É possível fazer a lista dos cem melhores livros de todos os tempos? Parece que sim. Mesmo que se trate de uma lista como esta, elaborada pela Newsweek, que coloca E Tudo o Vento Levou em 16º lugar e a Bíblia em 41º, o que não deixa de ser insólito. Ou esta, que resultou de uma parceria entre o Le Monde e a FNAC, o que talvez justifique a disparatada aparição do Astérix cinco lugares acima do Ulisses, de Joyce.
E é possível fazer a lista das cem melhores frases iniciais de livros? Parece que sim também: esta, por exemplo, da American Book Review. Que não esquece o inesquecível arranque d’ O Estrangeiro, de Camus: «Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile: Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier.» Ou o quase insuperável começo d’ A História de Duas Cidades, de Charles Dickens: «It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair.» Ou a célebre frase inicial d’ O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald: «In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I’ve been turning over in my mind ever since.» Já para não falar do início da Lolita, de Vladimir Nabokov: «Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul.» Ou do modo como Tolstoi começou a escrever a sua imortal Anna Karenina: «As famílias felizes são todas parecidas, mas cada família infeliz vive a infelicidade à sua maneira.»
Sem dúvida um dos melhores começos é o dos Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez: «Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.» E sem esquecer a magnífica frase de abertura d’ A Metamorfose, de Kafka: «Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheueren Ungeziefer verwandelt.» Mas sinto-me levado a concordar com Jorge Fernández Díaz, que escreve no diário argentino La Nación: o parágrafo inicial d’ O Aleph, obra-prima de Jorge Luis Borges, fica-nos gravado na memória para sempre: «La candente mañana de febrero en que Beatriz Viterbo murió, después de una imperiosa agonía que no se rebajó un solo instante ni al sentimentalismo ni al miedo, noté que las carteleras de fierro de Plaza Constitución habían renovado no sé que aviso de cigarrillos rubios; el hecho me dolió, pues comprendí que el incesante y vasto universo ya se apartaba de ella y que ese cambio era el primero de una serie infinita.» Verdadeiramente excepcional.
O autor de Ficciones morreu há 25 anos. Mas «Borges se agranda después de Borges», como justamente titulava o El País. De quantos autores seus contemporâneos se pode hoje dizer o mesmo?
Imagem: retrato do artista quando jovem



Caramba, Pedro! Caramba! Belíssimo post.
Obrigado, Fernando. Agora em férias, sobretudo, enjoei da política e das suas pequeninas intrigas quotidianas. Só me apetece voltar aos temas realmente importantes.
Muito, muito francamente acho que é uma escolha acertada. A política tal como a temos vivido só pode mesmo causar enjoo. Por mim, e como tens reparado, nem lhe toco. Quando ela se voltar para as questões de fundo – as relacionadas com o sistema em si, desde logo os problemas da democracia participativa, o nível de politização do eleitorado, a literacia e outros – talvez me meta. Em geral é uma enorme perda de tempo. Os analistas acabaram por ser o fermento do caos, em grande parte porque passam ao lado dos temas realmente importantes. Boas férias.
Um abraço aqui de Cabanas, Fernando.
Excelente post, Pedro, mas merece um reparo: se falamos de inícios memoráveis de livros, não podemos deixar de fora a primeira frase de A Metamorfose, de Kafka. Sei que este início é tão famoso que quase virou lugar-comum, mas no caso a fama é justíssima.
Tens toda a razão, João. Só não o fiz devido ao meu relativo desconhecimento do alemão enquanto idioma literário (abri a excepção relativamente a Tolstoi porque o meu teclado não tem caracteres cirílicos e o Nabokov, que até escreveu a ‘Lolita’ em inglês, acabou por apanhar boleia desta minha opção pontual pela tradução). Também é verdade que os grandes escritores, nos seus grandes momentos, escapam a uma tradução mediana. Mas sigo a tua sugestão e incluo a primeira frase dessa pequena-grande obra-prima (segue em alemão, claro).
Ah, e deixei a ‘Lolita’ no original, claro. Seguramente uma das dez melhores aberturas de romance de todos os tempos.
Já agora introduzo aqui uma quota para os autores portugueses. Gosto da primeira frase de “Memorial do Convento”: “D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou”.
Tens toda a razão, Teresa. Isso dá matéria para outro texto. Embora a minha frase de abertura de um livro de ficção português seja a de ‘Alegria Breve’ (1965), de Vergílio Ferreira: «Enterrei hoje a minha mulher.»
E, claro, há o célebre início d’ A Relíquia’, do Eça: «Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em Teologia, autor de uma devota ‘Vida de Santa Filomena’ e prior da Amendoeirinha…»
Há uma abertura inesquecível de um romance de Camilo José Cela (enfim, todas as suas aberturas de romances dele são inesquecíveis, por exemplo a de «A Família de Pascual Duarte», assim como as duas dedicatórias, a do autor do livro e a do próprio Pascual Duarte no início do manuscrito que ocupa a maior parte das páginas); refiro-me a «Mazurca para Dois Mortos», que começa assim: «Chove mansamente e sem parar, chove sem vontade mas com uma infinita paciência, como toda a vida, chove sobre a terra que é da mesma cor que o céu, entre verde suave e cinzento suave, e a linha do monte já há muito se apagou.»
Bom início, de facto, António. Embora eu confesse uma antiga embirração pelo Cela e pela sua escrita barroca.
“De quantos autores seus contemporâneos se pode hoje dizer o mesmo?”, pergunta V.
Olhe, de portugueses, nenhum. E, tanto quanto é possível prever, mesmo o ocupante póstumo da Casa dos Bicos estará esquecido em menos de meio século…
Digo-lho eu, que já não viverei tanto.
Que Deus lhe dê longa vida e muita saúde é o que eu lhe desejo.
Obrigado, meu caro! Infelizmente, já não poderá alongar-se muito mais…
Retribuo os votos, com muito gosto, é claro.