Confesso que me fui fartando aos poucos daqueles blogues que fazem gala em ignorar os outros e transformam até a sobranceria numa espécie de senha de identidade. Ao longo destes anos a blogosfera foi-se reconvertendo, foi-se circunscrevendo a espaços menos genéricos, mas nunca perdeu pequenos arquipélagos de arrogância desmesurada onde a comunicação funciona em sentido único e o monólogo é regra dominante.
Aprecio cada vez mais a reciprocidade natural. Ler quem nos lê, citar quem nos cita, gostar de quem mostra gostar de nós. Rendo-me com facilidade ao talento alheio, mas sinto-me incapaz de contemporizar com quem apenas exibe vocação para contemplar o próprio umbigo.
A esses desejo boa sorte – e passo adiante.
Fico-me pelos outros. Os que conseguem somar amabilidade ao talento. Pessoas como a Cristina Nobre Soares, que acompanho há anos na blogosfera. Agora no novo blogue Em Linha Recta. Bem escrito, como os anteriores. E sem assassinar consoantes, como o nome indica.
Que prossiga no rumo enunciado: são os votos deste leitor atento e grato.

«Rendo-me com facilidade ao talento alheio, mas sinto-me incapaz de contemporizar com quem apenas exibe vocação para contemplar o próprio umbigo.»
Salvo raríssimas excepções, sinto exactamente o mesmo. Uma das coisas boas das redes sociais, pelo menos para mim, é comunicar — com ida e volta e assim sucessivamente.
Estamos em sintonia, Carlos. Por isso fiz questão de que não se passasse um só dia, nos mais de seis anos de existência deste blogue, sem citar outros. É uma marca distintiva de que me orgulho no Delito. Temos sempre um blogue da semana, temos sempre uma extensa lista de blogues que recomendamos (com a condição, mais que razoável, de esses blogues citarem também o nosso e não permanecerem meses adormecidos), inclusive de paragens tão longínquas como Timor-Leste, a Argentina, a Austrália e a Guiné-Bissau, temos duas secções periódicas intituladas “Ligação directa” e “De Portugal inteiro” que destacam títulos da blogosfera nacional e regional, respectivamente. Tivemos até uma rubrica que durou mais de um ano com um autor convidado (e bastante trabalho me deu, confesso hoje).
Hoje verifico, já sem espanto, que os novos blogues que vão surgindo dispensam listas de outros blogues em rodapé ou nas abas laterais. Só eles existem, só eles interessam: nada mais se recomanda. É um sinal dos tempos: quanto mais se profere a palavra “social”, mais abunda o umbiguismo militante.
Faço questão de que essa marca distintiva permaneça. Porque um blogue, neste sentido, funciona como verdadeira rede social. Muito mais do que esses espaços solipsistas que pervertem o adjectivo “social” e onde apenas se conhece o pronome “eu”.
Um abraço.
Não há como conseguir que quem não se respeita a si próprio consiga respeitar os outros. Aqui no Delito de Opinião pratica-se o exercício da genuína liberdade não escondendo outras opções e sujeitando-se á livre escolha de quem tudo pode apreciar. Este mérito está patente, reconhecido, respeitado e seguido sem favores ou alinhamentos obedientes. Uma referência de topo que é obrigatório continuar.
Muito lhe agradeço as palavras amigas, caro Marquês Barão.
Cem por cento de acordo.
Abr.
Não tenho a menor dúvida, caro Luís.
A propósito uma pérola bem excusada “.http :/ aventar.eu /2015/04/17/1228411/
Subscrevo (escolha do blogue da Cristina incluída)
Caro Pedro Correia.
Li com atenção este seu post. Mas também com alguma surpresa, devo confessar.
Não porque ache que esteja errado nas suas observações – mas apenas porque nunca me tinha passado pela cabeça que a questão da mútua citação alguma vez se colocasse a alguém.
Ao escrever, nunca me ocorreu pensar se sou ou não citado. Palavra de honra!
Escrevo (naturalmente) para ser lido, nunca para ser citado. Acho graça quando isso acontece, mas está longe de ser um objetivo. Se acaso as pessoas acharem de interesse o que escrevo no blogue, espero que futuramente me visitem. Mas não faço o menor proselitismo, até porque o blogue já “estabilizou” em termos de visitantes. E chegam!
Leio muito poucos blogues e leio-os cada vez menos: na maioria dos casos (e refiro-me ao seis ou sete que leio com irregularidade), faço-o não mais do que uma vez por semana. Porquê? Não porque não goste de ler blogues, mas simplesmente porque não tenho tempo para tal, não obstante considerar que há sempre, na blogosfera, coisas muito interessantes.
Com uma excação, só visito blogues onde sei que posso encontrar opiniões diferentes das minhas. Para ler aquilo que penso… leio-me a mim!
Raramente cito um blogue (é um facto!), mas apenas porque raramente leio blogues.
Faço assim parte do “arquipélago de arrogância desmesurada”? Pelos vistos…
Tenho apenas “vocação para contemplar o meu próprio umbigo”? Talvez.
(Sou dado a “assassinar consoantes”? Isso sempre!)
Como sabe, um blogue dá bastante trabalho. Mantê-lo num registo diário, numa atividade solitária, há mais de seis anos, não é nada fácil. Era o que faltava que, “on the top of it”, ainda me desse ao cuidado de citar os outros. Isso pode acontecer, mas é muito raro.
Nota final: o “Delito” faz parte dos blogues que (irregularmente) vou lendo. Porquê? Porque sei de ciência segura que aqui, em geral, vou encontrar ideias das quais discordo, aliás escritas num português antigo de que o país se está, cada vez mais, a libertar. É desse estimulante contraste que alimento a minha escrita, numa atividade lúdica e provocatória em que não me levo (e espero que os outros me não levem) muito a sério. Com cordialidade, mas sempre situado no “outro lado”.
Com um abraço do
Francisco Seixas da Costa
Meu caro Embaixador:
O seu comentário – que desde já agradeço – fez-me sorrir. Por vários motivos.
Desde logo porque o meu caro, embora eventualmente ‘à contre-coeur’, acaba por ser o desmentido vivo daquilo que alega. Bastam estas estimulantes trocas de impressões que volta e meia travamos aqui para a marca da interacção blogosférica estar presente.
E é possível, sim, descobrirmos afinidades com pessoas que pensam de maneira muito diferente da nossa. Lembro-me por exemplo da Joana Lopes e do Luís Novaes Tito: conheço-os apenas na condição de leitor do que escrevem nos respectivos blogues. Com eles a corrente humana passa sempre, mesmo quando não existe identificação ao nível das ideias que expressam no uso da plena liberdade de que felizmente todos dispomos para expressar afinidades e aversões.
Eu referia-me àquela tendência muito recente de cultivar blogues solipsistas, cujos autores se embriagam com a palavra ‘eu’. Ignoram por completo os outros. Escrevem como quem tira ‘selfies’ a eito. Como aqueles espectadores que em vez de observarem o espectáculo, e usufruírem dele, passam o tempo a tirar fotos a si próprios nesse mesmo evento. Não observam mais nada a não ser o reflexo da própria imagem.
É um característico sinal dos tempos – e que ultrapassa fronteiras ideológicas, políticas e partidárias. Contamina todos os quadrantes, como reconhecerá.
É uma moda. Que, como todas as modas, também se tornará velha.
Reitero que me fui cansando aos poucos daquela gente muito empertigada que exibe um supremo alheamento em relação a terceiros – e plasma isso mesmo naquilo que vai escrevendo. Com ‘selfies’ em forma de texto.
Em perfeito contraste, aproveito para assinalar, com um texto seu que em tempos li e muito me sensibilizou no qual defendia – sem procuração para o efeito – um homem que muito respeito e admiro, por mais que dele possa discordar politicamente. Chama-se João Varela Gomes. Foi alvo de mentiras e distorções históricas e Você, como testemunha presencial, repôs a verdade dos factos nesse texto que me ficou gravado na memória e que intimamente aplaudi.
Era um pouco a isso que eu me referia quando anotei o que ficou anotado aí mais acima…
Ao seu estilo, ao seu jeito, não o considero indiferente aos outros. Antes pelo contrário.
Quanto a mim, é isso que importa. Num tempo em que tanto se fala em “redes sociais” que de social nada têm e a todo o momento pervertem sem pudor este belo e tão maltratado adjectivo.
Quanto ao ‘acordo ortográfico’, fez-me sorrir também.
Se nós, aqui no DELITO, escrevemos “num português antigo de que o país se está, cada vez mais, a libertar”, deixe-me dizer que nunca estivemos tão bem acompanhados.
Neste “português antigo” escreveu o recém-falecido Herberto Helder até ao fim, há bem pouco.
Neste “português antigo” escrevem os nossos mais notáveis escritores contemporâneos. Um Eduardo Lourenço, um Manuel Alegre, um Manuel Gusmão, um Mário de Carvalho, um António Lobo Antunes, um Mário Cláudio, uma Teolinda Gersão, uma Lídia Jorge, um Nuno Júdice, uma Maria Velho da Costa, uma Maria Teresa Horta, um Baptista-Bastos, um Gastão Cruz, um Mário Zambujal, um João Miguel Fernandes Jorge.
E tantos outros – tão diversos e tão diferentes, como a Inês Pedrosa, a Patrícia Reis, o Pedro Mexia, o Gonçalo M. Tavares, o João Tordo, o Miguel Sousa Tavares, o José Luís Peixoto, a Ana Margarida Carvalho, o Miguel Esteves Cardoso, o Rui Zink, o José Rodrigues dos Santos, o Nuno Camarneiro, o Ricardo Araújo Pereira.
O jovem Afonso Reis Cabral, vencedor do último Prémio Leya – que utiliza a “escrita antiga” apesar de ter apenas 24 anos.
Como não havia de sorrir?
Cumprimento-o, com a consideração de sempre.
E deixo-lhe um abraço de confrade destas lides, concordando ou discordando de si.
Caro Pedro Correia. Pelos vistos, li mal o “retrato” que fez dos egocêntricos da blogosfera. Pensava-me incluído. Ainda bem que me “safo”. Quanto ao Acordo, não sendo uma obra-prima (longe disso), é, contudo (na minha modesta opinião, claro), um passo positivo no sentido tendencial da harmonização possível. Na prática, ultrapassou já o ponto “of no return”, pelo que o seu combate (legítimo, sem dúvida) é uma guerra perdida, com mais ou menos galhardia.
Forte abraço
Li com atenção este seu post sem qualquer surpresa, dada a qualidade a que nos habituou.
Até porque o blogue pode conjunturalmente estar estabilizado em termos de visitantes mas promete continuar a crescer na justa medida da sua qualidade. E nunca serão de mais!
Leio bastantes blogues e leio-os com alguma regularidade: na maioria dos casos ( seis ou sete que leio com alguma frequência), e faço-o algumas vezes por semana. Porquê? Porque gosto de ler blogues, e simplesmente tenho tempo para tal, por considerar que há sempre, na blogosfera , coisas de muito interesse.
Visito blogues onde sei que posso encontrar opiniões diversificadas. Aprecio o contraditório mas também gosto de me deparar com um outro comentário meu que seja apreciado.
Nota final: o “Delito” faz parte dos blogues que (regularmente) leio. Porquê? Porque aqui, em geral, vou encontrar ideias das quais discordando ou não, tem o bom aperitivo de ser escritas num português antigo de que o país cada vez mais parece necessitar.
Uma resposta “de bonne guerre”! Salut!
Olá!
Caro Pedro Correia, achei este texto bastante pertinente, só por isso, se me permite, vou pedi-lo emprestado. A tal partilha que é saudável acontecer nos blogues desde que os mesmos mencionem os devidos autores. Ainda que ache que o Delito não precisa da minha publicidade para nada 🙂