
Não me parece que seja essa a explicação para tanta alteração ao tão maltratado ‘Monte dos Vendavais’.
Com obra de H.P. lOVECRAFT, dá-se o mesmo. Será para lograr leitores, vendendo ?
É uma hipótese bem provável, caro Manuel. Cada vez me convenço mais disso.