
Augusto Cid vai fazer muito falta. Era um cartoonista com um traço perfeito e com um sentido de humor corrosivo, sendo absolutamente implacável para com os políticos, que arrasava nos seus cartoons. Cunhal era desenhado com traços vampirescos, Eanes parecia um militar sul-americano, e Soares era um bonacheirão, enquanto que Balsemão nem sequer tinha rosto. Mas especialmente Cid não hesitava em tomar partido por aquilo em que acreditava, como na sua batalha para tentar demonstrar a existência de crime em Camarate.
Muitas vezes a sua voz incomodava a classe política, mas Cid tinha sempre uma resposta demolidora. Lembro-me que uma célebre política o acusou de estar a prejudicar o combate político do PSD com as suas posições, embora reconhecendo-lhe o estatuto de melhor cartoonista português vivo. Ele agradeceu o estatuto, mas disse que via nesse elogio uma ameaça velada, parecendo-lhe que corria o risco de passar a ser o melhor cartoonista português… morto. Uma pena que Cid, a meu ver o melhor cartoonista português de sempre, tenha morrido precisamente nestes tempos do politicamente correcto em que os seus cartoons demolidores eram cada vez mais necessários.

Era um tipo marcadamente de direita e que fazia uns desenhos muito foleiros. A mim não me vai fazer falta nenhuma, muito pelo contrário.
Oh Lavoura, tomara você, sendo de esquerda,centro ou direita, ter um centésimo da habilidade para fazer uma linha recta, foleira, como a fazia o Cid.
Mas acha que alguém se importa em saber se o Cid lhe faz falta ? Até que devia fazer, educava-lhe o gosto por aquilo que era uma verdadeira arte da caricatura ; enxergue-se, homem, custa ver tamanhas exibições de sobranceria bacôca.
1º parágrafo: tem toda a razão, eu não tenho jeito nenhum para desenhar, e bem gostaria de ter algum.
2º parágrafo: lá por o homem ter morrido não é razão para todos dizermos bem dele. Tal como a outras pessoas, por exemplo ao autor deste post, lhes apraz dizer bem, e não são criticadas por o fazerem, eu tomo a liberdade de dizer mal, e acho que também não deveria ser criticado por esse facto.
Para início e fim de conversa, caro Lavoura : sensibilidade e bom senso.
É só. Passe bem.
Não vale a pena. Tem muitas páginas. Cansa. É um calhamaço – calhamaço inútil, decerto – pelo critério lavoural.
Costa
Isso do não fazer falta, muito pelo contrário, é mesmo para indicar que lhe faz falta para uma lavourada. Ou será também muito pelo contrário?
Não era canhoto, é isso?
Já a falta que o Lavoura nos faz…
“Já a falta que o Lavoura nos faz…” Até que faz. Pelo menos é dos poucos que dá pedradas no charco.
Justa e desassombrada referência neste espaço Delituoso que é uma exemplar referência.
Merecidíssima evocação do grande Augusto Cid, um dos mais notáveis cartunistas portugueses do século XX – e que nos últimos anos, lamentavelmente, não viu o seu talento aproveitado na imprensa portuguesa, que prefere o culto da mediocridade e do respeitinho, fugindo de irreverências. E o Cid – felizmente para nós, que tivemos o privilégio de acompanhar o seu trabalho – foi sempre irreverente. Ao contrário de alguns colegas do ramo, que se especializaram em vénias ao poder: há anos que são incapazes de produzir um “boneco” que incomode seja quem for.
Ao seu comentário, caro Pedro, respondo : game, set and match.
Abraço amigo
( um café/almoço/you name it , um dia destes ? )
Com todo o gosto, caríssimo.
Conheci-lhe o traço pelo “Eanito, El Estático”. Creio que esse livro está proibido, o que só abona em seu favor.