Primeiro descasca-se 850g de batata doce. Os cheiros de Natal… partem-se em quartos e levam-se a cozer numa panela meia de água. Os cheiros de Natal excitavam-me. Entretanto colocam-se 400g de açúcar num tacho de tamanho médio a que se adiciona 3dl de água. Adorava ver o ar concentrado da minha mãe enquanto despachava o serviço com gestos seguros e eficientes. Sai-me da cozinha! O tom era retórico, de modo que eu ignorava a ordem, presa pelo nariz aos vapores das panelas. Assim que as batatas estiverem cozidas escorrem-se e desfazem-se em puré. Vai brincar, dizia quando reparava em mim. Leva-se o açúcar ao lume. Quando estiver em ponto de areia retira-se do fogão e junta-se-lhe a massa da batata.
Se a massa das broas já estava a arrefecer numa travessa ela redobrava a vigilância. Pela-se e tritura-se 60g de miolo de amêndoa. Para disfarçar eu esgueirava-me até à janela da cozinha e fazia desenhos no bafo do vidro com o dedo que haveria de me comprometer. Pesa-se 60g de côco e juntamente com a amêndoa ralada adiciona-se ao puré de batata. Raspa-se então a casca de 3 tangerinas.
Aquela mistura de cheiros fundida na massa das broas era tão emocionante que valia todos os riscos, até o de fazer zangar o Menino Jesus. Acrescenta-se a raspa ao preparado. Por último junta-se 2 gemas previamente batidas. Ela sabia e eu sabia que era mais forte do que eu. Mexe-se tudo muito bem até a massa ficar homogénea. Sai daí! Mas o meu dedo já lá estava, rápido e nervoso. Vais apanhar! Era a deixa para me raspar da cozinha, já com o produto do furto na boca, uma mistura absolutamente divinal.
Deixa-se a massa repousar numa travessa de um dia para o outro. Mas o melhor estava para vir. No dia seguinte tendem-se pequenas broas. No dia seguinte assistia, como todos os anos, ao milagre da multiplicação. A guerra começava na cozinha com a minha mãe e acabava ao fim do dia com o meu pai.
– Mas afinal quantas broas é que ela já tirou?
– Tirei poucas.
– Não comes mais!
Pincelam-se com 1 gema de ovo, previamente batida. A disputa era sempre mais assanhada quando ela fazia as primeiras broas da quadra. Mas ambos sabíamos que teríamos garantida pelo menos mais uma dose na consoada. E vão ao forno, bem quente, num tabuleiro polvilhado com farinha.


Bom Natal
…mas, confesso, vou roubar a receita 😉
Isagt, no post escrevi a receita de memória. Verifiquei que tinha um erro, que já corrigi: a massa leva duas gemas e não três, como indiquei de início.
No dia seguinte, se achar que a massa está mole, pode corrigir a consistência levando-a ao lume para secar, mexendo sempre. Terá depois que a deixar arrefecer novamente antes de poder tender as broas. Para as moldar passe os dedos por farinha.
Acho que é tudo. Espero que as aprecie tanto como eu. Bom Natal.
Obrigada, mas desconfio que as receitas tradicionais não se queixam muito se levarem 1 gemita a mais ou a menos, de qualquer modo agradeço porque assim só pode sair mal por culpa da cozinheira 😉
Bjos
Isagt, neste caso pode fazer diferença e ficarem moles demais. Cuidado!
O cheiro e o sabor dos castelares são a cara da querida Lisboa: um feliz Natal a todos os irmãos lusófonos europeus!
Feliz Natal também para si, brasileiro.
Levo meia-dúzia, Teresa. Bom Natal!
Vai saber-te a pouco 🙂 Bom Natal, Rui. Beijo
O único bolo de Natal de que eu não gosto. Em contrapartida, adorei o teu texto-receita-memória.
Beijo e bom Natal!
No Natal não sofro… só me levam os coscorões. E o queijo da serra e o ananás (do vero ananás…). Mas ler a tua receita não me enjoou nada, como acontece com a doçaria natalícia em geral 🙂 Pelo contrário. Bom Natal!
Obrigada, meninas. Estas broas são a minha perdição desde sempre, em contrapartida sou completamente avessa aos fritos. Do bolo rei fui-me aproximando aos poucos, mas ainda hoje esburaco discretamente as fatias para descartar as frutas cristalizadas.
Tal como acontece contigo, Laura, para mim à mesa da consoada tem de estar sempre o queijo da serra e o ananás.
Excelente crónica gastronómico-nostálgica, Teresa. De abrir o apetite.
🙂