
«Sono semplicemente un pellegrino che inizia l’ultima tappa del suo pellegrinaggio in questa terra.»
Castelgandolfo, 28.2.2013

«Sono semplicemente un pellegrino che inizia l’ultima tappa del suo pellegrinaggio in questa terra.»
Castelgandolfo, 28.2.2013
assisti a sua eleição na Praça de S. Pedro e dias depois quando foi recolher os seus pertences por ter tropeçado no lancil do passeio e ter falado em português fui entrevistado na TVI por MM
fui sempre um ‘pelingrino’ com ‘mala de cartão’
Teve um gesto visionário em 2013, ao abrir caminho em vida para o actual Papa. Sabia que seria Francisco o eleito. Fez questão que o sucessor chegasse ainda vigoroso à Praça de São Pedro e jamais o desautorizou, contrariando aqueles que quiseram transformá-lo em bandeira contra o actual Pontífice.
Morreu o “meu” Papa. Antecedido por S. João Paulo II e sucedido por Francisco. Não quero comparar as virtudes pessoais de cada um – afinal um é Santo e outro tem a maior taxa de aprovação mundial – mas, como cabeça da Igreja, prefiro Bento XVI.
Ao longo da história, a Igreja manteve uma relação privilegiada com o poder. Quando já não o exercia directamente, disputavam-se as nomeações para o cargo de confessor, porque quem falava ao ouvido do Príncipe, podia fazer a diferença. Para o bem e para o mal. Lembro a propósito o doloroso episódio do referendo em Timor, que valeu 30 mil mortos e muito deve ao voluntarismo do Pe. Melícias, confessor de Guterres.
O poder não muda e tem regras próprias. O que muda são os cenários, os figurantes e os protagonistas. A seguir ao 25 de Abril, o poder era o MFA. Por isso, Adriano Moreira – de quem recordo, com imensa saudade, a lição sobre teoria do poder- escreveu então um livro que intitulou “O Novíssimo Príncipe”.
Mais tarde o poder caiu na rua, Não numa rua caótica e desorganizada mas numa rua controlada e dirigida. O poder eram as organizações sindicais. Mais recentemente – numa deriva ainda em curso e de que não se adivinha o resultado final – o poder foi tomado pela opinião pública. Evidentemente controlada e dirigida pela opinião que se publica, e pelas opiniões pré-implantadas nas escolas.
Tendo tudo isto em conta, não me impressionei favoravelmente com a visita de S. João Paulo II ao Brasil e o seu apoio a um Lula, então muito mais radicalizado; nem sequer pela visita à Polónia e pelo apoio a Lech Walesa. Como não me impressiono hoje por ver Francisco a trazer para a praça pública os problemas mais graves da Igreja.
Serei talvez cínico mas o que vejo são manifestações da mesma relação privilegiada com o poder; de mais uma regra que não mudou.
Bento XVI foi diferente. E bem merecia que escrevesse sobre ele mas este texto já foi longo e polémico o suficiente,… ou mesmo mais do que isso.
(Reproduzido (editado) de comentário meu no “Corta-Fitas”)
Esta frase de Bento XVI – falecido no último dia de 2022 – é extraordinária, por isso a destaquei. Ele, apontado como o mais conservador dos Papas, foi afinal aquele que teve o gesto mais revolucionário, protagonizando uma ruptura de cinco séculos, ao renunciar ao trono de Pedro e abrir caminho a um sucessor de características muito diferentes dele, sabendo que seria Bertoglio o sucessor e que dessa forma robustecia a Igreja.
Esta é a frase-chave do seu assumido e despojado crepúsculo, exemplar também nessa humildade evangélica. Como exemplar foi a recusa intransigente, da sua parte, em encabeçar uma suposta “facção” contra o actual Pontífice.
A sua última etapa consistiu em ficar prisioneiro do Vaticano durante dez anos.
Há quem prefira ficar “prisioneiro” durante anos num instituto público.
Ave atque vale
Com a devida vénia.