Atirados borda fora.


Luís Menezes Leitão,

António Costa tinha uma estratégia que sempre achei absolutamente suicidária para o PS, mas que tinha alguma lógica política. A lógica passava pela repetição da velha FRS, uma ideia de Soares de abrir o PS à esquerda como contraponto à AD, sem, no entanto, fazer acordos com o PCP. António Costa imaginou assim fazer o PS apresentar-se a eleições com um discurso mais à esquerda, que seria apoiado por outros partidos de esquerda, mais colaborantes do que o Bloco e o PCP. Essa fórmula visaria dar ao PS uma imagem frentista que permitisse roubar algum voto aos habituais irredutíveis partidos da esquerda parlamentar, tradicionalmente incapazes de qualquer concessão ideológica a troco de lugares de governo.

 

É assim que surge o Livre de Rui Tavares, a partir de uma cisão do Bloco de Esquerda, que propugnava o apoio ao PS. O Livre chegou mesmo a ser convidado para os congressos do PS e, se tivesse eleito deputados, faria um grupo parlamentar totalmente alinhado com o PS, imitando a relação do PEV com o PCP.

 

Ao mesmo tempo, qual cereja em cima do bolo, o PS apoiaria um candidato presidencial que encabeçasse essa nova frente de esquerda. Sampaio da Nóvoa, com o seu discurso gongórico e o seu inexistente passado político, era a pessoa ideal para o efeito, podendo atrair as esquerdas desavindas e tapar o caminho a Marcelo. Foi assim que Sampaio da Nóvoa foi estimulado a avançar por António Costa, com o apoio de três anteriores presidentes da república e era convidado habitual em todas as sessões públicas organizadas pelo PS.

 

Esta estratégia era, no entanto, absolutamente assustadora para o eleitorado do centro, que nesse cenário iria obviamente apoiar a coligação, e nas presidenciais irá todo direitinho para Marcelo. E a verdade é que também foi ferozmente combatida pelos partidos à esquerda do PS. Catarina Martins encarregou-se de reduzir o LIvre a zero, e agora Jerónimo de Sousa, ao mesmo tempo que promete apoio a um governo PS, já apresentou um candidato presidencial próprio “para a primeira volta“, o que reduz a nada as hipóteses de Sampaio da Nóvoa ser eleito. E o próprio PS mostrou que não se deixava arrastar desta maneira para o desastre, tendo surgido a candidatura de Maria de Belém, que obviamente tem muito mais hipóteses do que a de Nóvoa.

 

Perante isto António Costa esqueceu-se do apoio que deu ao Livre e a Sampaio da Nóvoa, avisando agora que vai dar liberdade de voto “na primeira volta“, ao mesmo tempo que os próprios iniciais apoiantes de Nóvoa lhe dão indicações para desistir. Este, no entanto, parece que ainda não percebeu o que lhe aconteceu e deu ontem uma conferência de imprensa a avisar que não desiste, salientando que as eleições legislativas reforçaram a “urgência da candidatura” e apelando ao “compromisso histórico” com os partidos que ainda não tiveram oportunidade de formar governo, parecendo assim querer liderar uma coligação PS+PCP+BE. Só se estivesse tudo doido no PS é que os seus militantes alinhariam num disparate semelhante.

 

Neste momento António Costa só quer salvar a pele como líder do PS e já atirou pela borda fora Rui Tavares e Sampaio da Nóvoa. O Livre provavelmente irá acabar, estando hoje reduzido a fazer peditórios para pagar as despesas da campanha. Já Sampaio da Nóvoa está muito enganado se julga que vai a algum lado sem o apoio do PS. Alguém que lhe explique como é que vai acabar o filme em que deixou que o colocassem como actor principal. É que a história da sua candidatura arrisca-se a ser a triste demonstração de que a política é um campo minado, e que não vale a pena alguém que nada sabe de desminagem, nem sequer onde as minas estão, entrar nesse terreno. 

0 comentários em “Atirados borda fora.”

  1. Não sou capaz de acompanhar seu raciocínio. Como será possível alguém apoiar alguém que não possui representação parlamentar, como é o caso de Rui Tavares?

    E também não consigo acompanhar o facto que impede Nóvoa continuar com sua candidatura independentemente de Maria de Belém e do candidato do PC.
    Em que dados se baseia que lhe garantam que não existe segunda volta e que ai possa haver migração de votos para o candidato mais bem posicionado à esquerda?

    Já reparou que a grande maioria do eleitorado do centro votou e PS e BE?

    Qual o centro a que se refere? A extrema qualquer coisa que pareceu governar durante estes 4 anos?
    Os que ganharam nas urnas contam com eleitores que já não possuem base ideológica. Dividem-se em 3 classes:
    – os traumatizados do passado que se mantêm no passado;
    – aqueles outros que aspiram viver num mundo de privilégios que escasseará:
    – os que desejam viver o fim de suas vidas com uns trocos para curar o reumático e que têm medo do papão.

    1. Este Vento devia passar urgentemente a ciclone ( norte dos açores)… O cara não concorda com nada… arranja sempre uns enredos estapafúrdios para contrariar… ele quer é paleio !!!

  2. Para além dos erros de palmatória que está a cometer, mostrando que ao contrário do outro que dizia que é um animal feroz, é um animal acossado, António Costa está a cometer outro que lhe vai ser fatal: está a menosprezar o Presidente da República, esquecendo-se que apesar de tudo, o Cavaco é o politico português há mais tempo no activo e que já comeu ao pequeno-almoço rapazinhos mais atrevidos e mais espertos do que o Costa.
    Depois do que se passou hoje de manhã, Cavaco chamou António Costa para ir ao Palácio de Belém na próxima 2ª feira, para, na minha modesta opinião, lhe transmitir qualquer coisa como o seguinte: se ele inviabilizar o apoio parlamentar à coligação, que se traduziria na abstenção do PS nas moções de rejeição do PCP e do BE ao programa do governo e no OGE para 2016, ele só indigita o Costa 1º ministro se ele lhe levar uma coligação formal com o PCP e com o BE, com a inclusão de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa como ministros , apoiada num programa de governo com medidas muito concretas de apoio explicito à continuação de Portugal na UE, no Euro e na Nato e um inequívoco compromisso com o Tratado Orçamental o que implica a continuação das politicas de controlo do defice e da despesa publica.
    O Costa vai de lá sair aos saltos e o que se seguir vai ser um belo filme.

    1. Tenho de concordar consigo. Costa está a pedi-las. Li num jornal online que Costa afirmou: “A coligação não necessita ser atrevida. Só precisa apresentar ideias”.
      Ora bem, na minha modesta opinião, exigir que a coligação apresente ideias é o mesmo que ir em busca de uma ruptura. Onde já se viu isto!?
      Não, Costa não pode pedir o impossível. E o PR na conversa com Costa vai ter de lhe dizer isto mesmo e encontrar uma alternativa governativa. Ou, em última instância, pedir novas eleições.

      Todavia, penso que o Presidente já chega tarde nesta convocação dos líderes partidários.

      1. Em matéria de ideias ninguém bate o Costa: teve a ideia de que se derrubasse o Seguro ia ganhar as eleições com uma robusta maioria absoluta e perdeu.
        Mas alguém teve a ideia mais brilhante de todas e o convenceu de que mesmo perdendo, seria possivel ser 1º ministro de um governo minoritário do PS com apoio parlamentar do PCP e do BE, que estariam ali apenas para lhe servir de muleta a ele e aos lunáticos que o aconselham e que querem ser ministros à viva força.
        Já que estamos a falar de ideias, podemos fazer ideia do que é que aconteceria ao país se esta loucura fosse prá frente. Apenas um exemplo: Portugal precisa de rolar quase 50 mil milhões de euros de divida publica até 2019: podemos fazer uma palida ideia do que seria o Costa andar a pedir dinheiro lá fora de braço dado com a Catarina e o Jerónimo.
        Sabe o que é que é mais engraçado? esta noite ouvi vários dos que andaram com o Sócrates ao colo durante mais de cinco anos, dizerem nas tvs que tudo isto é possivel! e mais engraçado ainda? é que depois de tanto disparate que eles disseram durante anos nas tvs e nos media em geral, eles lá continuam a dizer os mesmos disparates com a mesma cara de sempre. E ainda lhes pagam por cima!

        1. Não há dúvida nenhuma que nessa matéria ele tem a mesma ideologia da coligação. Veja bem que a coligação até fazia um discurso na abertura dos telejornais no dia das eleições e depois lá foi fazendo outro. Refiro-me ao discurso sobre uma maioria parlamentar.

          Bem, parece-me que a ideia brilhante surge precisamente desse PR, que o Alexandre diz que é papão, na sua declaração de 03 de Outubro onde pronuncia que o futuro governo tem de ter em conta o ordenamento parlamentar. Ironias do destino, meu caro.

          Em matéria de dívida na realidade o país é rolado e enrolado consecutivamente sobre esta matéria. Veja o Alexandre que a engenharia da mentira pronunciou que a Grécia engoliu sapos em matéria de suas exigências e etc e tal.
          Todavia, à medida que se discute a implementação de medidas revela-se aquilo que em Portugal os engenhosos da mentira pretenderam ocultar, usto é, a reestruturação da dívida grega que tinha ficado subjacente no acordo alcançado. É isto que já se discute:
          http://expresso.sapo.pt/economia/2015-10-09-Grecia.-Reestruturacao-da-divida-vai-depender-do-teto-para-o-pagamento-anual

          Sempre afirmei, e mantenho, que o elemento agregador que surgiria num quadro de eleições não ganhas nas urnas pelo PS seria precisamente o PS. É este que é capaz de estabelecer pontes à direita e à esquerda sem fugir à base programática de uma União, um alinhamento à Nato…

          Aliás, o modelo nórdico saído das últimas eleições é exactamente diferente do anterior, com negociações à esquerda, e ninguém se escandaliza.

          Meu caro, os comentadores dizem o que quiserem dizer.

  3. Não sei como foi a vida pessoal e de militante de Costa a não ser nos últimos anos e sobretudo no último ano, mas na verdade ao contrário de Bruto que deu a facada arrastado por outros, o atual secretário geral é líder de traições e de cambalhotas, a forma como derrubou Seguro com o argumento de este apenas ter vitórias escassas e não se demitir com a sua derrota, a forma como está a esfaquear Nóvoa, a forma como esfaqueou o Pasok e depois o Syriza e a forma como a seguir faz exatamente ao contrário do que diz antes mostra bem a cepa do homem.

    1. Sim parece ser um grande político que leu bem o Principe. O que você diz dele é o que caracteriza os grandes estadistas com nome na História. Lá não constam os pobres diabos.

      1. Por ter lido O Príncipe é fácil de ver neles tais tiques de sobrevivência política, o que de facto não é sinónimo de valorizar as tradicionais virtudes de carácter.

        1. Bem pior que o Sócrates. Esse coitado só queria dar o golpe do baú, agora o Costa é bem perigoso. Derrotado e desesperado até com o diabo (comunistas) quer um pacto

  4. Vai-se dizendo lá pela sic que muito por erro de Cavaco é Costa quem está a liderar o processo de formação de um novo governo. Ao contrário penso que Costa de calças rotas se atirou sem bilhete para a boleia de um eléctrico em andamento. De tanto arrastar os pés na calçada já levas os sapatos rotos com os meotes moídos a espreitar envergonhados

  5. “Só se estivesse tudo doido no PS é que os seus militantes alinhariam num disparate semelhante.”

    Mas está tudo doido no PS, muitos dos militantes do PS já não são do PS a começar pelo Pai Soares.
    A Esquerda transformou-se pois os “Idiotas Úteis” ganharam.

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