Disputava o príncipe com o rei a única casa de banho do palácio: “Precisamos de fazer a barba”, dizia o príncipe. “E nós queremos tomar um banho de imersão”, retorquia o rei. “Mas nós vamos passar a noute fora com uma cortesã gaiteira”, insistia o príncipe. “Pois ide como estais, e tende o cuidado de tornar perfumado ao paço”, arreliava-se o rei. Desta forma encostado aos azulejos, o príncipe permitiu que o rei entrasse na vetusta banheira; após o que lhe afogou a majestade sem grande dificuldade.
Ultrapassada alguma comoção inicial, o povo aclamou o matante como seu governante; e, em sinal de agradecimento à Divina Providência, o novo monarca não voltou a tomar banho de imersão em toda a sua longa vida – ainda hoje luzem no palácio o duche e polibã doirados que em lugar da real banheira ele mandou fossem instalados.

Vou consultar um (ou uma?) oráculo que me desvende o mistério.
Sou mesmo fraquinho na ficção!
João de Brito
Se banhos fossem de semi-cúpio ou de assento (com água tépida) – talvez reinasse uma democracia de brandos costumes, apascentando grei mansa e grata pelas amplas liberdades que as portas de abril abriram…