Aventais são difíceis de rasgar


Pedro Correia,

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Consta que Rui Rio andará muito preocupado com possíveis infiltrações da Maçonaria no PSD. Admiro-me pouco ou nada. Este é um tema recorrente na logomaquia do seu principal mentor ideológico, o doutor Pacheco Pereira: quando a matéria noticiosa não abunda, recorre ao velho truque retórico de espadeirar contra maçons. Uma espécie de Bei de Tunes à moda da Marmeleira.

Lamento contrariar este par de sumidades, mas Rio não irá longe neste combate. Se quiser gastar energias a pelejar contra a Maçonaria, terá de riscar grande parte do regime republicano: o 5 de Outubro foi conduzido por conhecido maçons e a história dos últimos 110 anos em Portugal, gostemos ou não, teria sido bem diferente sem eles.

 

2

Pelo menos três Chefes do Estado na I República pertenceram à organização que Rio parece abominar: Bernardino Machado, da Loja Perseverança de Coimbra, desempenhou as funções de grão-mestre do Grande Oriente Lusitano Unido; Sidónio Pais foi iniciado na Loja Estrela de Alva, de Coimbra, embora já não fosse maçom quando ocupou o Palácio de Belém; e António José de Almeida, filiado na Loja Montanha, de Lisboa, chegou a ser eleito grão-mestre do Grande Oriente Lusitano Unido para o triénio 1929-1931, acabando por não exercer o cargo devido à doença que viria a vitimá-lo.

 

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A Maçonaria, que esteve no 5 de Outubro, viria igualmente a comparecer no 28 de Maio.

O contra-almirante Mendes Cabeçadas, um dos protagonistas desse golpe militar e Presidente em funções durante um curto período em 1926, estava filiado na Loja Pureza, de Lisboa. Também o marechal Óscar Carmona, até hoje o mais longo detentor do cargo presidencial e figura angular do Estado Novo, aderiu à Maçonaria, aliás «ainda antes do fim do século», conforme indica a própria página oficial do Museu da Presidência da República.

 

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Salazar e Marcello Caetano – como Rio – não se deixaram contaminar pelos ritos maçónicos. Mas com o 25 de Abril os maçons regressam ao primeiro plano da política. Mário Soares, como ele próprio revelou, foi iniciado na Grande Loja de França, em Paris, e numa visita feita ao Grande Oriente Lusitano chegou a ser tratado como «poderoso irmão», segundo revelou o historiador António Ventura ao jornal i.

Maçon era também Adelino da Palma Carlos, o primeiro chefe do Governo após a Revolução dos Cravos. Por sinal um homem de quem o fundador do PPD/PSD, Francisco Sá Carneiro, foi muito próximo – a tal ponto que, sendo ministro sem pasta, abandonou o I Governo Provisório, ao fim de 55 dias, em solidariedade com o chefe do Executivo, quando Palma Carlos entendeu demitir-se.

 

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Mas a influência da Maçonaria na política portuguesa é anterior à república: já colhia simpatias na dinastia Bragança, nos dois lados do Atlântico.

O Rei D. Pedro IV – imperador Pedro I, do Brasil – ascendeu a grão-mestre da Maçonaria no país irmão: chegou mesmo a compor o hino maçónico brasileiro. Seu filho Pedro de Alcântara, que ocupou o trono imperial no Rio de Janeiro como Pedro II, «embora nunca se tenha filiado na Maçonaria, frequentava as lojas e acompanhava com interesse as discussões políticas e filosóficas que ali ocorriam», como revela o historiador Laurentino Gomes no seu livro 1889.

Diversas eminências do liberalismo constitucional – incluindo chefes de governos ao longo do século XIX, como Passos Manuel e o Duque de Saldanha – também tiveram filiação maçónica. Eram pedreiros-livres, como se dizia à época (maçon, em francês, significa pedreiro).

 

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Falta acrescentar que a Maçonaria também deixou marca na história do PSD – facto que Rio e o seu mentor parecem ignorar.

Emídio Guerreiro, que liderou o então PPD no turbulento período do “Verão quente” de 1975, era maçom desde 1928, tendo escolhido o pseudónimo Lenine. Quando faleceu, aos 105 anos, foram-lhe prestadas honras fúnebres na sede do Grande Oriente Lusitano (GOL), em Lisboa. E Nuno Rodrigues dos Santos, dirigente máximo dos sociais-democratas no período 1983-1984, fora iniciado em 1935 na Loja Magalhães Lima, também na capital portuguesa, com o pseudónimo Danton.

 

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Muitas dores de cabeça, portanto, para o sucessor de Pedro Passos Coelho no partido das três setas: a monarquia constitucional, o regime republicano, o 25 de Abril,  o primeiro-ministro de quem Sá Carneiro foi tão próximo e a própria história do PSD.

E como se tudo isto fosse pouco, até o homem que agora lhe assegura a comunicação no partido, João Tocha, confessa pertencer desde 1991 à Loja Lusitânia do GOL.

Nada escapa às infiltrações dos temíveis pedreiros. Rui Rio merece um aceno de comiseração: a vida é dura para quem se dedica a rasgar aventais.

26 comentários em “Aventais são difíceis de rasgar”

  1. Até que enfim que o Pedro Correia diz alguma coisa sobre a disputa interna no PSD! Eu já andava a estranhar o silêncio…

  2. A mim sempre me pareceu que Rui Rio é demasiado recto para a politiquice e jogos de interesses.

    Não vai durar muito mais, especialmente se quiser rasgar aventais.

    PS_ entretanto tenho-lhe a agradecer o uso da palavra logomaquia, devia ser um adesivo colado na testa de Pacheco Pereira

  3. Ainda bem que Portugal tem sido nos últimos duzentos anos um País próspero, sem desigualdades, sério, sem corrupção, sem compadrios, sem endogamias. Respeitado e admirado na comunidade internacional. Se ouvíssemos essa gente medonha, provinciana e reacionária que se atreve a questionar a bondade da Maçonaria, seríamos um País desgraçado.

    Agradeçamos à Maçonaria o País que temos e os grandes feitos do último par de séculos.

    1. Não podendo já agradecer a D. Pedro IV, ao Duque de Saldanha, a António José de Almeida, ao marechal Carmona e ao ex-líder do PPD Emídio Guerreiro, o melhor é dirigir o agradecimento ao actual responsável pela comunicação do PSD.

      1. Aprendo muito no DO. Agora sem ironia.

        Não me parece mal que RR tenha tradutor de ‘interessesguês’ para comunicar com o resto do País. De outra forma, não se safava.

  4. Estimado Pedro Correia, não me leve a mal. O seu último parágrafo não é muito promissor. Deixa no ar a ideia de que quem critica a maçonaria sofre consequências, ou seja, é punido. Isso não abona em favor de todos os nomes que citou no seu artigo nem em favor da própria maçonaria.
    Se as coisas se passarem como insinua nesse último parágrafo, então a maçonaria não tem lugar num Estado de Direito Democrático. Não sei se me faço compreender. Cumprimentos, Bruno Santos

      1. Eu compreendo que não. Até porque Anders Behring Breivik verte uma nova Luz sobre a história recente da dita maçonaria. História essa que, como certamente sabe, começou nos minerais.

  5. Várias Maçonarias nasceram e sobrevivem, vai para alguns (poucos) séculos.
    São hierarquias de poder, político, financeiro e mesmo cultural. Contêm e transmitem algo que seduz a uma parte da sociedade.
    Por isso vivem adaptando-se ao seu tempo, às circunstâncias.

    Não é em vão que a Igreja de Roma -veterana nas andanças do poder temporal- sente por ali um perigoso rival. Consta que já, por várias vezes, atirou a primeira pedra para Templos alheios, esquecendo-se que têm telhados (e vitrais) de vidro.

  6. ‘…os últimos 110 anos, gostemos ou não, teria sido muito bem diferente sem eles’
    Quer dar um pequeno exemplo do que ‘teria sido muito bem diferente’. O regime republicano?
    Mas como seria isso possível se o próprio movimento republicano é uma ideia maçónica?
    Sem maçonaria não haveria o regime republicano.

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