Blogue da semana.


Luís Menezes Leitão,

Fernando Pessoa não gostava de viajar. No Livro do Desassossego do seu quase heterónimo Bernardo Soares escreve o seguinte:

“Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. «Qualquer estrada», disse Carlyle, «até esta estrada de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo.» Mas a estrada de Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar.

Condillac começa o seu livro célebre, «Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações». Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava partida é a que percorro e é minha.

Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra. Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos. Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar. Nos países que os outros visitam, visitam-nos anónimos e peregrinos.

Nos países que tenho visitado, tenho sido, não só o prazer escondido do viajante incógnito, mas a majestade do Rei que ali reina, e o povo cujo uso ali habita, e a história inteira daquela nação e das outras. As mesmas paisagens, as mesmas casas eu as vi porque as fui, feitas em Deus com a substância da minha imaginação“.

Não me revejo nada nesta afirmação e por isso gosto de viajar. A viagem não só nos faz sair da monotonia de nós mesmos, como também nos transforma, fazendo a que cheguemos diferentes quando regressamos. Por isso decidi escolher para blogue da semana um excelente blogue destinado a viagens. O Joland Blog é assim o blogue da semana.

 

2 comentários em “Blogue da semana.”

  1. Neste caso, como em outros mais, não concordo com Pessoa. Não porque a monotonia pessoal me desagrade (não me farto de ser mim), mas porque as viagens me enriquecem de modo aleatório, sem saber o que posso encontrar, o que me desperta os sentidos, aquilo que mais valorizo. Não sou Pessoa, não visito cidades imaginárias e nem o saberia fazer; portanto, há que ir onde existem de facto. E nem ele me convence de que o que visitou no imaginário suplanta o que existe e é material. Há sortilégios que só se manifestam em presença. Pelas razões supracitadas, também pouco me dizem blogues de viagens. Espreitei o que sugere e, para amantes do tema, parece-me bem concebido e delineado.
    Bom Domingo

  2. Escrito em obediência acordita, esse blogue, por uma senhora que me trata por tu ainda que não me conheça de lado nenhum e que do seu ano de Erasmus, que faz questão de nos anunciar, em Valência, não parece guardar a menor memória do conteúdo académico que lá a deveria ter levado.

    Uma “blogger” de segunda geração, enfim.

    Costa

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