Bateu no fundo


Pedro Correia,

 

Há dois meses, uma manchete do semanário Sol, no rescaldo imediato do Mundial da África do Sul, incendiou o País. “Tendo em conta a estrutura amadora da Federação, as coisas correram muito bem”, desabafava o seleccionador nacional de futebol, sacudindo a água do capote: a prestação da turma das quinas nos relvados sul-africanos não fora além de uma previsível mediania e Queiroz ensaiava já uma segunda versão da célebre frase que proferiu em Novembro de 1993, ao falhar a qualificação para o Mundial dos EUA também como seleccionador português. “É preciso varrer a porcaria que há na federação portuguesa. Há muita coisa para mudar!”, disse então, selando o seu destino. Numa situação e noutra, com 17 anos de diferença, a táctica era a mesma: descarregar responsabilidades. Desta vez, porém, houve uma pequena diferença: acossado pelos ecos da polémica, Queiroz procurou desmentir o que dissera, acusando a notícia do Sol de ser uma “desonestidade, uma vigarice, execrável, de uma baixeza que não tem limites”.

Sendo as coisas o que são, e tendo nos últimos dois meses sucedido o que sucedeu, ninguém tem hoje a mínima dúvida de que aquelas palavras foram realmente proferidas, como na altura sustentou o jornal, contra as exclamações de dúvida do clube de fãs do seleccionador. Depois disso Queiroz disse muito pior, nomeadamente ao aludir à “cabeça do polvo” numa inenarrável entrevista ao Expresso em que pôs em causa a sanidade mental de Nani e revelou que Cristiano Ronaldo perderia a braçadeira de capitão sem ter falado previamente com o jogador. Para trás tinha ficado uma inaceitável agressão ao comentador Jorge Baptista, a mal explicada lesão de Nani e um acto de indisciplina de Deco que ficou impune. Em qualquer dos casos, o seleccionador esteve mal.

Nada que surpreenda excessivamente quem ande atento ao futebol. Queiroz tem protagonizado uma história de desencontros com federações ao nível das selecções A. Não só em Portugal. Em Março de 2002 foi afastado do cargo de seleccionador da África do Sul por ter entrado em ruptura com os dirigentes federativos locais – um caso que não tem sido devidamente recordado para ajudar a enquadrar melhor o lamentável processo que culmina agora com o seu despedimento pela FPF.

Há dois anos, quando retomou o cargo de seleccionador, praticamente todos os comentadores futebolísticos – com a notória excepção de Jorge Baptista – elogiaram a escolha do presidente da FPF, cumulando Queiroz de elogios. Houve mesmo quem confundisse análise com idolatria dizendo frases como esta: “Eu não duvido nunca das capacidades de Carlos Queiroz.” E como esta: “É um treinador necessário a qualquer federação de futebol do mundo.”

Agora, depois dos jogos contra Chipre e a Noruega, estas frases adquirem um tom de involuntária ironia, naturalmente digna de registo. O problema é que foi também por causa disto – desta falta de perspectiva crítica de certos comentadores com demasiada tendência para exibirem as suas relações de amizade – que o futebol português bateu no fundo. E tão cedo não se levanta.

Foto Record

ADENDA – Ler Dados para uma equação a várias incógnitas, de António Boronha.

25 comentários em “Bateu no fundo”

  1. “Agora, depois dos jogos contra Chipre e a Noruega, estas frases adquirem um tom de involuntária ironia, naturalmente digna de registo”

    mas Carlos Queiroz foi o treinador da seleção nacional nesses jogos ? pelo seu discurso até parece que foi…

      1. Carlos Queiroz é que não o vi a treinar a seleção para os jogos do Chipre e da Noruega

        o treinador foram os jornalistas, comentadores, o laurentino dias e companhia…estavam todos a torcer para que Portugal perdesse!! se fosse o contrario, nunca teria havido condições para que um secretario de estado, na vespera de dois jogos importantes, desse uma conferencia de imprensa com o objectivo claro de desestabilizar a seleção! nem a nossa comunicação social teria escrito e organizado debates com o objectivo claro de criar um ambiente negativo em torno da seleção! tão todos de parabens…

  2. Isento e comedido, como é hábito.
    Infelizmente, a mais profunda verdade.
    Se Carlos Queiroz conhecesse a palavra comedido, teria melhor futuro, provavelmente, em vez das infelicidades que só o envergonharam. A ele e a todos nós.
    Pela boca morre o peixe, já dizia a minha querida avozinha.
    Só saio daqui, morto!, dizia ele ….

      1. Seria agradável que agora, após este penoso período de queda futebolística, critérios de exigênca e competência norteassem a escolha do seleccionador. Digo eu…

      2. Podiam era ter feito logo isto a seguir ao jogo com a Espanha. No máximo, teríamos todos perdido uma novela de muito má qualidade.

        Enfim, agora começa a travessia do deserto. Vamos ver quem sai na rifa para o próximo auto de fé da federação…

        1. Podiam e deviam ter feito isso logo após o Mundial, como aliás sucedeu com várias selecções que participaram na África do Sul. Umas por evidente má prestação, outras por não terem ido além do assim-assim. Foi o caso da nossa.

  3. Concordo com o que escreve sobre o ex-selecionador nacional, Pedro, mas todo este processo, que culmina com o despedimento de Queiroz, é vergonhoso. E sim, os nomes avançados na comunicação social são de arrepiar!

          1. Estamos a pensar em duas questões diferentes, Pedro.
            Quando escrevo tudo, é mesmo tudo, a começar na estrutura dirigente.
            A convocatória de uma Assembleia Geral cheira-me a uma tentativa dos caciques da FPF buscarem maior legimitidade para continuarem agarrados aos
            lugares que ocupam.
            Com a conivência das Associações Distritais.
            Quando varre só uma parte da porcaria a casa não fica limpa.

          2. Certo, Pedro. Mas é claramente uma questão a resolver em dois tempos. Já iniciada a campanha do Europeu, com os resultados que sabemos, há que solucionar de imediato a questão do seleccionador. Receio, no entanto, que esta solução seja má. Para não dizer péssima.

  4. Muito bem visto e melhor escrito. Parabens Pedro pela analise.

    Apesar de tudo, fico com a ideia que o Sr. Queiroz, o qual nao estou a defender, até porque desde o inicio da preparaçao para o mundial se revelou uma má escolha, acabou por ser o bode expiatorio da incompetência do Sr. Madail e até do Sr. Laurentino. Tambem a eles deveriam ser pedidas responsabilidades e impostas consequencias. Ao sr. Madail pelo vergonhoso historial de desastres ao serviço da FPF, ja nem quero falar da idoneidade da pessoa, isso ficaria para outro post mais qualificado. Ao sr. Laurentino por como representante dos interesses de Portugal neste campo, ter permitido que sequer este triste episódio ter chegado onde chegou, a todos os níveis.

    1. A escolha de Queiroz foi péssima, como sempre escrevi, mesmo quando gozava de quase unanimidade nacional e a grande maioria dos comentadores o considerava muito superior ao Scolari. O secretário de Estado esteve mal, como também já escrevi.

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