Este é, hoje, o nome de código da operação de esperança e desespero de milhares de candidatos à contratação de professores. Nos primeiros meses do ano lectivo, a segunda-feira é, assim a mão incerta dos serviços do Ministério da Educação o permita, o dia de maior ansiedade. Hoje a BR 03, para a semana a BR 04. No fórum do Educare ou no chat dos Professores Lusos, o dia corre à velocidade do sonho, da solidariedade, da angústia, do boato, da maldade, da informação e da contra-informação. Ali está a amostra mais acabada do Portugal que temos. As vidas adiadas. O desemprego de licenciados. As consequências das apostas erradas em cursos sem qualquer futuro. O professor competentíssimo que vê, injustamente, a possibilidade de ter uma vida profissional útil tapada pelo bloqueio do quadro. O marmelo que nunca soube aprender, quanto mais ensinar (e muito menos escrever). O comissário político que faz da agitação de massas modo de vida. Os conformados que estando mal são incapazes de dar a volta por outro lado. Os que lutam, apesar de tudo. Os que desconhecem os seus direitos e os poucos que os exercem. Os que calam, os que comem e os que gostavam de comer tudo. E também, ou sobretudo, o papel pernicioso do Estado. Esse que não soube orientar a oferta do ensino superior público em função das necessidades do país. Que não quis ser garantia da qualidade dos cursos de formação de professores, aqui se incluindo a adopção de um critério de exigência na admissão e na certificação. Que se demite da função de regulador dos concursos, lançando a cada passo a confusão, interpretações erróneas, alterações de regras a meio do jogo e que se escuda em desculpas de algoritmo. Que assobia e vira a cabeça para o lado quando uma escola lança como critério de selecção a letra do alfabeto do nome próprio dos candidatos. E, pior do que isso, o do Estado que não é uma pessoa de bem pois arroga-se o poder de negar os mais elementares direitos dos cidadãos. Os comentários no Educare e nos Professores Lusos são um documento sociológico fundamental para a compreensão do Portugal contemporâneo e, tratando-se de educação, dos perigos que espreitam o país futuro. Mas, quem lá for que o faça com o respeito que merecem as pessoas que, independentemente do motivo, vivem vidas suspensas.
BR 03
Rui Rocha,

Desviando um pouco o tema, o que me prendeu foi esta:
“E também, ou sobretudo, o papel pernicioso do Estado. Esse que não soube orientar a oferta do ensino superior público em funções das necessidades do país.”
Nem mais! A ideia que tenho (e corrijam-me os sábios anciãos que por aqui andam) é que no pós-25-de-Abril se utilizou a “democratização do Ensino Superior” como arma política. Passou-se do 8 ao 80 e nunca se percebeu que o problema não era o E.Superior ser elitista, o problema era sê-lo pelas razões erradas. Hoje abrem-se vagas até mais não, sem qualquer consideração pela empregabilidade e todos queremos ser Doutores. Um E.Sup que não é elitista com base no mérito e na competência é quase tão mau como um E.Sup . elitista com base no dinheiro e no berço.
E a prova do que digo aí está. Milhares de pessoas que ano após ano se frustram porque são licenciadas e não arranjam trabalho. Fosse o E.Superior mais exigente e abrisse vagas em função das necessidades do mercado de trabalho e a situação seria diferente. Mas, utilizando o quiçá mais famoso lugar-comum dos nossos dias: é o país que temos.
Para além disso, Hugo, o ensino superior público passou a ser presa de interesses corporativos. Procurou-se e promoveu-se a auto-justificação da existência em lugar da existência justificada.
Olhe eu podia mandar um “Concordo!” e acabava a conversa, mas a verdade é que não percebi patavina do que disse. Ou melhor, não entendi aonde queria chegar com o que disse… Desculpe a limitação… Se tiver paciência faça para aí um desenho ou assim que eu ainda lá chego…
Hugo, quero dizer que as estruturas e os corpos docentes das diferentes universidades e cursos dirigiram os seus esforços a justificar a sua própria existência, sem curarem de saber quais as verdadeiras necessidades do país e dos alunos. Tudo numa lógica de quinta e coutada. Só isso explica que existam, por exemplo, 4 Universidades num raio de 100 km (se tivermos o Porto como referência) com cursos e planos curriculares muitas vezes sobrepostos.
Ah então se era aí que queria chegar tenho mesmo de lançar um veemente: Concordo! Como estudante universitário que sou tenho o desprazer de conhecer essa realidade em primeiríssima mão…
Deixo-lhe um episódio paradigmático: A lei dá 24h para pedidos de revisão de prova. O Departamento X estipulou que apenas poderiam ocorrer de manhã. Um colega meu quis pedir, mas não tinha hipótese de ir à faculdade de manhã por motivo de força maior. Foi à tarde e expôs a situação à regente. A resposta que ela lhe deu diz tudo sobre a atitude de tal gente: “O menino acha que nós estamos aqui a trabalhar para vocês, ou quê?”
Pois aí está.
Excelente ‘post’, Rui.
Obrigado, Pedro.
Os professores é que o quiseram. Nunca se rebelaram contra o monstro socialista. Preferiram sempre mais dinheiro a liberdade. Agora ficam sem nada.
Os professores não são uma massa homogenea, Lucky. Uma das divisões evidentes é entre professores e contratados e professores do quadro. Mas, há outras. As generalizações como a que faz são, por isso, redutoras. Por outro lado, podemos discutir o papel do Estado. Mas, mesmo que consideremos que este não devia estar presente em determinados aspectos da vida, enquanto estiver temos que exigir que cumpra as obrigações que decorrem do direito de intervenção que se arroga. Em qualquer caso, o papel de regulador do sistema parece o mínimo exigível. E nem isso faz.
Bem lembrado, Rui. Espantoso como ainda não veio aqui ninguém insultar os professores. Ah é verdade, e o Mário Nogueira. É espantosa a importância que lhe dão. Boa sorte a todos os que estão nesta situação.
Não só lhe dão importância, como o confundem com a classe.
Sempre.