Atentado póstumo a Saramago


Pedro Correia,

 

Fui avisado a tempo, pelo Nuno Pacheco, nas páginas do Público. E digo que fui avisado a tempo porque andava a pensar comprar Claraboia, o romance “desaparecido” de José Saramago, agora lançado pela editorial Caminho. O escritor terminou-o no longínquo dia de 5 de Janeiro de 1953 e durante os 35 anos seguintes não conseguiu editá-lo. Quando lhe foi enfim proposto o lançamento de Claraboia em livro, na sequência de êxitos editoriais como Levantado do Chão, Memorial do Convento e o Ano da Morte de Ricardo Reis, o futuro Nobel da Literatura decidiu que o livro só ficaria acessível aos leitores após a sua morte.

Assim sucedeu. A Caminho lança-o agora, com este solene promessa contida na página 6: “A presente edição reproduz fielmente o original.” Não acreditem: é mentira. Porque a obra que a editora acaba de pôr à venda nas livrarias, esclareceu-me o Nuno Pacheco, não surge escrita em português mas em acordês — um chocante anacronismo, como se o Saramago de 1953 já adivinhasse que no início do século XXI a ortografia seria assassinada pelo professor Malaca Casteleiro e o seu reduzido núcleo de discípulos, com a proverbial bênção do poder político.

Lá surgem palavras malacastelenses como recetividade, perceção, aspeto, espetáculo, atividade, ativo. E nem o título do romance escapa: Claraboia surge sem acento.

“Como é possível assassinar ‘fielmente’ uma escrita sem que ninguém reaja ou, pelo menos, exija que seja retirada do livro a mentira óbvia (ou será ‘óvia’?) resumida na tal frase da página 6?”, interroga-se o director-adjunto do Público. Eu só tenho a agradecer-lhe. Se não fosse este alerta, estaria a premiar o crime de lesa-cultura cometido pela editora, pagando um exemplar do romance póstumo de José Saramago que de todo não me interessa ler em acordês.

Pergunta ainda o Nuno Pacheco se, neste afã de submeter a prosa do Nobel português a tais atentados póstumos, “em futura reedição um título de Saramago como Objecto Quase passará a Objeto Quase“. E pergunta bem.

Simplesmente abjecto. Perdão: abjeto.

51 comentários em “Atentado póstumo a Saramago”

      1. Camões já está! Não conhece a “coleção Klássicos”? Ora veja aqui http://ilcao.cedilha.net/?p=3358
        O que é extraordinário é que, quando houve há uns 20 naos uma tentativa de “reforma” ortográfica em França (quese imeprceptivel, quando comparada com a que o Brasil quer impor aqui), a elite cultural, as instituições culturais ficaram em pé de guerra e houve mesmo a tomada de posição, creio que conjunta, dos ao tempo 5 franceses laureados com o Nobel, para além das grandes editoras, universidades, etc. E aqui é esta triste resignação perante uma campanha publicitária vergonhosa e a mais loropa «mentira de estado». Sei que estamos na cauda da Europa em termos culturais, mas precisávemos de ser tão retrógados e tacanhos? A ideia de «reforma ortográfica» é uma coisa de meados séc. XIX hoje totalmente ultrapassada!

        1. Sou o a. do comentário acima. Peço desculpa pelos lapsos de escrita. Teclado virtual e letra pequena, pressa muita.

          1. Está desculpado, naturalmente. Mas acautele-se com as gralhas: são bem capazes de ir parar de imediato (sem consoantes mudas) ao Dicionário da Academia.

      1. Não dá para compreender uma coisa destas. Saramago não escreveu em ‘acordês’, como lhe chamas. E não está cá para dar o seu parecer. Não sei o que esta gente da Caminho tem na cabeça.

    1. Saramago, ao que creio, não permitia que os seus livros fossem adaptados para brasileiro. Tanto que é assim que a academia brasileira de letras regista no seu dicionário adoptar – que segundo eles, era do português do Brasil… Mas chegou lá pelos livros de Saramago
      É assim que se fortalece a Língua e a Cultura , com bons conteúdos, não com a mutilação do idioma para servir devaneios políticos.

  1. Tristes oções!
    E para quem se ria da perda do “p” em opções, lembre-se que a versão do português que nos querem impor, inventada nos decénio de 1920 no Brasil, foi a responsável por os brasileiros dizerem anistia e indenização, facto único no mundo inteiro!

  2. Não me diga que agora tenho de ler Eça, Camões, Fernão Mendes Pinto e Gil Vicente com a grafia que eles utilizaram, senão cometo uma traição.

  3. não faz qualquer sentido editar esta obra com o novo acordo, por tudo o que já foi dito.

    ainda ontem à noite estive a falar com um amigo sobre uma obra que está “engatada” há mais de dez anos porque quem a quer editar quer alterar o “português” do autor, falecido no principio dos anos oitenta.

    felizmente os familiares preferem que não haja edição a adulterarem as palavras do avô.

    nem toda agente pensa assim, até porque está a chegar o natal, Pedro.

  4. Saramago não escreve palavras…escreve ideias. Sem ser defensor do acordo ortopédico, sempre me questiono acerca de quantos portugueses leram “os Lusíadas”, tal como Camões os escreveu. Ou Eça, que escrevia pharmácia em vez de farmácia. Cá por mim, logo que possa, vou comprar a “clarabóia” com ou sem acento…e vou lê-la.

      1. Provavelmente não procurou ser desagradável com este comentário…o que aliás demonstraria alguma ignorância quanto ao significado da palavra em questão. Se só conhecer o dicionário de calão, sugiro qualquer outro em língua portuguesa (com ou sem acordo).

        1. Agradeço-lhe a sugestão, que rejeito por ser desnecessária. E discordo profundamente de si na tolerância que demonstra em relação a este atentado ‘post mortem’ à obra de Saramago, pouco mais de um ano após o falecimento do escritor. Recordo-lhe que as obras de Saramago sempre circularam no Brasil com a ortografia portuguesa: o nosso Nobel nunca autorizou ‘abrasileirar’ o estilo – e nem por isso deixou de ser várias vezes recordista de vendas naquele país. Lamentavelmente, a editora cede ao acordês, agora que o escritor já não se encontra entre nós, adulterando este romance de forma lamentável.

          1. Pois, Pedro Correia. Admito também que não tenha lido com atenção o meu comentário inicial… De qualquer modo, terminarei desculpando-me por este “delito de opinião”. Cumprimentos.

          2. Não há que (se) desculpar: estamos cá todos para isso – para cometer delitos de opinião.
            Agradeço e retribuo os cumprimentos.

    1. Já dizia o outro (e deixo-lhe o trabalho de descobrir quem, se por acaso não sabe) que o os poemas não se escrevem com boas ideias, mas com palavras.
      Quanto ao Eça, escrevia pharmacia como hoje, se escreve pharmacy ou pharmacie nos países onde há uma poderosa «pharmaceutical science».
      É interessante como a propaganda do «acordo» joga com o gosto saloio pela novidade, «esquecendo-se» que a ortografia do séc. XIX é a mesma do Inglês de hoje, ou do francês de hoje…

      1. Com o devido respeito, caso se trate de uma pessoa, tenho por norma só responder a mensagens assinadas, o que não é o caso.

  5. quando andei no liceu, as “lendas e narrativas” do herculano eram leitura obrigatória. a edição que li estava escrita na ortografia “antiga” e isso causou-me alguma estranheza.
    mas o valor da obra literária não foi afectado por isso.
    afinal não é a ortografia que faz a obra: o seu valor não resulta da impressão visual de cada uma das palavras impressas, no leitor.
    se a obra for lida para um grupo, que diferença fará para quem a ouve, a ortografia utilizada?
    há efectivamente quem leia obras literárias como um professor corrige um teste, e saramago foi um dos exemplos de um autor que foi lido assim.
    por isso, para mim que não sou letrado mas gosto de ler, certamente vou sentir alguma estranheza com a aplicação da nova ortografia, como senti anteriormente com a leitura na então antiga ortografia, mas confesso que não vejo como a sua utilização seja um atentado às obras.

    1. Um romance escrito em 1953 é editado em 2011, um ano após a morte do autor, e apresentado ao público com esta garantia expressa: “A presente edição reproduz fielmente o original.”
      Acontece que esta garantia é falsa: a “presente edição” não reproduz fielmente o original. Você não vê problema nenhum nisto, eu vejo. Para mim é pior do que comprar um iogurte fora de prazo.
      Cada um fala por si: eu não gosto de me sentir intrujado.

  6. Hehe, o título e o conteúdo já me fizeram rir, apesar dos pesares. 🙂 Eu sei que é sério mas há aqui um humor (aliás, em muitos dos textos do Delito)… pessoalmente, não resisto:) Ou serei eu que acho graça onde não deveria achar?:)
    (Acordês? Fantástico. Tá a ver? Ok, espero ser perdoada:))
    De resto, claro que percebo.
    Sou absoluta fã da sua escrita.
    Claro. 😉

  7. Eu detesto J.Saramago,nem sequer o aprecio.. e odiava a pronúncia NÒBÈL… No entanto sou agora solidário como assassinato malacocasteleirense do J S…póstumamente…

  8. Por acaso tinha dado conta desta jabardice quando foi anunciada nos sites (bertrand, mais concretamente – há que denunciar esta corja), a pré-venda. Quando vi a capa e li «Claraboia» pensei «Porra, mas clarabóia não leva acento?» Porque não me passou pela ideia, uma vez que fosse, que fosse possível que as obras do José Saramago começassem a ser publicadas de acordo com essa coisa denominada acordo…

    Este é o efeito pernecioso do acordo idiota: começamos a deixar de saber como se escreve ao certo; consultei mais vezes o meu dicionário nos últimos meses que em todos os 17 anos em que estudei. É lamentável que as editoras – pessoas e instituições – (supostamente agentes culturais) se entreguem (diria mesmo capitulem, não fossem elas cúmplices) como quem vai alegremente entregar-se nas mãos de um carrasco.

    Quanto ao livro não o comprei, e confesso que perdi a vontade no dia em que li o título assim escrito. Felizmente para mim (que gosto das obras do Saramago) tenho a obra (quase) completa.

    Tenho que ir ver de uma edição de Objecto Quase, que li há uns 15 anos na biblioteca da minha escola secundária, e de que nunca cheguei a comprar um exemplar para mim…

    1. Caro André Benjamin, desculpe a pergunta, mas disse na livraria o motivo de não ter comprado? Seria útil que dissesse! “Ah, aquilo está escrito em acordês? Então não compro!” 🙂
      Se lhe responderem que está em português moderno, a gente explica que o português moderno é o português corrente de 2011, e o do «acordo» é o do Brasil de há 80 anos, de um país que nessa altura teria quase 100% de analfabetos (hoje tem 75% – entre o analfabeto clássico e o funcional).

      1. BST, não me dei ao trabalho de ir a nenhuma livraria. Como referi, dei pelo erro quando o livro foi colocado em pré-venda nos sites, em meados de Setembro, se não me engano. Neste caso específico foi no site da Bertrand que vi.
        Contudo é uma boa ideia – não só nas livrarias, mas também por e-mail (ou formulário de contacto) dos sites das mesmas.

  9. Provavelmente serei censurado, o que não me deixará com má imagem do blogue. Pelo menos espero que este comentário sirva para não só o Pedro sentir a minha concordância, como, eventualmente, para sorrir, o que, nestes dias é uma benção.

    “Chulos filhos da puta” tem nova grafia em malacastelense?

    Adeeeus.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *