Para além dos “monstros sagrados” da geração de ouro da MPB, entre criadores e intérpretes – Jobim, Vinicius, Caetano, Buarque, Bethânia, Gal, Simone, Gil (para citar apenas alguns) – e dos actuais e estrondosos sucessos de vendas e de bilheteiras, sobejamente conhecidos e aclamados por todo o lado, existe uma outra música no Brasil que Portugal conhece ainda muito pouco. É uma linha urbana, culta e sofisticada, que absorveu o que de melhor fizeram os seus antecessores e inovou com mestria e bom gosto em composições que honram, sem uma beliscadura, a brilhante tradição musical a que o Brasil sempre nos habituou. Casando novas tecnologias e tendências melódicas com os mais profundos e sólidos alicerces da chamada “tropicália”, continua a provar que o código genético do povo brasileiro se escreve em pautas de música. Soubessemos nós, portugueses, integrar assim, harmoniosamente e sem complexos, as nossas raízes. Curiosamente (ou talvez não) uma boa parte desta nova onda de músicos chega-nos da cidade de São Paulo, contrariando a regra tradicional da hegemonia baiana. É urgente que estes nomes e as suas obras passem a ser familiares aos ouvidos portugueses, porque nem só de êxitos comerciais vive a actual música brasileira e este novo Brasil também merece o nosso aplauso.
Aqui deixo o meu contributo para a sua divulgação: Zé Miguel Wisnik, um desses nomes praticamente desconhecidos entre nós e um cantor/compositor/pianista de qualidade ímpar, num dueto com a bela voz de Ná Ozzetti, simultaneamente delicada e forte. A canção que escolhi pertence ao disco “Pérolas aos poucos” (todo ele é excelente, vale a pena ouvir) e chama-se Sem receita. A música é de Wisnik para um delicioso poema da grande poeta e letrista (e querida amiga minha), Alice Ruiz. Deliciem-se.
SEM RECEITA
Primeiro, lenta e precisamente,
arranca-se a pele
esse limite com a matéria.
Mas a das asas melhor deixar
pois se agarra à carne
como se ainda fossem voar.
As coxas, soltas e firmes,
devem ser abertas
e abertas vão estar
e o peito nu
com sua carne branca
nem lembrar
a proximidade do coração.
Esse não.
Quem pode saber
como se tempera um coração?Limpa-se as vísceras,
reserva-se os miúdos
para acompanhar.
Escolhe-se as ervas,
espalha-se o sal,
acende-se o fogo,
marca-se o tempo
e, por fim, de recheio,
a inocente maçã,
que tão doce, úmida e eleita
nos tirou do paraíso
e nos fez assim:
sem receita.

tem razao, mas ele já veio cá – culturgest, se nao me falha a memoria (e talvez falhe, nao fui, que isto de viver no reino dos algarves tem desses custos…)
gosto muito, tenho vários cd’s dele 🙂
(olá, ana 🙂
Que não aconteça como em relação a Oswaldo Montenegro, nunca divulgado em Portugal…