
I
Gosto de bons títulos. E não é de agora: sempre gostei.
Um bom título deve captar a atenção do leitor, deve atraí-lo, deve seduzi-lo.
Se for necessário, alguém interrompe outras tarefas na azáfama de uma Redacção e concentra-se nisto até encontrar o título ideal. Por vezes, é o próprio autor do texto. Mas acontece, quase sempre, que seja um editor de caderno ou de secção. Ou até um membro da direcção com mais talento para esta função, o que nem sempre acontece. Conheci directores e subdirectores que mal sabiam fazer um título. Ou até uma simples legenda.
Um título bem conseguido é uma forma de mostrar consideração e apreço por quem nos lê.
Seja onde for. Também num blogue. E sempre com regras: aqui no DELITO, por exemplo, uma “regra” tácita e de adesão voluntária recomenda que um título não tenha mais de 32 batidas, incluindo espaços. Evitando assim que uma palavra salte, solitária, para uma inútil e redundante segunda linha. Nada recomendável até por motivos estéticos.
Quando havia mais tempo e mais gente para elaborar jornais, as pessoas organizavam-se de acordo com as suas aptidões. Havia os repórteres, que andavam quase sempre fora e ligavam a dar dicas ou a ditar entradas de notícias, e os redactores, com mais talento para a escrita, que se encarregavam da versão final dos textos.
Na hora do fecho, com a primeira página prestes a concluir, convocava-se sempre um especialista em títulos. Que podia ser alguém que nem estava munido com carteira profissional. Houve até um arquivista com especial talento para a arte de titular que acabou por tornar-se jornalista deste modo: forneceu tantas sugestões certeiras para manchetes com sucesso à equipa directiva que um dia saltou do arquivo para um lugar destacado na Redacção.
II
Há muito tempo que o Expresso abdicou de fazer bons títulos – criativos, chamativos, sintéticos, sem distorcer factos – e optou pela forma mais preguiçosa e previsível de titular. Aquilo a que costumo chamar “títulos de funcionário”: aplica-se o molde chapa cinco e fica despachado.
Exemplos de “títulos de funcionário”: aqueles que usam e abusam de títulos de livros ou filmes ao ponto de se tornarem insuportáveis lugares-comuns. Foi o caso, durante anos, da expressão “à beira de um ataque de nervos”, decalcada de um filme de Almodóvar.
Ou os que empregam locuções verbais que pela sua natureza já estão mais que vistas e gastas, incluindo as que incluem o verbo haver, o verbo ir, o verbo ser ou o verbo estar.
Ou os que recorrem até à náusea aos pronomes relativos, sobretudo o famigerado “que”, quase sempre substituído com vantagem por elegantes dois pontos.
Ou os intermináveis, cheios de vírgulas e palavras inúteis, que cansam o leitor ao ponto de o dissuadirem de passar do título ao texto.
Ou, na política, os que insistem em “dar murros na mesa”, em “querer” ou “não querer” ou em “disparar” contra tudo quanto mexe ou em “arrasar” seja o que for – bocejantes expressões mil vezes escritas, mil vez lidas, ao ponto da saturação total. E reveladoras de uma confrangedora pobreza lexical nestes tempos de galopante supressão de vocábulos, condenados à extinção pela iliteracia dominante.
Basta-me folhear a mais recente edição do Expresso para encontrar “títulos de funcionário”.
Eis alguns: «Vai começar uma “revolução científica” no Vale do Côa»; «Portugal vai ter mais um centro para refugiados»; «Emergência social dispara em 2 meses»; «Tempo arrasa agricultura»; «Merkel quer resposta rápida»; «Costa quer entendimento à esquerda até 2023»; «Marcelo não quer público nos jogos da Champions»; «Comércio quer aumentar lotação, DGS recusa, “neste momento”».
Isto já para não falar dos títulos incompreensíveis. Deixo uns exemplos, também colhidos desta edição: «Fusão junta SRS Advogados e AAA» (na primeira página); «Leão adia LEO para 2023»; «Avança inquérito sobre origem etnicorracial dos portugueses».
III
Mas, felizmente, há excepções. E a que aqui trago é bem honrosa: refiro-me ao título de capa da revista do próprio Expresso, nesta sua mais recente edição. Sob o rosto de Amália Rodrigues no auge da carreira, comprovando a prodigiosa fotogenia da grande diva do fado, nascida vai fazer cem anos.
«Amália – Nem chegaste a partir» – eis o título-legenda. Justo, conciso e feliz. Quase um verso. Aliás, é mesmo um verso, extraído da letra que David Mourão-Ferreira escreveu para o Barco Negro, a que ela deu expressão eterna: «Eu sei, meu amor, / Que nem chegaste a partir / Pois tudo em meu redor / Me diz que estás sempre comigo.»
Para atingir este clímax não basta conhecer todas as potencialidades do nosso belo idioma, tão cheio de ambiguidades e cambiantes, tão vocacionado para uma ampla gama de vocalizações, tão propício a ser cantado. É preciso também ter cultura e conhecer a fundo o tema sobre o qual se escreve.
Sendo o jornalismo uma actividade cuja carpintaria se desenvolve com frequência no anonimato das salas de trabalho, ignoro a quem devemos, enquanto leitores, este título tão digno de elogio. Mas foi seguramente alguém que leu com muita atenção o primeiro dos três textos que justificam esta capa. Um texto de Jorge Calado que vivamente recomendo, em que o autor equipara Amália a Maria Callas e Ella Fitzgerald, convicto de que ela «habita o panteão das maiores vozes do século XX».
Porquê? «Amália ampliava as vogais, arrastava as consoantes, esticava a linha vocal sem a partir, antes percorrendo todas as notas intermédias num alucinante legato cromático que nos deixava estupefactos e em transe, como ela.» E cá surge a referência explícita à canção que ela estreou no filme francês Os Amantes do Tejo, rodado em Lisboa: «Ouça-se, por exemplo, o que Amália faz com a palavra “loucas”, do Barco Negro (em que virou do avesso a Mãe Preta, de Maria da Conceição), e a seguir compare-se com o “Amami, Alfredo” da Callas em La Traviata.»
Felizmente ainda surge por vezes um texto que basta, só por si, para nos levar a comprar um jornal sem arrependimentos. É o caso deste, que bem justifica o belo título que lhe serve de chamariz.

Ora. Como se não fosse do conhecimento mundial a estranha propensão dos jornalistas em complicarem tudo que é naturalmente fácil. Então os desportivos rebentam com a escala,
Por exemplo: “Agudiza-se a crise no Benfica” Expoente máximo do conceito de complicação.
Então não seria muito mais simples e compreensível para o comum e honesto cidadão nacional, substituir essa aberração de título por: ” Mais uma vez o VAR roubou o Benfica”
Mas vá-se lá tentar meter isso na cabeça do complicado jornalista. Vã esforço elucidativo. Por mim, acho que nem vale a pena.
Agudiza-se a crise no Benfica.
Excelente.
Grato, camarada.
“Gosto de bons títulos. E não é de agora: sempre gostei.”
Eu, também! E tenho a dizer, aproveitando esta oportunidade, que Pedro Correia, não só gosta como sabe…e a prova é o nome – escolhido há uma década – para título deste blogue!
Nos dias que correm, ter/dar uma opinião com base em factos reais, e falar/escrever sobre factos, é quase considerado uma transgressão.
Muito obrigado por assinalar o título deste blogue, Té. De facto, o DELITO começa a nascer no momento em que este nome me vem à cabeça. Considerei-o um título imbatível para blogue.
Havia que fazer tudo o resto, claro. Mas o emblema já existia – neste caso, era uma espécie de lema também. E facilitou no momento de congregar vontades e talentos.
Muitas vezes é assim: o mais difícil é conseguir um bom título. Tudo o resto vem por acréscimo.
Confesso que costumo escrever sempre com um título em mente. Quase sempre é aquele que acaba por se manter no fim.
Por outro lado, na Literatura há mais espaço para títulos longos, mais liberdade criativa e menos necessidade de clareza e objectividade. E salvo situações de evidente mau gosto ou falta de originalidade, não faltam exemplos de autores que usam os títulos longos como uma espécie de ex-libris. Veja, por exemplo, Mário de Carvalho.
A talhe de foice: é quando leio «Avança inquérito sobre origem etnicorracial dos portugueses» que me convenço de o mundo como o imagino não existir. Talvez tenha morrido sem saber e o Inferno seja afinal uma distopia de segunda ou terceira ordem, impressa num velho volume da colecção Argonauta.
Percebo agora que este comentário está repetido. Respondi-lhe ali mais em baixo, como sempre faço nesta troca de ideias: vou de baixo para cima.
Por outro lado, na Literatura há mais espaço para títulos longos, mais liberdade criativa e menos necessidade de clareza e objectividade. E salvo situações de evidente mau gosto ou falta de originalidade, não faltam exemplos de autores que usam os títulos longos como uma espécie de ex-libris. Veja, por exemplo, Mário de Carvalho.
A talhe de foice: é quando leio «Avança inquérito sobre origem etnicorracial dos portugueses» que me convenço de o mundo como o imagino não existir. Talvez tenha morrido sem saber e o Inferno seja afinal uma distopia de segunda ou terceira ordem, impressa num velho volume da colecção Argonauta.
Gosto muito do Mário de Carvalho, mas penso que ele devia ter títulos mais sintéticos nos seus livros. Há um de que gosto muito e que nunca consigo reproduzir correctamente à primeira: ‘Era Bom que Trocássemos umas Ideias Sobre o Assunto’ (fui espreitar ao Google para não me enganar).
Pior é o Lobo Antunes, que a partir de certa altura, quando se tornou mais pomposo e palavroso, passou a escolher títulos que ninguém fixa nem memoriza. Exemplos: ‘Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura’, ‘Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?”, “Não É Meia-Noite Quem Quer”, ‘Caminho Como uma Casa em Chamas’, ‘Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha Espera” e “Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água” (fui ver ao Google também, claro).
Títulos sem pés nem cabeça.
Quanto à sua farpa final, não posso estar mais de acordo.
Concordo, um bom título não é fácil. E esse sobre Amália assenta como luva em mão. Não apenas por ser poético, que o é; mas sobretudo porque verdadeiro. Amália mora no coração e no gosto dos portugueses seniores. Nos outros, não garanto. E é uma voz incomparável. Barco negro é um dos fados que prefiro.
Poético e verdadeiro, sim. Se houver títulos perfeitos, este aproxima-se da perfeição.
Sobre ‘Barco Negro’, escreverei em breve aqui.
vou ficar à espera:)
Será em breve, até porque se aproxima o centenário da Amália.
E este titulo?
Viajar em tempos de COVID-19: É seguro “apanhar” um avião?
Está no SAPO
Nada bom, convenhamos.
Diria mais: excelente!
Obrigado, Teresa.
Muito bom ! Um título às vezes é quanto basta para prender à leitura, mas não é fácil de conseguir.
É verdade, Maria Dulce. Não é fácil. E há, infelizmente, cada vez menos bons títulos na imprensa portuguesa. O que não contribui em nada para atrair leitores.
Estou a meditar no “Fusão junta SRS Advogados e AAA” há uma hora. É extraordinário.
Obrigada por este pequeno livro de estilo.
Com direito a primeira página!
Eu ando a pensar nisso desde sábado e ainda não cheguei lá, Marta.