Bom jornalismo


Pedro Correia,

I

Fala-se quase sempre do jornalismo em tom de crítica. O que se compreende e até certo ponto é indispensável, pois todos temos muito a aprender com as críticas — incluindo, por vezes, com críticas que são injustas.

Mas também é salutar falar do jornalismo de forma positiva. Elogiando, incentivando, aplaudindo o que é bom.

E não se diga que não existe jornalismo de qualidade em Portugal. Isso é falso.

Durante algum tempo, mantive num blogue entretanto posto a hibernar, o Forte Apache, uma rubrica simplesmente intitulada Bom jornalismo. E cheguei a reproduzir aqui alguns dos textos lá publicados. Textos em que procurava contrariar essa tendência tão portuguesa de dizer mal com muito mais frequência do que se valoriza aquilo que deve ser elogiado.

 

II

Lembrei-me dessa rubrica, e decidi retomá-la no DELITO DE OPINIÃO, ao ler a edição deste fim de semana do jornal i. É um periódico que compro regularmente e de que sempre gostei — pela irreverência, pela originalidade, pela aposta sempre tão difícil e arriscada que faz ao conciliar tradição jornalística com inovação. Por cultivar o nosso idioma sem conivência com o assassínio de consoantes. E também por ter os mais apelativos títulos da imprensa portuguesa, na linha do desaparecido semanário O Independente, onde cheguei a colaborar.

O i é um pequeno jornal, dir-me-ão. Certo. Mas ganhou uma influência desproporcionada para o seu modesto tamanho. Por mérito próprio. Ainda que às vezes pareça não ter consciência disso, o que aliás lhe fica bem.

Posso dizer que raramente dei por mal empregue o dinheiro que me custa. Voltei a pensar nisto este fim de semana: por apenas um euro tive boa leitura para dois dias. Com quatro entrevistas, muito diversas mas de inegável qualidade, duas reportagens que gostei muito de ler, textos de opinião com a variedade e a acutilância habituais, um suplemento cultural recomendável e um trabalho de investigação que presta serviço público até por revelar algo cada vez mais raro nos jornais: boa memória.

 

III

Esta investigação a que faço referência prolonga-se por dois textos — ambos de duas páginas, ambos assinados por Catarina Falcão — que lembram os percursos simétricos de António José Seguro e Pedro Passos Coelho como líderes das organizações juvenis do PS e do PSD há mais de 20 anos. Merecem leitura atenta. Para que comparemos como eles eram com o que são. E o que diziam com o que dizem hoje.

Uma frase de Seguro à época (1990): “O PS é um partido triste e amargurado consigo próprio.”

Uma frase de Passos também à época (1990): “Rejeito os discursos de mera tecnocracia que esquecem o lado humano da política, recitando estatísticas.”

 

IV

De facto, o bom jornalismo é inseparável da memória. Como é inseparável da eterna pulsão de narrar boas histórias com o entusiasmo de quem gosta de partilhar aquilo que vê e aquilo que sabe.

Senti isso, uma vez mais, lendo nesta edição dois textos de teor muito diverso.

No caderno principal, uma grande reportagem sobre catadores de lixo em Lisboa, acertadamente intitulada “O proveito de cada dia vem do desperdício dos outros”. É um texto que só poderia ter sido feito por uma equipa de verdadeiros repórteres — no caso, Diogo Pombo, autor da prosa, e Rodrigo Saraiva, responsável pelas fotografias. Profissionais que gostam de sair à rua, procurando as mil expressões deste duro quotidiano português de 2013.

No suplemento de fim de semana, acompanho com prazer dois outros repórteres — Mónica Menezes e António Pedro Santos — num fim de semana passado estrada fora, pelos socalcos do Alto Douro Vinhateiro, eleito Património Mundial da Humanidade. Uma reportagem de outro tipo, mas que também justifica destaque.

 

V

E há as entrevistas, que já fazem parte do código de identidade deste jornal que se publica todos os dias excepto ao domingo (daí a edição reforçada de sábado, equivalente ou superior a alguns semanários).

Nesta encontro nada menos de quatro — e todas muito bem conduzidas e editadas.

Ãngelo Correia é o primeiro. Com declarações polémicas e sonantes, como se pretende em matéria política. A entrevista, assinada por Isabel Tavares, faz a manchete do jornal. Com esta frase: “Parlamento devia decretar estado de emergência nacional”.

O segundo entrevistado é Carlos do Carmo, à conversa com Maria Ramos Silva a propósito do lançamento de mais um disco e em vésperas de dois espectáculos destinados a assinalar as suas bodas de ouro discográficas. O título, em discurso directo, tem algo a ver com fado: “Se não fosse fadista, seria hoje um ilustre jurista de olho azul”.

Terceira entrevista: ao ex-seleccionador nacional de futebol Carlos Queiroz, agora responsável pela selecção do Irão, já qualificada para o Mundial de 2014. Três páginas que merecem ser lidas de uma ponta a outra, num bom trabalho do jornalista Rui Miguel Tovar.

E há uma quarta, no suplemento, com o escritor José Rentes de Carvalho. É uma entrevista de pequeno formato, ao contrário das restantes, mas também muito bem feita, por Vanda Marques. Título: “Não compro e-books, nem vou comprar”.

Só estas quatro peças já justificavam a compra do jornal.

 

VI

Frases que destaco destas entrevistas — um género jornalístico que sempre pratiquei e de que sempre gostei:

 

“A crítica também é uma forma de lealdade” (Ângelo Correia)

“Até um Ferrari precisa de quatro rodas” (Carlos Queiroz)

“Sou um privilegiado. Não sonhei ser Sandokan: fui Sandokan. Tive paraus, mandei em piratas e, imaginando vagamente o que lá acontecia, também tive haréns. Andava sempre acompanhado de dois tigres” (Rentes de Carvalho)

“Não tem nada que agradecer. Basta que me empreste os seus olhos” (a primeira frase que Carlos do Carmo disse à futura mulher, Maria Judite, com quem está casado há 49 anos e recordada nesta entrevista).

 

O bom jornalismo é assim. Aquele que empresta os seus olhos e os seus ouvidos a qualquer leitor.

 

12 comentários em “Bom jornalismo”

  1. Pedi ao meu filho para me comprar a edição de sábado do I, de que fiquei fã, nas férias deste Verão, no já longínquo mês de Junho.
    Este pedido teve por base o facto do quiosque do local onde vivo não receber o jornal.
    Como nota de curiosidade, no quiosque do fórum Coimbra, perguntaram-lhe para quem era exemplar, se calhar por ser ainda um pouco imberbe ou por gostar já de ler um título de profundidade cultural, como é o caso.
    Faltam-me ler, desta edição, apenas dois artigos: O proveito de cada dia vem do desperdício dos outros e a viajem pelo Alto Douro Vinhateiro.
    Bom jornal.
    Também recomendo.

    1. Aprecio esta sintonia, caro Fernando. Temos a responsabilidade cívica de não deixar morrer os projectos jornalísticos que se mostram dignos do nosso apoio. É o caso deste e de vários outros. Porque não existe democracia sem bom jornalismo.

    1. É um jornal agradável. No início (e sobretudo na versão online) era bastante superficial; algumas notícias até pareciam um bocado amadoras. Mas depois do que se percebeu ter sido uma fase conturbada do jornal, creio que melhorou. Entrevistas é uma boa aposta: há sempre algo de natural e interessante no género e, em última análise, é uma situação em que a arte jornalística pode brilhar sem receio de interferir no objecto.

  2. Na capa do i tenho algumas dúvida sobre o verbo dever no pretérito imperfeito, no passado — creio que é um erro que se está a tornar norma. Como o “atenderemos o mais BREVE possível” das avarias da PT sem o advérbio. Nas televisões é a mesma coisa.

    1. Pois, contrair “deveria” em “devia”, remete um “dever” futuro para o passado.

      … e a PT no “breve” omite o “mente”, pois!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *