Na literatura portuguesa abundam exemplos de obras que, sem serem diários convencionais, teriam funcionado de forma perfeita em blogues, se esta tecnologia existisse na altura em que foram escritos. O Livro do Desassossego é um caso evidente, mas há outros, como os Diários de Miguel Torga ou o extraordinário Conta-Corrente, de Vergílio Ferreira, onde se misturam textos puramente literários com reflexões sobre o quotidiano. Em nenhum destes casos se escrevia exclusivamente ‘hoje aconteceu-me isto’, como em muitos diários de escritores famosos, mas encontramos por ali a mentalidade oficinal e um artesanato onde os autores exerciam a difícil prática quotidiana de apuramento da prosa, sem a intenção de que esses falsos diários valessem por si.
Actualmente, os blogues são um formato ideal para a reflexão e a escrita íntima, mas esta abordagem nunca funcionou na blogosfera portuguesa. Os escritores portugueses assinam romances, mas são raras as suas incursões no conto, na novela e neste novo meio. Os poucos autores que se dedicam à prática da oficina condenam-se à semi-invisibilidade. Por isso, tentar escrever com arte na blogosfera é, sem dúvida, uma forma de resistência.
O poeta Henrique Manuel Bento Fialho tem um dos blogues mais antigos em Portugal, este Antologia do Esquecimento, que escolhi para blogue da semana aqui no Delito. O autor não costuma frequentar as listas da moda, os links e as citações, mas habituou os seus leitores (sou um deles) a prosa de qualidade acima da média e à persistência que define as pessoas de valor. Este é um blogue literário raro e não me parece adequado poupar nos elogios. Fala-se aqui de livros, de cinema, de poesia, há também observações lúcidas sobre o nosso tempo, que suscitam a admiração e o prazer da leitura.
