Bruma


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Nunca vi Bruma a jogar ao vivo. E acho que nunca lhe vi um jogo completo na TV. Assim nem sei opinar sobre a sua qualidade, mais um da longa lista de extremos que o Sporting vem apresentando: extraordinário, como Futre ou Cristiano ou (vá lá, que jogava nas alas) Figo? Excelente como Simão ou Nani ou Quaresma? Ou será mais comum, a expectativa muito aumentada pelo entusiasmo dos meus co-sportinguistas e pela retórica dos “jornalistas” desportivos?

 

Assim sendo, da qualidade dele não sei dizer. Mas o processo em que foi metido é interessante. Mostra como as coisas do futebol nos colocam parêntesis na forma como vemos o resto. Os adeptos, quantos deles empregados, prontos à greve ou ao protesto (ou à maledicência), torcem nestes casos incondicionalmente pelo patronato. Os contra-adeptos, quantos deles empregados ou patrões ou liberais, prontos à concertação social, à concórdia, ao contratualismo, nestes casos torcem incondicionalmente pelos “direitos dos trabalhadores” (desde que tal prejudique o clube adversário).

 

A história da Bruma é triste. Não que o (meu) Sporting seja realmente exemplar na forma como trata os seus profissionais – falo da história recente, não desta direcção que, até agora, me parece muito empenhada. E que, como tantos clubes-patrões, não mereça ser confrontado por gente que defenda os interesses dos jogadores, miúdos, relativamente ignorantes dos meandros jurídicos, fiscais, contratuais, e potencialmente explorados pelos clubes. Mas mesmo assim o caso tem contornos muito próprios, tudo parece um daqueles filmes americanos sobre o mundo do boxe, com jovens fortes e ágeis, sobre-empenhados no jogo, e totalmente sugados pela “entourage” canibal. Conhecemos o “the end”.

 

Nem fui lendo tudo aquilo que a “gente” de Bruma (agente, advogado, sei lá mais quem) vem dizendo aos jornais. Mas algumas “gordas” ficaram-me. Uma das quais foi o agente dizendo que o Sporting o tinha enganado, queria ele a renovação de um conjunto de jogadores (“seus”, como diz, desnudando-se pela semântica da sintaxe) e como o clube não o quis impediu a renovação de Bruma e levantou este processo. Ou seja, quer mecanismos de “contratação colectiva” nesta actividade. E como lhe são recusados usa o destino de um jogador como pressão ou mero revanchismo. Enfim, por mais que os jogadores (em particular os putos) mereçam ser defendidos nesse mundo-cão que é o da bola, parece-me que não é este o caminho. Nem deve ser esta a gente.

 

E um outro comentário, lateral. Estamos (saudavelmente) habituados a defender as minorias, identitárias. Como imigrante (e não só) sou particularmente sensível a isso. Este caso é ilustrativo. Pois estes meus patrícios, oriundos de África, são a mostra de algo interessante. É que se os direitos colectivos (e individuais) das minorias são importantíssimos é necessário perceber que nestas habitam muitos gabirús. Parece-me ser o caso.

 

Jogando no Sporting ou alhures, que o puto não acabe mal. Sugado e desiludido. Ainda vai a tempo.

 

(postal também colocado no ma-schamba)

4 comentários em “Bruma”

  1. Bruma é um jogador promissor, com apenas 18 anos. Com talento natural que foi (bem) desenvolvido pela Academia do Sporting. Mas ainda com sérias limitações, como seria de esperar, nomeadamente de ordem táctica. Miúdos como ele tardam por vezes em perceber que no futebol é tão importante saber jogar sem bola como com ela. E que ninguém é dono da bola: o ideal é sempre passá-la em melhores condições do que se recebeu, jogando para a equipa.
    O problema do Bruma, como sucede a tantos outros miúdos cujo talento desponta nos centros de formação dos clubes, são as aves de rapina que por lá pairam à cata de lucro fácil com transferências mirabolantes que lhes garantam o sustento mesmo à custa da amputação da carreira dos jovens, tantas vezes atirados para clubes onde não chegam a jogar um só minuto durante uma época. Longe do seu meio social, à mercê de tudo quanto pode fazê-los passar ao lado de grandes carreiras desportivas.
    Guiar um Mercedes aos 18 anos e ter parangonas a chamar-lhe ‘herói’ e panegíricos semelhantes na imprensa desportiva porque se fez um golo e três ou quatro assistências para golo na equipa principal do Sporting foi quanto bastou para que os falsos amigos que gravitam à volta do Bruma farejassem ali bom negócio.
    O resultado está à vista: o jogador permanece inactivo desde a pré-temporada, entrou em conflito aberto com o clube, deixou de cumprir os seus mais elementares deveres contratuais e começou a ser falado pelos piores motivos. Não por ter marcado enfim o segundo golo na equipa principal mas por estar em “guerra” com o Sporting, como agora titulam os mesmos que há poucos meses lhe chamavam herói.

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