Brasil e o resto


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Leio agora muito menos (em) blogs do que há anos atrás. Por isso qualquer minha tentativa de metabloguismo será muito coxa. Mas ainda assim … Este fim-de-semana usei as ligações aqui no Delito de Opinião (e também o método da “bola de neve”) para procurar no bloguismo português informações e opiniões sobre a situação brasileira e também sobre a já mais recuada notícia da vasculha, muito Huxley/Orwell, que o governo americano vem realizando. Sobre o Brasil notei dois consistentes textos de Francisco José Viegas “Brasil, o princípio do fim do embuste” e “Brasil, notas avulsas, 1”. E nada mais que seja relevante. 

 

Sintomático também o silêncio substantivo dos blogs portugueses mais à esquerda sobre os assuntos. Habitualmente pressurosos, e até frenéticos, no acompanhamento entusiástico de qualquer “indignismo” internacional, a enorme agitação popular no “país irmão” passa relativamente despercebida. Porque cabe mal na topologia habitual? Risca o brilho das solidariedades ou o peso das argumentações havidas? Silêncio também sobre a histriónica vigilância nos EUA. Mais sintomático ainda, pois nos últimos anos o olhar e o teclar sobre os EUA foi constante, em muito mimetizando a antítese democratas-republicanos, óbvio sinal da crise dos marxismos europeus (e também do pensamento de direita). Se o “bushismo” alastou na blogo-ala liberal (ainda que Bush não tivesse sido um liberal) o “obamismo” foi um devaneio socialista-bloquista constante. Agora o silêncio. Estou certo que se Obama não fosse mulato, apenas um branco, os blogo-bramidos ouvir-se-iam. É o racismo, “positivo”, se quiserem, mas racista. Mas não só. É mesmo o poço ideológico. 

 

Conviria lembrar isto diante de tantas certezas que vão sendo apontadas sobre tantos outros assuntos, mais ou menos “indignistas”. Tão encastradas costumam ser.

11 comentários em “Brasil e o resto”

  1. A propósito dos acontecimentos no Brasil, escreve “Sintomático também o silêncio substantivo dos blogs portugueses mais à esquerda sobre os assuntos.”
    Você acabou por usar a falácia ou, em termos filosóficos, o silogismo aparente. Usa uma premissa falsa – estar em condições para se referir ao conteúdo de todos os blogues de esquerda – para postular um falso silêncio.
    Bastava ler http://aventar.eu/2013/06/23/brasil-ouvir-ver-ler-e-interpretar/ e http://arrastao.org/2843152.html, para evitar ser falsídico. E mais blogues poderia ler, para conhecer, se lhe interessassem, opiniões da esquerda na blogosfera a respeito das manifestações no Brasil.
    Inabilmente, seleccionou um argumento artificial para escrever o chamado ‘post’ oco.

    1. Obrigado pelo comentário, e pelas ligações. Agradeço também que coloque alto o seu comentário, refutando a minha argumentação até em termos filosóficos. Mas, e desculpar-me-á o tom de contra-comentário, que não é o meu objectivo (até pela gratidão para com as ligações), mas discordo de algo. Que (me) diga que o postal é oco nem discuto, será [e com toda a certeza, e sem ponta de ironia, não é dos primeiros que assim me sai]. Mas que me diga acima que “uso uma premissa falsa -estar em condições para se referir ao conteúdo de todos os blogues de esquerda” francamente, não. Atente, por favor, como começo o texto: qualquer minha tentativa neste âmbito será coxa, ainda assim a tento (e mais, não como ensaio, nem como tese, mas como conversa, que é como entendo isto do blogal – o que não impede que por vezes se seja mais assertivo, mais blindado, em textos mais completos. Não é o caso aqui, como é explícito no texto. E notório, diz V.) Mais ainda, explicitei o meu método de abordagem, falível, incompleto, seguir as ligações aqui (uma boa lista, na qual não participei, pelo que posso elogiar) e mais um pouco de “bola de neve”. Francamente, explicitando isto de início não me pode acusar dessa premissa.

      Dito isto, matizando a sua invectiva, volto à questão. Regresso ao Aventar – um blog que me é simpático, pelas múltiplas actividades bloguistas que produzem, um “transbloguismo” super-saudável, para além de ser um dos mais lidos blogs portugueses. Percorro-o agora, devido ao que me chama a atenção, até 6 de Junho (uma blogo-extensão apreciável, e data da publicação no Guardian de um artigo que li sobre esta vasculha americana que referi, e um dos pés do meu postal, e que V. faz o favor de não criticar).
      Antes de mais, nenhum bloguista tem obrigação de escrever sobre um qualquer assunto, será ridiculo cobrar a ausência de textos, mas pode-se considerar sintomática a particular atenção dedicada às temáticas.

      Depois: sobre o caso americano têm Vs. um pequeno postal, interessante, indirectamente opinativo através da reprodução de informação alheia colocado a 10.6 Mais nada. Estou a ser falacioso? O interesse sobre a questão não foi grande. E ela, realmente, talvez não a mereça. Mas, e repito, o que julgo de realçar é que em outros contextos situações similares a ira sobre a “administração americana” (como alguns portugueses se deliciam em chamar ao governo americano) é muito mais pujante.

      Sobre o Brasil têm Vs.: a) um eco do Público em 18.6 http://aventar.eu/2013/06/18/entretanto-no-brasil/; b) um youtube no mesmo dia http://aventar.eu/2013/06/18/o-povo-acordou-no-brasil/; Em ambos casos anunciando que se passa algo.

      c) uma piada iconográfica (que inclui o Brasil) http://aventar.eu/2013/06/20/o-mundo-pula-e-avanca/, coisa bem pouco significativa;
      d) um texto (o primeiro) analítico (pouco relevante em minha opinião, mas esta vale apenas o que vale) anteontem, sábado: http://aventar.eu/2013/06/22/brasil-2013-a-grandeza-epica-de-um-povo-em-protesto/#more-1198730;
      e) e o texto que me refere, mais analítico (o primeiro realmente estruturado no Aventar): http://aventar.eu/2013/06/23/brasil-ouvir-ver-ler-e-interpretar/
      Que foi exactamente ontem, domingo, quando eu alinhavei este meu postal, e posterior à minha passagem pelo Aventar.

      Repare ainda que eu referi “o silêncio substantivo” e não a inexistencia de referências. Mais ainda, atrevi-me a comparar com a atenção dada (não exactamente pelo Aventar, mas global) a outras situações internacionais (e especificamente, numa das vertentes, à americana).

      Com toda a certeza que noutros blogs se poderão encontrar mais referências ao caso brasileiro ou ao caso americano referidos. E “ocalizar” o meu postal. Mas honestamente, se repito a condição coxa deste meu metabloguismo, estou certo que a última quinzena do Aventar me serve de bengala.
      Cumprimentos

  2. Não tenho o menor rebuço em reconhecer os meus erros. Certamente, fiquei demasiado preso a um frase e extravasei na desqualificação de um post ‘. Peço desculpa, mas mantenho que, na esquerda, também existem opiniões honestas e fundamentadas, mesmo sobre temas que, aparentemente, não lhe são favoráveis. E muitas aleivosias tenho lido na ala direita da blogosfera . A falta de seriedade na expressão de opiniões é dos fenómenos que mais me incomodam e, por vezes, tenho reacções virulentas.
    Também escrevo posts ‘ ocos, sou leitor assíduo do ‘Delito de Opinião’, um espaço de autores muita qualidade – sou fã da Patrícia Reis – e que leio com assiduidade.
    Este diferendo, na hora actual, é uma minudência entre dois portugueses que, cada um a seu modo, interpreta o que se passa no mundo conturbado em que vivem.
    Cumprimentos,
    CF

    1. Longe de mim dizer que na “esquerda” (ou na “direita”, ou no “centro”) não existem opiniões honestas e fundamentadas sobre qualquer tema. O que me parece, e não é por estes dois casos, é que na opinião bloguista portuguesa há um clubismo exarcebado, um pensamento topológico constante, que faz imperar o posicionamento sobre o opinativo. E isso nota-se ainda mais em contextos de locução (e em autores) usualmente muito assertivos. E, em particular, nos mais denuncionistas,
      Cumprimentos, até breve

  3. Quem disse que o Brasileiro só gosta de geladinha e sol deve estar a roer-se de inveja !
    Ao contrário dos Tugas pegaram o boi pelos cornos e não comeram e calaram como aqui acontece todos os dias.
    Quanto ao PRISM , who cares , toda a gente suspeitava (todos sabiam) mas tal como outras aventuras nada se passará.
    Felizmente (ainda) não foi preciso passar pela blogosfera para ir tendo uma ideia concreta (+ / – ) do que se estava a passar no Brasil ou Turquia , a frase : Professor vale mais que Neymar é elucidativa do que se passa lá e dos pés de barro / mãos de seda do regime do PT e ainda há tempos (há um ano) comentava com um familiar que após estes eventos o Brasil evoluirá novamente para um estado similar ao de há 20 anos.

  4. Já que estamos em tom de conversa vamos então conversar um bocadinho:
    Se há algo que une os países irmãos vai expresso nesta manifestação. Ou seja, o estado foi e é um elemento de usurpação quer dos deveres quer dos direitos: deveres para com os cidadãos, retirando-lhes também os deveres de cidadania, e direitos dos cidadãos, subordinando-os a interesses estratosféricos colocando como direito primeiro o direito à corrupção por parte de alguns em detrimento de todos os outros. Não se entenda a corrupção só sob o ponto de vista de interesses materiais. Corromper é também adulterar, alterar e enviezar a ordem dos princípios, porque o estado é usado para servir alguns em detrimento de todos os outros.
    No caso português, não obstante as semelhanças substanciais, existiu um outro requinte, isto é, usando-se o direito dos cidadãos, e no dito interesse destes, lá se fizeram alguns avanços em algumas áreas. Porém, constatou-se e constata-se que a grande fatia desse direito fica aprisionada aos interesses de corporações, tornando cativos os interesses do cidadão: na justiça, saúde, educação, finanças e economia.
    Tudo isto teve e continua a ter a mão de políticos, para satisfazer uma certa clientela, e políticas que entendem o estado como a emanação dos seus próprios direitos e interesses; e, mais uma vez, em detrimento do cidadão, dito comum.
    O cidadão em Portugal e no Brasil, consciente de sua impotência face a este despudor, tomou a si a sua própria sobrevivência fazendo uso, sempre que possível, de alguma migalha caída da mesa de seus donos. Devido a este despudor, que se mantém, o cidadão sempre entendeu que seu contributo à nação seria ignorá-la e tentar por todas as formas – fuga aos impostos e a outras obrigações, entenda-se a obrigação de fugir a obrigações que lhe querem impôr para benefício de outros – olhar por si mesmo.
    Todavia a corrupção de valores e princípios, associada a uma absurda ignorância de governos pejados de poliglotas em economês, alguns até mesmo com papelitos emitidos por universidades e currículos em organizações ditas supra-nacionais, associado ao desvio de verbas comuns para benefício do incomum, tornou-se de tal forma gritante que perante este desafio não resta aos cidadãos outra saída que não a de tomar em suas mãos os destinos de suas nações.
    No caso português esta mobilização levará um pouco mais de tempo, mas virá. E leva mais tempo porque a sociedade, desabituada de andar ao encontro do outro, e colando-se um pouco à sombra dos que nunca lhe foram comuns, acabou por adquirir artrite-reumatoide. Mas todos nós sabemos, quem sabe, que uma dieta imposta é sempre terapeutica salutar para colocar o paralisado em movimento.
    o Brasil já anda, e Portugal lá chegará. Quem tiver ouvidos, escute.
    Quanto ao programa PRISM, não era necessária a divulgação por parte de Snowden para concluir o óbvio. Mas ninguém fala sobre o chip para os doentes, em particular para os doentes com SIDA, que se quer implementar nos EUA. O Big Brother ao invés de brother parece ser um filho, acrescentem o que estão a pensar.

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