![thumbnail_20210419_190826[1].jpg thumbnail_20210419_190826[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2021/22067546_JZZYr.jpeg)
Poucas coisas me agradam tanto como valorizar bons trabalhos jornalísticos. É o caso do impressionante depoimento do psiquiatra Daniel Sampaio, 74 anos, divulgado na última edição do Expresso que justificou merecido destaque na capa do semanário. O irmão mais novo do antigo Presidente da República viu a morte de perto quando permaneceu internado durante 50 dias, com Covid-19, na unidade de cuidados intensivos do Hospital de Santa Maria. Duas semanas ventilado, em coma induzido. Quando lhe retiraram os tubos sentiu-se paralisado de pernas e braços. «Estava um corpo completamente inerte. Só mexia as mãos.»
Fez uma finta à traiçoeira doença e felizmente voltou para relatar esta experiência duríssima. Ainda muito debilitado, no aspecto físico e até na voz, como relata Christiana Martins, que com ele falou. Era para ser uma entrevista, em formato clássico de pergunta e resposta, mas a opção acabou por ser outra. Ao verificar o profundo impacto daquela declarações, a jornalista – que foi uma das mais prestigiadas profissionais do Público antes de transitar para o Expresso – assumiu a melhor opção: retirou-se de cena e deixou o entrevistado falar, sem interrupções, na primeira pessoa do singular.
«Mais frágil, chegou a pensar desistir, mas também dono de uma resistência de que nunca se sonhou capaz. Agarrou-se à família e agradece a quem por ele rezou a um Deus que ele, não crendo, respeita», escreve a Christiana numa breve introdução.
Eis um testemunho arrepiante. De que destaco alguns trechos, com a devida vénia a Daniel Sampaio e à jornalista que tão bem o entrevistou.
«Tenho de assumir que fui displicente. (…) Descuidei-me, é preciso dizê-lo, porque é necessário respeitar as regras.»
«Fiquei sozinho em casa durante cinco dias. Com o apoio dos filhos que traziam a comida. Fiquei a ler, mas já devia estar com o oxigénio muito baixo porque não me lembro de nada, apaguei essa fase da minha vida.»
«Quando olhei [para o oxímetro], estava em 90 e à noite com 88 [é perigoso estar abaixo de 95]. Avisei os meus filhos que, chamaram o INEM. A 28 de Janeiro, fui para as urgências de Santa Maria. (…) Ainda ouvi dizerem que tinha de ir para os cuidados intensivos, onde acabei por ficar 15 dias ventilado, em coma induzido.»
«Na segunda semana comecei a ficar muito lúcido, a ler, a fazer fisioterapia e a melhorar, e passei para a enfermaria. Negativei da Covid-19 ainda nos cuidados intensivos. Mas antes apanhei uma bactéria hospitalar. Foi grave porque comecei a ter febre alta, confusão mental e senti-me mesmo muito mal.»
«Estive na enfermaria de 26 de Fevereiro a 19 de Março. No total foram 50 dias de internamento, foi brutal.»
«Éramos quatro naquela enfermaria e foi muito difícil quando um de nós morreu. Todos percebemos a meio da noite que ele iria morrer. A morte está sempre presente na covid grave.»
«A doença é muito ameaçadora. Uma ameaça difusa. Eu não tinha dores nem me sentia mal, mas não podia largar o oxigénio. Tínhamos de lutar para que o pulmão funcionasse melhor e sabíamos que em muitos casos não se consegue.»
«Demorei cerca de três semanas até ter algum controlo sobre o meu corpo. Só comecei a andar uma semana antes de sair do hospital. Cheguei a temer nunca recuperar.»
«À noite só dormia com medicação e mesmo agora o meu sono ainda está alterado. Também fiquei com uma arritmia no coração, que dizem que será reversível.»
«Estive quase destruído. A infecção bacteriana quase me derrubou, pensei que ia morrer. Mas eu não queria morrer, pensava que ainda tinha alguns anos de vida, que queria fazer muita coisa e que tinha família, bons amigos. Sabia que, se não fosse destruído, ia ficar uma pessoa melhor.»
«Eu tenho muito respeito pela ideia de Deus, não sou crente, mas confesso que muitas vezes pensei em Deus e se ele me podia ajudar. Tive imensa gente a dizer que estava a rezar muito por mim, eu agradecia e foi muito reconfortante.»

A atenção que se dá a quem padece de covid-19!
Montes de pessoas passam 50 ou mais dias no hospital e morrem lá, e ninguém faz notícias sobre elas.
O meu filho que teve cancro passou um total de 40 dias no hospital só na quimioterapia, e ninguém escreveu uma notícia de jornal sobre ele nem sobre muitos outros como ele.
O mundo é muito injusto…
Gostaria muito de ler o depoimento de um doente anónimo, certamente não seria igual
Dno
Anda muito distraido. O que mais tem havido é depoimentos de “anónimos”. O que faz aqui a diferença é precisamente este não ser anónimo.
Eu gostava mesmo era de ler, na página ao lado, de forma a estarem as duas visíveis ao mesmo tempo, uma entrevista idêntica a um doente (anónimo ou não, parece-me indiferente neste contexto) dos que recuperaram sem necessidade de cuidados hospitalares.
E gostava que nas gordas (peço desculpa às letras pelo que agora se diz ser “body-shaming” o que antes era somente a constatação de uma evidência factual) que intitulassem uma e outra, bem destacados, figurassem os valores percentuais (ou por 100 mil habitantes) de quantos são estatisticamente afectados por uma forma e outra da doença…
Aí, sim, aproximavamo-nos de “jornalismo de qualidade”, que é coisa que devia dispensar a adjectivação, porque ou é jornalismo ou simplesmente não o é!
Há bom jornalismo e mau jornalismo. Ponto.
Embora alguns teimem em não ver diferenças entre uma coisa e outra.
“Tenho de assumir que fui displicente. (…) Descuidei-me, é preciso dizê-lo, porque é necessário respeitar as regras”
O que mais impressiona nesta questão da COVID19 é o facto de a DGS, com a devida ajuda dos meios de comunicação, ter conseguido incutir este sentimento de culpa nos doentes. É muito injusto. Estamos a falar de um vírus. É extremamente difícil defendermos-nos dos vírus, e as medidas e as regras são extremamente falíveis.
Lembra-me os primeiros tempos da Sida, quando os doentes era vistos como os responsáveis respectiva perdição devido aos seus comportamentos promíscuos. Apesar de, no caso da Sida, existirem ainda Os Inocentes, que apanharam a doença por transfusões de sangue.
Na COVID não há inocentes. Todos os doentes são pecadores.
Pecadores/Hereges, que isto vale para os que se deixaram contaminar e para os contaminadores negacionistas!…
Já faltou mais para (re)começarem os autos-de-fé…
Um dos pontos mais “chocantes” é o completo blackout (presumo que fruto da pouca oxigenação do cérebro) de pessoas que estão conscientes.
Pior que as consequências a nível pulmonar e cardíaco, as sequelas cerebrais são complicadas de gerir.
Nunca é de mais salientar isto.
Porque fala-se muito em dados estatísticos, em recuperações, mas fala-se pouco na qualidade de vida futura de quem consegue superar a doença e nas sequelas graves que várias dessas pessoas terão.
A vasta maioria das pessoas e ecupera da doença sem quaisquer sequelas. O AVC tem comparativamente sequelas mais importante na maior parte dos casos.
O tema está pouco estudado, por insuficiência de dados e por falta de perspectiva temporal.
Só daqui a uns anos haverá certezas nisto.
O pouco estudo não parece problemático quando se fala em enfiar vacinas sem ele na população mundial inteira, como se o virus afectasse de forma grave toda a gente e não apenas uma minoria…
A percentagem de pessoas que, tendo um acidente de viação, morrem ou ficam com sequelas graves, será muito mais elevada que a mesma percentagem face ao número de pessoas infectadas pelo vírus. Mas nunca ouvi sugerirem acabar com o trânsito rodoviário como solução…
Desculpe lá, mas isso não faz qualquer sentido. Meter as vacinas e o trânsito rodoviário tudo no mesmo saco.
Não me diga que ainda vai acabar por falar no Hitler.
Não meti no mesmo saco, são parágrafos distintos.
No mesmo saco meti:
Saco A – O pouco estudo das sequelas à infecção com o pouco estudo das sequelas das vacinas.
Saco B – A percentagem de pessoas que sofrem sequelas graves quando afectadas por um acidente de viação ou quando infectadas pelo virus.
E acusar-me do que vou dizer é sempre saudável para um debate esclarecedor…
Então o combate aos desastres rodoviários (incluindo o uso obrigatório de capacete e cintos de segurança) deve ser equiparado ao combate ao coronavírus, como se fossem fenómenos com a mesma origem?
Estou a tentar entender.
“Negativei da Covid-19 ainda nos cuidados intensivos. Mas antes apanhei uma bactéria hospitalar.”
(…)
“A infecção bacteriana quase me derrubou”
Infecções bacterianas são uma antiga praga dos hospitais portugueses. Há entre nós tradições que custam muito a mudar. Infelizmente esta é uma delas.
Há sempre um momento em que único pão é o que desce do céu, para dar vinda ao mundo.
«Não foi Moisés que vos deu o pão que vem do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão que vem do Céu. O pão de Deus é o que desce do Céu para dar a vida ao mundo». Disseram-Lhe eles: «Senhor, dá-nos sempre desse pão». Jesus respondeu-lhes: «Eu sou o pão da vida: quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem acredita em Mim nunca mais terá sede».
vide Jo 6, 30-35
Só conhecia o titulo… e agora aqui adquiro o que aconteceu.
Lidas estas partes, e nao obstante a fragilidade do Daniel, esperava uma abordagem mais elevada (menos comum ) .
Talvez no proximo futuro.
O problema de muitos leitores é precisamente este.
Só lêem os títulos.
Ou seja: acabam por não ler nada.
Ainda, há alguns que infelizmente pensam que a covid 19 é uma gripezinha. E estes alguns são um perigo para todos. Ninguém fala em salvos ou curados, falam em recuperados, pois as sequelas ficam, muitas ou poucas.
É um vírus perigoso que para além de destruir os pulmões (para quem é peixe não há problema…), prejudica vários outros órgãos nomeadamente a nível cerebral, o que já está a ser estudado por vários e reputados laboratórios mundiais. Quando oiço alguém dizer: “O vírus não é perigoso”, pergunto sempre aos meus botões: este já terá tido covid 19? Será que lhe apanhou o cérebro…?
Para a vasta maioria das pessoas o vírus não é de facto perigoso. Todos os casos de covid de pessoas que conheço foram do calibre da gripe. Em alguns casos houve apenas perda de olfacto. O que não significa que o vírus não seja muito perigoso para algumas pessoas.
Os estudos sobre as sequelas só agora começaram.
É bom que nada disto seja menosprezado. Nem da parte dos políticos que se apressaram a declarar levianamente que isto era só uma “gripezinha” nem da parte dos supostos técnicos que logo se declararam contra as máscaras por darem “falsa sensação de segurança”.
Eu de facto não percebo a natureza desta questão. Provavelmente todas as doenças têm sequelas e deixam marcas. Até um simples entorse. As crianças prematuras sujeitas a grandes doses de oxigénio na incubadoras ficam com sequelas. As pessoas que apanham pneumonia ficam com sequelas. As sequelas pode sei mais ou menos visíveis de acordo com a gravidade da doença e com o tipo de intervenção realizada. As pessoas que estiveram por algum motivo em cuidados intensivos ou que foram sujeitas a grandes doses de anestesia ou oxigênio ficam com sequelas. As pessoas que têm de tomar cortizona regularmente ficam com sequelas.
Nas pessoas que tiveram casos ligeiros e que recuperaram sem intervenção hospitalar ficam provavelmente com sequelas tão ligeiras como as da gripe.
A gripe deixa sequelas? Onde estão os estudos?