Atentos que “frustrar as expectativas escatológicas” pode não ser uma alusão à prisão de ventre


Rui Rocha,

Encerramento da discussão da proposta de Orçamento de Estado para 2013. Carlos Abreu Amorim intervém pelo PSD. Arranca destemido. Passa por Marx com apenas uma mão no volante. Saca peão e com os pneus a chiarem cita, e passas a reproduzir por ordem alfabética para não ferir susceptibilidades, Acemoglu & Robinson (estes, note-se, a propósito de obra ainda não publicada entre nós), Arendt, De Soto, Landes (ah pois é), Fuckyouama, ou lá o que é, e Weber. Pensas que é o fim da história. Mas não, ainda há mais. Já sem as mãos no volante e com os quatro piscas ligados, o grande Amorim acelera para concluir afirmando, com todas as letras, que só assim, assim exactamente como ele diz, será possível “frustrar as expectativas escatológicas daqueles que querem que todos percam a esperança”. Embasbacado, soltas um àfodasse, pensando de ti para ti que “frustrar as expectativas escatológicas” é a forma mais elegante que, em toda a tua vida, ouviste usada para designar a prisão de ventre. És, todavia, suficientemente humilde para, vergado pela tua insignificância cultural e ontológica, confirmar no dicionário Priberam se não há ali rabo escondido com gato de fora. E é nesse momento que percebes que não é certo, mas é muito provável, que o grande Amorim estivesse a referir-se não à prisão de ventre, mas ao fim do mundo. Agora, já só te sobra a palidez de um sorriso amarelo, apenas perceptível na comissura dos lábios ainda levemente entreabertos. Era, de facto, demasiado bom para ser verdade. Em todo o caso, se contado não acreditas, podes confirmar tudo isto aqui. Isto e o incrível preço do Dacia Duster.

18 comentários em “Atentos que “frustrar as expectativas escatológicas” pode não ser uma alusão à prisão de ventre”

  1. Há dias, quando escrevi sobre um certo desencanto com a bloga, a minha memória traiu-me quando apontei algumas excepções. É que o Rui é um dos bloggers que mais aprecio. E este post é um monumento e um apontamento humorístico delicioso.

  2. Confesso que embora não concordando com uma gota do dito, sempre é um bálsamo ouvir um discurso bem escrito, supreendentemente bem lido e com alguma erudição, mesmo que “in your face”. Refresca dos zorrinhos da vida. Lembrei-me da orquestra do Titanic.

    1. Concedo. Perdi algum tempo a ouvir diversas intervenções. Uma pobreza franciscana, há que dizê-lo. Se o termo de comparação são os zorrinhos (e, de facto são), custa-me admitir que a intervenção seja um bálsamo, mas posso chegar a considerá-la um razoável calicida.

  3. O Rui Rocha hoje estava, de facto, inspirado. Só espero é que o Amorim não fique zangado, pois tem cara de quem sabe conduzir bem.

  4. Não seria estocástica? É que às vezes confundem escatológico com estocástico.
    Escreve-se Fukuyama. Mas será que ninguém percebeu que o fim da história era um título irónico? O problema do fim da história é marxista (ou de quem veja a história como um processo). Para qualquer conservador a questão não faz muito sentido.
    Mas voltando ao escatológico, pode apenas estar a referir ao intento último, ao que, a final (assim seperado), desejamos para o país. Podia ser isso.
    Tudo dito:
    LIBERDADE PARA MICHEL, que deu a Portugal a 1ª estrela Michelin!

  5. Então tá bem. Escatologicamente falando, o fim do mundo chegou pelas mãos do Amorim. Mas eu pensava que o Messias tinha outro nome.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *