Batatas


Ana Vidal,

“Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria e ousadia da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”

 

(Quincas Borba, Machado de Assis)

 

Custa a engolir, mas é assim mesmo. Entre a justiça e a sobrevivência nunca há muito que escolher.

Nota: A perenidade dos grandes textos deixa-me sempre fascinada.

 

0 comentários em “Batatas”

  1. “…e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói…”

    Com suficiente ideologia/religião é possível.

    Mártires?
    Auto destruição Marxista?
    Tantas sociedades que escolhem empobrecer e ser destruídas ou pelo menos tentar a autodestruição.

    1. Não vejo “sociedades” a tentarem autodestruir-se conscientemente. Mas sim, tem razão quanto a grupos específicos manipulados por líderes astutos – através de uma religião ou de uma ideologia – em função de um objectivo que muitas vezes desconhecem.

      1. Não me parece que os Alemães não soubessem quais as intenções de Hitler.

        Brasil um país naturalmente riquíssimo estoirou. Outra vez. Pelas mesmas razões de sempre. Pode-se ser permanentemente inconsciente?
        A Venezuela com as maiores reservas de petróleo tem filas para compra de produtos essenciais.

        A China supostamente uma civilização milenar ao fim de 2000 anos adoptou um culto Europeu com uma estrela vermelha e matou milhões de chineses para o implementar. Mao continua nas praças principais.
        A Rússia com uma cultura rica não produziu, ou seja não existiu como cultura, nos últimos 90 anos de controlo pelo mesmo culto. Um deserto. Só propaganda, morte e industria militar. Mas Estaline continua ser adorado por boa parte da população.

        Mussolini entrou numa guerra porque dizia, precisava de 1000 baixas para poder ter lugar na Conferência de Paz que iria dividir as possessões da França após a sua derrota pelos Nazis, pelo caminho quase destruiu o país e foi morto. Milhares de Italianos continuam a dizer que foi grande líder.

        Portugueses confiaram no Ditador-Pai que os deixou tão protegidos e doutrinados que da noite para o dia quase todos se tornaram socialistas, comunistas, trotsquistas, maoistas, enver hoxistas, titistas e pelo caminho destruíram empresas e propriedade só comparável às invasões francesas. Estes portugueses continuam a ser muito elogiados e com lugares de destaque. E Salazar ainda há pouco foi considerado o maior português.

        Quando a elite Lisboeta começa o discurso de desprezo quando não ódio ao turista devido ao sucesso do turismo percebemos que o que está por detrás não é ódio ao turista mas ódio e pulsão destruidora ao sucesso dos outros. Está por detrás o desejo de desenhar a sociedade a regra e esquadro.

        Portugal foi parar à bancarrota 3 vezes durante 40 anos. Vamos a caminho da quarta. 4 em 40 anos é ainda inconsciência ou já desejos suicidas?

        A União Europeia com a Alemanha à cabeça aceita imigrantes de culturas e religião totalitária violenta, sexista e em guerra civil , Wolfgang Schlaube diz que a Alemanha tem de aceitar esses imigrantes porque um pais de 80 milhões de pessoas está em risco de degenerescência genética por endogamia…
        Mas fazer comércio livre com as sociedades asiáticas mais dinâmicas e pacificas não.

        A pulsão suicida faz parte da sociedade moderna, pois as pessoas precisam de dar significado à vida sentindo-se importantes. E só se sentem importantes intervindo na vida dos outros.
        Dá como resultado guerra, morte, destruição e decadência.

  2. Como parábola é um bocado coxa.
    Se as tribos estavam tão fracas a guerra muito provavelmente levava à destruição das duas.
    De qualquer modo as coisas nunca são tão simples. Podemos inventar uma história com cenouras em que é preferível cooperar do que guerrear.
    O que também não levava a nenhuma conclusão válida.
    O ponto é que a parábola é inventada para encaixar na ideia preconcebida, logo justifica-a. Mas é isso que se pretendia no início, não justifica nada.

  3. Conversa de treta, justificação bacoca de que é melhor para a espécie humana matar uns tantos para os que ficam ficarem eventualmente obesos com excesso de comida. Esse texto não demonstra nada.

    1. Pelos vistos para si todas as declarações devem ser uma afirmação de virtude bacoca – neste caso a palavra “bacoca” fica bem empregue – mesmo que falsa.

      Ou você está tão certo da abundância que não concebe a escassez e não quer entender ou então julga que não se deve dizer sobre pena de afectar as mentes mais fracas de como a civilização é afectada pela realidade.
      O exemplo é rabuscado, poderia ser uma nascente num oásis mas está lá.

  4. A guerra mais famosa apresentou como motivo uma mulher, e não uma batata helénica.
    As batatas sendo tubérculos americanos nunca serviriam para justificar as velhas guerras europeias.
    Não, a culpa não é das batatas, é da infindável caça aos gambuzinos, disfarçada pela “lógica da batata”.
    As guerras do velho mundo sempre usaram a lógica da batata para se justificarem, com esse condão da lógica da batata ser infindável para justificar novas guerras.
    Sempre que houver um gambuzino na mira, aparece a lógica da batata, mas o verdadeiro motivo não é a batata de que todos falam, mas sim o gambuzino de que ninguém ousa falar.
    Qual é o gambuzino na história? É o medo dos outros.
    Quem preza as batatas, inventa o medo de as perder para os esfomeados, porque não chegam, ou porque assim os esfomeados ficam fortes.
    Com essa lógica da batata, arranja nas suas hostes uma razão preventiva para atacar os esfomeados, nem que deite a culpa num esfomeado que roubou uma batata. Oh! A sagrada batata foi roubada, que destino funesto aguardará o batatal?
    Esse texto é uma elegia da caça aos gambuzinos, sob o pretexto das batatas.

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