Baixa-mar


Teresa Ribeiro,

 

Parado no areal, o cão olhava um ponto difuso, indiferente ao movimento dos veraneantes. A expressão era sofrida.  Representava a dor física e psicológica com uma intensidade difícil de surpreender em rostos humanos. A uns metros um gato esquálido parou a avaliá-lo, mas logo se desinteressou, voltando à sua vidinha de trinca-espinhas desenrascado. Até para os felinos com um terço do seu tamanho se tinha tornado irrelevante. Dizem que os animais não têm consciência de si, mas este sabia-se transparente. Caminhava entre as pessoas sem as encarar com a desenvoltura de um agente camuflado e de facto nem para ele olhavam, apesar de ser grande.

Do toldo segui-o. Cheguei mesmo a rodar o tronco para o ver passar, emocionada com a minha própria compaixão. Mas também a mim o cão ignorou e quando se perdeu no horizonte meti a minha bestial sensibilidade onde ele me mandou meter.

“O meu apartamento não é assim tão grande e o gato não o consentiria lá em casa”, ainda argumentei antes de me voltar para apanhar um banho de sol.

16 comentários em “Baixa-mar”

    1. E tu também a mim, João. Gosto muito de voltar a ler-te, ou seja, a ver-te. Com os teus bolos de noiva e mamarrachos mal amados e o dedo espetado nos erros de português 🙂

    1. Podia ser um pequeno exercício de ficção, mas tudo isto se passou, Sérgio. Portanto foi uma catarse. Aconteceu há já vários dias, mas não consegui esquecer aquele canito. Procurei ser o mais exacta possível para poder partilhar convosco o que senti. E o que senti é que somos uma raça muito reles, perdoem-me a franqueza.

  1. Foi um dos textos que mais gostei de ler desde sempre neste blogue, Teresa. Diz-nos muito sobre tanta coisa. Quase como se não dissesse.
    O que é sempre a melhor forma de dizer.

  2. Muito bom, Teresa. E o pior é que se aplica a humanos também, párias transparentes que vagueiam como fantasmas entre os “vivos”. E o pior é que esses vivos não o estão assim tanto, afinal. E o pior é que, na maior parte dos casos, nem sequer dão por isso.

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