(José Bandeira/JN)
O lisboeta acorda, espreita pela janela, tira uma fotografia à coisa branca no asfalto (neva na rua dele!); não é neve, é granizo, faço ideia o quanto se ririam disso a norte mas no fundo é tudo igual, tudo coisa branca, conheço quem a odeie porque tem que lhe aturar as inconveniências metade do ano. O lisboeta lava-se, agasalha-se um pouco mais do que o costume e sai para a rua. A medo pisa a coisa branca, confirma que escorrega muito, troca duas palavras de espanto com a empregada da boutique do rés-do-chão e lá vai, adaptado, para o seu emprego, ou para o seu desemprego, ou para o que calhe, como se este clima parisiense lhe fosse a coisa mais natural do mundo. Estou a vê-lo ao fundo da rua, já corre, é para não perder o autocarro.
Não veste licra quem quer, veste quem pode. Platão escreveria talvez um Sócrates olhando o lustre das nádegas do Alcibíades num calçãozinho de ciclista e dizendo que o Belo é o Justo e vice-versa. O rascunho de atleta que entra no café Africano, ao Dafundo, é de outras partes e já traz de lá a bebedeira feita, vem só por uma bica e uns fiapos de conversa. Faz muitas perguntas ao Euclides, se costuma estar aberto até tarde, se vende isto ou aquilo, se conhece não-sei-quem que é dali da Cruz Quebrada. Enfim, quer dar ideia de que aquele é um encontro ditoso para o proprietário do estabelecimento, que de onde veio aquela moeda de cinquenta há um tesouro de proporções asiáticas, que em sentindo aconchego pode vir a tornar-se cliente frequente e importante. Jamais será uma e outra coisa e o Euclides sabe disso, mas lá vai fazendo que sim com a cabeça e soltando o “’tá bem, ’tá bem” que sói usar quando não está para dar atenção ao que os bêbados lhe dizem.
O ciclista da licra amarfanhada demora-se à porta, quer sair mas luta com alguma coisa que o incomoda ao nível da cintura, do peito, das ancas, talvez um esquecimento. Pense numa dessas pinturas de Jacob lutando com o anjo, tire o anjo e lá fica ele, o ciclista sem bicicleta, atabalhoado e falho de sentido.
Dá para viver sem se ter conta no banco? O Euclides, do Café Africano, consegue. Não que seja fácil, note. Por exemplo, ele queria telefonar hoje para o filho, em Cabo Verde, e a papelaria onde costuma fazer carregamentos no telemóvel está fechada, como aliás o Dafundo inteiro. A falta que faz um cartão Multibanco, tem é que haver uns trocos na conta, claro, o problema do Euclides é mais esse. Já de si, os telefonemas para o rapaz exigem uma certa logística. Em casa dele, em São Vicente, não há telefone. É um amigo, dono de uma venda na ilha, que facilita o uso do aparelho. No fim de cada conversa, forçosamente rápida, estuda, porta-te bem, mandei-te 20 euros pela tia, pai e filho combinam dia e hora para o telefonema seguinte. É muito chato, triste até, isso de o rapaz estar à espera na manhã de ano novo de um telefonema do pai e ele não chegar. Então decido ir carregar o telemóvel do Euclides numa caixa da Rua Direita do Dafundo. Cai uma bategada e eu aguardo um pouco debaixo de um toldo antes de regressar. Quando chego ao café já a conversa vai na despedida, os carregamentos pelos vistos são instantâneos, eu não sabia porque sempre tive assinatura. Pergunto ao Euclides como está o miúdo. “Óptimo”, diz, “O 12º ano está a correr bem”. E depois, com um grande sorriso, “Ele manda um abraço para o fotógrafo”. E vai buscar moedas para me pagar.
Não fosse eu a mexer-me e o Euclides deixava que o Natal passasse pelo Café Africano sem árvore nem luzinhas nem nada. Bem sei que ele não tem um tostão, ou se tem é para mandar para o filho na ilha de Santiago, mas estabelecimento de comes e bebes sem árvore de Natal nesta altura do ano é como Campo de Ourique sem a Ferreira Borges, perdoe o paroquialismo. Pergunto ao Euclides onde é que no Dafundo se vendem decorações de Natal e ele diz, “Na loja do chinês”. Parvoíce a minha, a resposta seria a mesma aqui como noutro bairro qualquer. “Olha, uma daquelas latinhas para as pessoas porem moedas é que era”, diz. Metade desta gente tem reformas de brincar, os outros ou estão desempregados ou são mal empregados, há-os até que dormem debaixo da ponte da estação da Cruz Quebrada, e no entanto a ideia não me parece absurda, sei lá porquê. Vou ao chinês e escolho a árvore e uma fiada de luzes. Latas é que só as há com notas de banco estampadas, e logo de 20, 100, 200 e 500 euros. Todas custam o mesmo, 1,5 euros, veja como de facto há diferença entre preço e valor. Pergunto à menina da loja se não tem latas com um motivo mais da época, umas renas, flocos de neve, coisas assim, ou pelo menos que não façam lembrar tanto a alta finança. Ela diz que não com uma expressão que eu poderia jurar de genuína tristeza nos olhos orientais. Decido-me por uma de vinte. Por iniciativa própria, a menina acrescenta-lhe uma estrelinha amarela que faz toda a diferença.
Hobbes escreveu no seu Leviatã que roubar um pobre é crime mais grave do que roubar um rico, mas ele publicou isso há já uns quê, quase 400 anos e veja como as coisas evoluíram. Nunca fiando: é preciso engendrar um modo de prender a lata ao balcão. Um dos reformados de serviço à mesa do dominó sugere – talvez por ligeireza na abordagem técnica do problema, ou então é piada, com eles nunca se sabe – que se use cola-tudo. Já o senhor P., que divide o interesse pelo que ali se debate com o que lhe suscita um prato de frango com esparguete, propõe que se lhe faça, à lata, uns buraquinhos e que por estes se corra um arame, sendo depois questão de o prender a qualquer coisa rija; não os havendo na casa, ele mesmo está na disposição de fornecer os materiais, leia-se o arame e a broca, e os imateriais, que são a mão-de-obra. Alguém aponta um buraco no balcão. Era por ali que dantes passava o tubo para a máquina de tirar imperiais que se foi por falta de dinheiro para a manter, já me tinham explicado o mistério daquele buraco, enfim, enquanto houver minis há esperança. É fácil passar por ali o arame. Ainda assim o Euclides está renitente, diz que lhe custa estragar a lata. Só depois de confirmar que ela não tem abertura fácil, que é um sistema fechado, opaco como o são todos os sistemas financeiros, parece conformar-se.
Conheço o Euclides, sei que ainda vai dedicar um bocadinho de tempo a pensar no assunto, talvez mesmo esperar pela opinião do Zé, o tal que em miúdo andou ao colo da Condessa de Ribamar e que tem resposta para todas as questões do lado de cá da Física. Logo vão juntar-se uns cinco ou seis de volta da lata e do balcão e da árvore e cada um dará o seu palpite. O Euclides tem todo o tempo do mundo, esta é a sua fortaleza no deserto dos tártaros, se ele está seguro de alguma coisa é de que tão cedo não vai a lado nenhum.
“Não existem mudanças de regime, apenas de polícia”
(Cioran, citado de memória)
«The girl wrote a story. “But how much better it would be if you wrote a novel,” said her mother. The girl built a dollhouse. “But how much better if it were a real house,” her mother said. The girl made a small pillow for her father. “But wouldn’t a quilt be more practical,” said her mother. The girl dug a small hole in the garden. “But how much better if you dug a large hole,” said her mother. The girl dug a large hole and went to sleep in it. “But how much better if you slept forever,” said her mother.»
Manuel António Pina dizia que qualquer texto pode, no limite, ser reduzido a uma palavra apenas. A nova-iorquina Lydia Davis ainda não chegou a tanto (ou tão pouco), mas não por falta de tentar:
“It has been so long since she used a metaphor!”
Percebe-se melhor a opção de Lydia Davis pelo conto curto quando se conhece dois factos: 1) é preguiçosa, e 2) traduziu Proust. Mas nem todos os contos de Lydia Davis são tão curtos quanto o supracitado. Os maiores estendem-se por uma dúzia de páginas. Outros, sendo de facto curtos, apenas porque conhecem o porteiro entram na categoria de contos. Não há propriamente respeito pelas regras do género. Os personagens só excepcionalmente têm nome, ou por nome têm todo um programa (“Old Mother”, “the Grouch”). Os locais são de geografia incerta. O narrador, quase sempre uma mulher, pode ou não ser a autora (que sei eu), mas em muitos casos é impossível ignorar uma voz autobiográfica. E por sobre todos os textos, não importa o quão desconcertantes ou desesperados, adeja um sentido de humor apurado. Certo é que cada conto – ou o que se lhes chame – é como que um monobloco, uma entidade tão acabada e expurgada de elementos supérfluos que qualquer adição ou subtracção, parece-me, a tornaria uma coisa completamente outra.
“My mother’s dream is that someday she will save enough money to leave me and live in the country.”
Eu queria ser mais crítico, escrever uma recensão digna do nome, falar em como o estilo cirúrgico de Lydia Davis contém e transforma, mas de todo anula, as emoções; fico com a sensação de que já escrevi palavras a mais quando o que queria dizer era tão-só “Leia Lydia”. Ponto. E desculpe as citações em inglês, mas tenho apenas a versão na língua original.
“I have decided to take a certain book with me when I go. I am tired and can’t think how I will carry it, though it is a small book. I am reading it before I go, and I read: ‘The antique bracelet she gave me with dozens of flowers etched into the tarnished brass.’ Now I think that when I go out I will be able to wear the book around my wrist.”
E tu, caríssimo Fernando, diz cá – por que páginas vens tu passeando os olhos nestes dias?